Não
venhas tarde, meu bom conviva. Ora, gente afoita e dada à rambóia, façam o
favor de entrar. Na mão, a surpresa da ocasião. Nesta sala por almas
trivialmente apaixonantes composta. Logo adiante, já o tempo se sumiu. Sobre a
mesa já jazem várias garrafas. Por restarem vazias, já lhes perdemos a conta.
Os copos multiplicam-se e com destino. O vinho é senhor, na voz é rei. Podia
rimar, mas fico-me pela conversa. A troca de prosa válida e com substância. A
noite é grande, nada curta. Olhos nos olhos, que dos senhores e da verdade reza
a história. Boa comida para sossegar as ânsias. Estômago compostinho abrevia
caminho. A pitada apimentada, a dona da gargalhada. Hei-de, numa corrida cheia
de paleio, tão breve quanto a minha memória desmembrada, falar sobre a artista
de variedades que encabeçou a arte e monopolizou, para gáudio dos comensais, o
humor da mesa. Guardam-se, algures, fotografias e vídeos. Escondem-se porque a
intimidade tem barreiras. Nunca a força do vinho, sempre as ideias que não nos
largam. Imaginamo-la, baixa e frenética, num palco grande. Cartazes à porta,
anúncios com trejeitos de outros tempos. Ora, tomem atenção, é chegada a hora
da comédia que agrada ao povo. Pois, entre linguagem habilmente prosaica e
gestos esbeltos, vem do coração.
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2.11.15
18.11.14
A ordem como as pessoas e os objectos estão distribuídos.
O
casario corrido deixa margem e desafia a curiosidade de imaginar o que se faz e
como se vive de cada porta para dentro. É uma rua de elegantes entradas. De
nomes que fazem os restaurantes e uma ou outra loja. A esta hora, jamais se
vêem pessoas a procurar sonhos em cada montra decorada. Do contemporâneo ao
barroco ou ao renascimento. Estilos pouco disciplinados no tempo, inverso do
estilo que procura esta rua. As portas coloridas chamam a atenção, nesta rua
não é excepção. Depois de recebidos, nada senão um lanço de escadas de madeira
que responde a cada passada. Descemo-las e logo se fez festa de luz e o bom
gosto de uma sala composta. Mesas baixas, a luz certa, o ambiente definido. A
surpresa de quem gosta de evoluir nas sugestões. É a comida da moda, amor de
exclusividade, recusa de quem não entra na roda. Servem-nos sushi sobre a
tábua. É um jogo de damas, por delas me lembrar quando lhes conheço a
disposição. Ou xadrez, se alguma vez me tivesse feito entendido. Os lugares
definidos, feita a jogatana a que nos havíamos proposto, invertemos o caminho. Sob
a noite iluminada, não me lembrava de outra coisa que não fosse o próximo livro
que vou comprar. A elegância de espírito sobrepor-se-á, por demais e para
sempre, ao delicado saber dispor e compor o lugar.
28.2.14
Vinte e duas horas e vinte e dois minutos.
O
enquadramento é o requinte de saber quem é, de saber quem sou, de saber quem
somos. Querendo, dava destaque à tela cuja pintura inteira vinga em toda a
parede. Mas não consigo. Também, não sou o mais entendido na matéria. Do tecto
caem lustres deslumbrantes. Ainda assim, difíceis de roubar a atenção. Mas
absorvo-me nela. Nos cabelos compridos, à solta, a cobrirem-lhe parte do busto.
O rosto brilhante e maquilhado. As jóias sóbrias e discretas. O olhar que me
cruza. As pernas cruzadas entre a bainha do vestido e os saltos altos. A
postura que, em tudo, converge com o esqueleto do discurso e do pensamento. Estava
a olhá-la e fiquei a pensar no quão me influência os pensamentos e os
sentimentos. Não os baralha. Antes, une-os e excita-os. No melhor do sustento
de ambos. Como me tolda a escrita e protagoniza a raiz de onde me inspiro.
Sempre. Desde que nos deixamos conhecer. Por ela, para ela. Estava a olhá-la e,
por fim, não restaram dúvidas. Faz sentido.
10.2.14
Estórias de amigos. Com E, precisamente.
Para
gáudio dos meus compinchas, proporcionou-se o momento há muito desejado.
Avizinha-se um resto de mês e um princípio de um outro, pejado de jantares,
provas, estreias e convívios. Concentrados, como se o ano tivesse perdido o
querer. Temo que se trate de uma insolvência anunciada. Da minha vida social a
caducar, precisamente. Ou, quem sabe, da despromoção de alguém. Temos casamento
lá para a frente. Vêm aí anúncios ou despedimentos? Não nos lixem. Não há bem
que sempre dure. Mas há tempo e vontade que perdure. Há sempre volta a dar. E
estórias para contar.
2.9.13
Sushi. Assim já gosto.
Começo,
passo-a-passo, a encantar-me por sushi. Tarefa que, há uns tempos, me pareceria
impossível. E aos meus amigos também. Dizem-me e acredito que, comecei mal. No
lugar errado. Comi e não fiquei fã. Repeti o lugar, não fossem as minhas
papilas gustativas estarem melindradas com a estreia. Sem efeito. Comi e,
novamente, não fiquei fã. No desespero de um jantar arranjado à última hora,
convenceram-me a conhecer um novo espaço. Não recusei. E, inexplicavelmente,
gostei. Comi e gostei. De tudo. Do primeiro ao último. Assim, já gosto. Daqui
para a frente, o sushi, agora refeitas as pazes, fará parte do meu menu. Mais
não seja, ali, naquele lugar, onde, pela primeira vez, gostei de sushi. Até lá
voltar.
26.8.13
O melhor do mundo.
Dizem,
desde os primórdios da escrita de Fernando Pessoa e de outros, que o melhor do
mundo, são as crianças. Não tenho dúvidas. E reforço a certeza quando, em
jantares de amigos, são as crianças a atracção principal. São elas que nos
recebem com o melhor sorriso. São, também, elas que nos chamam para brincar.
Com o que a vontade ditar. Há verdades sem refutação.
12.8.13
Jantamos?
Quando
o telefone toca, entre suposições e certezas, nada menos do que isso.
Lançamo-nos na perspectiva do que aquele número, o mensageiro, em primeira
instância, nos vai dizer. Quando nos permitimos ter tempo. Quando não recusamos
esperar, ouvir o som. E que som. Depois, parcas vezes, surpreendem-nos. Atendi.
Vamos jantar?, soava do outro lado.
Sim. Com amigos. Num lugar com uma excelente vista. Mais à frente, já à entrada,
aguardando indicação para seguir para a reservada mesa, surge aquela pessoa.
Três, quatro anos? A memória falha-me. Falha-me sempre, mesmo quando, para mim,
juro guardar. Olho-a. Sorriu-me. Está igual, tenho a certeza, porque disse-me,
taxativamente, o que, instantes antes, a imaginei dizer-me. A seguir, um amigo
comum. Já suspeitava. Aquela rapariga?. Respondi sim, uma amizade antiga.
Contei-lhes a ausência. Vai acontecer-te algo francamente bom, disseram-me. Não
recusei a ideia. Quando uma pessoa com
quem já não falas há muito, te fala, é sorte grande na certa. Ok, fico à
espera. Jantamos. Saímos. A sorte grande, essa, não a vi. Mas o telefone é,
tantas vezes, o princípio. Seja o que isso for.
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