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11.5.17

Viandantes apaixonados pela arte.

O trânsito está caótico. Mais à frente um carro todo simpático, pintado de um amarelo sereno, “decidiu” invadir uma propriedade privada. Muro ao chão. Murro no coração. Imagino a tensão. Vejo uma senhora em aflição. Gente a assistir. Ansiosos e com a eloquência nas mãos. Os meios de socorro já lá estão. O trânsito está caótico. Quase parado. Brinco com os dedos no volante. Faço retratos mentais do que tenho para fazer. Começo a acreditar que vou chegar fora de horas. E não vou perdoar. Não consigo funcionar de outra maneira. O relógio no pulso de sempre, o direito, alerta para os minutos a escassear. O carro também não deixa passar. Toca o telemóvel e hesito. Acabo por atender. Falam do banco, mais assuntos pendentes e questionário de qualidade. Volta o rádio a tocar. Raramente mudo a estação que escuto. Servem-me jazz. E nunca digo que não. É uma paixão antiga. Antes mesmo de ter conhecido a M. Bem, muito antes. A M. entrou na minha vida já a adolescência corria a bom ritmo. Ela era morena, de olhos claros. Tinha um cabelo bonito, longo. Era, na altura, uma artista de jazz em potência. Confirma-se hoje, artista de excelência. Tinha um jeito doce, meigo e bastante reservado. Nitidamente tímida. E não perdia nada, só lhe acrescentava charme. Andava, sempre que possível, com o instrumento. Ou eram as aulas ou os ensaios. Ou os tempos vazios ou a vontade simples. Com ela tomei conhecimento de mais aspectos deste género musical. E outras tantas partilhas que só nos fizeram crescer. Enquanto gente em formação interior, cívica e artisticamente. Era francamente bom. Acabámos por seguir caminhos diferentes. Nada beliscados, mas com fraca força para dar continuidade a uma relação de convivência próxima. Até porque ela foi viver para outro país. E os trejeitos da vida não têm de ter sempre uma justificação. Ou a justificação que pretendemos. A M. continua sóbria e apaixonada pela arte. O eterno caminho da salvação. Acredito e lembro sempre que posso. Por maior que pareça o caos, se amares a arte, tens o destino beneficamente traçado.

27.4.17

Inócuas tertúlias e um jardim repensado.

É, toda a parede de fundo, de azulejos vestida. Quadrados exactos, fundo branco, por amarelo e azul riscados. Formam um desenho bonito, a fazer lembrar os de outros tempos. É um jardim improvisado. Depois das janelas largas, ei-lo montado. Paredes altas, largas, típicas dos prédios antigos. Vasos amplos, com flores a condizer. Verde e outros tons de mãos agarradas. Cheira bem, olha as rosas empinocadas. As cadeiras com almofadas. A mesa comprida e bem caprichada no arranjo. Descem dos ares luzes várias e vasinhos com ervas efusivas. Temos direito a bebidas frescas. Na parede pintada a rolo, um espelho redondo, a imitar os rostos. Fez-se luz e num desassossego tornaram-no eficaz, cheio de utilidade. Ali, encerrados naquelas medidas nada exageradas, apetece fins de dia partilhados e noites sem horas. Tempo quente e a lua presente. Olhamos à volta e está confortável, confiante. Sobre nós o azul do céu. A vizinha do andar superior não remoca. Bem pelo contrário, assoma-se à janela e, de copo na mão, sugere o brinde. Quão castiça, a mulher e a acção. Braços ao ar, daqui um sonoro CHEERS! Temos música de fundo, sai de uma coluna Marshall, negra e ainda mais embelezada com dourados e encarnado vinho. “Summer Wine”, a duas vozes, é agora a maestrina do ambiente. Matraqueamos como é nosso apanágio, entre as risadas sentidas e as bebidas servidas. Olha ali, sai a fotografia para o Instagram. Poses, cabelos aconchegados, risos nada forçados. Prefiro as fotografias para lembrar, sem pelas redes sociais passar. Mas não tenhamos dúvidas, amizade é viver e partilhar. Esquecendo as moléculas da cobrança. Estar é sinónimo de respeitar. Muito mais quando temos uma parede azulejada a fazer as honras de fundo. Olaré!

5.4.17

Portugal numa sala especial.

