Acabo
de receber um vídeo e dois pedaços com som. Remonta às idas para o Algarve
diferente. Afastado das massas. Preservado pelos amantes daquele lugar,
daquelas bandas. Com direito a praias de mar revolto e caminhos íngremes.
Gentes da terra com o sotaque fresco e pronto a soltar o verbo. O rádio do
carro solta as mais diversificadas canções. Sem incomodar ou impedir de cantar.
As casas seguidas, poucas e quase na boca do mar, de branco imaculado, com o
verde e o azul a fazer as vezes de adorno. Também pintadas de cores diversas e
garridas. Sem esquecer o amarelo que passou da cozedura ou o rosa velho, os
pequenos jardins logo à entrada ou as pedras na parede desenhadas. O verde a
manter a postura, sem mazelas graúdas. O ar que inalamos é superior e tem um jeitinho
sem igual. Os surfistas tomam as ganas das ondas que não perdem o génio. Os
lugares, pequenos e familiares, que oferecem tempo e sossego. As pequenas
mercearias que servem as necessidades da população, que matam o tempo a todos e
a cada um, inclusivamente. O jardim, cujo cenário vive de dois ou três bancos
feitos de ripas de madeira, alguns arbustos a envolver e flores com cor de
primavera. As velhotas e os velhotes numa tertúlia quase silenciosa. Dão os
bons dias, desejam uma boa tarde e só falta a noite feliz. Aí, já no resguardo
do lar. Os restaurantes primam pelos pratos da região, nunca falta o peixe
fresco. O cenário é atrevido e peculiar, convida à conversa demorada, às
partilhas de pele com pele e às indefinidas fotografias. E, claro, sem esquecer
as largas memórias que nos traz. Recebi, há escassos minutos, a certeza de que
vamos voltar. As imagens de outros dias, tremendamente bem embrulhadas, feitas
convite. Tenho saudades. Temos saudades. Tomo com elas a certeza de que há
sempre mais. Há ir e voltar. As vezes que entender. As vezes que nos receber.
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13.4.17
13.10.15
Homem muito sabedor.
Ao
fundo, no canto da sala, um velho homem toca piano. Brinca com as negras, com as
claras. Veste ganga da cabeça aos pés. Tem barba acinzentada, o tom do cabelo.
Calça umas botas grossas e castanhas. O pulso direito guarda umas pulseiras. O
som é sossegado mas em nada displicente. Tem dom na carne e no espírito. Os
espelhos à sua volta compõem o cenário, como se fosse um ensaio constante. Ao
redor, outros aparelhos, ninguém lhes chega perto. O soalho de madeira, uma
carpete digna. Fisicamente, o espectáculo não perde um soluço. As mãos, ainda
as vejo a percorrer cada tecla. A exigente passada do talento. Um encontro do
dito com o feito, um encontro de vontades, o velho homem sabedor e o piano de
cauda ansioso. Um resumo erudito de elegantes partilhas. Chega o silêncio para,
logo depois, entrar impetuosamente uma nova melodia. O som é, nesta fase,
robusto, igualmente expressivo. Do tecto, nasce um grande candeeiro com braços
sem fim. A luz perfeita. Quem assiste, aproxima-se, e opta, intuitivamente, por
sobrestar a respiração. Os pequenos espectadores sentaram-se junto ao homem
velho e ao piano e olhavam, olhavam com encanto. Outra vez o silêncio e a
coragem ofereceu-lhes, ao talentoso homem e ao afinado piano, um aplauso
demorado. O artista levanta os braços, acena com as duas mãos, e desta forma
agradece. Gostei de vos sentir, ao invés de ouvir, rematou. Apreciar arte e os
autores é, muitas vezes, dar-lhes o fundo que merecem. Em tempo algum, é o
espaço. Sempre os preceitos de quem sabe.
2.4.15
Contribuição para um dueto de grande rapsódia.
No
escritório do terceiro piso daquele afamado prédio de negócios variados, está
uma secretária. Melhor, está uma mulher que se dá pelo ofício de secretariar.
