Não
me incomoda. Nem um pouco. Que as ruas se vistam do que os transeuntes lhes
queiram adornar. A servir propósitos vários. Os que me fazem sentido e os
outros. Cartazes largos e letras garrafais. Frases que ganham terreno no ouvido.
Braços levados ao ar. Mãos feitas em punho ou pensadas como finas penas.
Corredores de gente. Vozes sintonizadas. Uníssonos variados. Faixas largas e
letras encarnadas. A cor da pele num convívio que havia de ser replicado. A
convicção a juntar e a servir a comunhão. A pensar a sociedade e a levá-la à
evolução. A firmeza nos passos. A certeza de que agir é, sem sombra de dúvidas,
melhor do que fingir. Tudo isto, claro, encabeçado pela cidadania consciente.
Usar as ruas, sem recorrer a artifícios, para marcar uma posição. Não me incomoda.
Só me castigo por não me ver envolvido numa ou noutra cuja causa apoiei com
firmeza. E volto a teimar com a mesma certeza. Hei-de fazer tombar o rosto de
um ou outro familiar. Com esses desisti, algures, de fazer da prosa uma demora.
Demarco-me da opinião e travo antes de o baralho desmoronar. Contudo, vezes há
em que me esqueço e entro numa guerreia oral – com as devias cordialidades -
que não tem montante nem jusante. Incorro num esboço da minha fácies, mais
fechada e assumidamente zangada, quando a intolerância chega de tipos – homens e
mulheres – com idade para saber distinguir. Pessoas com a minha idade ou menos,
donos de um ruído interno que lhes consome o discernimento. E,
consequentemente, que mutilam a realidade do outro. Lamento a política perdida.
E as mentes cujos donos parecem acéfalos. Não me incomoda, senão a volatilidade
de uns e a carência emocional de outros. À rua o que é do povo.
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2.5.17
26.4.17
Efemérides e outras liberdades.
Parece
que não lhe pesa a idade e isso, para além de especial, é um tremendo conforto
e uma dádiva que não consigo imaginar. Não sou capaz de pensar no meu corpo
envolvido por essa pele. É esta um tanto da imagem da minha avó materna, ainda
hoje matriarca da minha família. O pêndulo que não dispensamos, a imagem que
não desvalorizamos, a presença que não descuramos. A minha avó é forte no
trato, bem como, na rigidez com que leva a postura. Desmonta-se noutros
afectos. Na facilidade com que encara o outro e as suas diferenças. Admiro-a
por tanto, um pouco mais por isso. Porque a idade nunca lhe roubou a sabedoria
de entender. De conhecer e aprender. De encarar e aceitar. De sossegar,
processar e, sem falsos panos, deixar ficar. Lembro-me das conversas rápidas,
de outras demoradas. Ela sentada na cadeira principal, à cabeceira da mesa,
onde era, vezes repetidas, mais ouvinte do que outra coisa. Palreávamos sem
fim. À sua volta e com a sua permissão. À parte dessa rigidez, deixava fugir um
sorriso. Hoje já se permite rir. Falamos de amores que morrem, de corações que
amam o mesmo sexo, de filhos que escolhem outros caminhos profissionais, de
pessoas cuja cor é um tom e nada mais, da importância do sexo, do prazer. Do
mundo que segue às avessas. Das escolhas que, no fundo, queremos livres. Para
mulheres e homens. A minha avó materna já viveu imenso. Do sofrimento à euforia.
Comprou alguns momentos de luta, livrou-se de outros. Viveu o que eu sou
incapaz de sonhar. E, curiosamente, é hoje uma mulher ainda afoita, sagaz,
intuitiva, livre nos seus pensamentos. Um pouco mais moldada nas atitudes.
Ouvir da boca da minha avó discursos cheios de sabedoria e noção de humanidade –
capazes de deixar envergonhados quaisquer indivíduos com a minha idade ou menos
– é um privilégio. Hei-de guardá-lo para sempre. O vinte e cinco de Abril de
1974 é um povo. É também, se me permitem, a minha avó. E não posso negar, soube
trazer o propósito até aos dias de hoje. Avó, a linda dos meus dias. Tenho a
sorte de comemorá-la todos os anos, todos os dias. Liberdade é ter tacto. Ouvir
o outro e dar-lhe corda. Viver sem recorrer ao mimetismo social. Mesmo que não
se repita, mesmo que nos soe impossível.
29.3.17
Pendência que carece de uma valente troca de ideias.
