Não
fui de subir aos telhados, porventura, vítima das vertigens que me assaltam,
ainda os metros não são excessivos. Ou por puro aborrecimento. Ainda me fiz
afoito, jogando à sorte. Pisando cadeiras, parapeitos de janela, afiançando o equilíbrio
numa varanda mais robusta. Como se houvesse esperança. De arribar do solo e,
num pulo, chegar a uma estrela. Nunca aconteceu. Enfim, por me ver próximo de
casas que não o permitiam. Ainda que na alienação mental dos tempos de garoto.
Embora, um endiabrado somente nas horas vagas. Tão singelo. Mesmo assim, não
perdoei muros largos e altos. Entre arbustos. Com compinchas a amparar o pé.
Corríamos sem pensar. Atrevíamo-nos na escalada desamparada. Hoje modero as ânsias.
Não esqueço as traquinices. Há pouco, numa rua gira, com prédios altos e alguns
recuperados, no cume do maior, estão várias janelas deitadas sobre o telhado.
Numa, um gato que enfeitiça. Pela beleza exuberante e arrogância castiça. Logo
volvi uns anos. Começo da idade adulta, em casa de uns amigos, onde as águas-furtadas
eram ponto de encontro. Para o palreio sem censura, para o acumular das
traquitanas do dia-a-dia. Dos romances dignos de apneia aos desamores de
prender a circulação nas veias. Compensando todas as parvoeiras. Numa estada
sempre apreciada. E víamos passar. Com toda a desatenção, com todo o vagar. Até
as vertigens não ganhavam lugar. Guardo saudades. A ironia vence sempre. Mesmo
que não a saibam ler. Nunca fui de subir aos telhados, na ignorância feliz de
me saber lá. Agarrado às vertigens sem ocupação. E hoje não é diferente. Estou
onde me permito. E, não desminto, há dias em que me limito. Mesmo que esteja
com os pés em terra firme.
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1.2.18
11.10.17
Em diferido. #60
O
puto do skate e as marcas contadas - Passou por mim
um puto sobre a tábua. Um boné todo porreiro, num encarnado sangue, envolvido
por um verde seco. Uma pala à maneira, na cabeça bem seguro e direito, contra o
estágio de outros tempos, em que o dito seguia de esguelha. Um boné que por
estes dias ganhou outro nome, pelo menos foi assim que me foi contado. Passou
por mim, ainda cedo, um puto sobre uma tábua bem estilizada. Seguia seguro e
bastava olhá-lo para senti-lo confiante das suas acrobacias. As rodas queimavam
o asfalto. O barulho típico do material a fazer das suas, o puto com um sorriso
rasgado. Torneando as linhas, seguiu nessa trivial actividade, com a tábua
bonita. Sob os pés enfiados nuns VANS todos
rebentados. Lembro-me de pensar, lá atrás, que essas eram as marcas físicas e
visíveis que faziam falta. Que davam liberdade e individualidade. Analogia aos
velhos que me rodeavam e que, cheios de marcas no rosto, no corpo, tinham as
mais atraentes e dinâmicas estórias. E partilhavam-nas com gosto e empenho.
Corri o mundo sentado sobre as pernas cruzadas, num chão bonito e trabalhado,
ao ouvi-los prosear. Numa cadeira de orelhas ou num sofá datado. Envolvidos por
quadros bonitos com molduras douradas, prateadas e de madeira bonita. Também
num quintal coberto de cimento, envolvido por vasos aleatórios cheios de flores
coloridas e roupas num canto a secar. Os meus olhos largavam num deslumbre
escarrapachado. Que não mentia: estava interessado. Guardei essas conversas com
a mesma convicção – porventura mais – com que guardei, na altura, uns ténis.
Vem de longe a minha paixão. Usei-os até vê-los ultrajar com insulto aviltante
a minha mãe. Chegou o ultimato: era o fim. Não me lembro se chorei, mas fiquei
irritado. Eram a minha companhia, repetida, bem sei, mas eram. Com eles, se a
memória não me falha, lancei-me numa queda de bicicleta que podia ter causado
estragos sérios. No dia seguinte lembrei-me de um desses velhos que me
ensinaram. O que lá vai, lá vai. Aceitá-lo é mais fácil do que martirizar o
espírito. Não são palavras vazias. Atentemos na intensidade. O puto parou,
repentinamente, e ficou com a tábua hirta nas mãos. Equilibrou o boné encarnado
e verde seco. Os ténis ganharam mais uma para contar. Serviram, uma vez mais,
para a tábua amparar.
