O
trânsito está caótico. Mais à frente um carro todo simpático, pintado de um
amarelo sereno, “decidiu” invadir uma propriedade privada. Muro ao chão. Murro
no coração. Imagino a tensão. Vejo uma senhora em aflição. Gente a assistir.
Ansiosos e com a eloquência nas mãos. Os meios de socorro já lá estão. O trânsito
está caótico. Quase parado. Brinco com os dedos no volante. Faço retratos
mentais do que tenho para fazer. Começo a acreditar que vou chegar fora de
horas. E não vou perdoar. Não consigo funcionar de outra maneira. O relógio no
pulso de sempre, o direito, alerta para os minutos a escassear. O carro também
não deixa passar. Toca o telemóvel e hesito. Acabo por atender. Falam do banco,
mais assuntos pendentes e questionário de qualidade. Volta o rádio a tocar. Raramente
mudo a estação que escuto. Servem-me jazz. E nunca digo que não. É uma paixão
antiga. Antes mesmo de ter conhecido a M. Bem, muito antes. A M. entrou na
minha vida já a adolescência corria a bom ritmo. Ela era morena, de olhos
claros. Tinha um cabelo bonito, longo. Era, na altura, uma artista de jazz em
potência. Confirma-se hoje, artista de excelência. Tinha um jeito doce, meigo e
bastante reservado. Nitidamente tímida. E não perdia nada, só lhe acrescentava
charme. Andava, sempre que possível, com o instrumento. Ou eram as aulas ou os
ensaios. Ou os tempos vazios ou a vontade simples. Com ela tomei conhecimento
de mais aspectos deste género musical. E outras tantas partilhas que só nos
fizeram crescer. Enquanto gente em formação interior, cívica e artisticamente. Era
francamente bom. Acabámos por seguir caminhos diferentes. Nada beliscados, mas
com fraca força para dar continuidade a uma relação de convivência próxima. Até
porque ela foi viver para outro país. E os trejeitos da vida não têm de ter
sempre uma justificação. Ou a justificação que pretendemos. A M. continua
sóbria e apaixonada pela arte. O eterno caminho da salvação. Acredito e lembro
sempre que posso. Por maior que pareça o caos, se amares a arte, tens o destino
beneficamente traçado.
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11.5.17
27.4.17
Inócuas tertúlias e um jardim repensado.
É,
toda a parede de fundo, de azulejos vestida. Quadrados exactos, fundo branco,
por amarelo e azul riscados. Formam um desenho bonito, a fazer lembrar os de
outros tempos. É um jardim improvisado. Depois das janelas largas, ei-lo
montado. Paredes altas, largas, típicas dos prédios antigos. Vasos amplos, com
flores a condizer. Verde e outros tons de mãos agarradas. Cheira bem, olha as
rosas empinocadas. As cadeiras com almofadas. A mesa comprida e bem caprichada
no arranjo. Descem dos ares luzes várias e vasinhos com ervas efusivas. Temos
direito a bebidas frescas. Na parede pintada a rolo, um espelho redondo, a
imitar os rostos. Fez-se luz e num desassossego tornaram-no eficaz, cheio de
utilidade. Ali, encerrados naquelas medidas nada exageradas, apetece fins de
dia partilhados e noites sem horas. Tempo quente e a lua presente. Olhamos à
volta e está confortável, confiante. Sobre nós o azul do céu. A vizinha do
andar superior não remoca. Bem pelo contrário, assoma-se à janela e, de copo na
mão, sugere o brinde. Quão castiça, a mulher e a acção. Braços ao ar, daqui um
sonoro CHEERS! Temos música de fundo,
sai de uma coluna Marshall, negra e
ainda mais embelezada com dourados e encarnado vinho. “Summer Wine”, a duas vozes, é agora a maestrina do ambiente.
Matraqueamos como é nosso apanágio, entre as risadas sentidas e as bebidas
servidas. Olha ali, sai a fotografia para o Instagram.