Quem dela precise. Digo. Maldade a minha. Ela ginga a anca marcada pela saia subida,
desenhando-lhe o corpo elegante. Calça, em cada pé, uns saltos altos negros e
afiados, que ajudam a suportar as nádegas firmes. Coloca, quando lhe apetece,
uns óculos que, hoje em dia, facilmente apelidamos de vintage. Assim é o seu desenho. Ela passeia-se pelas secretárias e
divisões seguintes, enquanto ajeita o decote avantajado. Segura folhas numa
mão, uma caneta na outra. E, por ali anda. Gingando o corpo. Inevitavelmente,
chama as atenções para si. O cabelo é negro e revoltado pelos assanhados
caracóis. Tem batom nos lábios. Sorri facilmente. É uma mulher que se conhece e
sabe agir. É uma peça do puzzle, daquele puzzle que é um prédio ligado por
escritórios. No fim do expediente, desliga o que lhe compete, chama o elevador,
desce. Passa a porta e assume a postura que agora lhe é exigida. Não sei qual é
o seu pensamento, mas nota-se a diferença. Opõem-se as posturas.
Propositadamente, talvez. Não importa. Não conhecemos alguém, homem ou mulher,
pelo seu gingar. Parece-me tão redutor como dispensar um champanhe pela embalagem.
16.3.15
Enredo com tendência para novela.
Vizinha
travessa em meio pequeno é como a marquise isolada na fachada de um prédio.
Podes não viver ali, não conhecer os rostos, os nomes, as profissões, os feitios
e as rotinas, mas não deixas de tirar a pinta ao habitante daquele andar.
Passa-te informação, não poucas vezes, em excesso. Não te interessa.
Importava-te a arquitectura alinhada. Há um antes e depois. O que outrora havia
sido paisagem construída, virou uma espécie de Tetris de mau gosto. Num lugar
que não será aldeia, chega a vizinha de todos. O cabelo acinzentado, curto e
zangado com o mundo. A bata axadrezada e as mãos nos bolsos da dita. Postura
rija, mas sorriso nos lábios. Vem na nossa direcção. Mexe os ombros enquanto
nos fisga o olhar, como quem pergunta, afinal, o que fazemos ali. Há fama de
lugar falhado. Como se fosse assim, tão fácil como a coerência. Dirigimo-nos a
ela e perguntamos indicações. Não conhece, por isso não tinha como ajudar.
Contudo, manteve assunto. - Esses não conheço, mas a fulana tal mora ali à
frente. É a mãe de três, avó de duas. Amantizou-se com o Carlos, depois de
divorciar-se do Manuel. Agora leva o Carlos, filho da Ti B, lá para casa. Mas
vão lá, batam no postigo, que ela atende. E sabe de tudo e de todos, não é como
eu que não saio daqui. Vão lá. – Enfim, não era ali. E resumi. Seguimos
caminho. Mas ficamos a saber da rotina alheia. Passamos pelo postigo, é verdade.
Mas não nos atrevemos a incomodar. Talvez, porque já sabíamos a história
daquela gente. Superficialmente, é certo. Ainda assim, sabíamo-la. Vizinha
marota esta, que não sabe. Não sabe guardar.
23.10.14
Nomes ao vento.
A
vida, se não induzida pelo espicaçar de gostar de observar, não foge da rotina.
De fotografar o ambiente que tem raça. A fotografia que não vai de encontro com
a comodidade de viver naquele número, naquela porta e rua concretas. Desviar um
segundo da monotonia, conhecer o passeio de outras bandas. As costas quase nuas
daquele corpo sobem e descem a rua com o prazer de quem escolheu na noite
anterior. A farpela, o trajecto repetido, a ausência de vergonha, a vontade de ser
e permanecer como é. Não é rapariga de evitar, temendo que nunca resulte. Que
fuja do certo. Faz a cara da moda, mudou as pontas do cabelo longo. É discreta
na conversa. Não quer saber de vós. De nós, se mesmo visita, me juntar ao
camarote. Não chama a atenção para o relato da vida que nunca será igual, como
o trajecto que volta e repete. Do chão nasce o seu estilo que tem ginga. As
costas um tanto despidas daquele corpo descem e sobem a rua. Parece-me, do que
nos deixa ver, com a verdade e consolo de quem jamais se importa com os ruídos
das muitas vozes que se juntam à esquina. É, também disto, que se fazem os
lugares típicos. Tão castiços. O bairro ali tão perto. Não lhe conheço o nome. Todavia,
quem me acompanhava chamou-lhe Carmo.
