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6.3.17

Compleição com carácter de asserção.

Sob a cacimba, o mar um tanto revolto lá em baixo. O passadiço enorme, transeuntes estrangeiros e esporádicos. Uns caminham para lá, outros vêm para cá. Trajados a rigor, alguns testam as temperaturas. Trazem as máquinas para memorizar, um cajado para apoiar. A terra esculpida sem obras do alheio, na ribanceira desenhado o trajecto. O verde tem viço, típico da natureza que ainda consegue fugir das maleitas. Fora, assim chegados, este o cenário que cruzámos. Demos, então, descanso ao carro. Algumas casas nas costas, poucas. Juntos, é a primeira vez que visitámos o lugar. Noutros tempos, fiz-me audaz e desci, o máximo possível, num caminho inventado. Fomos dois, ambos insanos, característica da idade desmedida. No topo, gritavam os nossos nomes e devolvíamos sorrisos largos. Fomos felizes, no fundo. Literalmente. Agora, regressado e com a melhor das companhias. Deixo-me encantar, só a observar. Não acredito em cenários perfeitos, tampouco em ocasiões obrigatórias. Dispenso o romancear das pausas. Dou preferência ao corpo a reagir. À mente a carburar. Rir, assim como, conversar e o silêncio respeitar, deve ser a maior das bênçãos. Partilhar a intimidade dessas necessidades, é ganhar conforto. Ao invés de certezas, que falecem sempre. Olhar nos olhos é ver para lá do horizonte. Encostados ao carro, depois do passeio, as primeiras pingas da manhã. A razão grita para que fujamos, o instinto pede que fiquemos. Já lá vai tempo suficiente para perder, mas a imagem mantém-se intacta. Ficámos até fugir. Só não largámos as risadas comuns, a prosa demorada e o silêncio estimado.

10.12.14

É natal, senhoras e senhores.

É Dezembro a caminhar. Chega o primeiro do mês e logo de festa se veste. Se vestem. As casas, as ruas e as pessoas. O espírito toldado pela luz da ocasião. Desde sempre, desde que tenho memórias, ainda petiz de vontades travessas, que me lembro de ouvir que este é o mês das festas. Todo um período de trinta e um dias em amena e alusiva festividade. É natal em cada esquina, feliz a época que vive da alegria da criança traquina. Cá em casa, também dessa altura, ficou a tradição de decorar a árvore sempre no mesmo dia de Dezembro. Não foi excepção. Houve, algures, um emaranhado fio luminoso no meu soalho. Um pinheiro e pormenores. Tantos detalhes, quantos a época exige. É natal, senhores. Guardei, numa rede social deste tempo, para mais tarde recordar. Contrario-me em cada gesto, mas é o natal a solicitar. Temos, assim, uma árvore decorada a rigor, pensada ao pormenor. Alguém se ocupou das velas pintalgadas pela divisão, as mantas de decoração. Trocámos o emaranhado luminoso pelos presentes que recebemos e ofertamos com gosto. A mesma escolheu os temas de fundo, a banda sonora que reivindica para o quotidiano da vida. A sala é o ponto privilegiado. Como noutros tempos. Os vidros húmidos, as telas perfeitas. Desenhos da época, as ilusões eleitas. A consoada era o pretexto ideal para um número elevado de companhia. A mesa composta, fiel aos costumes e ao bom gosto. A cozinha num rodopio.  A lareira, lá ao fundo, queimando lenha, o fumo gastando-se lá fora. A família junta, fazendo muitos reunidos. Temos conversas sem fim, damos destaque às histórias contadas e sabidas de cor, tão repetidas se fizeram. É natal, senhores. Inevitavelmente marcam-nos a falta de membros importantes e sem substituição. Uns ausentam-se por agora, outros para sempre. É Dezembro, chega o fim do ano. Repetir-se-á, novamente, no próximo ano. As histórias também. Vozes e presenças falhadas. Que nos faltam. É natal e, aproveitando-o, partilhamos pessoas para sempre ausentes. É natal, estamos presentes.

