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10.2.16

Em diferido. #44

Um café e um romance, por favor - Estás a pensar em quê? Perguntou-me o homem de idade, cabelo grisalho e desportista nato. Não dispensa caminhadas longas e uma certa dedicação à vida saudável. Eu não me lembro da última vez que entrei no ginásio. Talvez passe o tempo de forma desencontrada com a força e o vagar com que uma mão passa pelo cabelo. Não há afagos para o corpo, rasga num mergulho inventado e faz-te homem em cada sentido. Crueldade tamanha. Nada dói, ninguém esquece. Tudo dói, ninguém perdoa. Toma o café, antes que arrefeça. Prefiro assim mesmo, disse-lhe. Também não coloco açúcar, sou incapaz, continuei. Perdes o doce e amargo ímpeto da palavra numa chávena branca, útil, mas básica, atiçou-me. Ri-me e olhei-lhe nos olhos. Para, se possível, tentar perceber a mensagem. Imitei, no lado esquerdo, um olhar que questiona. Ando a ler, voltei-me para a literatura, adiantou. Uma leitura que fala de amor, desabafou. Enquanto eu pensava que, por ignorância, tenho lido substancialmente menos, aplaudi-lhe a decisão. Conte-me, então, o que aprendeu, entretanto, pedi-lhe. Pouco ou nada, fico-me pelas mentiras que vêm lá e gabo-me por ter mentido pouco, disse-me. Isso ou soube fazê-lo, respondi-lhe. Gargalhou. E, agora sim, tomei o café. Ainda vou vê-lo a imitar um romance.

25.6.15

O meu primeiro chapéu e uma estante com instintos.

A janela grande e escancarada deixa entrar, pelo meio das cortinas saracoteadas, o sol da manhã, a varanda reflecte e temos várias cores a brincar nos móveis. Nas costas uma estante digna. Lá fora, no jardim que está ao fundo, três velhas senhoras. Conversam muito, riem também. Não esquecem as mãos e gesticulam como quem ensina com o corpo. Vestem com cores garridas, têm óculos, seguram as malas com fé e o calor lembrou-lhes o chapéu. Um de palha gasta e outro que foi oferta de uma marca de refrigerantes. Conheço quem valorize pessoas e casas pelas estantes e pelo conteúdo das mesmas. Assim chegados, procuram o espaço e, desavisados, lêem as lombadas dos livros. Não entendo se é um passatempo ou uma patologia sociocultural. Tenho os livros tão bem guardados. Uma verdade envolta em ironia. Uns expostos, numa estante típica, alinhados e alinhavados conforme autores e temas. Outros estão algures. Sei que andam entre cá e lá. Já emprestei parte, já me emprestaram uns poucos. Prefiro comprar, prefiro que sejam meus. Porque, para mim, um livro não se esgota na leitura, tampouco, numa primeira leitura. Salva-se a lembrança e a vontade com o regresso ao acto de ler. Repetido, mas com torneados vários. O voltar às capas, aos prefácios, ao cheiro tão característico. Às notas que, porventura, me pareça pertinente deixar. Procuro há vários dias, por uma obra antiga. Se não me falha a memória, dádiva da minha irmã mais velha. Uma história arraçada de novela, um autor nacional que deixou marca. Lembrei-me deste romance tão bem ficcionado, precisamente, no instante em que me atrevi a comprar o meu primeiro chapéu. O primeiro passo está dado. Falta-me agora, bem sei, a coragem e encontrar o livro sumido. Orienta-se, assim, o meu instinto.

3.6.15

Em diferido. #35

Manhã bonita - Da porta grande para dentro. Sol de inverno e frio sem qualificação. Convidaram-me a sentar. Ali mesmo ao lado, numa cadeira sem grandes dotes decorativos. Sorriram-me com leveza e alegria. Leram-me excertos de um livro bom. Voz melodiosa e veloz na esperteza com que se coloca. Ouvi prosa bonita e poesia verdadeira. Parece feita de propósito para quem a ouve ou lê. Seguraram-me a atenção sem sacrifício, iluminaram uma sala com as palavras e os conceitos. Manhã bonita, sem defeito. Mulher sábia que escolhe cada letra. Desenha as palavras com as mãos no papel branco. Escolhe cada tom. Cada tonalidade. Estão todos ali, junto dela. Hoje, quando o dia chegar ao fim, lembrar-nos-emos de cada instante. Nenhum repetido. Ninguém cansado. Alimentamos os sentidos. Cada um. Mesmo depois da porta grande para fora. Só me resta agradecer. E voltar a ler.