10.10.17
Descalcei as alpergatas.
Conheci-os
algures. Numa distância que não tem tempo, contado ou pensado. Valeram-nos as
prosas dilatadas, as janelas de sacada largas, o sol em brasa ou as noites bem
regadas. Não cabe nesta jornada nem um soluço de pausa. Lembro-me dos pés
descalços, das peles douradas, dos cabelos húmidos e dos olhos arregalados. Parece
conto, veste-se de fábula. É antes uma verdade abençoada. Guardo os amores de
perder a alma, as paixões de ferver o sangue, os jeitos amancebados com os
gestos e as desilusões de comer a carne. Parece exagero de puto iludido, mas
não é senão delicadezas de um tempo detido pelas exigências. Éramos um tudo e
um tanto mais. Atirávamos ao ar, à sorte e ao mar. Puritanismos ao longe,
fingíamos adiante do nosso presente. Recusando não experimentar. Era forte, era
pressa. Primeiro testar, depois atestar. Ficou-nos a amizade de todo o tempo. A
simbiose do pensamento e da sinceridade. Os jogos atravessados, os copos
levantados, as noites que não zangavam os ponteiros, a praia com cheiros bons e
mergulhos conversados. Conheci-os algures, em espaços e datas diferentes.
Trago-os desde longe. E aperalto-os com adjectivos, partilhas e sentimentos genuínos.
Efusivos e, admito, um pouco floreados. Mas não minto. Nem tagarelo em vão.
Eles hão-de rir, gargalhar e levar as cabeças atrás, enquanto tomamos uma
bebida da moda ou uma cerveja barata. Mas é certo, hão-de devolver-me na mesma
medida, mesmo que entre dentes. As mensagens partilhadas são autênticas e irreflectidas
homenagens. Conheci-os algures. Numa cronologia sem constrangimentos.
Crescemos. Ainda voltamos às prosas dilatadas, às janelas de sacada largas, ao
sol em brasa ou às noites bem regadas. Com o mesmo entusiasmo, com menos
aflição e outras idades. Roubamo-nos nestes pormenores. E somos tudo e um tanto
mais. Ainda somos tudo, ainda esperamos um pouco mais. O verão a fazer das
suas, na época e no ano inteiro.
29.5.17
Estrepitoso amanhecer.
Escancarou
a janela grande da cozinha, antes havia subido os estores na totalidade. O sol
da manhã a corroer qualquer possibilidade de olhar para além do chão. Os olhos
incapazes de focar dignamente – evitem o sol forte e a ausência de óculos
graduados - reparam na cozinha arrumada, toda limpinha. Sem qualquer rasto das
taças de vinho, tampouco dos acepipes. Ou dos restantes sustentos do
divertimento. Nada a beliscar a noite anterior. Sentado numa cadeira bastante
certinha, numa casa que não é minha, imagino o fim dos dias sobre a minha
cabeça: um cabelo humilhantemente desarrumado. Mas fico-me pela dúvida, evito a
sentença. A silhueta cheia de vida deixa-se sossegar. Encosta-se à bancada de
pedra, escura e fria. Quase sentada sobre a dita. Reparo que me dirige o olhar.
Numa tentativa sem reflexão de focar, cruzámos olhares. E sei que ela riu.
Baixinho, sem alarido. A resposta inequívoca, esbocei um ar nada delicado.
Entrei na dança, rimos juntos. De pernas cruzadas, a saírem de uns calções
curtos, perguntou-me se dormi bem. Tendo em conta o horário, não podia mentir,
dormi o insuficiente. Ela não gostou da almofada. Preferiu lutar contra a
cozinha desarrumada. Agradeci-lhe a simpatia, mas lembrei-lhe que não era
função de um só. Cortou esse caminho e perguntou-me o que eu estava a pensar
fazer durante o dia, uma vez que estava num lugar que não conhecia. Sair, ver,
conhecer, disse-lhe. Ela, sendo também visita, era repetida. Deu-me sugestões.