Poses, cabelos aconchegados, risos nada forçados. Prefiro as fotografias para
lembrar, sem pelas redes sociais passar. Mas não tenhamos dúvidas, amizade é
viver e partilhar. Esquecendo as moléculas da cobrança. Estar é sinónimo de
respeitar. Muito mais quando temos uma parede azulejada a fazer as honras de
fundo. Olaré!
5.4.17
Portugal numa sala especial.
Prometeram-me,
há tempos, a ida a uma casa de fados. Que ainda não conheço, mas que, dizem-me,
tem a música nacional por todos os lados. Tão travessa, tão sem pressa. Com
guitarras afinadas, vozes nada pensadas. Cordas em concordância, mãos cheias de
elegância. Ensaios de uma tarde inteira ou de uma manhã bem dormida. Poemas
conceituados, outros à hora arranjados. Mesas rústicas e tolhas trabalhadas. Vinho
tinto num jarro de barro, os arranjos florais numa jarra ao centro. O rapaz das
flores chega num carro. Senhores com a música à flor da pele, senhoras com as gargantas
afinadas. Fatos simples e repetidos. Gravatas ora ausentes, ora de tecidos
vividos. Vestidos compridos. Xailes negros sobre as costas e outros coloridos. Gente
com sabedoria, malta que começa agora à luta pela alegria. As mãos voltadas
para o céu cerrado, os olhos num jeito fechado. As paredes vestidas de
lembretes bonitos e ricos. A certeza de que não há lugar a esquecimentos. O
escuro é companhia de toda a hora, as velas não perdem com a demora. Os
clientes pela alma envolvidos oferecem os silêncios devidos. Prometeram-me, há
tempo demais, a ida a esta casa de fado. Já a vejo assim, sequer a pisei.
Espero com ânsias a semana que vem. Hei-de ouvir música boa e ver-me embrulhado
num ambiente que não se repete. Silêncio, vem lá fado. E eu gosto tanto.
22.3.17
Em diferido. #57
Bravo - Aquele gajo compôs uma autêntica diversidade de boas notas. Aquele
gajo é descomprometido com tudo, desde sempre. Conheci-o há alguns anos,
algures numa adolescência que ganha um certo tom de vedetismo. As calças
daquela marca, os ténis da outra, ainda os pólos com fartura. E ele nada.
Desmarcava-se disso com uma pinta sem igual. Talvez, porque nessa altura não me
agradavam os pólos e as camisas aos quadrados, demo-nos bem. Embora, as tenha
vestido algumas vezes e de feitio torcido, tão contrariado. E devo ter sido
beto. Ou arraçado disso. Mas não importava. Como não importa. Valia a cabeça e
a construção das conversas. A música que já era tão presente. Ouvíamos o som da
altura, mas que já era passado. Apresentou-me um sem número de nomes que ainda
hoje trago na minha lista de preferências. Volto sempre a ouvi-las, em todas as
vezes que não me esqueço. Reencontro-me com as suas sugestões musicais bem mais
amiúde do que com ele. Uma pena descomunal. Vive entre Cascais e Londres. Toca
como só um gajo como ele consegue. Tem composições incríveis. Algumas não saem
de casa. Este gajo ainda vai ser reconhecido, porque o melhor já é. Sem
qualquer adorno dispensável. Continua a ser aquele gajo descomprometido. Fiel.
Dispensa, ainda hoje, as camisas engomadas, as calças marcadas e os ténis. Há
gajos do caraças.
2.8.16
Ataviar o verão com a bonita canção.
Solta
uns vocalizes. Faz os típicos exercícios de voz, sem apontar notas ou palavras.
Antecipa a letra, a música e o volume. Há-de chegar Aretha Franklin. É
impossível tocar-lhe, mas vem uma interpretação entusiasmada e sentida. Gabo as
vozes certas, os tempos sabidos de memória, a música e o compasso na ponta do
entendimento. O compromisso certeiro entre o querer muito e o fazer melhor.
