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18.4.17

Inferências matinais.

Acabei por pousar o livro de páginas generosas sobre o que havia de chamar de mesa de apoio. Estava, há tempo demais, à espera de um dia. De uma pausa conveniente, de um lugar perfeito. Agora tem um candeeiro aperaltado, de design arranjado, uma vela com a marca estampada e um arranjo florar todo primaveril, por companhia. Penitencio-me – menos do que seria necessário – por não devolver a atenção de outros tempos à leitura. Atropelo-me, à margem de outros termos, na hora de fazer escolhas. Surgem opções e razões. Entram numa luta inglória. Fico feito coisa nenhuma perante o resultado. Não sei outro facto senão que sou eu o único e real culpado. Não ofendi a decoração pensada, mas adulterei a função do livro. Noutro tempo, ainda pequeno e sagaz, inventava formas de assaltar a estante da casa dos meus avós maternos. Vi-a imponente, carregada de enfeites. Os livros tinham lugar de honra, nas prateleiras cimeiras. Depois de várias e vãs tentativas, o sofá de orelhas pareceu-me a escada necessária. Queria ler e, mais do que isso, queria conhecer outros e diferentes enredos, outras palavras e autores. Por sabê-los longe da minha idade, larguei na procura de lá chegar. Tinham um sem fim de prosa e poesia. Li novelas de autores nacionais e internacionais. Dicionários de filosofia e botânica. Um livro bem discreto com bonita poesia erótica, cujo nome da autora ainda hoje não consigo recordar. Certamente, li fora de tempo, antes de ter o discernimento necessário. Hoje corro sei lá para onde, deixando ficar partes fundamentais da engrenagem. Falta-me a agudeza de espírito e a finura do corpo para voltar à fonte do raciocínio.

25.8.15

Um chapéu e uma maçã verdes.

Acabo de sair do carro, e vejo pessoas com vontade de que o verão não morra. Estou como elas e com elas, sigo caminho e tomo as escadas. Trago um livro na mão. Tenho outro sossegado na mesa-de-cabeceira. Ainda outro na mesa de múltiplos afazeres. Ler, assim mesmo, vale por si. Não precisa de parentes emprestados, vontades inquinadas e valores monitorizados. Ler, sem mais nem menos, é um absurdo e valente gosto. Desgosto, se não acontece. Por seu turno, absorve-nos o frenesim constante da rotina. Consome-nos a fantasia de que vale sempre mais. Fazer mais e deixar o resto em estufada espera. Também por isto, pesa-me o facto de adiar leituras. De deixá-los, aos livros, por aí, até à merecida oportunidade. De desligar-me, com a idade a cavalgar, das idas à biblioteca da cidade. Da minha cidade. Num destes dias, daqueles de transição, entre o chegar, o ir e o voltar. Passei, volvidos tantos anos, à porta dessa biblioteca. Por fora, despida e sentida do tempo, continua oportunamente à disposição. Em tempos idos, sozinho a ler títulos, descrições e autores, não tantas vezes como pudesse, eventualmente, querer. Noutras vezes juntava-me ao pessoal, por força de trabalhos escolares, entre a pesquisa efectiva, a escrita pertinente, os diálogos estratosféricos, a imaginação sem fim, os livros abertos e a informação a ferver. Precisamente num desses dias, nós os três, companheiros de sempre, sossegávamos o espírito no átrio, ao ar livre. Numa mesa mesmo ao lado, um senhor. Hoje, se conseguir com algum esforço lembrar-me da sua cara, dar-lhe-ia uns cinquenta anos, sessenta no máximo. Naquele dia, pareceu-me um verdadeiro ancião. O senhor tinha um chapéu de veludo verde-escuro, uns óculos graduados, uma barba farta e esbranquiçada. Cruzava as pernas e lia o jornal, enquanto pousados na mesa, estavam dois livros e uma maçã verde. Um deles, tão pesado. Por duas vezes, ouvimo-lo falar, mas não entendemos uma sequer palavra. Falava mais alto, como que a dar a entender que se fazia ouvir. Tornou e numa terceira investida, pergunta-nos se sabíamos alguma informação sobre aquilo que comíamos. Sinceramente, não me recordo o que era. Respondemos-lhe por educação. Ele continuou e disse-nos que a carne e os açúcares, assim como, outros pertences da alimentação quotidiana, acabariam por nos matar. Discorreu sobre este e outros assuntos. Comam maçãs, terminou. Tenho pena, muita, de me ter esquecido de grande parte do seu discurso. Comam maçãs, bebam água e criminalizem todo o fumo que vos invadir o corpo. Simpaticamente, agradecemos-lhe. Ele levantou-se, enrolou o jornal, pô-lo debaixo do braço, agarrou nos dois livros e na maçã. Esta, levou-a à boca e mordeu-a. – Agora, dizia ele, tenham uma boa tarde. E muitas maçãs, é o que vos desejo. – Estava longe, muito, de imaginar que um dia, não tão distante quanto isso, eu iria proceder a uma mudança alimentar com expressão. Unicamente, por convicção e interpretação próprias. Acabo de chegar, pousar o livro e escrever este texto. Aprecio a ironia mas não atribuo menos importância à valentia de alguém se levantar para deixar a opinião ficar.