Enche-se
a boca para dela saírem impropérios vários. Dos que não interessam. A ninguém,
a nada. Invadem o outro num discurso pernicioso, avançando num abalroar da
essência do que e de quem está do outro lado. Da liberdade. Do apregoar tão
fácil, do aplicar tão difícil. Absurdo no seu máximo conforto. Espaço
privilegiado mal aproveitado. O ritmo do peito não desafina. Há coragem
ignorante, senhoras e senhores. É disto que tenho medo. Vê-los, numa posição
que teimam favorável, num atentado persistente à condição humana. Questiono
como se sentirão depois da barbárie. Penso nisto, logo depois de um vídeo que
me fizeram chegar. Onde um jovem casal relata a sua experiência. Lutam contra o
prejuízo, sem temerem qualquer juízo. E só assim faz sentido. Colocam-se na sua
pele, na do outro e resulta num conjunto de palavras tão certeiro. O
preconceito no epicentro das tábuas. Mas posso e devo lembrar-me disto sempre
que alguém próximo, tão próximo como um amigo, ou um transeunte aleatório,
passa por mim. A educação para a cidadania – real e efectiva; não a ficcionada
do costume – faz toda a diferença. Plantar no primeiro minuto para esperar frutíferos
comportamentos mais tarde. Não me interessa senão a formação do cidadão. O conforto
de viver a intimidade. Um tipo não pode exercer sobre ninguém a sua verdade. Somos
ricos dentro da diversidade. Agradeço a bênção que tive nos valores que me
passaram, na família que me instruiu e nos amigos que me calharam em sorte. Não
é mentira se lembrar que, à minha volta, também proliferam os sabedores bacocos
de toda a hora. Os imperadores do preconceito – na família e nos contactos mais
alargados, porque aos meus amigos, e de outra forma não poderia ser, não lhes
reconheço a intolerância. E alinho numa discussão – saudável e capaz – até ao
limite do razoável. Desligo, quando o burgesso sobrepõe-se ao bom senso. É
importante lembrar que o preconceito não está erradicado e somos todos, a
qualquer instante, putativas vítimas. Bem-haja aos que vivem ao invés de
molestarem a vida alheia.
1.9.15
Em diferido. #39
Sublevação
das gentes - Na sala por onde passei tantas vezes e que me lembro de olhar para
ele, passar os olhos e só guardar a moldura de um dourado gasto. Agora que vejo
bem ou, escolhendo melhor as palavras, agora que presto atenção ao quadro que
sempre esteve naquela sala, vejo nele uma recordação que alguns dizem longe e
sem armas para prevalecer numa sociedade em que os mundos confluem e nunca
beliscam. Nesta sociedade. Na falada sociedade do minuto. Contam tudo ao
pormenor. Sabe-se tudo a cada instante. É uma discussão que desconhece lugar. É
uma aventura de linguagem e comportamento. Fala-se da ditadura efectiva e da
liberdade condicionada com a mesma intensidade. Comparam-se termos e valores
desprovidos de ligação. Salvando a verdade, este quadro recusa qualquer
valorização de um regime ditatorial, antes de um povo que sobrevive sob a
barbárie de um nome. Mas é de um tempo que fugir nem sequer era solução.
Acusam-me, alguns desmemoriados, quando opino sobre o quanto este país ganhou
depois da revolução, de desconhecer a vida de então. Argumento e respondem-me
frases feitas. Um discurso com tão pouco volume, como acreditar que algumas
décadas depois, tudo mudou.
8.1.15
Perdeu-se mais mundo.
Diante
de um episódio terrível, por faltar definição maior. A causa das coisas é nome
de livro, mas nunca havemos de encaixá-la, à expressão, em tanto do que gira mudo
fora. Tampouco, entende-la. Ainda que, nos fiquemos presos ao tempo a passar, a
árvore a mudar, folha a folha, flor a flor. Ao fruto que vem na estação do
calor. O mar que volta quando entende. À intempérie mesquinha de não conseguir
desassossegar na viagem do quotidiano. Tudo, por certo, perde combustível,
quando soa a fatalidade. Maltratando o concreto do destino de um estado livre. Comem-nos
as palavras. Tão frio, quanto isso. Roubam-nos o essencial. Violam-nos a
democracia. Matam-nos a liberdade. A distância não existe. Quando tomam uma
parte de assalto, consomem o todo. A liberdade, a democracia, o jornalismo e,
mais concretamente, o Homem, vivem o negrume de um rescaldo sem justificação.
De um mundo que tem partes que são tão sem preceito. Medonha, a justiça que se
suporta numa política que anda enviesada. Como se fosse justificação segura.