Fico a assistir, meio embevecido, quando as vozes me atraem. A voz colocada, o
microfone mesmo à frente, uns tipos a tocar, uns amigos a sentir e a comunhão
acontece. Neste cantinho um tanto escurecido, acontece fazer-se, com empenho,
música de qualidade. Os instrumentos são conduzidos de feição, ouvem-se os
primeiros acordes, aludem a outros nomes e compõem a exposição. Não é mentira
se garantir que gozo do prazer de ter grandes amigos, bem mais, tenho o gosto
de ter amigos muito talentosos. No verão, com Agosto a começar, funciona largar
todo e cada pedaço de areia, de sol a queimar e das ondas a relaxar, para sentar
algures, ouvir cantar e tocar. Aplaudir e felicitar no final é um pertinente
ponto final. Logo depois, há verão outra vez. A lamentar só o facto de não ser
um dos dotados. Assim, aceito um copo e mais uma rodada de calor.
8.6.16
Inelutáveis circunstâncias.
Oiço,
de quando em vez, música clássica. Ainda é costume neste admirável mundo novo?
É uma questão que me assalta. Poucas vezes, é certo, mas fica na estória do que
vou cuidando no pensamento. Para minha defesa – como se o crime fosse meu – sou
um ouvinte que pende para o ecléctico. Termo que aprecio, muitas vezes mitigado
pela desonra com que alguns o aproveitam para salvar o segredo de que a música
segue os tempos de cada um pejado de guilty
pleasures. Também os guardo. E vou, enquanto apreciador musical, do mais
erudito à poesia popular – com as devidas ressalvas. Na prática, a música
avança pelas nossas vidas, mais ou menos, à revelia. Marcando desde o sorriso
maroto ao tempo perdido. Mudar deve ser das situações mais avessas à comunhão
do espírito, corpo e sociedade. Tão tramada que, ou arrepias caminho sem grande
pausa para pensar ou recuas com toda a bagagem de questões e medos que foste
alvitrando até ao ponto. Isso ou é feitio do tipo avançar sucessivamente na
procura do que é suficiente para ele. Estagnar, por arrependimento do que
sequer sabemos que vinha a acontecer é amplamente desleal. Para quem comete,
claro. Em tese, um amigo pondera manumitir o presente para colher frutos mais
adiante. Faz todo o sentido. Quem sabe, o paraíso não mora por lá. Desta feita,
conversar é bom, mas escutar é melhor ainda. A decisão é unilateral. E a música
clássica não é desajeitada e não perdeu a força no passado. Inventa o que
quiseres, mas mudar é querer certezas e crer no vazio. Rasga o peito e faz o
que o instinto te ditar. Que os ditados servem para isso. Tentar, errar e o
conhecimento guardar.
18.11.15
À espera do tom.
Não
se pede silêncio. Apagam-se as luzes. Fica o passado ali, o presente a crescer.
O futuro que há-de vir, a certeza que se nega. Bate o pé sobre a carpete de
desenhos pequenos. A particularidade aos seus pés. As galochas que não escondem
a marca da moda. Bate o pé, espera a afinação. Bate o pé, começa o som atrás de
si. Bate uma e outra vez. O pé calçado, não tem descanso. A perna balança. Os
ombros dançam simpáticos. A um ritmo nada monótono. Soam, atrás, os acordes
esperados. Senta-se, enquanto a saia junta as pernas. Sabe que dali só o
melhor. Canta com as palavras certas, a goela solta. Pega no microfone com a
cara de quem sente. Sente a canção, ri de olhos fechados. Franze o olhar.