27.5.15

Peça de duas rodas à janela.

Não me perguntem onde tenho a cabeça. Que tenho-a em muitos lugares. E, para não mentir, teria de recorrer a citações de um livro de um dos grandes, dos autores nacionais que escreveram com pedaços de coisas quebradas. E dividia, sem defeito, a autoria. “Livro do Desassossego”. Não me lembro da última vez em que peguei numa bicicleta. Literalmente. Admiro-as e quero aquela. Idealizei-a primeiro, depois fui encontrando bocados dessa ideia numa ou noutra com que me fui cruzando. O todo está perfeitamente construído na faculdade do meu pensamento. Vejo-as em revistas bonitas, em quadros de arte maior, em cartazes que me fazem parar e em fotografias que me fazem sossegar. Perco-me, se não for um exagero da definição, em lugares online que mostram a mesma bicicleta em lugares diferentes, correndo o mundo. Outras, em que o mesmo sítio vê passarem as mais diversas e desconexas. Um certo dia, algures na adolescência acabada de começar, num passeio a três, eu e mais dois amigos, num terreno tão maninho, caí sem definição. Uma descida mal calculada. O resto já se sabe. Mas não foi nesse tempo que desisti. Hoje repito instantes. Paro, se achar apropriado, para fotografar uma bicicleta. E espero, sem pressa, pelo dia em que ela vai chegar. A sala da minha casa pode ser o horizonte. E, sem prejuízo, deixá-la lá ficar.

21.4.15

Um café e um romance, por favor.

Estás a pensar em quê? Perguntou-me o homem de idade, cabelo grisalho e desportista nato. Não dispensa caminhadas longas e uma certa dedicação à vida saudável. Eu não me lembro da última vez que entrei no ginásio. Talvez passe o tempo de forma desencontrada com a força e o vagar com que uma mão passa pelo cabelo. Não há afagos para o corpo, rasga num mergulho inventado e faz-te homem em cada sentido. Crueldade tamanha. Nada dói, ninguém esquece. Tudo dói, ninguém perdoa. Toma o café, antes que arrefeça. Prefiro assim mesmo, disse-lhe. Também não coloco açúcar, sou incapaz, continuei. Perdes o doce e amargo ímpeto da palavra numa chávena branca, útil mas básica, atiçou-me. Ri-me e olhei-lhe nos olhos. Para, se possível, tentar perceber a mensagem. Imitei, no lado esquerdo, um olhar que questiona. Ando a ler, voltei-me para a literatura, adiantou. Uma leitura que fala de amor, desabafou. Enquanto eu pensava que, por ignorância, tenho lido substancialmente menos, aplaudi-lhe a decisão. Conte-me, então, o que aprendeu, entretanto, pedi-lhe. Pouco ou nada, fico-me pelas mentiras que vêm lá e gabo-me por ter mentido pouco, disse-me. Isso ou soube fazê-lo, respondi-lhe. Gargalhou. E, agora sim, tomei o café. Ainda vou vê-lo a imitar um romance.

12.2.15

Manhã bonita.

Da porta grande para dentro. Sol de inverno e frio sem qualificação. Convidaram-me a sentar. Ali mesmo ao lado, numa cadeira sem grandes dotes decorativos. Sorriram-me com leveza e alegria. Leram-me excertos de um livro bom. Voz melodiosa e veloz na esperteza com que se coloca. Ouvi prosa bonita e poesia verdadeira. Parece feita de propósito para quem a ouve ou lê. Seguraram-me a atenção sem sacrifício, iluminaram uma sala com as palavras e os conceitos. Manhã bonita, sem defeito. Mulher sábia que escolhe cada letra. Desenha as palavras com as mãos no papel branco. Escolhe cada tom. Cada tonalidade. Estão todos ali, junto dela. Hoje, quando o dia chegar ao fim, lembrar-nos-emos de cada instante. Nenhum repetido. Ninguém cansado. Alimentamos os sentidos. Cada um. Mesmo depois da porta grande para fora. Só me resta agradecer. E voltar a ler.

24.11.14

Algures num sumptuoso lar.

