Cheguei
antes da hora, como faço por ser regra. Recebem-me com um sorriso simpático, um
discurso bonito e uma simpatia que parece escassear. Encaminham-me para a sala
de espera. Nesta unidade de saúde os horários parecem feitos para serem
cumpridos. As marcações servem o propósito. Dou as boas tardes a quem já está
sentado, à espera de ouvir o nome e o sobrenome. Devolvem-me a saudação e acho
interessante. Já sentado, fiz-me esquecido do telemóvel e não lhe peguei uma só
vez. O silêncio é cortado, a espaços, pelas pessoas que vêm chegando e que dão
as boas tardes. Pasmo-me e não devia ser preciso. Ainda se cumprimentam as
pessoas que estão e as que ficam. É tão bom. Volta, sempre a seguir, o silêncio
profundo. Só se ouve o som do ar condicionado, tal a ausência de barulho;
sequer um burburinho. Fisgo o relógio, ainda faltam uns rasos minutos para ser
chamado. Olho à minha volta, tudo de cabeça baixa. A namorar com o telemóvel. Só
se mexem as mãos, até os olhos parecem num mergulho sem regresso. Imitam
bonecos autómatos, quase inconscientes, longe da reflexão das vontades. O pior
é que sou um deles. Não sempre, mas algumas vezes. É fácil afundarmo-nos nesse
despropositado e faminto dissipador de tempo. A ver tudo e coisa nenhuma. Ali,
à disposição, segue o mundo fabricado. Por nós, pelos outros. As frases feitas,
cuja minha tolerância às ditas é nula. O regresso do calor, o primeiro dia de
praia do ano, o primeiro banho de mar, as bebidas coloridas, os corpos
reflectidos num qualquer espelho de um qualquer ginásio. Os pequenos-almoços, o
lanche da manhã, o almoço à hora certa e o fora de horas também. O lanche
número um da tarde e o segundo. O jantar, as entradas e a ceia. O cão, os gatos
e os pombos na cidade. A melhor amiga e o amigo que deixa saudades. Viagens
dentro e fora de portas. O mundo cabe ali. E não lhe negamos atenção. Somos uma
amostra de fabricadores de vidas cortadas. Vivemo-las mais ou menos daquele
jeito, cortámo-las à medida de uma rede social, pregamos-lhe um filtro em cima,
com as definições certas, redigimos uma legenda profundamente anedótica, inundamo-la
de cardinais colados a palavras-chave e finalizamos clicando no ‘publicar’.
Boas leituras e bonitas imagens, é o que desejo.
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17.5.17
15.6.15
Uma mensagem nova no meu telemóvel.
Não
têm um adjectivo, não lhe dão um nome. É uma acção e, inopinadamente, vai
ganhando latitudes várias. É pois, tão fácil ignorá-la. Não lhe dão definição.
Na outra margem, chamou-lhe moda. Não falamos de roupa, de cabides andantes e
de sapatos nas montras. Dos saldos que não interessam a ninguém, tampouco do
casaco de corte mau e das calças sem cintura. Não penso nos ténis, para não me
tentar. A ideia de que um robô é o pináculo da excelência da existência que
todos procuramos, está obsoleta. Mas nela vivemos embrenhados. Abre uma garrafa
de água, verte grande parte para o copo transparente. Nas costas, um ecrã
gigante que reúne informação. Dados e mais dados. Bebe um pouco e volta ao
discurso. Entre as palavras que não perdem com o fôlego, o orador falou na moda
de não pensar. Não fazemos, diz, propositadamente, mas fazemos a favor do jeito
tão displicente como nos demitimos da responsabilidade. Perdoe-me, em sabendo,
o uso das minhas palavras, que em me faltando a memória dos sentidos, me
parecem mais apropriadas. A moda da intuição. Faz sentido, se pensarmos como um
espelho. Funcionas ao contrário, com o intuito automatizado, num escuro que te
limpa a atenção. Até que algo ou alguém te traga de volta. A filosofia já
pensou sobre isto. A sociedade vive com isso. Um mundo inteiro não chega e
enchemo-nos sem pensar. Resta-nos acalmar. Toca o telemóvel, chegou uma
mensagem. Abro o e-mail. É curiosa a confusão. Porque o hábito ganha à acção.
Chego, então, à mensagem e conta-me uma conhecida, que já não vejo há uma série
de tempo, que disse a uma amiga dela para me seguir no Instagram. Estamos nisto. Vivemos ao contrário. Não estamos a ser
jovens, não. Estamos só a ser parvos.
23.9.14
Deliberação na despedida do verão.
Os
jardins improvisados fazem as vontades de quem quer uma festa ao final do dia.
Os jardins de casas que guardam espaço para o convívio, são uma oportunidade de
convergir vontades e necessidades. Os anos que gastaram a arquitectura e a
fachada requintada, agora recuperadas, são um privilégio. Um convite que foge
do papel. Do envelope, não fugiu o jardim. Agora tem cor celeste ao fundo. E
soa do rádio que tem graça, uma voz que fala em paraíso. E amor. Definições dissonantes,
assim alguém as ouse separar. Na língua estrangeira, que sossega os temores
alheios. E acomodamo-nos por ali. Sentados, a conversa não sossega. De pé, os
cumprimentos e os relatos de quem viveu. O tempo passa, mas não apoquenta as
ligações. Mesmo que, irremediavelmente, alguém se perca na ausente mensagem na
rede. Sejam palavras, gostos ou fotografias marcadas. Lixam-se, sem darem por
isso. Para isso, servem os compinchas de sempre. Recusem ligação à corrente.
Logo a seguir, o verde nunca havia ligado tão bem com o azul. A festa
continuou. Agora, gritam do mesmo rádio, que amam os sonhos em maré de
tristeza. Numa tradução tão livre como a das restantes metáforas.
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