Semeia o ambiente ideal. Os ombros não mentem, vão para lá, voltam para cá. Os
cabelos livres acompanham. Levanta-se, salta levemente. Canta sem impaciência. Repete
esta fisicalidade com outras notas, só devemos agradecer. No instante, nada
falta. A jovem mulher que canta como senhora de outros tempos. Que calça como
menina de brincadeira à chuva. Que sente a canção que é da gente, como se
tivesse nascido numa espécie de rua assim. Perde-se a sombra, voltam as luzes.
Com a certeza de que, por aqui ficaremos, até à próxima contemplação.
13.10.15
Homem muito sabedor.
Ao
fundo, no canto da sala, um velho homem toca piano. Brinca com as negras, com as
claras. Veste ganga da cabeça aos pés. Tem barba acinzentada, o tom do cabelo.
Calça umas botas grossas e castanhas. O pulso direito guarda umas pulseiras. O
som é sossegado mas em nada displicente. Tem dom na carne e no espírito. Os
espelhos à sua volta compõem o cenário, como se fosse um ensaio constante. Ao
redor, outros aparelhos, ninguém lhes chega perto. O soalho de madeira, uma
carpete digna. Fisicamente, o espectáculo não perde um soluço. As mãos, ainda
as vejo a percorrer cada tecla. A exigente passada do talento. Um encontro do
dito com o feito, um encontro de vontades, o velho homem sabedor e o piano de
cauda ansioso. Um resumo erudito de elegantes partilhas. Chega o silêncio para,
logo depois, entrar impetuosamente uma nova melodia. O som é, nesta fase,
robusto, igualmente expressivo. Do tecto, nasce um grande candeeiro com braços
sem fim. A luz perfeita. Quem assiste, aproxima-se, e opta, intuitivamente, por
sobrestar a respiração. Os pequenos espectadores sentaram-se junto ao homem
velho e ao piano e olhavam, olhavam com encanto. Outra vez o silêncio e a
coragem ofereceu-lhes, ao talentoso homem e ao afinado piano, um aplauso
demorado. O artista levanta os braços, acena com as duas mãos, e desta forma
agradece. Gostei de vos sentir, ao invés de ouvir, rematou. Apreciar arte e os
autores é, muitas vezes, dar-lhes o fundo que merecem. Em tempo algum, é o
espaço. Sempre os preceitos de quem sabe.
24.8.15
Confissão inopinada no regresso a casa.
Voltei
ao tempo das pausas obrigatórias e da rotina. Como aquele velho homem que, a cada
dia da semana, se obriga a passar a rua inteira, de chapéu na cabeça, a barba
branca e rija, os olhos meio fechados, debaixo do sol quente ou da chuva em
pranto. Obriga-se a fazê-lo pela primeira página. E pelas outras. Pela capa e
pelas letras gordas. Esmiúça com a convicção de que só assim, fica liquidada a
viagem. Voltei a ouvir uma canção que tem tantos anos que, assumidamente, já me
havia esquecido dela e do interprete. Depois, quase patologicamente, vem sendo
a minha companhia. Agora, neste instante também. Foi um amigo antigo, daqueles
que têm sempre boas memórias e oferecerem-nas com convictos lembretes. De lá
longe – não tão longe como as palavras fazem parecer – chega uma mensagem.
Ditava assim: Cheguei, estou por cá. Faz-te à vida. Arranja espaço. Fico até
tal dia. Sucinto, como é hábito. No final da mesma mensagem, ao invés de uma
assinatura desnecessária ou de uma saudação pouco proveitosa – que pode incluir
golos putativos, desavenças pseudo-políticas, corpos desnudados desta ou
daquela - deixa-me um link. A tal canção. Acho que umas décadas valentes vibraram
ao som disto. Connosco – eu e ela de então - aconteceu mais tarde. Um dia
levo-te a dançar. Tenho a certeza que te disse isso. Tampouco, sem precisar que
mo dissesses nos dias seguintes. Tal e qual, como vieste a fazer. Perguntaram-me,
algures neste verão tão vivido, por ti. Depois, claro, de lhes lembrar esta canção.
