Sob
a cacimba, o mar um tanto revolto lá em baixo. O passadiço enorme, transeuntes
estrangeiros e esporádicos. Uns caminham para lá, outros vêm para cá. Trajados
a rigor, alguns testam as temperaturas. Trazem as máquinas para memorizar, um
cajado para apoiar. A terra esculpida sem obras do alheio, na ribanceira
desenhado o trajecto. O verde tem viço, típico da natureza que ainda consegue
fugir das maleitas. Fora, assim chegados, este o cenário que cruzámos. Demos,
então, descanso ao carro. Algumas casas nas costas, poucas. Juntos, é a
primeira vez que visitámos o lugar. Noutros tempos, fiz-me audaz e desci, o
máximo possível, num caminho inventado. Fomos dois, ambos insanos,
característica da idade desmedida. No topo, gritavam os nossos nomes e devolvíamos
sorrisos largos. Fomos felizes, no fundo. Literalmente. Agora, regressado e com
a melhor das companhias. Deixo-me encantar, só a observar. Não acredito em
cenários perfeitos, tampouco em ocasiões obrigatórias. Dispenso o romancear das
pausas. Dou preferência ao corpo a reagir. À mente a carburar. Rir, assim como,
conversar e o silêncio respeitar, deve ser a maior das bênçãos. Partilhar a
intimidade dessas necessidades, é ganhar conforto. Ao invés de certezas, que
falecem sempre. Olhar nos olhos é ver para lá do horizonte. Encostados ao
carro, depois do passeio, as primeiras pingas da manhã. A razão grita para que
fujamos, o instinto pede que fiquemos. Já lá vai tempo suficiente para perder,
mas a imagem mantém-se intacta. Ficámos até fugir. Só não largámos as risadas
comuns, a prosa demorada e o silêncio estimado.
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6.3.17
10.12.14
É natal, senhoras e senhores.
É
Dezembro a caminhar. Chega o primeiro do mês e logo de festa se veste. Se
vestem. As casas, as ruas e as pessoas. O espírito toldado pela luz da ocasião.
Desde sempre, desde que tenho memórias, ainda petiz de vontades travessas, que
me lembro de ouvir que este é o mês das festas. Todo um período de trinta e um
dias em amena e alusiva festividade. É natal em cada esquina, feliz a época que
vive da alegria da criança traquina. Cá em casa, também dessa altura, ficou a
tradição de decorar a árvore sempre no mesmo dia de Dezembro. Não foi excepção.
Houve, algures, um emaranhado fio luminoso no meu soalho. Um pinheiro e
pormenores. Tantos detalhes, quantos a época exige. É natal, senhores. Guardei, numa rede
social deste tempo, para mais tarde recordar. Contrario-me em cada gesto, mas é
o natal a solicitar. Temos, assim, uma árvore decorada a rigor, pensada ao
pormenor. Alguém se ocupou das velas pintalgadas pela divisão, as mantas de
decoração. Trocámos o emaranhado luminoso pelos presentes que recebemos e ofertamos com
gosto. A mesma escolheu os temas de fundo, a banda sonora que reivindica para o
quotidiano da vida. A sala é o ponto privilegiado. Como noutros tempos. Os vidros
húmidos, as telas perfeitas. Desenhos da época, as ilusões eleitas. A consoada era
o pretexto ideal para um número elevado de companhia. A mesa composta, fiel aos
costumes e ao bom gosto. A cozinha num rodopio. A lareira, lá ao fundo, queimando lenha, o
fumo gastando-se lá fora. A família junta, fazendo muitos reunidos. Temos
conversas sem fim, damos destaque às histórias contadas e sabidas de cor, tão
repetidas se fizeram. É natal, senhores. Inevitavelmente marcam-nos a falta de membros
importantes e sem substituição. Uns ausentam-se por agora, outros para sempre.
É Dezembro, chega o fim do ano. Repetir-se-á, novamente, no próximo ano. As
histórias também. Vozes e presenças falhadas. Que nos faltam. É natal e,
aproveitando-o, partilhamos pessoas para sempre ausentes. É natal, estamos
presentes.