Prometeram-me, há tempos, a ida a uma casa de fados. Que ainda não conheço, mas que, dizem-me, tem a música nacional por todos os lados. Tão travessa, tão sem pressa. Com guitarras afinadas, vozes nada pensadas. Cordas em concordância, mãos cheias de elegância. Ensaios de uma tarde inteira ou de uma manhã bem dormida. Poemas conceituados, outros à hora arranjados. Mesas rústicas e tolhas trabalhadas. Vinho tinto num jarro de barro, os arranjos florais numa jarra ao centro. O rapaz das flores chega num carro. Senhores com a música à flor da pele, senhoras com as gargantas afinadas. Fatos simples e repetidos. Gravatas ora ausentes, ora de tecidos vividos. Vestidos compridos. Xailes negros sobre as costas e outros coloridos. Gente com sabedoria, malta que começa agora à luta pela alegria. As mãos voltadas para o céu cerrado, os olhos num jeito fechado. As paredes vestidas de lembretes bonitos e ricos. A certeza de que não há lugar a esquecimentos. O escuro é companhia de toda a hora, as velas não perdem com a demora. Os clientes pela alma envolvidos oferecem os silêncios devidos. Prometeram-me, há tempo demais, a ida a esta casa de fado. Já a vejo assim, sequer a pisei. Espero com ânsias a semana que vem. Hei-de ouvir música boa e ver-me embrulhado num ambiente que não se repete. Silêncio, vem lá fado. E eu gosto tanto.

22.3.17

Em diferido. #57

Bravo - Aquele gajo compôs uma autêntica diversidade de boas notas. Aquele gajo é descomprometido com tudo, desde sempre. Conheci-o há alguns anos, algures numa adolescência que ganha um certo tom de vedetismo. As calças daquela marca, os ténis da outra, ainda os pólos com fartura. E ele nada. Desmarcava-se disso com uma pinta sem igual. Talvez, porque nessa altura não me agradavam os pólos e as camisas aos quadrados, demo-nos bem. Embora, as tenha vestido algumas vezes e de feitio torcido, tão contrariado. E devo ter sido beto. Ou arraçado disso. Mas não importava. Como não importa. Valia a cabeça e a construção das conversas. A música que já era tão presente. Ouvíamos o som da altura, mas que já era passado. Apresentou-me um sem número de nomes que ainda hoje trago na minha lista de preferências. Volto sempre a ouvi-las, em todas as vezes que não me esqueço. Reencontro-me com as suas sugestões musicais bem mais amiúde do que com ele. Uma pena descomunal. Vive entre Cascais e Londres. Toca como só um gajo como ele consegue. Tem composições incríveis. Algumas não saem de casa. Este gajo ainda vai ser reconhecido, porque o melhor já é. Sem qualquer adorno dispensável. Continua a ser aquele gajo descomprometido. Fiel. Dispensa, ainda hoje, as camisas engomadas, as calças marcadas e os ténis. Há gajos do caraças.

2.8.16

Ataviar o verão com a bonita canção.

Solta uns vocalizes. Faz os típicos exercícios de voz, sem apontar notas ou palavras. Antecipa a letra, a música e o volume. Há-de chegar Aretha Franklin. É impossível tocar-lhe, mas vem uma interpretação entusiasmada e sentida. Gabo as vozes certas, os tempos sabidos de memória, a música e o compasso na ponta do entendimento. O compromisso certeiro entre o querer muito e o fazer melhor. Fico a assistir, meio embevecido, quando as vozes me atraem. A voz colocada, o microfone mesmo à frente, uns tipos a tocar, uns amigos a sentir e a comunhão acontece. Neste cantinho um tanto escurecido, acontece fazer-se, com empenho, música de qualidade. Os instrumentos são conduzidos de feição, ouvem-se os primeiros acordes, aludem a outros nomes e compõem a exposição. Não é mentira se garantir que gozo do prazer de ter grandes amigos, bem mais, tenho o gosto de ter amigos muito talentosos. No verão, com Agosto a começar, funciona largar todo e cada pedaço de areia, de sol a queimar e das ondas a relaxar, para sentar algures, ouvir cantar e tocar. Aplaudir e felicitar no final é um pertinente ponto final. Logo depois, há verão outra vez. A lamentar só o facto de não ser um dos dotados. Assim, aceito um copo e mais uma rodada de calor.

8.6.16

Inelutáveis circunstâncias.