Somos amigos. Mesmo que, por inquietação da juventude desmedida e da
precocidade do pensamento e dos actos, me tenha esquecido dessa dança. E de, no
dia seguinte, deitada ao meu lado na cama improvisada, ma tenhas agradecido. A
rua de então, à luz da razão, era um valente esticão.
14.7.15
Assim vai o ensejo.
Numa
pausa inócua, inopinadamente entretido com minudências. Estaria, algures entre
as minhas notas no caderno preto, as minhas garatujas no dito caderno – que tenho
tamanha vergonha na cara que apelido os desenhos que vou fazendo como me parece
definir melhor o desmérito, - na secretária de sempre, no computador de algumas
horas, no telemóvel e nos e-mails e nas fotografias que lá guardo. Na máquina
fotográfica que, sem preparação, faleceu. Paz. À sua alma. Ao momento em que
paro para ouvir as músicas de tanto tempo. Ainda, não sendo seguidor de uma
certa burguesia, que raras vezes aventam fazer parte da estrutura, estaria no Instagram ou a ler um qualquer texto de
um fazedor de opinião. Numa mensagem escrita, falava-me do evento. Havíamos de
ir, antes de descermos, continuava. Atraiçoa-nos a pressa dos dias. Sem soluços
maiores, num relâmpago mais precoce, eis o dia certo. O recinto alargado, a
terra algures sossegada, o palco principal lá ao fundo, em destaque. Ao lado,
outros, menores. Fica-lhes o talento buliçoso. Que não tem tempo para brincadeiras
alargadas. Nunca de somenos relevância. O espaço compõe-se à velocidade de um
vídeo apressado. Aglomeram-se junto ao palco maior, dando primazia aos cabeças-de-cartaz.
A curiosidade aguça. Vêem-se, também, pequenos grupos. Amigos e conhecidos em
amena convivência. Impera e reina a boa disposição. O corpo pede conforto, os
acessórios gritam por socorro. Numa nota mísera, os chapéus ainda estão na
moda. As marcas fazem o seu trabalho e, no recinto, estão ao nível das
tatuagens. Estão em todo o lado. Chegada a hora, o palco faz vibrar, braços ao
alto, mãos num movimento frenético. Entre luzes, som e adrenalina, gritam os
espectadores entusiasmados. Sobrevivem, naquela excitação, os telemóveis que
alumiam. A fotografia da despedida, o adeus resumido numa mão bamba. De cigarro
na boca, ao jeito de um retrato a preto e branco. Foi assim, em grande escala.
Numa outra pausa, rir-nos-emos do resto. É sempre assim.
14.5.15
Sonho ou outro termo qualquer.
Paolo
Conte canta ao ouvido, enquanto as escadas de sempre são o elevador que prefiro
não subir. Estou a rir-me desde manhã, como se fosse possível. Mas mantenho um
sorriso na cara e não é mais do que o meu instinto e o meu intelecto, se
capacitados para funcionar em simultâneo e em convergência, a dar-me sinais. A
falar comigo. A conversar e a partilhar opiniões. Há um tempo, não tão distante
quanto isso, perguntaram-me, num tom mais afirmativo do que questionador, se eu
sonhava alto. Devo ter respondido qualquer coisa que já não me lembro. Mas
sonho. Vou sonhando e em diferentes escalas. Sempre, e isso é essencial, de
acordo com as minhas convicções. Sonho ser capaz de realizar sonhos. Criá-los
de raiz, numa folha em branco ou num qualquer lugar onde a minha verdade e
disponibilidade sejam precisas. Sonho, se não abusar nos metros em que me
coloco, escrever sobre a fantasia, as ideias que permanecem guardadas neste
espírito. Com o intuito nada banal, mas pouco modesto, de fomentar o sonho no
outro. Talvez, influência de um ou outro enredo bem escrito. Como no tempo em
que as novelas eram lidas com gosto. Já nem lhes dão esse nome. A minha irmã
mais velha guarda algumas, muitas sem saber. Na verdade, o gosto dela pelos
livros encerra-se na vontade de os comprar e de os saber ali, em querendo
lê-los. E, em não me esquecendo, volto à sua espécie de biblioteca. De
preferência, sozinho. Continua a soar Paolo Conte ao ouvido e na secretária,
entre outras entretenhas, uma novela das antigas.
