Um café e um romance, por favor - Estás a pensar em quê?
Perguntou-me o homem de idade, cabelo grisalho e desportista nato. Não dispensa
caminhadas longas e uma certa dedicação à vida saudável. Eu não me lembro da
última vez que entrei no ginásio. Talvez passe o tempo de forma desencontrada
com a força e o vagar com que uma mão passa pelo cabelo. Não há afagos para o
corpo, rasga num mergulho inventado e faz-te homem em cada sentido. Crueldade
tamanha. Nada dói, ninguém esquece. Tudo dói, ninguém perdoa. Toma o café,
antes que arrefeça. Prefiro assim mesmo, disse-lhe. Também não coloco açúcar,
sou incapaz, continuei. Perdes o doce e amargo ímpeto da palavra numa chávena
branca, útil, mas básica, atiçou-me. Ri-me e olhei-lhe nos olhos. Para, se
possível, tentar perceber a mensagem. Imitei, no lado esquerdo, um olhar que
questiona. Ando a ler, voltei-me para a literatura, adiantou. Uma leitura que
fala de amor, desabafou. Enquanto eu pensava que, por ignorância, tenho lido
substancialmente menos, aplaudi-lhe a decisão. Conte-me, então, o que aprendeu,
entretanto, pedi-lhe. Pouco ou nada, fico-me pelas mentiras que vêm lá e
gabo-me por ter mentido pouco, disse-me. Isso ou soube fazê-lo, respondi-lhe.
Gargalhou. E, agora sim, tomei o café. Ainda vou vê-lo a imitar um romance.
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10.2.16
25.6.15
O meu primeiro chapéu e uma estante com instintos.
A
janela grande e escancarada deixa entrar, pelo meio das cortinas saracoteadas,
o sol da manhã, a varanda reflecte e temos várias cores a brincar nos móveis. Nas
costas uma estante digna. Lá fora, no jardim que está ao fundo, três velhas
senhoras. Conversam muito, riem também. Não esquecem as mãos e gesticulam como
quem ensina com o corpo. Vestem com cores garridas, têm óculos, seguram as
malas com fé e o calor lembrou-lhes o chapéu. Um de palha gasta e outro que foi
oferta de uma marca de refrigerantes. Conheço quem valorize pessoas e casas
pelas estantes e pelo conteúdo das mesmas. Assim chegados, procuram o espaço e,
desavisados, lêem as lombadas dos livros. Não entendo se é um passatempo ou uma
patologia sociocultural. Tenho os livros tão bem guardados. Uma verdade envolta
em ironia. Uns expostos, numa estante típica, alinhados e alinhavados conforme
autores e temas. Outros estão algures. Sei que andam entre cá e lá. Já
emprestei parte, já me emprestaram uns poucos. Prefiro comprar, prefiro que
sejam meus. Porque, para mim, um livro não se esgota na leitura, tampouco, numa
primeira leitura. Salva-se a lembrança e a vontade com o regresso ao acto de
ler. Repetido, mas com torneados vários. O voltar às capas, aos prefácios, ao
cheiro tão característico. Às notas que, porventura, me pareça pertinente
deixar. Procuro há vários dias, por uma obra antiga. Se não me falha a memória,
dádiva da minha irmã mais velha. Uma história arraçada de novela, um autor
nacional que deixou marca. Lembrei-me deste romance tão bem ficcionado,
precisamente, no instante em que me atrevi a comprar o meu primeiro chapéu. O
primeiro passo está dado. Falta-me agora, bem sei, a coragem e encontrar o
livro sumido. Orienta-se, assim, o meu instinto.
3.6.15
Em diferido. #35
Manhã
bonita - Da porta grande para dentro. Sol de inverno e frio sem qualificação. Convidaram-me
a sentar. Ali mesmo ao lado, numa cadeira sem grandes dotes decorativos.
Sorriram-me com leveza e alegria. Leram-me excertos de um livro bom. Voz
melodiosa e veloz na esperteza com que se coloca. Ouvi prosa bonita e poesia
verdadeira. Parece feita de propósito para quem a ouve ou lê. Seguraram-me a
atenção sem sacrifício, iluminaram uma sala com as palavras e os conceitos.
Manhã bonita, sem defeito. Mulher sábia que escolhe cada letra. Desenha as
palavras com as mãos no papel branco. Escolhe cada tom. Cada tonalidade. Estão
todos ali, junto dela. Hoje, quando o dia chegar ao fim, lembrar-nos-emos de
cada instante. Nenhum repetido. Ninguém cansado. Alimentamos os sentidos. Cada
um. Mesmo depois da porta grande para fora. Só me resta agradecer. E voltar a
ler.