25.6.15

O meu primeiro chapéu e uma estante com instintos.

A janela grande e escancarada deixa entrar, pelo meio das cortinas saracoteadas, o sol da manhã, a varanda reflecte e temos várias cores a brincar nos móveis. Nas costas uma estante digna. Lá fora, no jardim que está ao fundo, três velhas senhoras. Conversam muito, riem também. Não esquecem as mãos e gesticulam como quem ensina com o corpo. Vestem com cores garridas, têm óculos, seguram as malas com fé e o calor lembrou-lhes o chapéu. Um de palha gasta e outro que foi oferta de uma marca de refrigerantes. Conheço quem valorize pessoas e casas pelas estantes e pelo conteúdo das mesmas. Assim chegados, procuram o espaço e, desavisados, lêem as lombadas dos livros. Não entendo se é um passatempo ou uma patologia sociocultural. Tenho os livros tão bem guardados. Uma verdade envolta em ironia. Uns expostos, numa estante típica, alinhados e alinhavados conforme autores e temas. Outros estão algures. Sei que andam entre cá e lá. Já emprestei parte, já me emprestaram uns poucos. Prefiro comprar, prefiro que sejam meus. Porque, para mim, um livro não se esgota na leitura, tampouco, numa primeira leitura. Salva-se a lembrança e a vontade com o regresso ao acto de ler. Repetido, mas com torneados vários. O voltar às capas, aos prefácios, ao cheiro tão característico. Às notas que, porventura, me pareça pertinente deixar. Procuro há vários dias, por uma obra antiga. Se não me falha a memória, dádiva da minha irmã mais velha. Uma história arraçada de novela, um autor nacional que deixou marca. Lembrei-me deste romance tão bem ficcionado, precisamente, no instante em que me atrevi a comprar o meu primeiro chapéu. O primeiro passo está dado. Falta-me agora, bem sei, a coragem e encontrar o livro sumido. Orienta-se, assim, o meu instinto.

9.6.15

Um livro rabiscado e a jovem do fim de tarde.

Vem de vestido florido, Converse All Star nos pés. Tem a mala num braço, um livro na outra mão. Senta-se e cumprimenta quem está à volta. O cabelo está sossegado, mas nunca impossível de mexer um ou mais centímetros. Ameaça viajar sem sair dali. Sorri para o empregado, e fala baixo. Esboça um sorriso enquanto pega no livro e abre na página assinalada. Não usa separador, as páginas estão marcadas. Imagino-as cheias de letras, tais os apontamentos que surgem das passagens relevantes. O livro sobre a mesa de madeira, a mão direita comanda a passagem das páginas, a mão esquerda brinca com o rosto. Chega a bebida e faz uma pausa. Agradece ao empregado. Toma um pouco da bebida e volta à leitura. Eu continuo à espera, que teimo em ser pontual. A vista é soberba, a esplanada que irrompe pela piscina que, por sua vez, faz pensar que se nos deixarmos ir, vamos precipitar-nos pelo verde adentro. Finalmente, chega quem eu aguardava. Tomamos algo e conversámos. Disse-lhe, outra vez, para largar o tabaco. Que vício pernicioso, meu bom amigo. Retorquiu, usando dos factos: Não sei ser outra coisa. Já sabes disso. Só vivo para ter o prazer de viver todos os vícios. Aceito, disse-lhe. Contudo, só até ao dia em que chegues ao desprazer. Adiamos, pois a filosofia, sem ter hora marcada, tem exigências tamanhas. Na mesma mesa, logo depois da nossa, continua a jovem. Agora acompanhada por uma senhora, que chegou de chapéu e daí para a frente, conversaram e riram juntas. E tem nome, a jovem do livro rabiscado, Maria Francisca.