20.11.14

Relhas recordações.

A lamechice mora aqui, por certo. Mas não deixa de ser um facto que acontece por acaso. Ou surge no descaso de fazer parte de uma outra fase. Minha, figurando em pontuais momentos. A pausa que decorre de uma espera longa, em minha defesa, é um espicaçar das lembranças. Das lamechas também, inevitavelmente. No carro, sob a chuva copiosa, à espera de alguém. Uma cidade que, ainda assim, não tem espaço para sossegar. O chapéu-de-chuva ainda é uma arma. Das mulheres e dos afoitos homens que não se melindram com a insensatez de lhes chamar, aos protectores da chuva, efeminados. E a vida continua. Eles são negros e cinzas, roxos de listas beges ou a imitar a marca afamada que usa e abusa do preto e branco. Encarnados também. Como se lhes escorresse amoras que já foram mordiscadas. Velhos e novos. Alguns minutos e temos tréguas. Agora, a céu aberto, para alguns, a arma serve outro propósito. Uma bengala de ocupação. E eu no carro. Largos e incontáveis minutos. Continuei a observar. Uma mercearia ao fim da rua. Renovada, de ar pensado, de imagem cuidada. Vintage, por estar na moda e por fazer sentido o comércio de proximidade. Pensei, por acreditar. Nisto, da montra escarnecida pelas pingas da chuva, sobressaiu uma imagem que me remeteu para outros tempos. Uma balança, tal e qual como na mercearia do meu lugar. O cinza que brilha com a luz. Os pratos que ladeiam. Enfim, um indutor de recordação. De pensar em rotinas, lugares e, melhor, pessoas. Não é óbvio, mas esta mercearia e, em particular, aquela balança, simpaticamente, fizeram-me pensar no casal C. e C. Casal que admiro, embora, ausentes. Longe da vista. Distantes na necessidade de chegar o fim. O tempo não perdoa. A vida tem lotaria, mas não perde o prémio. Hei-de falar, noutro dia, dos C. Ambos de nomes reinventados. Pela propriedade da minha tenra idade. Por fim, chegou a companhia que esperava. Voltou a  chover. Tão verdade. Seguimos caminho. Agora, a bravura é da chuva, que nos salpica sem molhar.

4.11.14

Vale uma centena.

Era ainda petiz quando ouvi esta conversa. É a certeza de que a cidade te recebe, mas a criação nunca esquece. O possante carro ficou logo ali. Anda à roda num lugarejo de vizinhas curiosas, de jardim à boca da singela capela. Murmúrios de mural em frente ao café das novidades, saudades que atiçam as memórias de amores, relações, traições e tradições. É aldeola de meninas que ainda vestem saias rodadas, que não sustentam da boca para dentro a malvada necessidade de saber e conhecer quem passa. É calçada molhada da humidade da noite fria, é a fonte que seca mais vezes do que os nervos têm ganas de a procurar de garrafão nas mãos. Mas não desiste de pingar. Enquanto se matam lembranças da porta da Maria Etelvina, da mercearia do José Joaquim, da garagem do bonito carro do Cesário. Do coreto inventado nas costas do jardim. Da cantoria da Carmelita. Ora chove, ora faz sol. O vento vai dando tréguas. A idade pesa tanto quanto o estojo do caminho passado. Neste lugarejo que provoca as estruturas de uma cabeça que ainda não esqueceu. Neste cenário, o homem que anda na viva roda, leva um lenço de bolso. Dele, do homem, hei-de voltar a escrever. Dele, do lenço de bolso, hei-de me lembrar de escrever, sobre a estória que conheço e a importância que lhe ofereço.