Oiço, de quando em vez, música clássica. Ainda é costume neste admirável mundo novo? É uma questão que me assalta. Poucas vezes, é certo, mas fica na estória do que vou cuidando no pensamento. Para minha defesa – como se o crime fosse meu – sou um ouvinte que pende para o ecléctico. Termo que aprecio, muitas vezes mitigado pela desonra com que alguns o aproveitam para salvar o segredo de que a música segue os tempos de cada um pejado de guilty pleasures. Também os guardo. E vou, enquanto apreciador musical, do mais erudito à poesia popular – com as devidas ressalvas. Na prática, a música avança pelas nossas vidas, mais ou menos, à revelia. Marcando desde o sorriso maroto ao tempo perdido. Mudar deve ser das situações mais avessas à comunhão do espírito, corpo e sociedade. Tão tramada que, ou arrepias caminho sem grande pausa para pensar ou recuas com toda a bagagem de questões e medos que foste alvitrando até ao ponto. Isso ou é feitio do tipo avançar sucessivamente na procura do que é suficiente para ele. Estagnar, por arrependimento do que sequer sabemos que vinha a acontecer é amplamente desleal. Para quem comete, claro. Em tese, um amigo pondera manumitir o presente para colher frutos mais adiante. Faz todo o sentido. Quem sabe, o paraíso não mora por lá. Desta feita, conversar é bom, mas escutar é melhor ainda. A decisão é unilateral. E a música clássica não é desajeitada e não perdeu a força no passado. Inventa o que quiseres, mas mudar é querer certezas e crer no vazio. Rasga o peito e faz o que o instinto te ditar. Que os ditados servem para isso. Tentar, errar e o conhecimento guardar.

18.11.15

À espera do tom.

Não se pede silêncio. Apagam-se as luzes. Fica o passado ali, o presente a crescer. O futuro que há-de vir, a certeza que se nega. Bate o pé sobre a carpete de desenhos pequenos. A particularidade aos seus pés. As galochas que não escondem a marca da moda. Bate o pé, espera a afinação. Bate o pé, começa o som atrás de si. Bate uma e outra vez. O pé calçado, não tem descanso. A perna balança. Os ombros dançam simpáticos. A um ritmo nada monótono. Soam, atrás, os acordes esperados. Senta-se, enquanto a saia junta as pernas. Sabe que dali só o melhor. Canta com as palavras certas, a goela solta. Pega no microfone com a cara de quem sente. Sente a canção, ri de olhos fechados. Franze o olhar. Semeia o ambiente ideal. Os ombros não mentem, vão para lá, voltam para cá. Os cabelos livres acompanham. Levanta-se, salta levemente. Canta sem impaciência. Repete esta fisicalidade com outras notas, só devemos agradecer. No instante, nada falta. A jovem mulher que canta como senhora de outros tempos. Que calça como menina de brincadeira à chuva. Que sente a canção que é da gente, como se tivesse nascido numa espécie de rua assim. Perde-se a sombra, voltam as luzes. Com a certeza de que, por aqui ficaremos, até à próxima contemplação.

13.10.15

Homem muito sabedor.

Ao fundo, no canto da sala, um velho homem toca piano. Brinca com as negras, com as claras. Veste ganga da cabeça aos pés. Tem barba acinzentada, o tom do cabelo. Calça umas botas grossas e castanhas. O pulso direito guarda umas pulseiras. O som é sossegado mas em nada displicente. Tem dom na carne e no espírito. Os espelhos à sua volta compõem o cenário, como se fosse um ensaio constante. Ao redor, outros aparelhos, ninguém lhes chega perto. O soalho de madeira, uma carpete digna. Fisicamente, o espectáculo não perde um soluço. As mãos, ainda as vejo a percorrer cada tecla. A exigente passada do talento. Um encontro do dito com o feito, um encontro de vontades, o velho homem sabedor e o piano de cauda ansioso. Um resumo erudito de elegantes partilhas. Chega o silêncio para, logo depois, entrar impetuosamente uma nova melodia. O som é, nesta fase, robusto, igualmente expressivo. Do tecto, nasce um grande candeeiro com braços sem fim. A luz perfeita. Quem assiste, aproxima-se, e opta, intuitivamente, por sobrestar a respiração. Os pequenos espectadores sentaram-se junto ao homem velho e ao piano e olhavam, olhavam com encanto. Outra vez o silêncio e a coragem ofereceu-lhes, ao talentoso homem e ao afinado piano, um aplauso demorado. O artista levanta os braços, acena com as duas mãos, e desta forma agradece. Gostei de vos sentir, ao invés de ouvir, rematou. Apreciar arte e os autores é, muitas vezes, dar-lhes o fundo que merecem. Em tempo algum, é o espaço. Sempre os preceitos de quem sabe.