30.4.15

De Londres, com saudade.

Foi assim que terminou a mensagem que me chegou ontem ao e-mail. Vem de lá uma parte da saudade, que a vou tendo dispersa. Feita em pedaços, numa Europa altiva, numa Europa romântica, num ou noutro continente. Nova Iorque tem trejeitos e não guarda, hoje em dia, nenhuma fonte de saudade. Mas guardo-lhe alguma curiosidade. De Londres, vem uma amizade antiga, num táxi bonito, de saltos altos e maquilhagem irrepreensível. Enquanto, de maçã na mão, escreve sobre a distância. Relata, sem sossegar, o que ganhou depois de se mudar. Também perdeu e escreve sobre isso com a mesma dignidade. Misturada com a serenidade. Embora, as palavras escritas possam enganar, porque perdem a identidade da voz e do tom do interlocutor, vamo-nos lendo em sintonia. Há uns anos emprestaram-me um livro. A capa era dura, tão forte e pisada pelo tempo. Não consigo perceber se estava numa ou noutra fase. Mas não esqueci. Quem mo emprestou fez bastante questão. Leva-o, toma-lhe as conversas quase inexistentes e guarda o texto corrido e as descrições. As descrições, essas sim. Moldavam, propositadamente, toda a história. Bem sei, adiei até não mais conseguir, o dia em que trouxe o livro para casa. Leva-o, desta vez, leva-o. Vais atentar a intelectualidade e questionar a espiritualidade. Lê com calma, dedica-lhe tempo. Fiz como pedido. Lembro-me que no exacto momento em que cheguei à última página, lhe devolvi uma mensagem. Citação breve, um pensamento mais demorado. Que não é novidade, tenho tendência a ser longo na prosa. Quem mo emprestou, a amiga brava que conversa de Londres, respondeu-me. Muitos elogios e todos fundamentados pelo poder de argumentação. Conversamos imenso, escrevemos ainda mais. Daqui, com saudade.

25.11.14

Parecer de um desprovido.

Sonho com o dia em que a sala de leitura se transforma numa biblioteca digna. Forrada a livros devidamente identificados. Guardar-se-á, num compartimento as revistas que colecciono. Muitas de música. Outras tão genéricas. Mas sempre de proveitosas matérias. Grandes capas e elogiosos recheios. Em alguma parte desta casa estão revistas. Capas que vislumbrei e jamais lhes li o conteúdo. Outras que espreitei, por me cruzar com elas sobre a banqueta e a mesa de apoio. A Elle, a Vogue ou a Vanity Fair deixadas por entendidas da moda. Nesta casa, algures numa gaveta de recordações, estão revistas de nicho. A moda é um exemplo, porque as abandonaram por cá. Não sei, sinceramente, se algum dia a minha mãe lhes pousou a vista. Nesta casa, onde a minha cadela é rainha, lê-se sem preconceitos. Entendem-se as comadres e os compadres.

24.11.14

Algures num sumptuoso lar.

Não me canso de gabar a sala de pé direito alto e elegante, o soalho de madeira pesado que não deixa a desejar. As portadas largas, brancas como a decoração. Os vidros, no fim-de-semana de Novembro a findar, ganham pingas a desenhar. A rua fica lá em baixo, como se fosse a terra a definir. E gosto de ler, mas escolho o sossego. Não é o caso. Agora, servem-se cafés e infusões. Não é chá porque vem em latas reinventadas. Biscoitos e scones da padaria que agora é costume. É um desenrolar de conversas sem fim. Sartre é tema em cima da mesa. Opiniões que não se medem na informação vazia que percorre o mundo de circunstância. Antes dele, falámos de Carla Bruni, recordações do seu tema “Tu es ma came”. Logo alguém se lembrou da letra e a cantarolou. Mais depressa correram ao vídeo online e a saudade voltou. Fazemos da informação e da canção o que delas nos aprouver. Caso não resulte, problema resolvido. Compras mais infusões cuja marca nacional os reinventa e oferece novos sabores. Serves, por fim, de bandeja com os sonhos e os dissabores.

18.11.14

A ordem como as pessoas e os objectos estão distribuídos.