Falta luz. Diante de um letal acontecimento. Perdeu-se mais tempo e mais mundo.
Num inqualificável momento.
30.9.14
Sublevação das gentes.
É na
sala por onde passei tantas vezes, que me lembro de olhar para ele, passar os
olhos e só guardar a moldura de um dourado gasto. Agora que vejo bem ou,
escolhendo melhor as palavras, agora que presto atenção ao quadro que sempre
esteve naquela sala, vejo nele uma recordação que alguns dizem longe e sem
armas para prevalecer numa sociedade em que os mundos confluem e nunca beliscam.
Nesta sociedade. Na falada sociedade do minuto. Contam tudo ao pormenor.
Sabe-se tudo a cada instante. É uma discussão que desconhece lugar. É uma
aventura de linguagem e comportamento. Fala-se da ditadura efectiva e da liberdade
condicionada com a mesma intensidade. Comparam-se termos e valores desprovidos
de ligação. Salvando a verdade, este quadro recusa qualquer valorização de um
regime ditatorial, antes de um povo que sobrevive sob a barbárie de um nome.
Mas é de um tempo que fugir nem sequer era solução. Acusam-me, alguns
desmemoriados, quando opino sobre o quanto este país ganhou depois da
revolução, de desconhecer a vida de então. Argumento e respondem-me frases
feitas. Um discurso com tão pouco volume, como acreditar que algumas décadas
depois, tudo mudou.
26.8.14
A causa das semelhanças.
Apoquentam-me
as incongruências, o desfasamento de opinião. Pouco me importa se a estudante
de comunicação social veste um pano com o desenho da pele do leopardo, enquanto
puxa de um cigarro de ocasião. Não me interessa se aqueles dois corpos
despidos, sentados à beira do mar, têm outro propósito. Tampouco me atropela a
atenção se despir a voz no cimo de um prédio alto é, para um corpo, um acto de
sinceridade. Rala-me, se me mostrar disponível, outros retornos, outros
excertos. Dos que importunam o todo. É como os olhos. Exercem o oportuno estimulo
de olhar e decidir. É devido esperar pelo desenvolvimento de todo e qualquer
acontecimento.
14.8.14
Em diferido. #15
Liberdade
de recusar a alforria - Vem do resto do mundo. Grafismo nas palavras. Mas nem
sempre confiável. Porque o molde alheio não quer saber da tua individualidade.
Não quer saber, ponto. Aniquila a franqueza de teres como condição, o direito
de sentires tudo conforme te pareça real e realmente sincero. Em todos os
casos, todos sempre tão específicos é um primor fundamental. Não quer mesmo
saber disso. O resto é conversa. Conversa da fraca. Quem tem medo compra um
cão. Quem não tem importância para recusar o medo, escolhe como desenho da conversa
e dos actos realizados, comprar um cão. Porque nas revistas da especialidade
está em letras garrafais e em fotografias de passerelle, porque a amiga que escreve sobre tendências lhe contou
enquanto tomavam um café, porque o amigo a quem lhe gabam frequentemente a
farpela, vestia o padrão num desses dias, porque nas lojas estão por todo o
lado. Tanto lhe dizem que está na moda, que escolheu as pintas. Escolheu, bem
sabemos, um Dálmata. Agora, passeia-se de tendências por uma trela. De manhã, à
tarde e à noite. Parece tão fácil. Banal como nunca ter trabalho e rigor. Seja
interior, seja exterior.
14.7.14
Um ermo social.
Não
pudemos, em tempo algum, pintar de cores variadas um acontecimento de rasgão
negro. Quando a tela, teimosa, brilha entre o negro, os cinzas e os brancos. Não
pudemos recuar, evitar. Ostenta a beleza da pausa das tonalidades que se opõem
ao branco e preto. Apenas, se ficarmos na mortal vista desarmada. Pegar num
corpo bambo e gritar-lhe por força é uma alogia. Chegar perto de um corpo que desenha
no vazio as suas curvas, enquanto se desafia num pé de dança isolado, ao som de
um músico de rua, é negar-lhe liberdade. Exigir que, seja quem for, troque o
conforto do calçado pela experiência de pisar o chão, num toque de pé com o
asfalto, é um snobismo claro, que não adultera a arrogância pela qual é
suportado. Recusar a franqueza com que os outros conduzem as suas vidas é
medonho. É a prova da incoerência social. Sujeito depravado aquele que ocupa os
seus dias a tornar podre a existência do outro. Jamais, assistindo ao
desapropriamento de liberdade, me deixarei sossegado. Seja qual for a verdade.
17.6.14
17 de Junho de 1996.