24.8.15

Confissão inopinada no regresso a casa.

Voltei ao tempo das pausas obrigatórias e da rotina. Como aquele velho homem que, a cada dia da semana, se obriga a passar a rua inteira, de chapéu na cabeça, a barba branca e rija, os olhos meio fechados, debaixo do sol quente ou da chuva em pranto. Obriga-se a fazê-lo pela primeira página. E pelas outras. Pela capa e pelas letras gordas. Esmiúça com a convicção de que só assim, fica liquidada a viagem. Voltei a ouvir uma canção que tem tantos anos que, assumidamente, já me havia esquecido dela e do interprete. Depois, quase patologicamente, vem sendo a minha companhia. Agora, neste instante também. Foi um amigo antigo, daqueles que têm sempre boas memórias e oferecerem-nas com convictos lembretes. De lá longe – não tão longe como as palavras fazem parecer – chega uma mensagem. Ditava assim: Cheguei, estou por cá. Faz-te à vida. Arranja espaço. Fico até tal dia. Sucinto, como é hábito. No final da mesma mensagem, ao invés de uma assinatura desnecessária ou de uma saudação pouco proveitosa – que pode incluir golos putativos, desavenças pseudo-políticas, corpos desnudados desta ou daquela - deixa-me um link. A tal canção. Acho que umas décadas valentes vibraram ao som disto. Connosco – eu e ela de então - aconteceu mais tarde. Um dia levo-te a dançar. Tenho a certeza que te disse isso. Tampouco, sem precisar que mo dissesses nos dias seguintes. Tal e qual, como vieste a fazer. Perguntaram-me, algures neste verão tão vivido, por ti. Depois, claro, de lhes lembrar esta canção. Somos amigos. Mesmo que, por inquietação da juventude desmedida e da precocidade do pensamento e dos actos, me tenha esquecido dessa dança. E de, no dia seguinte, deitada ao meu lado na cama improvisada, ma tenhas agradecido. A rua de então, à luz da razão, era um valente esticão.

14.7.15

Assim vai o ensejo.

Numa pausa inócua, inopinadamente entretido com minudências. Estaria, algures entre as minhas notas no caderno preto, as minhas garatujas no dito caderno – que tenho tamanha vergonha na cara que apelido os desenhos que vou fazendo como me parece definir melhor o desmérito, - na secretária de sempre, no computador de algumas horas, no telemóvel e nos e-mails e nas fotografias que lá guardo. Na máquina fotográfica que, sem preparação, faleceu. Paz. À sua alma. Ao momento em que paro para ouvir as músicas de tanto tempo. Ainda, não sendo seguidor de uma certa burguesia, que raras vezes aventam fazer parte da estrutura, estaria no Instagram ou a ler um qualquer texto de um fazedor de opinião. Numa mensagem escrita, falava-me do evento. Havíamos de ir, antes de descermos, continuava. Atraiçoa-nos a pressa dos dias. Sem soluços maiores, num relâmpago mais precoce, eis o dia certo. O recinto alargado, a terra algures sossegada, o palco principal lá ao fundo, em destaque. Ao lado, outros, menores. Fica-lhes o talento buliçoso. Que não tem tempo para brincadeiras alargadas. Nunca de somenos relevância. O espaço compõe-se à velocidade de um vídeo apressado. Aglomeram-se junto ao palco maior, dando primazia aos cabeças-de-cartaz. A curiosidade aguça. Vêem-se, também, pequenos grupos. Amigos e conhecidos em amena convivência. Impera e reina a boa disposição. O corpo pede conforto, os acessórios gritam por socorro. Numa nota mísera, os chapéus ainda estão na moda. As marcas fazem o seu trabalho e, no recinto, estão ao nível das tatuagens. Estão em todo o lado. Chegada a hora, o palco faz vibrar, braços ao alto, mãos num movimento frenético. Entre luzes, som e adrenalina, gritam os espectadores entusiasmados. Sobrevivem, naquela excitação, os telemóveis que alumiam. A fotografia da despedida, o adeus resumido numa mão bamba. De cigarro na boca, ao jeito de um retrato a preto e branco. Foi assim, em grande escala. Numa outra pausa, rir-nos-emos do resto. É sempre assim.

