Consigo
rir-me vezes sem conta com e pela minha mãe. Por isso, é sempre uma excelente
companhia. Com o seu jeito quase desmanchado, um tanto contrastante com a
educação e a época que guardou. Tanto mais, quando comparada com a dureza da
sua mãe, minha avó. É de riso e trato fáceis e isso, parece-me, ajuda. Acredito,
é uma boa bengala para a condução dos dias e das expectativas. Talvez por isso
tenha a palavra sempre à espreita, sem esperar, tão sôfrega a vontade de
palrear. Sem escolher o parceiro do diálogo ou desmentir a importância de cada
um. Capaz de aturdir com os pensamentos mais desconcertantes, contudo, inócuos.
O seu telemóvel tem uma vida autónoma. Faz a sua própria gestão. Não pergunta
por nada. Some-se o som, toca largos segundos e não emerge da mala sem fundo. A
carteira menor, idem. Corre o mundo – felizmente reduzido às quatro paredes de
casa - sem que dê por isso. Tem a letra mais bonita que já vi. Gostava de ler
uma novela verdadeira saída das suas mãos. Um deleite, consigo imaginar. Deixa
fugir todas as vezes que é amanhã que faz dieta. E sei, é a sua forma de largar
no vazio dos dias o peso da consciência. Da minha mãe não herdei os olhos
esverdeados. Perderam-se as vastas oportunidades que os olhos claros trazem à
vida de cada um, como bem sabemos. Assim, na retaguarda, consigo adivinhá-los.
Todos e em cada molde. Cabe a brincadeira nestas verdades. A minha mãe não me
deixou os bonitos olhos de herança. Teceu outros e mais apurados aconchegos.
Ensinamentos e conselhos. Sou, ora bem, para além de uma ovelha com ares de
ronhosa, um desditoso filho. Saí da forma e fiz-me gente sob a persistente e
incessante mão cuidadora. Volta sempre a passar a mão pelo meu rosto, com a
barba por aparar, e a beijar-me sem aviso. Sem antes, claro, lembrar que já não
trocamos beijos como antigamente. É a queixa que não perde validade. É isso e
os abraços demorados. Lá fora, entre o jardim do pai, as flores que avó teima
em cuidar e o eterno banco. Ao sol, com cheiro a primavera e o sabor de todo o
ano. Com uns olhos vivos e bonitos numa moldura especial.
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8.5.17
23.2.17
Flor brava e fervorosa.
Venho,
por estes dias, lembrando a velha Rosa. A tia, tão saudosa. Não tem
justificação. Algo ou alguém serviu de mote, mas não encontro um só norte. Como
se a morte, a ausência e a saudade precisassem de regulamento. A minha mãe
guarda lembranças gratas e sem fim desta mulher. É infindável a necessidade de
acolher que a minha mãe suporta, tratando-se de um familiar ou não. Agarrei-lhe,
por isso, o gosto pelo outro, a dedicação mesmo à distância. Tomei as memórias desta
tia e fi-las minhas. Lembro sempre a tia Rosa. Bonacheirona, o cabelo tão
branco, o rosto sedoso, sem medo das palavras, a silhueta dilatada, de riso
fácil e audível – nesta característica é impossível não encontrar a minha mãe.
Pensar nesta mulher é aludir à natureza, ao campo largo, à vista que não se
quer tacanha, ao amor à vida e à verdade dos dias. Imagino-a, catraia, pela
serra descalça, entre o verde típico, o castanho vivo e os realces da flora.
Dizem-me que fora sempre desordenada, firme, de espírito livre e dona do seu
corpo. Com facilidade, dizem-me que fora sempre um bicho fora de época. Vivia
depois do tempo, para lá do que os olhos dos outros ainda não viam e da
ignorância que não dormia. Não tenho pena desta mulher. Rosa, antes de ser tia
ou mãe, foi vida. Real e sentida. Mulher convicta, desde o pé descalço à psique
desenvolvida. Recordar a nossa gente é fortalecer. Não lhe deixo pena, fico-me
pela saudade, que essa, tal como ela, é eterna.
16.4.15
Afeição e simpatia recíprocas.
A
minha mãe pede-me um beijo, com a sensibilidade desmedida, nada forçada. De
quem acusa alguma saudade e não esquece os momentos idos, em que beijar o filho
petiz, resumia-se, somente, a uma opção: fazê-lo sempre. Saudades de mãe. Contudo,
fá-lo ao jeito de quem pretende mostrá-la sem assumir. Adivinho-lhe alguns
pensamentos. Antecipo-lhe algumas palavras. Acontece, uma ou outra vez. Depois
da demora, avança que já não lhe chego com o mesmo tempo e a mesma
periodicidade. Uma espécie de filho em dívida permanente. Dei-lhe, por fim, o
beijo. Os beijos. Não sei como é que funciona, mas as mães têm uma condição
especial. Um caso tão particular de dedicação. Têm poderes sem fim, desconfio. As
mães têm amigas muito diferentes. A minha, pelo menos, fez assim. Tem amizades
díspares e antagónicas. Consegue sentar-se e tomar um chá em ameno e
sintonizado silêncio. Também sabe estar numa sala cheia e gargalhar sem qualquer
vergonha. Tem ainda a capacidade de conversar, tanto, sem fim. As amigas são um
complemento do estado. Do espírito que tem tons de diva saturada. Em cada um de
nós. Ontem, éramos para ir tomar café apenas os dois. Escrevo éramos
propositadamente. Pois, numa visita surpresa, surge uma amiga da minha mãe.