27.5.15
Peça de duas rodas à janela.
Não
me perguntem onde tenho a cabeça. Que tenho-a em muitos lugares. E, para não
mentir, teria de recorrer a citações de um livro de um dos grandes, dos autores
nacionais que escreveram com pedaços de coisas quebradas. E dividia, sem defeito,
a autoria. “Livro do Desassossego”. Não me lembro da última vez em que peguei
numa bicicleta. Literalmente. Admiro-as e quero aquela. Idealizei-a primeiro,
depois fui encontrando bocados dessa ideia numa ou noutra com que me fui
cruzando. O todo está perfeitamente construído na faculdade do meu pensamento. Vejo-as
em revistas bonitas, em quadros de arte maior, em cartazes que me fazem parar e
em fotografias que me fazem sossegar. Perco-me, se não for um exagero da
definição, em lugares online que
mostram a mesma bicicleta em lugares diferentes, correndo o mundo. Outras, em
que o mesmo sítio vê passarem as mais diversas e desconexas. Um certo dia, algures
na adolescência acabada de começar, num passeio a três, eu e mais dois amigos,
num terreno tão maninho, caí sem definição. Uma descida mal calculada. O resto
já se sabe. Mas não foi nesse tempo que desisti. Hoje repito instantes. Paro,
se achar apropriado, para fotografar uma bicicleta. E espero, sem pressa, pelo
dia em que ela vai chegar. A sala da minha casa pode ser o horizonte. E, sem
prejuízo, deixá-la lá ficar.
21.4.15
Um café e um romance, por favor.
Estás
a pensar em quê? Perguntou-me o homem de idade, cabelo grisalho e desportista
nato. Não dispensa caminhadas longas e uma certa dedicação à vida saudável. Eu
não me lembro da última vez que entrei no ginásio. Talvez passe o tempo de
forma desencontrada com a força e o vagar com que uma mão passa pelo cabelo.
Não há afagos para o corpo, rasga num mergulho inventado e faz-te homem em cada
sentido. Crueldade tamanha. Nada dói, ninguém esquece. Tudo dói, ninguém
perdoa. Toma o café, antes que arrefeça. Prefiro assim mesmo, disse-lhe. Também
não coloco açúcar, sou incapaz, continuei. Perdes o doce e amargo ímpeto da
palavra numa chávena branca, útil mas básica, atiçou-me. Ri-me e olhei-lhe nos
olhos. Para, se possível, tentar perceber a mensagem. Imitei, no lado esquerdo,
um olhar que questiona. Ando a ler, voltei-me para a literatura, adiantou. Uma
leitura que fala de amor, desabafou. Enquanto eu pensava que, por ignorância,
tenho lido substancialmente menos, aplaudi-lhe a decisão. Conte-me, então, o
que aprendeu, entretanto, pedi-lhe. Pouco ou nada, fico-me pelas mentiras que
vêm lá e gabo-me por ter mentido pouco, disse-me. Isso ou soube fazê-lo,
respondi-lhe. Gargalhou. E, agora sim, tomei o café. Ainda vou vê-lo a imitar
um romance.
12.2.15
Manhã bonita.
Da
porta grande para dentro. Sol de inverno e frio sem qualificação. Convidaram-me
a sentar. Ali mesmo ao lado, numa cadeira sem grandes dotes decorativos.
Sorriram-me com leveza e alegria. Leram-me excertos de um livro bom. Voz
melodiosa e veloz na esperteza com que se coloca. Ouvi prosa bonita e poesia
verdadeira. Parece feita de propósito para quem a ouve ou lê. Seguraram-me a
atenção sem sacrifício, iluminaram uma sala com as palavras e os conceitos.
Manhã bonita, sem defeito. Mulher sábia que escolhe cada letra. Desenha as
palavras com as mãos no papel branco. Escolhe cada tom. Cada tonalidade. Estão
todos ali, junto dela. Hoje, quando o dia chegar ao fim, lembrar-nos-emos de
cada instante. Nenhum repetido. Ninguém cansado. Alimentamos os sentidos. Cada
um. Mesmo depois da porta grande para fora. Só me resta agradecer. E voltar a
ler.
24.11.14
Algures num sumptuoso lar.
Não
me canso de gabar a sala de pé direito alto e elegante, o soalho de madeira
pesado que não deixa a desejar. As portadas largas, brancas como a decoração.