Ofereceu-me muitas saídas. Mostrou-se disponível para nos acompanhar. Agradeci.
Desenhados os sorrisos, passos de silêncio. Ela, num só salto, desce da bancada,
procura o granulado do seu bulldog francês, enche a taça e renova a água. De
costas, vira a cabeça na minha direcção e deixa fugir que gostou muito do
jantar do ZM. Foi graças a ele que nos conhecemos. Anuí com a cabeça. Sem
travar, perguntou-me se lhe tirava uma fotografia. Gostei do que vi, continuou.
Disponibilizei-me. Ali mesmo, numa cozinha estranha, precocemente cedo, com uma
luz simpática, a fotografar uma estranha bem-parecida. Não é outra coisa. É o
acervo do acaso. Há instantes, uma carta. Prosa bem cosida e um agradecimento
especial. Ainda há quem escreva. Cartas e à mão. E, o melhor dos nossos dias,
sem mácula. Sem um erro ortográfico. Há combinações crepitantes.
22.5.17
Finos ornatos numa bojuda jarra.
Lembro-me
dos arranjinhos de flores frescas, bonitas, quase certinhas, ainda assim com ar
selvagem e agreste. Com cores que regalavam os olhos ou em tons mais suaves. Lembro-me
das jarras com água limpa. Da mesa redonda, da madeira forte. Do cheiro a natureza.
Sempre com a luz da porta grande a tocar-lhes. Com os cortinados recuados. Na
cozinha, sempre um ramo generoso de alecrim, outro de alfazema. Cheiros bons e
atrevidos. Começada a Primavera, era sabê-las lá. Naquela sala, inventava-se um
palco de criatividade floral. Os quadros grandes numa estranha e imponente posição
de espectador. Era assim, de mãos meticulosas, que os dias giravam com outro
aroma e graça para a vista. Para criar ambiente, para oferecer vida às nossas
vidas, diziam-me. Lá, devo ter evitado a mensagem, bem mais a imagem, devo ter
passado à margem. Mas é memória. Para lembrar que o nosso quotidiano é
relevante, mas jamais será o mais importante. Não é isolado. O mundo e os
acontecimentos. As experiências multiplicam-se fora de nós, do nosso
conhecimento. Correm à semelhança e ao passo do tempo. Bem escasso, tão valioso
que não se deixa vender. Tão especial que tens o direito de escolher. Pensar é
fácil, mirramos no exacto instante de agir. Oferecer – não despender - tempo a
algo ou a alguém é um dos caminhos. Não que nos soe a egoísmo, mas porque é uma
acção bilateral. Ficar, sem contar os movimentos dos ponteiros, a olhar ou a
conversar, é tremendo. Dás-te ao outro, logo à matéria que não te pertence, e
recebes a certeza de que o teu umbigo é francamente frágil, efémero e, em tempo
algum, o dono do mundo. Mesmo sem prestar atenção, sempre achei genuíno e
elegante o ambiente daquele espaço. Ainda mais no dia em que fiz,
acidentalmente, cair a jarra maior. Colhi cada um dos pedaços e trouxe a
certeza de que são os actos que criam laços.
18.5.17
Em diferido. #59
Virente memorizar - Rabiscar a parede como se fosse uma tela.
Permitir carburar as ideias, burilar sobre o branco limpo, o que se lhe assoma
no intelecto. Desde que me lembro, guarda-a para o efeito. Ora desenha com o
traço fincado, ora risca com o desmérito que promove. Ambas resultam numa obra
digna daquela exposição. O talento jorra-lhe das mãos, dedica-se nas horas
desocupadas e São Francisco, não tão longe, é a razão. Coloca música para
guardar o ambiente, boa música no caso. Não é de hoje que o talento é ocasião
para a reunião, que já não esqueço as horas ininterruptas que lhe oferecemos.
Logo jovens adultos, numa inconstante procura e numa vontade com constância.