30.3.15
Voz que celebra heróis.
Nas últimas semanas tenho estado a trocar
mensagens com uma amiga. Mensagens escritas. Ora no mail, ora no telemóvel. Ou
numa ou outra rede social. Não estamos juntos fisicamente há tempo sem conta.
Demasiado. Contava-me das aventuras de uma cidade distante. Do David, eterno
beto de cabelo viciado. Zangou-se com o rapaz, premeditadamente, para
afugentá-lo. Excessiva parcimónia em inenarráveis actividades. Mau sexo também.
Enviou-me uns links. Adiei a visita. Já não sou capaz de contar os anos que
passaram desde o momento em que conheci a Joana. Chamemos-lhe pelo nome da
menina que come a papa, enquanto lhes cantarolam ao ouvido, de colher em riste.
Como quem fecha os olhos e permite-se imaginar. Devíamos ser assim, agentes da
imaginação impar e desassossegada. Porque a Joana não deixa de ser assim. E é,
sem grandes filosofias, uma miúda certa e feliz. Vai estando feliz. Canta, a
Joana canta. Às vezes, aqui me confesso, esqueço. Não me lembro que a Joana
pequenina, que conheci lá atrás, numa infância que parece distante, canta. Numa
infância quase ausente. Muito mais do que, de facto, é. Canta e fá-lo com
propriedade. Pois, vamos lá tentar entender, canta e fá-lo com talento. E,
finalmente, decidi abrir os links. Lá estava ela, bonita de olhos expressivos.
Os lábios atrevidos. A cantar em bares. A interpretar canções de outros. Em
jeito de rodapé, num dos e-mails com o link em anexo, perguntava a minha
opinião. Não sou o tipo mais avalizado para isso. Mas sei do que gosto. E tu,
Joana, cantas tanto. Dias depois, ela respondia. E recusava a minha resposta.
Agradecia, mas queria saber o que tinha para dizer sobre actuações ao vivo, em
bares variados, com canções de outros. O estigma existe, bem sei. Mas não
merece poste e bandeira. Joana, boa amiga, só se lixa quem quer. O preconceito
tem lugar para lá do dicionário, mas não vive para sempre. Cantas para caraças,
mesmo que a expressão seja típica da génese do calão. O resto é impertinências,
tal e qual, uma insónia. Canta onde te deixarem. Até que te valorizem a alma na
voz. Minha boa amiga, tens garganta. Humilha o povo sobranceiro e arrogante.
Joana, um beijo. E sê velhaca. Há quem goste.
9.3.15
Real execução melodiosa. #4
4.3.15
Bravo.
Aquele
gajo compôs uma autêntica diversidade de boas notas. Aquele gajo é
descomprometido com tudo, desde sempre. Conheci-o há alguns anos, algures numa
adolescência que ganha um certo tom de vedetismo. As calças daquela marca, os
ténis da outra, ainda os pólos com fartura. E ele nada. Desmarcava-se disso com
uma pinta sem igual. Talvez, porque nessa altura não me agradavam os pólos e as
camisas aos quadrados, demo-nos bem. Embora, as tenha vestido algumas vezes e
de feitio torcido, tão contrariado. E devo ter sido beto. Ou arraçado disso.