Os vidros, no fim-de-semana de Novembro a findar, ganham pingas a desenhar. A rua
fica lá em baixo, como se fosse a terra a definir. E gosto de ler, mas escolho
o sossego. Não é o caso. Agora, servem-se cafés e infusões. Não é chá porque
vem em latas reinventadas. Biscoitos e scones da padaria que agora é costume. É
um desenrolar de conversas sem fim. Sartre é tema em cima da mesa. Opiniões que
não se medem na informação vazia que percorre o mundo de circunstância. Antes
dele, falámos de Carla Bruni, recordações do seu tema “Tu es ma came”. Logo alguém se lembrou da letra e a cantarolou.
Mais depressa correram ao vídeo online e a saudade voltou. Fazemos da
informação e da canção o que delas nos aprouver. Caso não resulte, problema
resolvido. Compras mais infusões cuja marca nacional os reinventa e oferece
novos sabores. Serves, por fim, de bandeja com os sonhos e os dissabores.
1.9.14
A (des)medida do (des)amor.
Uma
sem noção de vezes, não importa o mote, senão quando a matéria que dele nasce
não oferece petisco. Outras, por tanto se encerrar no todo, guardamos o
principio, por temer uma negligente e inóspita composição. O ideal era desmaiar
de amor. Guardar, sempre, a ressalva. Recuperar, se possível e necessário, na
vontade seguinte. Esquecer os contos de outras ideologias, das que jogam com o
prisma das emoções e sensações. Sossegar os romances pesados num canto. Deixar
para depois o quadro que conta histórias de amor. De desamor. O amor tem sempre
um lado tão mais apetecível. Para quem conta, relata. Para quem lê, escuta e,
por fim, pensa. A tragédia atrai. A felicidade de outros repele. Ler
desenfreadamente, desde cedo, é ter a convicção de que o amor e todos os seus
predicados, move interesses. Acções, por certo. Ensina-se que o amor mata. Mas
não lembram soluções, sequer opções. Ler o amor é pensar no lugar de quem está
de fora, à margem dessa medida. Viver o amor é regredir, voltar ao lugar de aprendiz.
6.8.14
A minha pátria num muro exterior.
Escrevi
na imagem acima, a frase de um povo. Conhecida como quem não se cansa. Sabida
na ponta da língua por quem não se recusa a ler e a entender. Nas entrelinhas.
Nas linhas corridas, de pontuação a decorar. Num torneio arredondado de
pensamentos entrelaçados com emoções e valentes composições. De ideias, entenda-se.
Lamento-me sempre. A minha desajustada coerência e, se quisermos, o meu equilíbrio
bambo. No epicentro da decisão, escolho não carregar uma máquina. Tão especial
objecto. Uma oportunidade brava. O telemóvel não me serve, quando ganho outras
ideias. Mas, neste verão à pressão, estava feita em grafítis, a expressão. A rua movimentada, pareceu-me, não prestou
atenção. Qual carimbo numa parede de branco a desfazer. Letras negras. Fernando
Pessoa, nacionalista de crença contemplativa, ali. Tão cru. Em bruto. A fonte
escolhida para letra. Os tons sem especial atenção. Uma pátria que lhe ganha as
formas. Salve-se a cultura. A língua. Ironia, a verdade desenhada numa parede
portuguesa.
19.11.13
Os meus livros.
Desconheço,
na verdade mais íntima, os livros que tenho. Não os sei em números. Passam para
lá do óbvio, vão mais longe do que o que existe em diminuta vontade. Das
estantes revestindo as paredes mascaradas de papel de parede ou iludidas de uma
qualquer cor. Estão por aí, grande parte deles. Outros estão tolerando-se uns
sobre os outros. Imagino, fabulando, numa tentativa perdida de tratar o
impossível com domínio, as histórias e as personagens cruzando-se, dando
origem, todas elas, a uma mixórdia de um mundo louco e adulterado pela imbecil
lembrança de os ligar. Pela minha, feliz ou infeliz, ideia de os aglomerar. A
memória não me quebra as recordações, quando assisto, de imediato, à minha
infância recheada de livros. Foi o meu pai quem mos comprou. Quase todos.
Dava-mos de diferentes temas. As capas, mais ou menos, apelativas. Umas duras,
as outras de fortes títulos. Os textos, a cada ano passando, a tomarem temas e
formas de escrita mais entusiasmantes. Sempre os achou relevantes. Muito.
Herdei-lhe, desta forma, a vontade sôfrega de ler. De despender horas a ler,
horas a convencer-me do que relatam escrevendo. O meu pai acredita nisso. Ainda
hoje. Eu também, desde tenra idade. Desde que soube, pela sua mão, o que era um
livro. Desde que percebi que um livro é uma companhia inequívoca. Das que se
passam de pai para filho.
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