18.9.14

Em diferido. #18

Serve para ligar um corpo à acção - Mais à frente, o alcatrão típico de uma estrada movimentada, de quem não espera nem sossega. Nem os semáforos, brincalhões das cores a condizer com a bandeira. O axadrezado da calçada desenhada e agastada de cada passada. Assim, debaixo dos seus pés. A rapariga foge com a cara de quem segue na sua frente. Baixa a cabeça e dança de cabelos colados à mesma cabeça irrequieta. Diz que é medo de esperar. Diz que é medo de esperar com a cara levantada. Medo de ver o que não quer. Canta baixinho, como que num aviso prévio. Canto, apenas e só, para mim - havia de pensar aquela cabeça. Virou-se, de costas para a estrada, e de mão a tocar no relógio, disse em voz alta e tremida – Eu não quero esperar. E não sou maluca! – Voltando, logo de seguida, à posição que conhecemos. Depois seguiu caminho, assim o semáforo deu ordem de passagem. Aconteceu mesmo. Não é ficção. Aquela cara diz-me qualquer coisa. Se não é, lembra-me uma miúda de outra altura. Também ela avessa a troca de olhares. A comunicar. Só cantava na igreja, quando todos se calassem. Sempre de costas para os fiéis. Entregue à observância daquela crença religiosa. Do mesmo modo, gritava cá fora, no pátio. E ria alto. E falava, quando a ouviam.

10.9.14

Emmeio.

De sobra, a incompreensão da embaraçada e agitada previsão do cansaço dos fenómenos atmosféricos. Liberta-nos, por seu turno, o plural e bravio pensamento. O imprevisto dança com os compromissos. Joga com a sedução. Combina com a inveja da monotonia. O barulho da chuva, tão compassado. Aquele som, a chuva é uma pintura para os ouvidos. Complementa a vista. O ver-te dançar sob as pingas. Reforça o cheiro. Sentir o teu perfume tão característico. Potencia o toque. A pele molhada ganha outra textura e toque. Convida o instinto. De longe, a timidez. De novo, lembro-me desse convite. Esta cidade, noutros tempos, era a proa de sentimentos. De tanta vida que não tinha fim. Virtude de um boémio que, inelutável, guarda os momentos.

21.7.14

Dialecto temperado e prosa retalhada.

Dizem-nos, a conjuntura social e os clichés, que já não se escrevem cartas, seja por que motivo for. Guardou-se, algures, o hábito de escrever em papel, de caneta em punho, as palavras que, verdadeiras ou não, passavam mensagens. Impediam, porventura, que se deixasse para depois. Fazendo a ressalva, claro, do período entre o envio e a recepção. Enfim, questões sociais à parte, aproveito o escrito fechado e a data de hoje, tão importante, para deixar correr prosa. O léxico, daqui em diante, pode confundir-se e parecer vulgar, mas é sentido e ajeitado pela vasta gama de sensações. Longe vai o tempo em que nos conhecemos. Lamento, sempre, o facto de a minha memória ser afoita e, por isso, fugir-me amiúde. Não encontro precisão em tudo o que ficou para trás. As datas preferem oferecer-lhe companhia, à memória, e, assim sendo, deixam-me longe de chegar às ocasiões. Algumas, por certo. Gabo-te, inevitavelmente, o teu jeito seguro de opinar sobre tudo, de arriscar numa vida diferente, de seguir por caminhos distantes do óbvio. Gabo-te, igualmente, o sentido de humor timbrado e apurado, a ousadia que imprimes na série de palavras que deixas fugir faladas. São características que imortalizam a imagem que todos, sem excepção, guardam de ti. São pedaços do que, enfim, todos encontram em ti. Tens essa particularidade, um tanto extravagante, que fortalece os laços. Acho graça. Fica-te tão bem, que ficarias a perder se os deixasses, sossegados, no lugar devido. Seja qual for o valor que somemos, importa o vagar como voltas e conduzes a tua vida. Este jogo é, como sabemos, uma sombra disso. Não te canso mais com o meu discurso dotado de sensibilidade, nem desgasto as tuas dioptrias. Até já!

4.7.14

Serve para ligar um corpo à acção.