Houvesse
um sem número de minutos ou linhas e perder-me-ia a descrever o primeiro dia da
vida dela, o primeiro dia das nossas vidas com uma nova parte. Não é parte, não
é, pelo menos, uma qualquer, se insistirmos no quão apoucada pode ser a porção
de um todo. Neste tempo, tiramos verdade das expectativas. É uma das partes
maiores da nossa vida. É o lado de menina, de criança. Ambas de jeito eterno. É
liberdade nas expressões garridas, no trato rasgado de quando em vez. Na eterna
forma de sonhar, de deslindar avarias de um percurso ou de se desmanchar com o
peso e a dor de outros. É amarga, por escolha. É doce, na íntima relação dos
que lhe importam. É determinação e decibéis articulados no momento de se
afirmar. É uma impressionável amostra da nossa mãe, física e psicologicamente.
Sem que as comparações se sobreponham. É individual no que é mais íntimo, sem
se influenciar com as vozes alheias. Procura, contudo, a opinião. É paixão por
acessórios sem fim, pelas roupas que compra e que, invariavelmente, as
justifica com a necessidade, que bem sabemos, é dissonante da sua feliz
realidade. É dona de um discurso tão coerente e pragmático que nos delicia
ouvi-lo. É a nossa, a minha menina. Tornou-se, volvidos os instantes primários
da gestação, por isso, antes mesmo do primeiro dia da nossa convivência, o meu
orgulho. Não sei explicar, senão assim. Gosto de sabe-la preocupada por um
punhado de tantas questões. Não adormeceu no conforto que lhe coube em sorte. A
paciência cai-lhe em saco roto, diz-me, por não lhe fazer sentido. Como se
tivesse poder de decisão, escolhe tudo para ontem. Apraz-me saber que me
procura quando alguma situação a aflige ou quando o momento é feliz. Deliciam-me
as conversas sem fim, por nunca as concluirmos, que temos tantas vezes.
Daquelas que ficam sem direito a conclusão. Talvez, por força da idade que nos
separa. Não sendo uma diferença extraordinária, molda-nos alguns pontos de
vista. Nas outras questões, somos sintonia. Mas, volto ao primeiro dia. Eu
estava fora, só havia de chegar mais tarde. Assim, todo o aparato
escapou-se-me. Dispensaram-me a ansiedade de perspectivar o seu nascimento. Depois,
ganhei em dobro, quando a vi. Hoje, dezoito anos depois, tenho o discurso tão emaranhado,
que tudo me parece estranho, cada palavra que leio, depois de escrever, me soa confusa.
Dezoito anos. É a apropriação de uma liberdade que, sem saber, já existe. É o
reforço da razão e da compreensão que se suportam no feliz acontecimento de ter
direito à responsabilidade. Havemos de comemorar logo à noite, depois de um dia
cheio. Entre grande parte dos que te admiram e querem sempre presente. E, por
momentos, vais ficar envergonhada, quando fores, merecidamente, o centro de
toda a atenção. De bolo decorado, de velas da liberdade. Diferente das vezes em
que, junto à piscina, de biquíni piroso, pousavas para a máquina fotográfica,
de rosto tão divertido, de olhar ainda mais reguila. Parabéns!!! Um conjunto
inumerável de beijos. O melhor, garanto-te, ainda está para vir.
28.4.14
Liberdade de recusar a alforria.
Vem
do resto do mundo. Grafismo nas palavras. Mas nem sempre confiável. Porque o
molde alheio não quer saber da tua individualidade. Não quer saber, ponto.
Aniquila a franqueza de teres como condição, o direito de sentires tudo conforme
te pareça real e realmente sincero. Em todos os casos, todos sempre tão específicos
é um primor fundamental. Não quer mesmo saber disso. O resto é conversa.
Conversa da fraca. Quem tem medo compra um cão. Quem não tem importância para
recusar o medo, escolhe como desenho da conversa e dos actos realizados,
comprar um cão. Porque nas revistas da especialidade está em letras garrafais e
em fotografias de passerelle, porque
a amiga que escreve sobre tendências lhe contou enquanto tomavam um café,
porque o amigo a quem lhe gabam frequentemente a farpela, vestia o padrão num
desses dias, porque nas lojas estão por todo o lado. Tanto lhe dizem que está
na moda, que escolheu as pintas. Escolheu, bem sabemos, um Dálmata. Agora,
passeia-se de tendências por uma trela. De manhã, à tarde e à noite. Parece tão
fácil. Banal como nunca ter trabalho e rigor. Seja interior, seja exterior.
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