Não me canso de gabar a sala de pé direito alto e elegante, o soalho de madeira pesado que não deixa a desejar. As portadas largas, brancas como a decoração. Os vidros, no fim-de-semana de Novembro a findar, ganham pingas a desenhar. A rua fica lá em baixo, como se fosse a terra a definir. E gosto de ler, mas escolho o sossego. Não é o caso. Agora, servem-se cafés e infusões. Não é chá porque vem em latas reinventadas. Biscoitos e scones da padaria que agora é costume. É um desenrolar de conversas sem fim. Sartre é tema em cima da mesa. Opiniões que não se medem na informação vazia que percorre o mundo de circunstância. Antes dele, falámos de Carla Bruni, recordações do seu tema “Tu es ma came”. Logo alguém se lembrou da letra e a cantarolou. Mais depressa correram ao vídeo online e a saudade voltou. Fazemos da informação e da canção o que delas nos aprouver. Caso não resulte, problema resolvido. Compras mais infusões cuja marca nacional os reinventa e oferece novos sabores. Serves, por fim, de bandeja com os sonhos e os dissabores.

1.9.14

A (des)medida do (des)amor.

Uma sem noção de vezes, não importa o mote, senão quando a matéria que dele nasce não oferece petisco. Outras, por tanto se encerrar no todo, guardamos o principio, por temer uma negligente e inóspita composição. O ideal era desmaiar de amor. Guardar, sempre, a ressalva. Recuperar, se possível e necessário, na vontade seguinte. Esquecer os contos de outras ideologias, das que jogam com o prisma das emoções e sensações. Sossegar os romances pesados num canto. Deixar para depois o quadro que conta histórias de amor. De desamor. O amor tem sempre um lado tão mais apetecível. Para quem conta, relata. Para quem lê, escuta e, por fim, pensa. A tragédia atrai. A felicidade de outros repele. Ler desenfreadamente, desde cedo, é ter a convicção de que o amor e todos os seus predicados, move interesses. Acções, por certo. Ensina-se que o amor mata. Mas não lembram soluções, sequer opções. Ler o amor é pensar no lugar de quem está de fora, à margem dessa medida. Viver o amor é regredir, voltar ao lugar de aprendiz.

6.8.14

A minha pátria num muro exterior.

 
Escrevi na imagem acima, a frase de um povo. Conhecida como quem não se cansa. Sabida na ponta da língua por quem não se recusa a ler e a entender. Nas entrelinhas. Nas linhas corridas, de pontuação a decorar. Num torneio arredondado de pensamentos entrelaçados com emoções e valentes composições. De ideias, entenda-se. Lamento-me sempre. A minha desajustada coerência e, se quisermos, o meu equilíbrio bambo. No epicentro da decisão, escolho não carregar uma máquina. Tão especial objecto. Uma oportunidade brava. O telemóvel não me serve, quando ganho outras ideias. Mas, neste verão à pressão, estava feita em grafítis, a expressão. A rua movimentada, pareceu-me, não prestou atenção. Qual carimbo numa parede de branco a desfazer. Letras negras. Fernando Pessoa, nacionalista de crença contemplativa, ali. Tão cru. Em bruto. A fonte escolhida para letra. Os tons sem especial atenção. Uma pátria que lhe ganha as formas. Salve-se a cultura. A língua. Ironia, a verdade desenhada numa parede portuguesa.

19.11.13

Os meus livros.

Desconheço, na verdade mais íntima, os livros que tenho. Não os sei em números. Passam para lá do óbvio, vão mais longe do que o que existe em diminuta vontade. Das estantes revestindo as paredes mascaradas de papel de parede ou iludidas de uma qualquer cor. Estão por aí, grande parte deles. Outros estão tolerando-se uns sobre os outros. Imagino, fabulando, numa tentativa perdida de tratar o impossível com domínio, as histórias e as personagens cruzando-se, dando origem, todas elas, a uma mixórdia de um mundo louco e adulterado pela imbecil lembrança de os ligar. Pela minha, feliz ou infeliz, ideia de os aglomerar. A memória não me quebra as recordações, quando assisto, de imediato, à minha infância recheada de livros. Foi o meu pai quem mos comprou. Quase todos. Dava-mos de diferentes temas. As capas, mais ou menos, apelativas. Umas duras, as outras de fortes títulos. Os textos, a cada ano passando, a tomarem temas e formas de escrita mais entusiasmantes. Sempre os achou relevantes. Muito. Herdei-lhe, desta forma, a vontade sôfrega de ler. De despender horas a ler, horas a convencer-me do que relatam escrevendo. O meu pai acredita nisso. Ainda hoje. Eu também, desde tenra idade. Desde que soube, pela sua mão, o que era um livro. Desde que percebi que um livro é uma companhia inequívoca. Das que se passam de pai para filho.