Mas não importava. Como não importa. Valia a cabeça e a construção das
conversas. A música que já era tão presente. Ouvíamos o som da altura, mas que
já era passado. Apresentou-me um sem número de nomes que ainda hoje trago na
minha lista de preferências. Volto sempre a ouvi-las, em todas as vezes que não
me esqueço. Reencontro-me com as suas sugestões musicais bem mais amiúde do que
com ele. Uma pena descomunal. Vive entre Cascais e Londres. Toca como só um
gajo como ele consegue. Tem composições incríveis. Algumas não saem de casa.
Este gajo ainda vai ser reconhecido, porque o melhor já é. Sem qualquer adorno
dispensável. Continua a ser aquele gajo descomprometido. Fiel. Dispensa, ainda
hoje, as camisas engomadas, as calças marcadas e os ténis. Há gajos do caraças.
24.2.15
À terça sobre a segunda alheia.
As
segundas têm um espírito próprio. Podemos falar de novas oportunidades ou da
infelicidade de retomar a imbecil matemática dos dias carregados de monotonia e
de trabalhos inóspitos e colegas de má rês. As segundas são um falsificado amuse bouche. Amam-se ou odeiam-se.
Lembro-me, desde sempre, de ouvir quem lhes desejasse a morte e, ao mesmo
tempo, quem lhes dotava dos maiores elogios. Como se fosse uma pessoa. O senhor
simpático da mercearia, a tia que ninguém atura ou a amiga lá de casa que se
esquece de vocábulos como privacidade ou não usa relógio, embora, forçadamente,
fale com a dicção tão afectada que nos obrigue a uma tradução em tempo real. A
volatilidade dos termos e da crença de cada um, começa cedo. Logo nos
primórdios do entendimento, ainda que, nessa altura, voem apenas as palavras.
Bem mais do que a verdade e a compreensão. Ontem, segunda-feira, leram-me o
horóscopo da semana. Semana amena, dias bons. Saúde em perfeito equilíbrio.
Trabalho numa fase favorável e do amor reza que do passado não vive um nativo.
No meio disto, há sempre a frase feita e a palavra universal e que, alheados,
nos faz algum sentido. Agora mesmo, enquanto escuto alguns temas da Brenda Boykin, pensava como saltar numa
rua qualquer, com um ou mais balões coloridos na mão, fosse bem mais credível
do que a leitura que me fizeram a atrasado. Bafejado pela sorte, quem sabe,
chegar-me-á um presente do ainda futuro, e faço o pleno. Canta a Brenda Boykin e não engana, “Love is
in Town”.
18.12.14
Real execução melodiosa. #3
“Rua
da Emenda” é o mote de um desfile e desfiar de histórias contadas com a
melodia sem erros. Sou, por demais, fã confesso de António Zambujo. Oiço,
amiúde, os novos temas e as canções de discos anteriores. Enquanto ouvia, sem
pausa, o novo tema, “Pica do 7”, pensava como a letra, a palavra tão bem
escrita e descrita faz, sem pensar, tamanha diferença. Alia-se, aos autores dos
poemas, a voz conhecida. É espectáculo, certamente, sem medida.
25.11.14
Parecer de um desprovido.
Sonho
com o dia em que a sala de leitura se transforma numa biblioteca digna. Forrada
a livros devidamente identificados. Guardar-se-á, num compartimento as revistas
que colecciono. Muitas de música. Outras tão genéricas. Mas sempre de proveitosas
matérias. Grandes capas e elogiosos recheios. Em alguma parte desta casa estão
revistas. Capas que vislumbrei e jamais lhes li o conteúdo. Outras que
espreitei, por me cruzar com elas sobre a banqueta e a mesa de apoio. A Elle, a Vogue ou a Vanity Fair
deixadas por entendidas da moda. Nesta casa, algures numa gaveta de recordações,
estão revistas de nicho. A moda é um exemplo, porque as abandonaram por cá. Não
sei, sinceramente, se algum dia a minha mãe lhes pousou a vista. Nesta casa,
onde a minha cadela é rainha, lê-se sem preconceitos. Entendem-se as comadres e
os compadres.