20.11.14
Relhas recordações.
A
lamechice mora aqui, por certo. Mas não deixa de ser um facto que acontece por
acaso. Ou surge no descaso de fazer parte de uma outra fase. Minha, figurando
em pontuais momentos. A pausa que decorre de uma espera longa, em minha defesa,
é um espicaçar das lembranças. Das lamechas também, inevitavelmente. No carro,
sob a chuva copiosa, à espera de alguém. Uma cidade que, ainda assim, não tem
espaço para sossegar. O chapéu-de-chuva ainda é uma arma. Das mulheres e dos
afoitos homens que não se melindram com a insensatez de lhes chamar, aos protectores
da chuva, efeminados. E a vida continua. Eles são negros e cinzas, roxos de
listas beges ou a imitar a marca afamada que usa e abusa do preto e branco.
Encarnados também. Como se lhes escorresse amoras que já foram mordiscadas.
Velhos e novos. Alguns minutos e temos tréguas. Agora, a céu aberto, para
alguns, a arma serve outro propósito. Uma bengala de ocupação. E eu no carro.
Largos e incontáveis minutos. Continuei a observar. Uma mercearia ao fim da rua.
Renovada, de ar pensado, de imagem cuidada. Vintage,
por estar na moda e por fazer sentido o comércio de proximidade. Pensei, por
acreditar. Nisto, da montra escarnecida pelas pingas da chuva, sobressaiu uma
imagem que me remeteu para outros tempos. Uma balança, tal e qual como na
mercearia do meu lugar. O cinza que brilha com a luz. Os pratos que ladeiam.
Enfim, um indutor de recordação. De pensar em rotinas, lugares e, melhor,
pessoas. Não é óbvio, mas esta mercearia e, em particular, aquela balança,
simpaticamente, fizeram-me pensar no casal C. e C. Casal que admiro, embora,
ausentes. Longe da vista. Distantes na necessidade de chegar o fim. O tempo não
perdoa. A vida tem lotaria, mas não perde o prémio. Hei-de falar, noutro dia, dos
C. Ambos de nomes reinventados. Pela propriedade da minha tenra idade. Por fim,
chegou a companhia que esperava. Voltou a
chover. Tão verdade. Seguimos caminho. Agora, a bravura é da chuva, que
nos salpica sem molhar.
4.11.14
Vale uma centena.
Era
ainda petiz quando ouvi esta conversa. É a certeza de que a cidade te recebe,
mas a criação nunca esquece. O possante carro ficou logo ali. Anda à roda num
lugarejo de vizinhas curiosas, de jardim à boca da singela capela. Murmúrios de
mural em frente ao café das novidades, saudades que atiçam as memórias de
amores, relações, traições e tradições. É aldeola de meninas que ainda vestem
saias rodadas, que não sustentam da boca para dentro a malvada necessidade de
saber e conhecer quem passa. É calçada molhada da humidade da noite fria, é a
fonte que seca mais vezes do que os nervos têm ganas de a procurar de garrafão
nas mãos. Mas não desiste de pingar. Enquanto se matam lembranças da porta da
Maria Etelvina, da mercearia do José Joaquim, da garagem do bonito carro do
Cesário. Do coreto inventado nas costas do jardim. Da cantoria da Carmelita.
Ora chove, ora faz sol. O vento vai dando tréguas. A idade pesa tanto quanto o
estojo do caminho passado. Neste lugarejo que provoca as estruturas de uma
cabeça que ainda não esqueceu. Neste cenário, o homem que anda na viva roda,
leva um lenço de bolso. Dele, do homem, hei-de voltar a escrever. Dele, do
lenço de bolso, hei-de me lembrar de escrever, sobre a estória que conheço e a
importância que lhe ofereço.