4.9.14
Estado do espírito.
Numa
zona de tempos remexidos, pano de fundo de uma cidade que perdeu figuras, conta
a história. Lembramos desgoverno de gente, assim se fez a tentação de marcar.
Atirar. Hoje, tem outro convite. Por estes dias, volta a ser tela. De movimento
exposto nas paredes. De pessoas que regressam ao encontro de ver passar. As
idades não têm exclusividade. Os lugares não têm obrigação de coerência. Guardam,
se quisermos, a memória da ocorrência. As cabeças seguem as imagens. Começa o
espectáculo com data marcada. Dinamizam-se as noites. No entretanto, faz-se
silêncio. A rua é palco. Mesmo que a tela não seja a arquitectura datada. Ainda
que, mesmo por ela passando, não se lhe perceba a desenvoltura e dedicação. Se
possível, é voltar atrás e ver de novo.
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20.8.14
Sensibilidade no lugar certo.
O
fundo é tão verão como um fim de tarde ventoso, uma maré agitada ao fundo, o
sol a espreitar e a espalhar pequenos espelhos pela água, o casario pintado de
cores vivas e diferentes. Aquela gargalhada, se quisermos uma valente risada,
enquanto as duas mãos se juntam e esboçam, tanto quanto lhe é possível, um
coração. A maldade do tempo é que, se procrastinarmos, ele fia-se no nosso
balanço desassossegado e ajuda-nos a perder vontades. Ela nunca percebeu a
necessidade de devolver às mãos, um coração. Seja amostra do carinho e tentação
palpitante do seu coração, seja a pretensão de que o de alguém, ali ou
distante, lhe pouse, vaidoso, entre os dedos. A risada era tão sonora e descia
pelo corpo que respondia com movimentos que mostram incapacidade de resistir.
Desmanchou-se, sem remédio, o coração inventado. Lamentava-se, entre risos e o
desajusto do corpo, nunca ter feito uma fotografia com o coração nas mãos.
Cruzou os braços e posou, desencontradas, as mãos. Uma em cada ombro. Já está.
Uma fotografia. Um coração no lugar certo. Vai continuar, felizmente, sem viver
com o objecto do afecto nas mãos.
24.1.14
O sol (já) brilha.
Numa
qualquer ruela de cidade distante, apequenada no terreno, bebericada de
mexericos, rica em tradições e gente genuína de rumores opinados, de gente que
trabalha as terras, quando não lhes roubam os terrenos e as enxadas. O verde
que refulgia a direito, esconde o abandono pervertido. Sob um sol que se impõe,
mas não aquece. Nessa ruela, bastam quatro cadeiras e duas mesas de esplanada jogadas,
rústicas e desajustadas, acomodadas à porta corrida de uma casa que já fora
conhecida como o retiro espiritual de senhores de bem que, em casa e causa
próprias, deixavam as legítimas, as esposas. Por ali, para lá da porta apagada
com marcas do tempo, fumavam-se cigarros e charutos. Baixavam-se calças, caídas
sobre botas rudes e subiam-se saias plissadas enquanto o decote ganhava emoção.
Bebiam-se vinhos e águas que ardem ao cair. A escadaria, depois do balcão maciço,
convidava a um outro nível. Dizem, escutavam-se barulhos vários. Arrastavam-se.