24.11.14
Algures num sumptuoso lar.
Não
me canso de gabar a sala de pé direito alto e elegante, o soalho de madeira
pesado que não deixa a desejar. As portadas largas, brancas como a decoração.
Os vidros, no fim-de-semana de Novembro a findar, ganham pingas a desenhar. A rua
fica lá em baixo, como se fosse a terra a definir. E gosto de ler, mas escolho
o sossego. Não é o caso. Agora, servem-se cafés e infusões. Não é chá porque
vem em latas reinventadas. Biscoitos e scones da padaria que agora é costume. É
um desenrolar de conversas sem fim. Sartre é tema em cima da mesa. Opiniões que
não se medem na informação vazia que percorre o mundo de circunstância. Antes
dele, falámos de Carla Bruni, recordações do seu tema “Tu es ma came”. Logo alguém se lembrou da letra e a cantarolou.
Mais depressa correram ao vídeo online e a saudade voltou. Fazemos da
informação e da canção o que delas nos aprouver. Caso não resulte, problema
resolvido. Compras mais infusões cuja marca nacional os reinventa e oferece
novos sabores. Serves, por fim, de bandeja com os sonhos e os dissabores.
28.10.14
Em diferido. #21
Fado
em cada linha - Confunde-se a iliteracia contextual com a procura, sem fim, de
um carimbo de qualidade e de certificação de um povo. É um fado que desvenda a
sonoridade dos arrepios da inevitável e inconsequente evolução de um ramo que
não larga o tronco enraizado numa cultura que respeita e canta desentoada temas
mais ou menos característicos e assertivos de ouvido, do tão afamado fado.
Permitir que a canção nacional toque no nosso leitor, sem que lhe apontemos
graves dissonâncias. Sem que, pelos primeiros acordes da guitarra tão
portuguesa, nos desmotivemos. É moda, contrariar essa corrente, ouvi e li
algures. Em tantos textos de opinião e em infindáveis entrevistas de nicho. Nas
outras conversas, também. Conversas de rua, de café, de amigos e de entretidos
conhecidos. Ainda, nas conversas descomprometidas em televisão, tão válidas
pelo entretenimento a que se propõem e que o espectador não nega. Antes desta
vaga, houve dedicação, amor e paixão. Formigas na voz, no peito e no corpo que
desgrenhava veias como se fossem cabelos soltos. Foi a verdade que ajudou a
cimentar uma canção com poemas de palavras vivaças e abatidas. As últimas, bem
mais conhecidas e usadas. Ouvir a versão de Ana Moura do tema “A Case of You”, onde a artista não foge,
mas experimenta, enquanto alguém esconde o rosto e parte de um corpo desnudado num
lençol branco, é sensualidade nacional. A excepção não remata o todo. Depois,
seguem-se as restantes faixas de “Desfado”. É um deleite para a irrequieta
reformulação da arte. Voluptuoso fado. Canção nacional.
Etiquetas:
ana moura,
ana moura - desfado,
canção,
em diferido,
experiências,
fado,
música,
nacional,
opiniões,
portugal,
portugueses,
sonoridade
7.10.14
‘The show must go on’
Fingindo
ter um microfone à frente, gesticulava e cantava. Firme. À capela, supunha-se.
Popular no som, imponente e corpulenta na voz. Extravagante no figurino. Ousada
no penteado. A letra, fluente na memória. O cover
invariavelmente antigo. A banda atrás. O público na frente. Os aparelhos
afinados. O palco montado. A miopia a favor. O microfone ali. Refutando a
esperança irrealizável. Ganhando vida, não era fingimento. Era protecção.
Sabia-o ali, à sua frente. Afastando o olhar para lá dele. Fica na sombra. Por
ela, até ao amanhecer. Vagos pensamentos. Compassada, deixando-se levar,
esquece o fingir. Atribui efeito. Faz sentido quando não contamos menos. Siga o
espectáculo.
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