Acabei
por pousar o livro de páginas generosas sobre o que havia de chamar de mesa de
apoio. Estava, há tempo demais, à espera de um dia. De uma pausa conveniente,
de um lugar perfeito. Agora tem um candeeiro aperaltado, de design arranjado, uma vela com a marca
estampada e um arranjo florar todo primaveril, por companhia. Penitencio-me –
menos do que seria necessário – por não devolver a atenção de outros tempos à
leitura. Atropelo-me, à margem de outros termos, na hora de fazer escolhas.
Surgem opções e razões. Entram numa luta inglória. Fico feito coisa nenhuma
perante o resultado. Não sei outro facto senão que sou eu o único e real culpado.
Não ofendi a decoração pensada, mas adulterei a função do livro. Noutro tempo,
ainda pequeno e sagaz, inventava formas de assaltar a estante da casa dos meus
avós maternos. Vi-a imponente, carregada de enfeites. Os livros tinham lugar de
honra, nas prateleiras cimeiras. Depois de várias e vãs tentativas, o sofá de
orelhas pareceu-me a escada necessária. Queria ler e, mais do que isso, queria
conhecer outros e diferentes enredos, outras palavras e autores. Por sabê-los
longe da minha idade, larguei na procura de lá chegar. Tinham um sem fim de
prosa e poesia. Li novelas de autores nacionais e internacionais. Dicionários
de filosofia e botânica. Um livro bem discreto com bonita poesia erótica, cujo
nome da autora ainda hoje não consigo recordar. Certamente, li fora de tempo,
antes de ter o discernimento necessário. Hoje corro sei lá para onde, deixando
ficar partes fundamentais da engrenagem. Falta-me a agudeza de espírito e a
finura do corpo para voltar à fonte do raciocínio.
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18.4.17
5.5.14
Sem alteração inesperada.
Não
é novidade. Acredito nas viagens que fazemos com as marcas da alma, conduzidos
por uma qualquer criatividade quente e palpitante no desejo de nunca escassear e
pelo convite de um indutor simples. Gosto de livros. Gosto bastante de livros.
Gosto, talvez numa luta de proximidade, de ver para lá do instinto. De observar
e olhar o que se faz à minha volta. Aprecio reparar na arquitectura particular,
de tomar atenção nas construções banais ou de ficar a recordar dos prédios em
desfeito abandono. Uma parte dos meus amigos, não negam, gostam de parar para
ver passar. Não sei se é opinião de muitos. Mas, a nós, faz-nos felizes.
Sossegar e relatar, em silêncio, as palavras que criamos em resposta às imagens
sucessivas. Nunca pára. Há de modo infindável, movimento. As pessoas que passam,
a quem lhes desenhamos traços de personalidade. As janelas que escondem vidas.
Tudo. No entanto, volto sempre aos livros. Gabo sempre as bibliotecas. Tenho-me
distanciado, por negligência. Volto às palavras escritas, quietas. Daquelas que
dá para partilhar vezes sem conta. Não ficam, somente, em nós. Devemos sempre
regressar-lhes e partilhar. Uma das imagens que guardo junta o livro, as
pessoas e a pausa para ver. O cenário é limpo. Claro nos tons, requintado na
decoração. Duas poltronas e escolhemos o sofá do lado, que nos recebe bem mais
juntos. Segurando o livro, segredávamos a história. A experiência de partilhar
um livro. Não é novidade que junta pessoas.
19.2.14
Também os temos.
A
banda sonora vale sempre o que vale. O que eu escolheria ouvir em modo repetido
até à agonia, para outros fará parte do top
que compõe a vetada listagem de guilty pleasures.
Vale, a sério que vale, sempre o que vale. Mas, arriscaria escolher um tema
para, uma vez mais e, repetidamente, não parar de tocar, lá ao fundo. Enquanto
os dois, absortos, falávamos de livros. De histórias de amor, de sexo bruto, de
escrita que se suporta em factos históricos. Também nos livros, os guilty pleasures têm espaço. Não estamos
de acordo em tudo. Felizmente. Ela gosta, entre outros estilos, de romances que
aconchegam, por mais que não encerrem nada. Eu prefiro outras leituras.
Concordamos, depois, noutros aspectos. Tão mais relevantes. E são pormenores.
Valem o que lhes quisermos ofertar de valor. Prefiro ouvi-la argumentar. Não
tem valor. Acreditem, não tem.
19.11.13
Os meus livros.
Desconheço,
na verdade mais íntima, os livros que tenho. Não os sei em números. Passam para
lá do óbvio, vão mais longe do que o que existe em diminuta vontade. Das
estantes revestindo as paredes mascaradas de papel de parede ou iludidas de uma
qualquer cor. Estão por aí, grande parte deles. Outros estão tolerando-se uns
sobre os outros. Imagino, fabulando, numa tentativa perdida de tratar o
impossível com domínio, as histórias e as personagens cruzando-se, dando
origem, todas elas, a uma mixórdia de um mundo louco e adulterado pela imbecil
lembrança de os ligar. Pela minha, feliz ou infeliz, ideia de os aglomerar. A
memória não me quebra as recordações, quando assisto, de imediato, à minha
infância recheada de livros. Foi o meu pai quem mos comprou. Quase todos.
Dava-mos de diferentes temas. As capas, mais ou menos, apelativas. Umas duras,
as outras de fortes títulos. Os textos, a cada ano passando, a tomarem temas e
formas de escrita mais entusiasmantes. Sempre os achou relevantes. Muito.
Herdei-lhe, desta forma, a vontade sôfrega de ler. De despender horas a ler,
horas a convencer-me do que relatam escrevendo. O meu pai acredita nisso. Ainda
hoje. Eu também, desde tenra idade. Desde que soube, pela sua mão, o que era um
livro. Desde que percebi que um livro é uma companhia inequívoca. Das que se
passam de pai para filho.
5.11.13
Ser ou não ser.
Fintei
a insónia com um romance histórico de uma conhecida autora nacional. Estou
snobe q.b. Agora, deixem-me ficar as pratas, não me levem os quadros. E, mais
importante, deixem-me os óculos graduados no lugar certo. Não me lixem, os leitores
regulares usam óculos, mais não seja para não cansarem a vista. Ah! Não partam
nada. A minha empregada não tem seguro contra todos os riscos. Cortes.
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