Espargimos sobre a época todas as nossas capacidades. Com todas as certezas,
despendemos largas horas às tertúlias fecundas e às sem ornatos também. À viola
do mestre e ao olho atrevido para a fotografia. À prosa escorreita e à poesia
que roborizava e deslustrava. Às cartas e aos jogos que instigavam a fuga à
denúncia do olhar. Um armazém de pendulares memórias. Ali, verticais, à espera
de quem passa. Porque há algum tempo que não coloco a vista em cima, mandou-me,
ontem ao final da tarde, imagens de mais um pormenor. Rabiscar a parede como se
fosse uma tela é aumentar o préstimo do que nos rodeia. É aconselhar a percepção
intelectual. E deles, retirar o melhor.
11.5.17
Viandantes apaixonados pela arte.
O
trânsito está caótico. Mais à frente um carro todo simpático, pintado de um
amarelo sereno, “decidiu” invadir uma propriedade privada. Muro ao chão. Murro
no coração. Imagino a tensão. Vejo uma senhora em aflição. Gente a assistir.
Ansiosos e com a eloquência nas mãos. Os meios de socorro já lá estão. O trânsito
está caótico. Quase parado. Brinco com os dedos no volante. Faço retratos
mentais do que tenho para fazer. Começo a acreditar que vou chegar fora de
horas. E não vou perdoar. Não consigo funcionar de outra maneira. O relógio no
pulso de sempre, o direito, alerta para os minutos a escassear. O carro também
não deixa passar. Toca o telemóvel e hesito. Acabo por atender. Falam do banco,
mais assuntos pendentes e questionário de qualidade. Volta o rádio a tocar. Raramente
mudo a estação que escuto. Servem-me jazz. E nunca digo que não. É uma paixão
antiga. Antes mesmo de ter conhecido a M. Bem, muito antes. A M. entrou na
minha vida já a adolescência corria a bom ritmo. Ela era morena, de olhos
claros. Tinha um cabelo bonito, longo. Era, na altura, uma artista de jazz em
potência. Confirma-se hoje, artista de excelência. Tinha um jeito doce, meigo e
bastante reservado. Nitidamente tímida. E não perdia nada, só lhe acrescentava
charme. Andava, sempre que possível, com o instrumento. Ou eram as aulas ou os
ensaios. Ou os tempos vazios ou a vontade simples. Com ela tomei conhecimento
de mais aspectos deste género musical. E outras tantas partilhas que só nos
fizeram crescer. Enquanto gente em formação interior, cívica e artisticamente. Era
francamente bom. Acabámos por seguir caminhos diferentes. Nada beliscados, mas
com fraca força para dar continuidade a uma relação de convivência próxima. Até
porque ela foi viver para outro país. E os trejeitos da vida não têm de ter
sempre uma justificação. Ou a justificação que pretendemos. A M. continua
sóbria e apaixonada pela arte. O eterno caminho da salvação. Acredito e lembro
sempre que posso. Por maior que pareça o caos, se amares a arte, tens o destino
beneficamente traçado.
18.4.17
Inferências matinais.
Acabei
por pousar o livro de páginas generosas sobre o que havia de chamar de mesa de
apoio. Estava, há tempo demais, à espera de um dia. De uma pausa conveniente,
de um lugar perfeito. Agora tem um candeeiro aperaltado, de design arranjado, uma vela com a marca
estampada e um arranjo florar todo primaveril, por companhia. Penitencio-me –
menos do que seria necessário – por não devolver a atenção de outros tempos à
leitura. Atropelo-me, à margem de outros termos, na hora de fazer escolhas.
Surgem opções e razões. Entram numa luta inglória. Fico feito coisa nenhuma
perante o resultado. Não sei outro facto senão que sou eu o único e real culpado.
Não ofendi a decoração pensada, mas adulterei a função do livro. Noutro tempo,
ainda pequeno e sagaz, inventava formas de assaltar a estante da casa dos meus
avós maternos. Vi-a imponente, carregada de enfeites. Os livros tinham lugar de
honra, nas prateleiras cimeiras. Depois de várias e vãs tentativas, o sofá de
orelhas pareceu-me a escada necessária. Queria ler e, mais do que isso, queria
conhecer outros e diferentes enredos, outras palavras e autores. Por sabê-los
longe da minha idade, larguei na procura de lá chegar. Tinham um sem fim de
prosa e poesia. Li novelas de autores nacionais e internacionais. Dicionários
de filosofia e botânica. Um livro bem discreto com bonita poesia erótica, cujo
nome da autora ainda hoje não consigo recordar. Certamente, li fora de tempo,
antes de ter o discernimento necessário. Hoje corro sei lá para onde, deixando
ficar partes fundamentais da engrenagem. Falta-me a agudeza de espírito e a
finura do corpo para voltar à fonte do raciocínio.