18.9.14
Em diferido. #18
Serve
para ligar um corpo à acção - Mais à frente, o alcatrão típico de uma estrada
movimentada, de quem não espera nem sossega. Nem os semáforos, brincalhões das
cores a condizer com a bandeira. O axadrezado da calçada desenhada e agastada
de cada passada. Assim, debaixo dos seus pés. A rapariga foge com a cara de
quem segue na sua frente. Baixa a cabeça e dança de cabelos colados à mesma
cabeça irrequieta. Diz que é medo de esperar. Diz que é medo de esperar com a
cara levantada. Medo de ver o que não quer. Canta baixinho, como que num aviso
prévio. Canto, apenas e só, para mim
- havia de pensar aquela cabeça. Virou-se, de costas para a estrada, e de mão a
tocar no relógio, disse em voz alta e tremida – Eu não quero esperar. E não sou maluca! – Voltando, logo de
seguida, à posição que conhecemos. Depois seguiu caminho, assim o semáforo deu
ordem de passagem. Aconteceu mesmo. Não é ficção. Aquela cara diz-me qualquer
coisa. Se não é, lembra-me uma miúda de outra altura. Também ela avessa a troca
de olhares. A comunicar. Só cantava na igreja, quando todos se calassem. Sempre
de costas para os fiéis. Entregue à observância daquela crença religiosa. Do
mesmo modo, gritava cá fora, no pátio. E ria alto. E falava, quando a ouviam.
10.9.14
Emmeio.
De
sobra, a incompreensão da embaraçada e agitada previsão do cansaço dos
fenómenos atmosféricos. Liberta-nos, por seu turno, o plural e bravio
pensamento. O imprevisto dança com os compromissos. Joga com a sedução. Combina
com a inveja da monotonia. O barulho da chuva, tão compassado. Aquele som, a
chuva é uma pintura para os ouvidos. Complementa a vista. O ver-te dançar sob
as pingas. Reforça o cheiro. Sentir o teu perfume tão característico. Potencia
o toque. A pele molhada ganha outra textura e toque. Convida o instinto. De
longe, a timidez. De novo, lembro-me desse convite. Esta cidade, noutros
tempos, era a proa de sentimentos. De tanta vida que não tinha fim. Virtude de
um boémio que, inelutável, guarda os momentos.
21.7.14
Dialecto temperado e prosa retalhada.
Dizem-nos,
a conjuntura social e os clichés, que já não se escrevem cartas, seja por que
motivo for. Guardou-se, algures, o hábito de escrever em papel, de caneta em
punho, as palavras que, verdadeiras ou não, passavam mensagens. Impediam, porventura,
que se deixasse para depois. Fazendo a ressalva, claro, do período entre o
envio e a recepção. Enfim, questões sociais à parte, aproveito o escrito
fechado e a data de hoje, tão importante, para deixar correr prosa. O léxico,
daqui em diante, pode confundir-se e parecer vulgar, mas é sentido e ajeitado
pela vasta gama de sensações. Longe vai o tempo em que nos conhecemos. Lamento,
sempre, o facto de a minha memória ser afoita e, por isso, fugir-me amiúde. Não
encontro precisão em tudo o que ficou para trás. As datas preferem oferecer-lhe
companhia, à memória, e, assim sendo, deixam-me longe de chegar às ocasiões.
Algumas, por certo. Gabo-te, inevitavelmente, o teu jeito seguro de opinar
sobre tudo, de arriscar numa vida diferente, de seguir por caminhos distantes
do óbvio. Gabo-te, igualmente, o sentido de humor timbrado e apurado, a ousadia
que imprimes na série de palavras que deixas fugir faladas. São características
que imortalizam a imagem que todos, sem excepção, guardam de ti. São pedaços do
que, enfim, todos encontram em ti. Tens essa particularidade, um tanto extravagante,
que fortalece os laços. Acho graça. Fica-te tão bem, que ficarias a perder se
os deixasses, sossegados, no lugar devido. Seja qual for o valor que somemos,
importa o vagar como voltas e conduzes a tua vida. Este jogo é, como sabemos,
uma sombra disso. Não te canso mais com o meu discurso dotado de sensibilidade,
nem desgasto as tuas dioptrias. Até já!
4.7.14
Serve para ligar um corpo à acção.