Hoje, que o sol brilha e bate neste prédio alto de janelas relevantes, que o
devolve sem problemas de consciência, à porta está uma mulher com perto de
trinta e seis anos, arrisco eu. Cabelo corrido e pouco escovado, as mãos
escondidas nas algibeiras de um casaco quente. O rosto cansado e um sorriso
tímido. Dois dedos de conversa e contou-me o que, durante décadas, por ali
aconteceu. O sol fugia, nesses anos. Pedi para a fotografar, envolvida pelo
prédio que me convidou a atenção. Sorriu, envergonhada. “Só se não sair daí”, da minha máquina, entenda-se. E não vai sair,
garanti-lhe. Pausei, entre a conversa buliçosa, para tomar um café. No final, a
mulher que toma conta, contou-me que, em tempos, naquela rua sobressaía bem
mais a chuva, a chuva de quem chora sem tempo. Do que o sol, que perdia. Choravam
sempre as mesmas. As que ficavam para dentro das portas, debaixo de corpos
grosseiros e as que, à porta, esperavam os mesmos corpos.
12.11.13
As fontes das nossas cidades.
Cidade
é gente. A criatividade aguça a moderna actualidade. Das pessoas e dos lugares.
As pequenas cidades, assim conhecidas, guardando o passado e, recusando, a cada
momento, o rotulo de ultrapassadas e paupérrimas, fazem-se novas, jovens e
dinâmicas. Quando as vontades cimeiras, os cofres e as gentes se fazem
empreendedoras. Quando, não se esquecem que, cosmopolita e na moda pode ser o
que entendermos. Quando não têm as lojas das marcas sobejamente visitadas e
comentadas, número sim, número sim. Mesmo quando o centro histórico é pouco
dinâmico. Quando as grandes discotecas e bares da moda são tomados pelos salões
de baile e pelos bares escuros, onde se batem copos de vidro baços e se canta
karaoke alegremente. As linhas de metro cedem e, encurta-se a distância com
sete ou oito linhas de autocarros, de cores vivas, cujo nome é para lá de
imaginativo. Quando os hipermercados atrofiam as pequenas mercearias e estão a
cada esquina. Muda apenas o nome. A pressa no andar, cabisbaixos, talvez, seja
o que mais se assemelha. Os teatros, nas cidades descentralizadas, são
esquecidos de receber peças de teatro. Os grandes nomes da música que ganham
rotina no top de vendas, surgem de longe a longe, quando assim é. Os sotaques
não esmorecem. As avenidas são pequenas. Vale-lhes a música a soar dos rádios
do carro. As rotundas aparecem sempre. E calemo-nos. Porque, cidade grande ou
pequena, os interesses enviesam e toldam as acções. Quando as gentes não se
fazem valer e não se cultivam, não importa o nome, a área, o número de
habitantes nem, tão pouco, a vida cultural. Centremo-nos, à priori, na
construção de cada um. Eduquemo-nos. Sempre. Para fazermos da nossa ou da
cidade que nos recebe, um centro de cultura e educação, onde de pequena e vazia,
nem a fonte que tem nome de poeta.
17.8.13
Uma provida vila. Uma herança.
A
aldeia que deu lugar a vila manteve-se, a olho nu, intacta. Tal e qual a
conhecemos. Sem pretensões irreais e desmedidas. Eu, real desprovido, até de
memória, havia esquecido que a aldeia de sempre, afinal, se tornara vila. Sabia-o
tão bem. Contudo, durante a mais ou menos entusiasmada escrita, do lugar que
adoro, fugiu-me, vezes sem conta, a memória, nem sempre ausente, daquele lugar,
em tempos, aldeia. Agora uma bonita e portentosa vila. Na verdade, os lugares,
tal como as pessoas, quando evoluem, quando mudam de condição, podem, não raras
vezes, manter-se intactas, fiéis e verdadeiras. Admiro, sempre, essa capacidade
de evolução sem mutação. Ali, onde estive todo o dia, respirei fundo, tantas
vezes quantas possíveis. E senti que, não sendo nunca o meu lar, há heranças
que nos chegam. Que nos chegam, antes mesmo, de nós chegarmos.
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