14.5.15

Sonho ou outro termo qualquer.

Paolo Conte canta ao ouvido, enquanto as escadas de sempre são o elevador que prefiro não subir. Estou a rir-me desde manhã, como se fosse possível. Mas mantenho um sorriso na cara e não é mais do que o meu instinto e o meu intelecto, se capacitados para funcionar em simultâneo e em convergência, a dar-me sinais. A falar comigo. A conversar e a partilhar opiniões. Há um tempo, não tão distante quanto isso, perguntaram-me, num tom mais afirmativo do que questionador, se eu sonhava alto. Devo ter respondido qualquer coisa que já não me lembro. Mas sonho. Vou sonhando e em diferentes escalas. Sempre, e isso é essencial, de acordo com as minhas convicções. Sonho ser capaz de realizar sonhos. Criá-los de raiz, numa folha em branco ou num qualquer lugar onde a minha verdade e disponibilidade sejam precisas. Sonho, se não abusar nos metros em que me coloco, escrever sobre a fantasia, as ideias que permanecem guardadas neste espírito. Com o intuito nada banal, mas pouco modesto, de fomentar o sonho no outro. Talvez, influência de um ou outro enredo bem escrito. Como no tempo em que as novelas eram lidas com gosto. Já nem lhes dão esse nome. A minha irmã mais velha guarda algumas, muitas sem saber. Na verdade, o gosto dela pelos livros encerra-se na vontade de os comprar e de os saber ali, em querendo lê-los. E, em não me esquecendo, volto à sua espécie de biblioteca. De preferência, sozinho. Continua a soar Paolo Conte ao ouvido e na secretária, entre outras entretenhas, uma novela das antigas.

30.3.15

Voz que celebra heróis.

Nas últimas semanas tenho estado a trocar mensagens com uma amiga. Mensagens escritas. Ora no mail, ora no telemóvel. Ou numa ou outra rede social. Não estamos juntos fisicamente há tempo sem conta. Demasiado. Contava-me das aventuras de uma cidade distante. Do David, eterno beto de cabelo viciado. Zangou-se com o rapaz, premeditadamente, para afugentá-lo. Excessiva parcimónia em inenarráveis actividades. Mau sexo também. Enviou-me uns links. Adiei a visita. Já não sou capaz de contar os anos que passaram desde o momento em que conheci a Joana. Chamemos-lhe pelo nome da menina que come a papa, enquanto lhes cantarolam ao ouvido, de colher em riste. Como quem fecha os olhos e permite-se imaginar. Devíamos ser assim, agentes da imaginação impar e desassossegada. Porque a Joana não deixa de ser assim. E é, sem grandes filosofias, uma miúda certa e feliz. Vai estando feliz. Canta, a Joana canta. Às vezes, aqui me confesso, esqueço. Não me lembro que a Joana pequenina, que conheci lá atrás, numa infância que parece distante, canta. Numa infância quase ausente. Muito mais do que, de facto, é. Canta e fá-lo com propriedade. Pois, vamos lá tentar entender, canta e fá-lo com talento. E, finalmente, decidi abrir os links. Lá estava ela, bonita de olhos expressivos. Os lábios atrevidos. A cantar em bares. A interpretar canções de outros. Em jeito de rodapé, num dos e-mails com o link em anexo, perguntava a minha opinião. Não sou o tipo mais avalizado para isso. Mas sei do que gosto. E tu, Joana, cantas tanto. Dias depois, ela respondia. E recusava a minha resposta. Agradecia, mas queria saber o que tinha para dizer sobre actuações ao vivo, em bares variados, com canções de outros. O estigma existe, bem sei. Mas não merece poste e bandeira. Joana, boa amiga, só se lixa quem quer. O preconceito tem lugar para lá do dicionário, mas não vive para sempre. Cantas para caraças, mesmo que a expressão seja típica da génese do calão. O resto é impertinências, tal e qual, uma insónia. Canta onde te deixarem. Até que te valorizem a alma na voz. Minha boa amiga, tens garganta. Humilha o povo sobranceiro e arrogante. Joana, um beijo. E sê velhaca. Há quem goste.