Mais à frente, o alcatrão típico de uma estrada movimentada, de quem não espera nem sossega. Nem os semáforos, brincalhões das cores a condizer com a bandeira. O axadrezado da calçada desenhada e agastada de cada passada. Assim, debaixo dos seus pés. A rapariga foge com a cara de quem segue na sua frente. Baixa a cabeça e dança de cabelos colados à mesma cabeça irrequieta. Diz que é medo de esperar. Diz que é medo de esperar com a cara levantada. Medo de ver o que não quer. Canta baixinho, como que num aviso prévio. Canto, apenas e só, para mim - havia de pensar aquela cabeça. Virou-se, de costas para a estrada, e de mão a tocar no relógio, disse em voz alta e tremida – Eu não quero esperar. E não sou maluca! – Voltando, logo de seguida, à posição que conhecemos. Depois seguiu caminho, assim o semáforo deu ordem de passagem. Aconteceu mesmo. Não é ficção. Aquela cara diz-me qualquer coisa. Se não é, lembra-me uma miúda de outra altura. Também ela avessa a troca de olhares. A comunicar. Só cantava na igreja, quando todos se calassem. Sempre de costas para os fiéis. Entregue à observância daquela crença religiosa. Do mesmo modo, gritava cá fora, no pátio. E ria alto. E falava, quando a ouviam.

3.6.14

Perdeu o chão.

Desceu do lugar do pendura. Bateu com a porta do carro, meio desavisada, um pouco incomodada, sem mostrar a razão. Fiquei à espera. Seguiu, bateu o portão. Passou a porta de entrada. Bateu-a, também. Parou no hall, lembrou-se que vinha da discoteca que não visitava há algum tempo. Daquela que toda a gente fala e que, explorada muitas vezes, perde a graça e deixa-nos extenuados. Depressa se esqueceu. E voltou a cismar com a razão do arrufo. Guardou-o para si. Aventurou-se nas escadas, para seguir para o andar superior. Envolvida com as mais recentes novidades que nele seguiam sucessivas, perdeu o chão. E o telemóvel. Caíram. Ambos. Relatou-me no dia seguinte, quando me contava que estava sem telemóvel. A imaturidade é lixada. São memórias. E já lá vai o tempo. Nunca me contou a razão. Nem sei por que razão me lembro disto agora. Já não pisamos o mesmo chão. Vou deixar de ouvir, aleatoriamente, músicas guardadas no tempo.

28.5.14

O meu amigo C.

Ontem, já o dia ia longe, o escuro avisava a distância, lembrei-me do meu amigo C. Nem sei bem porquê, não encontro justificação, porque pensar em alguém não tem razão, senão quando fora induzido. Porventura, porque não lhe ouço as estórias há uns meses valentes. Mas rebentou-me nas lembranças, primeiro a sua imagem, depois o seu movimento frenético, por fim, o seu nome e os discursos sem fim. O meu amigo C. tem sete anos. Sete anos de uma desenvoltura de raciocínio bastante pertinente. Conheço o pai, fui colega de escola dos tios, um sem número de anos. Um lugar, a dada altura, convidou-nos à convivência. Umas vezes seguida, outras tantas compassada. Não consigo, porque me falha a memória, perceber como nos aproximámos. Talvez, pela mão da minha irmã mais velha, rainha entre os miúdos. Desenvolveu-se uma narração feliz de amizade. É um conversador nato, não guarda a opinião nem as questões que lhe assaltam a cada momento. Não tem a maior simpatia pela dinâmica da escola, prefere o desporto escolar. Ainda assim, arrisca os números. Distancia-se das letras. Aprendeu cedo a contar. O raciocínio imediato é-lhe característico, não posso deixar de repetir. Os jogos inventados conforme as suas valências, fá-los acontecer, se preciso, ao redor de uma mesa. Pede a novos e velhos que entrem na brincadeira. É guarda-redes num clube da zona. Relata-me cada jogo com entusiasmo. Não esquece os detalhes, usando da expressão corporal, em precisando, para ilustrar a jogada. Também falha, diz-me ele. Deixa entrar golos. Às vezes, perdem. Mas volta sempre, treina ainda mais. Usa óculos. Tem dificuldade, como é apanágio da idade, em manter-se sossegado. De quando em vez, pede-me o telemóvel para jogar. Quer entrar numa corrida de pontos. É um fã maior do Benfica. Assiste aos jogos, quantas vezes, no estádio. Onde grita e canta em voz esforçada cada cantiga de homenagem. A última vez que nos cruzamos, vinha a fugir, tomando a rua, o pai ao lado. Reparando que eu estava no lugar do costume, parou, entre a porta, gritou o meu nome e perguntou se eu estava bom. Gritei-lhe, de volta, o nome. Está tudo certo. É o meu amigo C., de sete anos. Porque, desde sempre, sei que os amigos não têm idade.