O casario corrido deixa margem e desafia a curiosidade de imaginar o que se faz e como se vive de cada porta para dentro. É uma rua de elegantes entradas. De nomes que fazem os restaurantes e uma ou outra loja. A esta hora, jamais se vêem pessoas a procurar sonhos em cada montra decorada. Do contemporâneo ao barroco ou ao renascimento. Estilos pouco disciplinados no tempo, inverso do estilo que procura esta rua. As portas coloridas chamam a atenção, nesta rua não é excepção. Depois de recebidos, nada senão um lanço de escadas de madeira que responde a cada passada. Descemo-las e logo se fez festa de luz e o bom gosto de uma sala composta. Mesas baixas, a luz certa, o ambiente definido. A surpresa de quem gosta de evoluir nas sugestões. É a comida da moda, amor de exclusividade, recusa de quem não entra na roda. Servem-nos sushi sobre a tábua. É um jogo de damas, por delas me lembrar quando lhes conheço a disposição. Ou xadrez, se alguma vez me tivesse feito entendido. Os lugares definidos, feita a jogatana a que nos havíamos proposto, invertemos o caminho. Sob a noite iluminada, não me lembrava de outra coisa que não fosse o próximo livro que vou comprar. A elegância de espírito sobrepor-se-á, por demais e para sempre, ao delicado saber dispor e compor o lugar.

17.9.14

Apontamentos de outros tempos.

Lembro-me de ler, ainda petiz, algures num livro de desfasada atenção para a tenra idade, que o amor era pertença dos adultos, por serem precisas armas para o fortalecer e, acima de tudo, entender. O autor havia de ser lido por um número sem fim de fiéis a este sentimento.  Afinal, é conversa de quem se assume um perdido nesta arte. Dos outros também se ouve, muda a postura, passa a inquiridor. Falar sobre o amor é sobrenatural. Todavia, fala-se de amor em cada canto. Persistindo, contudo, que o amor seja um desenrolar de audições mal conseguidas. Se partirmos do ponto primeiro. Pode, por seu turno, ser a mais proveitosa e fiel audição. O descarrilamento vem depois. Escrevo sobre isto depois de falar com um amigo. E de ouvir relatos de uma amiga. Ele, feliz numa audição que muitos ditaram amaldiçoada. Ela, nos escombros de uma relação que prometia o melhor dos desfechos. Falar de amor não cansa, só pode ser essa a justificação. Porque não cansa discutir a humanidade, os seus inevitáveis destinos e os sinais do que lhe é intrínseco. Aos dois, a maior e melhor das sortes. Atenção, não escrevas tudo o que lês. Ou vês.

28.8.14

Em diferido. #16

O verde alface, quase um ano volvido - Do tilintar da campainha, surge a rigor o homem que carrega o correio. De porta em porta. De rua em rua. De estação em estação. Carrega-o envolto. Prenhe de notícias. Procura os números e moradas. Os que ainda não reconhece. Entrega-o. É o fim. Do que lhe compete. Na caixa do correio de casa, protegida da chuva que, ora carrega, ora alivia. Guarda uma encomenda. O remetente é simpatia, amizade. Também é educação de primeira e intelectualidade sem esforço. É o compromisso de não esquecer, mesmo que a distância leve a melhor. Os notebook são uma referência. São o esquecer fingir. São memórias riscadas. Assinaladas. Assinadas. Embrulhado, estava um. Vizinho do livro que guarda apontamentos, estava um envelope, verde alface. Dentro, palavras sinceras e causadas da saudade. Termina com um cumprimento pejado de afecto. Sem peças do maquinismo. Cativado. E grato.

5.5.14

Sem alteração inesperada.

Não é novidade. Acredito nas viagens que fazemos com as marcas da alma, conduzidos por uma qualquer criatividade quente e palpitante no desejo de nunca escassear e pelo convite de um indutor simples. Gosto de livros. Gosto bastante de livros. Gosto, talvez numa luta de proximidade, de ver para lá do instinto. De observar e olhar o que se faz à minha volta. Aprecio reparar na arquitectura particular, de tomar atenção nas construções banais ou de ficar a recordar dos prédios em desfeito abandono. Uma parte dos meus amigos, não negam, gostam de parar para ver passar. Não sei se é opinião de muitos. Mas, a nós, faz-nos felizes. Sossegar e relatar, em silêncio, as palavras que criamos em resposta às imagens sucessivas. Nunca pára. Há de modo infindável, movimento. As pessoas que passam, a quem lhes desenhamos traços de personalidade. As janelas que escondem vidas. Tudo. No entanto, volto sempre aos livros. Gabo sempre as bibliotecas. Tenho-me distanciado, por negligência. Volto às palavras escritas, quietas. Daquelas que dá para partilhar vezes sem conta. Não ficam, somente, em nós. Devemos sempre regressar-lhes e partilhar. Uma das imagens que guardo junta o livro, as pessoas e a pausa para ver. O cenário é limpo. Claro nos tons, requintado na decoração. Duas poltronas e escolhemos o sofá do lado, que nos recebe bem mais juntos. Segurando o livro, segredávamos a história. A experiência de partilhar um livro. Não é novidade que junta pessoas.