Mais
à frente, o alcatrão típico de uma estrada movimentada, de quem não espera nem
sossega. Nem os semáforos, brincalhões das cores a condizer com a bandeira. O
axadrezado da calçada desenhada e agastada de cada passada. Assim, debaixo dos
seus pés. A rapariga foge com a cara de quem segue na sua frente. Baixa a
cabeça e dança de cabelos colados à mesma cabeça irrequieta. Diz que é medo de
esperar. Diz que é medo de esperar com a cara levantada. Medo de ver o que não
quer. Canta baixinho, como que num aviso prévio. Canto, apenas e só, para mim - havia de pensar aquela cabeça.
Virou-se, de costas para a estrada, e de mão a tocar no relógio, disse em voz
alta e tremida – Eu não quero esperar. E
não sou maluca! – Voltando, logo de seguida, à posição que conhecemos.
Depois seguiu caminho, assim o semáforo deu ordem de passagem. Aconteceu mesmo.
Não é ficção. Aquela cara diz-me qualquer coisa. Se não é, lembra-me uma miúda
de outra altura. Também ela avessa a troca de olhares. A comunicar. Só cantava
na igreja, quando todos se calassem. Sempre de costas para os fiéis. Entregue à
observância daquela crença religiosa. Do mesmo modo, gritava cá fora, no pátio.
E ria alto. E falava, quando a ouviam.
3.6.14
Perdeu o chão.
Desceu
do lugar do pendura. Bateu com a porta do carro, meio desavisada, um pouco
incomodada, sem mostrar a razão. Fiquei à espera. Seguiu, bateu o portão.
Passou a porta de entrada. Bateu-a, também. Parou no hall, lembrou-se que vinha da discoteca que não visitava há algum
tempo. Daquela que toda a gente fala e que, explorada muitas vezes, perde a
graça e deixa-nos extenuados. Depressa se esqueceu. E voltou a cismar com a
razão do arrufo. Guardou-o para si. Aventurou-se nas escadas, para seguir para
o andar superior. Envolvida com as mais recentes novidades que nele seguiam
sucessivas, perdeu o chão. E o telemóvel. Caíram. Ambos. Relatou-me no dia
seguinte, quando me contava que estava sem telemóvel. A imaturidade é lixada. São
memórias. E já lá vai o tempo. Nunca me contou a razão. Nem sei por que razão me
lembro disto agora. Já não pisamos o mesmo chão. Vou deixar de ouvir,
aleatoriamente, músicas guardadas no tempo.
28.5.14
O meu amigo C.
Ontem,
já o dia ia longe, o escuro avisava a distância, lembrei-me do meu amigo C. Nem
sei bem porquê, não encontro justificação, porque pensar em alguém não tem
razão, senão quando fora induzido. Porventura, porque não lhe ouço as estórias
há uns meses valentes. Mas rebentou-me nas lembranças, primeiro a sua imagem,
depois o seu movimento frenético, por fim, o seu nome e os discursos sem fim. O
meu amigo C. tem sete anos. Sete anos de uma desenvoltura de raciocínio
bastante pertinente. Conheço o pai, fui colega de escola dos tios, um sem
número de anos. Um lugar, a dada altura, convidou-nos à convivência. Umas vezes
seguida, outras tantas compassada. Não consigo, porque me falha a memória, perceber
como nos aproximámos. Talvez, pela mão da minha irmã mais velha, rainha entre
os miúdos. Desenvolveu-se uma narração feliz de amizade. É um conversador nato,
não guarda a opinião nem as questões que lhe assaltam a cada momento. Não tem a
maior simpatia pela dinâmica da escola, prefere o desporto escolar. Ainda
assim, arrisca os números. Distancia-se das letras. Aprendeu cedo a contar. O
raciocínio imediato é-lhe característico, não posso deixar de repetir. Os jogos
inventados conforme as suas valências, fá-los acontecer, se preciso, ao redor de
uma mesa. Pede a novos e velhos que entrem na brincadeira. É guarda-redes num
clube da zona. Relata-me cada jogo com entusiasmo. Não esquece os detalhes,
usando da expressão corporal, em precisando, para ilustrar a jogada. Também
falha, diz-me ele. Deixa entrar golos. Às vezes, perdem. Mas volta sempre,
treina ainda mais. Usa óculos. Tem dificuldade, como é apanágio da idade, em
manter-se sossegado. De quando em vez, pede-me o telemóvel para jogar. Quer
entrar numa corrida de pontos. É um fã maior do Benfica. Assiste aos jogos,
quantas vezes, no estádio. Onde grita e canta em voz esforçada cada cantiga de
homenagem. A última vez que nos cruzamos, vinha a fugir, tomando a rua, o pai
ao lado. Reparando que eu estava no lugar do costume, parou, entre a porta,
gritou o meu nome e perguntou se eu estava bom. Gritei-lhe, de volta, o nome.