9.3.15

Real execução melodiosa. #4

 
Quando começa a semana, repetimos adágios e ouvimos novidades dos “mes amis”. Não nos resta alternativa, senão aceitar e ir. Nunca acaba, se assim tiver de ser.

4.3.15

Bravo.

Aquele gajo compôs uma autêntica diversidade de boas notas. Aquele gajo é descomprometido com tudo, desde sempre. Conheci-o há alguns anos, algures numa adolescência que ganha um certo tom de vedetismo. As calças daquela marca, os ténis da outra, ainda os pólos com fartura. E ele nada. Desmarcava-se disso com uma pinta sem igual. Talvez, porque nessa altura não me agradavam os pólos e as camisas aos quadrados, demo-nos bem. Embora, as tenha vestido algumas vezes e de feitio torcido, tão contrariado. E devo ter sido beto. Ou arraçado disso. Mas não importava. Como não importa. Valia a cabeça e a construção das conversas. A música que já era tão presente. Ouvíamos o som da altura, mas que já era passado. Apresentou-me um sem número de nomes que ainda hoje trago na minha lista de preferências. Volto sempre a ouvi-las, em todas as vezes que não me esqueço. Reencontro-me com as suas sugestões musicais bem mais amiúde do que com ele. Uma pena descomunal. Vive entre Cascais e Londres. Toca como só um gajo como ele consegue. Tem composições incríveis. Algumas não saem de casa. Este gajo ainda vai ser reconhecido, porque o melhor já é. Sem qualquer adorno dispensável. Continua a ser aquele gajo descomprometido. Fiel. Dispensa, ainda hoje, as camisas engomadas, as calças marcadas e os ténis. Há gajos do caraças.

24.2.15

À terça sobre a segunda alheia.

As segundas têm um espírito próprio. Podemos falar de novas oportunidades ou da infelicidade de retomar a imbecil matemática dos dias carregados de monotonia e de trabalhos inóspitos e colegas de má rês. As segundas são um falsificado amuse bouche. Amam-se ou odeiam-se. Lembro-me, desde sempre, de ouvir quem lhes desejasse a morte e, ao mesmo tempo, quem lhes dotava dos maiores elogios. Como se fosse uma pessoa. O senhor simpático da mercearia, a tia que ninguém atura ou a amiga lá de casa que se esquece de vocábulos como privacidade ou não usa relógio, embora, forçadamente, fale com a dicção tão afectada que nos obrigue a uma tradução em tempo real. A volatilidade dos termos e da crença de cada um, começa cedo. Logo nos primórdios do entendimento, ainda que, nessa altura, voem apenas as palavras. Bem mais do que a verdade e a compreensão. Ontem, segunda-feira, leram-me o horóscopo da semana. Semana amena, dias bons. Saúde em perfeito equilíbrio. Trabalho numa fase favorável e do amor reza que do passado não vive um nativo. No meio disto, há sempre a frase feita e a palavra universal e que, alheados, nos faz algum sentido. Agora mesmo, enquanto escuto alguns temas da Brenda Boykin, pensava como saltar numa rua qualquer, com um ou mais balões coloridos na mão, fosse bem mais credível do que a leitura que me fizeram a atrasado. Bafejado pela sorte, quem sabe, chegar-me-á um presente do ainda futuro, e faço o pleno. Canta a Brenda Boykin e não engana, “Love is in Town”.

18.12.14

Real execução melodiosa. #3


 

“Rua da Emenda” é o mote de um desfile e desfiar de histórias contadas com a melodia sem erros. Sou, por demais, fã confesso de António Zambujo. Oiço, amiúde, os novos temas e as canções de discos anteriores. Enquanto ouvia, sem pausa, o novo tema, “Pica do 7”, pensava como a letra, a palavra tão bem escrita e descrita faz, sem pensar, tamanha diferença. Alia-se, aos autores dos poemas, a voz conhecida. É espectáculo, certamente, sem medida.

25.11.14

Parecer de um desprovido.