24.3.14

Aumentar a parada.

Olha, senta-te aí. Ficamos a olhar. Senta-te no passeio, sobreposto. Deixas, sem medo, os pés a marcar a estrada. Afagas a máquina fotográfica no colo. Aqueces-te com o cachecol, as luvas e o sobretudo. Atinas a vista, fugindo do sol invernoso, com os óculos de sol. Do lado de lá está uma montra pejada de livros. Carregada de títulos. Sobrecarregada de quadros na parede. Acumulando memórias. Vamos namorá-la antes de entrar. Aprecio convites súbitos. Aceito, claro. Temos tempo.

21.3.14

Chamemos-lhe tudo, menos Felicidade.

A escadaria do metro que antecede uma das zonas mais movimentadas da capital é, a par de outras estações, um requinte de troca de olhares, uma mistura de tropeços que se esquecem e falham por ali. É um contacto de voltas directas com as múltiplas culturas que, felizmente, vamos encontrando. A Felicidade, que não gosta, nem na intimidade, do seu nome, compensa no corpo, nos actos finos e tresloucados, se preciso em simultâneo, e nas palavras tortas. Veste-se como quer, não é oferecida, contudo é bastante ostensiva. É sedutora porque, como tantas vezes lhe sai boca fora sem pensar, o corpo é dela, desenha-o e esculpe-o ao seu jeito e feitio. Adorna-o como quer. Quanto às tatuagens, que as sabe de cor e salteado, mente quando lhe perguntam quantas são. Diz-lhes que não sabe. Mas faz a perfeita ideia. São treze. Propositadamente treze. Todas feitas na razão do pião que é a sua criatividade. Os sentimentos são anos que cessam a razão de cada uma. E torna a calhar-lhe na triste sorte quotidiana, voltar a passar pela estação de metro de todos os dias. Leva na mão direita uma mala grande e um livro. É Tolstoi. Tem um ar gasto e sedutor. Pergunto-me porquê Tolstoi. Ninguém é de ninguém. Nem as afinidades e os interesses. Não lhe perguntei. Ela seguiu doce e atrevida, como o passado que carimba com a sua passagem. Subindo a escadaria. A tatuagem maior a olhar para trás.

19.2.14

Também os temos.

A banda sonora vale sempre o que vale. O que eu escolheria ouvir em modo repetido até à agonia, para outros fará parte do top que compõe a vetada listagem de guilty pleasures. Vale, a sério que vale, sempre o que vale. Mas, arriscaria escolher um tema para, uma vez mais e, repetidamente, não parar de tocar, lá ao fundo. Enquanto os dois, absortos, falávamos de livros. De histórias de amor, de sexo bruto, de escrita que se suporta em factos históricos. Também nos livros, os guilty pleasures têm espaço. Não estamos de acordo em tudo. Felizmente. Ela gosta, entre outros estilos, de romances que aconchegam, por mais que não encerrem nada. Eu prefiro outras leituras. Concordamos, depois, noutros aspectos. Tão mais relevantes. E são pormenores. Valem o que lhes quisermos ofertar de valor. Prefiro ouvi-la argumentar. Não tem valor. Acreditem, não tem.

29.1.14

O verde alface.

Do tilintar da campainha, surge a rigor o homem que carrega o correio. De porta em porta. De rua em rua. De estação em estação. Carrega-o envolto. Prenhe de notícias. Procura os números e moradas. Os que ainda não reconhece. Entrega-o. É o fim. Do que lhe compete. Na caixa do correio de casa, protegida da chuva que, ora carrega, ora alivia. Guarda uma encomenda. O remetente é simpatia, amizade. Também é educação de primeira e intelectualidade sem esforço. É o compromisso de não esquecer, mesmo que a distância leve a melhor. Os notebook são uma referência. São o esquecer fingir. São memórias riscadas. Assinaladas. Assinadas. Embrulhado, estava um. Vizinho do livro que guarda apontamentos, estava um envelope, verde alface. Dentro, palavras sinceras e causadas da saudade. Termina com um cumprimento pejado de afecto. Sem peças do maquinismo. Cativado. E grato.