Acabou, claro, por nos acompanhar. Inevitavelmente, fiquei a ouvir-lhes as
memórias. Voltamos às questões de gerações diferentes. No nosso tempo, foi o
mote de grande parte da conversa. O tempo, afinal, acabou por voar. Esta amiga
da minha mãe, de cabelo armado e super dedicada à neta, cujo objectivo é
mantê-la nas aulas de música clássica, confessou, de mão a tapar a boca,
denunciando alguma vergonha, que adora kizomba e amava ver a neta a tocar e
cantar num baile de verão. A minha mãe soltou a gargalhada típica. Em havendo
talento e vontade, há que investir. Sempre achei os coretos um palco tão digno. Nada
nem ninguém é o que parece, até lhes tomarmos uma parte da verdade. O tempo faz
milagres. E tem armadura de comédia.
2.5.14
A classe de ser quem é.
Domingo
próximo é dia da mãe. Até lá, por razões várias, faltar-me-á espaço para parar
e pousar por aqui. Por estes dias, porque o sol e a moda assim o ditam, os
óculos de sol da minha mãe, de matriz vintage,
são uma das suas imagens de marca. São elegantes, tolerantes, mas atrevidos, ao
jeito de uma qualquer diva de cinema e pejados de identidade. Assemelham-se à
sua gargalhada fácil. À forma despretensiosa de viver o que lhe apetece e como
lhe serve de interesse. Contudo, é infinitamente dotada dos seus predicados.
Sabe gerir e gesticular opiniões. Perde-se quando a emoção toma de amarras a
razão. Não tem vocação para males maiores ou menores, contudo, vive-los sem
entender. Mas dispõe-se naturalmente para ajudar o outro. Não precisa que lhe
justifiquem, ajuda somente. Vocação é a palavra maior quando falamos da sua
posição de mãe. Fá-lo por e com amor, requinte, convicção e vocação, não tenho qualquer
espécie de dúvidas. Hipotecou um tanto da sua experiência e oportunidades, por
amor a uma família que havia de chegar. Vive um casamento por amor. Uma
família, desde sempre, tradicional. É atrevidamente doce e impulsiva no seu
linguajar. A gargalhada é conhecida e reconhecida pelos que lhe querem bem. É,
porventura, um ou mais passos à frente, no que à educação que recebeu à época diz
respeito. Não rasgou a tradição, mas rompeu com estigmas do itinerário
feminino. É feliz em tanto. Parte desse tanto, são os três filhos. Esta manhã,
ainda cedo, convidou-me para a acompanhar numa ida às compras. Numa loja fora
dos centros comerciais, próxima da avenida, que frequenta com alguma
regularidade. Pediu-me opinião como se fosse fundamental. Anui, mas não me
canso de lhe repetir que prefiro, sempre, vê-la ao seu gosto. Sorriu-me, como de
costume. Acabou por comprar a peça que recebeu o nosso consenso. Terminamos, de
óculos de sol pousados, os dela junto aos meus, a tomar o pequeno-almoço, como
noutras sextas-feiras. Felizes como sempre. A conversa nunca esgotamos. A minha
mãe é sempre mais do que parece. Sempre! Vou, no domingo, de viva voz
desejar-lhe o melhor dos dias e que se mantenha daí em diante. Um beijo, mãe.
Até já!
25.11.13
A minha mãe tem um envelope.
Sair,
para fazer compras, pode tornar-se enfadonho, uma verdadeira maçada. Não raras
vezes, faço-o com a minha mãe. Seja avenida acima, numa ou outra loja de nome
sonante, seja no comércio tradicional ou, irremediavelmente, num centro
comercial. Num dos passados fins-de-semana, fizemo-lo novamente. Assistimos,
como esperado, a um género de combalido desfile de fashion week. O bom gosto perde-se, totalmente diluído no nímio
desajuste da realidade. Acontece, quer na loja onde somos recebidos à entrada,
com todos os formalismos, como na loja de vestuário low cost. O dinheiro engana, mas não mente. Ignorando, a dada
altura, os exibicionismos do tempo
presente, que obriga à elevação dos egos. Voltamos à conversa. O propósito,
dizia-me ela, era comprar uma clutch envelope.
Algumas lojas depois, encontrou-a. Descobri que, envelopes, ultrapassam o
revestimento para as cartas. Espero-as de amor.
1.11.13
Juntos, dispensamos filtro e companhia.
Avisados
os afazeres, a sexta-feira que recebe para os mais crentes e de prezados
rituais anuais, o dia de todos os santos ou, para outros, o dia que sucede a tradicional
noite da corrida pelas casas vizinhas, pelos miúdos inspirados pelas conhecidas
e repetidas importações do que conhecem como noite das bruxas, recorrendo à não
menos importada expressão, traduzida então, como “doçura ou travessura”.
Vestidos rigorosamente à imagem do que lhes vêm mostrando ser o Halloween.
Divagações à margem, a sexta-feira, dia de ponto final na semana útil, responsável
pelo término dos afazeres acumulados, propositadamente, ao longo dos dias que a
antecederam, tem lugar para outras distracções. Para mim, não me coube em sorte
brincar, tocando às campainhas, pedindo doces ou ameaçando tornar-me num rapaz
de travessos actos. Em parte, acredito, porque essa experiência não faz parte
das minhas memórias de infância. Mas, saiu-me a sorte grande, nesta sexta-feira,
que cedo começou, recebi um convite embrulhado em afectos e amor incondicionais,
para tomar o pequeno-almoço. Num dos nossos lugares de sempre. Conversamos de
tudo. Os dois, a falar sem filtro, como sempre. Eu e a minha mãe.
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