Está tudo certo. É o meu amigo C., de sete anos. Porque, desde sempre, sei que
os amigos não têm idade.
27.5.14
Perdoem-me a excessiva referência à pão de forma, mas faz-me todo o sentido.
Quando
petiz, um tanto antes da adolescência e durante a mesma, ainda os tempos nos
pareciam eternos e, embora, fossemos rapaziada consciente, a nossa inexperiência
convidava-nos à perpetuação de uma ideia materializada de um sonho típico, onde
nada ousaria, sequer, beliscar as nossas vontades, ideologias e acções.
Contentávamos conversa com a certeza de que havíamos, mais adiante, de ter uma
pão de forma. Não importava a cor, a quilometragem. Chegava-nos o acontecimento
de ganhar a maioridade, de passar a tangente. De ter, de facto, os tão afamados
dezoito anos. Acontecer-nos-ia a fortuna de correr mundo. De conhecer pessoas,
espaços e arquitecturas, convicções religiosas, terra sem fim, línguas e
linguagens de outros. Sem provas, mas convictos, seria uma viagem sem data nem
fim. Onde, à vez, um de nós abriria caminho ao volante. Voltados estes anos,
que já passaram a perna aos dezoito, não tivemos uma pão de forma, nem viajamos
como desenhamos. Mas faz memória eterna. No domingo passado, falava com uma das
sonhadoras desta viagem, não falámos da pão de forma, mas repetimos a idade que
temos e da necessidade de ter juízo, como se fosse, uma vez mais, por metas.
Aos dezoito anos a pão de forma, agora o juízo. E respondi-lhe que há coisas
que não mudam. Seja qual for a idade que nos pesa. Nem tivemos a pão de forma
na idade que sonhamos, nem alteramos a faculdade do discernimento quando nos
dizem que tem que ser. Imagine-se, deixar de sonhar, apenas e só, porque nos
falhou aos dezoito anos.
9.5.14
Chama-se Margarida e recusa roubar a identidade ao tom, negando chamar-lhe de encarnado.
A
Margarida é a memória e as lembranças de infância. De uma infância feliz e fornecida
de tudo o que nos balizava a felicidade, daquela época em que por mais que a
cronologia nos falhe, não perdemos a identidade de outros tempos. Ela é a
descoberta da capacidade de gerir, ainda que não se aperceba, a educação
centrada e espartilhada de uma família típica daquela região, com a azougada
necessidade de se imiscuir com o restante. É tímida e intrometida em
simultâneo. Fala de jeito suave, mas ri com sede. Escolheu que as amizades não
têm nivelamento. Escolheu, ainda no tempo em que não se media, não ludibriar
factos. Senta-se com quem for. Conversa com quem lhe oferecer palavra. Temos,
precisamente, a mesma idade. Crescemos desde lá atrás. Desde a altura em que as
varandas do andar superior das nossas casas se olhavam de frente. Hoje em dia
pousa para as câmaras fotográficas. De pernas esguias e compridas, o décor a
rigor, a ventoinha sem parar, o cabelo de um tom castanho mel a esvoaçar. O
vestido da cor que não gosta, mesmo que lhe chame vermelho ao invés do
encarnado de outras lides. Os saltos altos de uma marca de influente atracção.
A pose intuitiva. Os flashes na frente. O rosto maquilhado e luminoso. Neste
instante é tão real como quando despe o vermelho, abandona os saltos altos, lhe
desligam a ventoinha e despede-se da objectiva. Porque, acredite-se ou não, há
sempre quem não recue no momento de fazer a diferença. Boa sorte!
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