27.5.14

Perdoem-me a excessiva referência à pão de forma, mas faz-me todo o sentido.

Quando petiz, um tanto antes da adolescência e durante a mesma, ainda os tempos nos pareciam eternos e, embora, fossemos rapaziada consciente, a nossa inexperiência convidava-nos à perpetuação de uma ideia materializada de um sonho típico, onde nada ousaria, sequer, beliscar as nossas vontades, ideologias e acções. Contentávamos conversa com a certeza de que havíamos, mais adiante, de ter uma pão de forma. Não importava a cor, a quilometragem. Chegava-nos o acontecimento de ganhar a maioridade, de passar a tangente. De ter, de facto, os tão afamados dezoito anos. Acontecer-nos-ia a fortuna de correr mundo. De conhecer pessoas, espaços e arquitecturas, convicções religiosas, terra sem fim, línguas e linguagens de outros. Sem provas, mas convictos, seria uma viagem sem data nem fim. Onde, à vez, um de nós abriria caminho ao volante. Voltados estes anos, que já passaram a perna aos dezoito, não tivemos uma pão de forma, nem viajamos como desenhamos. Mas faz memória eterna. No domingo passado, falava com uma das sonhadoras desta viagem, não falámos da pão de forma, mas repetimos a idade que temos e da necessidade de ter juízo, como se fosse, uma vez mais, por metas. Aos dezoito anos a pão de forma, agora o juízo. E respondi-lhe que há coisas que não mudam. Seja qual for a idade que nos pesa. Nem tivemos a pão de forma na idade que sonhamos, nem alteramos a faculdade do discernimento quando nos dizem que tem que ser. Imagine-se, deixar de sonhar, apenas e só, porque nos falhou aos dezoito anos.

9.5.14

Chama-se Margarida e recusa roubar a identidade ao tom, negando chamar-lhe de encarnado.

A Margarida é a memória e as lembranças de infância. De uma infância feliz e fornecida de tudo o que nos balizava a felicidade, daquela época em que por mais que a cronologia nos falhe, não perdemos a identidade de outros tempos. Ela é a descoberta da capacidade de gerir, ainda que não se aperceba, a educação centrada e espartilhada de uma família típica daquela região, com a azougada necessidade de se imiscuir com o restante. É tímida e intrometida em simultâneo. Fala de jeito suave, mas ri com sede. Escolheu que as amizades não têm nivelamento. Escolheu, ainda no tempo em que não se media, não ludibriar factos. Senta-se com quem for. Conversa com quem lhe oferecer palavra. Temos, precisamente, a mesma idade. Crescemos desde lá atrás. Desde a altura em que as varandas do andar superior das nossas casas se olhavam de frente. Hoje em dia pousa para as câmaras fotográficas. De pernas esguias e compridas, o décor a rigor, a ventoinha sem parar, o cabelo de um tom castanho mel a esvoaçar. O vestido da cor que não gosta, mesmo que lhe chame vermelho ao invés do encarnado de outras lides. Os saltos altos de uma marca de influente atracção. A pose intuitiva. Os flashes na frente. O rosto maquilhado e luminoso. Neste instante é tão real como quando despe o vermelho, abandona os saltos altos, lhe desligam a ventoinha e despede-se da objectiva. Porque, acredite-se ou não, há sempre quem não recue no momento de fazer a diferença. Boa sorte!