7.1.14

Despedi-me do teu corpo.

Horroriza-me que o meu país seja paupérrimo, também, e sobretudo, no que concerne à cultura. Não a permitem democratizada. Não se incita o sentido estético. Não se convida o português correcto. Por ausência de conhecimento, caricatura-se o que apelidam de ridículo. Não se vê cinema português, quando ele acontece. O teatro é, demasiadas vezes, o parente pobre. Os bailarinos mostram e atestam talento lá fora. Os artistas, plásticos ou outros, fazem nome e ganham estatuto nas grandes montras do mundo. A música, quando de autor, não é ouvida. Os museus perdem-se, por não serem primeira ou, tão pouco, segunda opção. Os livros não são um hábito, o preço não convida todos. Tanto, mas tanto que se perde por obra de macérrimos pensamentos e irrisórios orçamentos. É caso para sugerir que nos levem tudo, tudo aquilo que quiserem. Não procurem, mais tarde, as vanguardistas soluções, tão vistosas e infalíveis, porque ficamos nos primórdios da ignorância. Quando nos faltam as bases da arquitectura evolutiva de uma sociedade, esgotamo-nos, facilmente, nos actos e conceitos banais. Perdoem-me, mas gosto do cheiro, do toque e do desenho de um livro, do som de um disco a tocar num leitor, até de um bilhete guardando memórias. Enche-me de entusiasmo ver representar sobre as tábuas de um palco. Estamos pobres, porque estamos. Sabemo-lo de cor, tal a realidade. Mas privamo-nos do essencial. Não se riam porque não conhecem e, assim, vos faltam argumentos. Avancem uma virtuosa palavra. O léxico também nos importa. A saque, mas imperativos e assertivos, assim nos cultivemos.

21.11.13

Idiotas que escrevem.

Convidaram-me a escrever. Disseram-me que devia escrever um livro. Um romance com um final funesto. Agrada-me a melancolia do preto e branco. Apraz-me a musculatura de uma história enviesada no ermo da comoção. Garantem-me, seria uma opção distinta para mim. Assunto que afastei, dizendo que adoro escrever, mas assisto-me sempre aquém. Ao que me responderam: “Isso é treta. Depois de começares a coisa compõe-se. A sério, há tantos idiotas a escreverem best sellers. Tu, se assim entenderes, podes ser o próximo a sustentar o oposto”.

19.11.13

Os meus livros.

Desconheço, na verdade mais íntima, os livros que tenho. Não os sei em números. Passam para lá do óbvio, vão mais longe do que o que existe em diminuta vontade. Das estantes revestindo as paredes mascaradas de papel de parede ou iludidas de uma qualquer cor. Estão por aí, grande parte deles. Outros estão tolerando-se uns sobre os outros. Imagino, fabulando, numa tentativa perdida de tratar o impossível com domínio, as histórias e as personagens cruzando-se, dando origem, todas elas, a uma mixórdia de um mundo louco e adulterado pela imbecil lembrança de os ligar. Pela minha, feliz ou infeliz, ideia de os aglomerar. A memória não me quebra as recordações, quando assisto, de imediato, à minha infância recheada de livros. Foi o meu pai quem mos comprou. Quase todos. Dava-mos de diferentes temas. As capas, mais ou menos, apelativas. Umas duras, as outras de fortes títulos. Os textos, a cada ano passando, a tomarem temas e formas de escrita mais entusiasmantes. Sempre os achou relevantes. Muito. Herdei-lhe, desta forma, a vontade sôfrega de ler. De despender horas a ler, horas a convencer-me do que relatam escrevendo. O meu pai acredita nisso. Ainda hoje. Eu também, desde tenra idade. Desde que soube, pela sua mão, o que era um livro. Desde que percebi que um livro é uma companhia inequívoca. Das que se passam de pai para filho.

5.11.13

Ser ou não ser.

Fintei a insónia com um romance histórico de uma conhecida autora nacional. Estou snobe q.b. Agora, deixem-me ficar as pratas, não me levem os quadros. E, mais importante, deixem-me os óculos graduados no lugar certo. Não me lixem, os leitores regulares usam óculos, mais não seja para não cansarem a vista. Ah! Não partam nada. A minha empregada não tem seguro contra todos os riscos. Cortes.