Sonho com o dia em que a sala de leitura se transforma numa biblioteca digna. Forrada a livros devidamente identificados. Guardar-se-á, num compartimento as revistas que colecciono. Muitas de música. Outras tão genéricas. Mas sempre de proveitosas matérias. Grandes capas e elogiosos recheios. Em alguma parte desta casa estão revistas. Capas que vislumbrei e jamais lhes li o conteúdo. Outras que espreitei, por me cruzar com elas sobre a banqueta e a mesa de apoio. A Elle, a Vogue ou a Vanity Fair deixadas por entendidas da moda. Nesta casa, algures numa gaveta de recordações, estão revistas de nicho. A moda é um exemplo, porque as abandonaram por cá. Não sei, sinceramente, se algum dia a minha mãe lhes pousou a vista. Nesta casa, onde a minha cadela é rainha, lê-se sem preconceitos. Entendem-se as comadres e os compadres.

24.11.14

Algures num sumptuoso lar.

Não me canso de gabar a sala de pé direito alto e elegante, o soalho de madeira pesado que não deixa a desejar. As portadas largas, brancas como a decoração. Os vidros, no fim-de-semana de Novembro a findar, ganham pingas a desenhar. A rua fica lá em baixo, como se fosse a terra a definir. E gosto de ler, mas escolho o sossego. Não é o caso. Agora, servem-se cafés e infusões. Não é chá porque vem em latas reinventadas. Biscoitos e scones da padaria que agora é costume. É um desenrolar de conversas sem fim. Sartre é tema em cima da mesa. Opiniões que não se medem na informação vazia que percorre o mundo de circunstância. Antes dele, falámos de Carla Bruni, recordações do seu tema “Tu es ma came”. Logo alguém se lembrou da letra e a cantarolou. Mais depressa correram ao vídeo online e a saudade voltou. Fazemos da informação e da canção o que delas nos aprouver. Caso não resulte, problema resolvido. Compras mais infusões cuja marca nacional os reinventa e oferece novos sabores. Serves, por fim, de bandeja com os sonhos e os dissabores.

28.10.14

Em diferido. #21

Fado em cada linha - Confunde-se a iliteracia contextual com a procura, sem fim, de um carimbo de qualidade e de certificação de um povo. É um fado que desvenda a sonoridade dos arrepios da inevitável e inconsequente evolução de um ramo que não larga o tronco enraizado numa cultura que respeita e canta desentoada temas mais ou menos característicos e assertivos de ouvido, do tão afamado fado. Permitir que a canção nacional toque no nosso leitor, sem que lhe apontemos graves dissonâncias. Sem que, pelos primeiros acordes da guitarra tão portuguesa, nos desmotivemos. É moda, contrariar essa corrente, ouvi e li algures. Em tantos textos de opinião e em infindáveis entrevistas de nicho. Nas outras conversas, também. Conversas de rua, de café, de amigos e de entretidos conhecidos. Ainda, nas conversas descomprometidas em televisão, tão válidas pelo entretenimento a que se propõem e que o espectador não nega. Antes desta vaga, houve dedicação, amor e paixão. Formigas na voz, no peito e no corpo que desgrenhava veias como se fossem cabelos soltos. Foi a verdade que ajudou a cimentar uma canção com poemas de palavras vivaças e abatidas. As últimas, bem mais conhecidas e usadas. Ouvir a versão de Ana Moura do tema “A Case of You”, onde a artista não foge, mas experimenta, enquanto alguém esconde o rosto e parte de um corpo desnudado num lençol branco, é sensualidade nacional. A excepção não remata o todo. Depois, seguem-se as restantes faixas de “Desfado”. É um deleite para a irrequieta reformulação da arte. Voluptuoso fado. Canção nacional.

7.10.14

‘The show must go on’

Fingindo ter um microfone à frente, gesticulava e cantava. Firme. À capela, supunha-se. Popular no som, imponente e corpulenta na voz. Extravagante no figurino. Ousada no penteado. A letra, fluente na memória. O cover invariavelmente antigo. A banda atrás. O público na frente. Os aparelhos afinados. O palco montado. A miopia a favor. O microfone ali. Refutando a esperança irrealizável. Ganhando vida, não era fingimento. Era protecção. Sabia-o ali, à sua frente. Afastando o olhar para lá dele. Fica na sombra. Por ela, até ao amanhecer. Vagos pensamentos. Compassada, deixando-se levar, esquece o fingir. Atribui efeito. Faz sentido quando não contamos menos. Siga o espectáculo.