13.4.17
Inaudito soprar daquele lugar.
Acabo
de receber um vídeo e dois pedaços com som. Remonta às idas para o Algarve
diferente. Afastado das massas. Preservado pelos amantes daquele lugar,
daquelas bandas. Com direito a praias de mar revolto e caminhos íngremes.
Gentes da terra com o sotaque fresco e pronto a soltar o verbo. O rádio do
carro solta as mais diversificadas canções. Sem incomodar ou impedir de cantar.
As casas seguidas, poucas e quase na boca do mar, de branco imaculado, com o
verde e o azul a fazer as vezes de adorno. Também pintadas de cores diversas e
garridas. Sem esquecer o amarelo que passou da cozedura ou o rosa velho, os
pequenos jardins logo à entrada ou as pedras na parede desenhadas. O verde a
manter a postura, sem mazelas graúdas. O ar que inalamos é superior e tem um jeitinho
sem igual. Os surfistas tomam as ganas das ondas que não perdem o génio. Os
lugares, pequenos e familiares, que oferecem tempo e sossego. As pequenas
mercearias que servem as necessidades da população, que matam o tempo a todos e
a cada um, inclusivamente. O jardim, cujo cenário vive de dois ou três bancos
feitos de ripas de madeira, alguns arbustos a envolver e flores com cor de
primavera. As velhotas e os velhotes numa tertúlia quase silenciosa. Dão os
bons dias, desejam uma boa tarde e só falta a noite feliz. Aí, já no resguardo
do lar. Os restaurantes primam pelos pratos da região, nunca falta o peixe
fresco. O cenário é atrevido e peculiar, convida à conversa demorada, às
partilhas de pele com pele e às indefinidas fotografias. E, claro, sem esquecer
as largas memórias que nos traz. Recebi, há escassos minutos, a certeza de que
vamos voltar. As imagens de outros dias, tremendamente bem embrulhadas, feitas
convite. Tenho saudades. Temos saudades. Tomo com elas a certeza de que há
sempre mais. Há ir e voltar. As vezes que entender. As vezes que nos receber.
4.4.17
O puto do skate e as marcas contadas.
Passou
por mim um puto sobre a tábua. Um boné todo porreiro, num encarnado sangue,
envolvido por um verde seco. Uma pala à maneira, na cabeça bem seguro e
direito, contra o estágio de outros tempos, em que o dito seguia de esguelha. Um
boné que por estes dias ganhou outro nome, pelo menos foi assim que me foi
contado. Passou por mim, ainda cedo, um puto sobre uma tábua bem estilizada. Seguia
seguro e bastava olhá-lo para senti-lo confiante das suas acrobacias. As rodas
queimavam o asfalto. O barulho típico do material a fazer das suas, o puto com
um sorriso rasgado. Torneando as linhas, seguiu nessa trivial actividade, com a
tábua bonita. Sob os pés enfiados nuns VANS
todos rebentados. Lembro-me de pensar, lá atrás, que essas eram as marcas
físicas e visíveis que faziam falta. Que davam liberdade e individualidade. Analogia
aos velhos que me rodeavam e que, cheios de marcas no rosto, no corpo, tinham
as mais atraentes e dinâmicas estórias. E partilhavam-nas com gosto e empenho. Corri
o mundo sentado sobre as pernas cruzadas, num chão bonito e trabalhado, ao
ouvi-los prosear. Numa cadeira de orelhas ou num sofá datado. Envolvidos por
quadros bonitos com molduras douradas, prateadas e de madeira bonita. Também num
quintal coberto de cimento, envolvido por vasos aleatórios cheios de flores
coloridas e roupas num canto a secar. Os meus olhos largavam num deslumbre
escarrapachado. Que não mentia: estava interessado. Guardei essas conversas com
a mesma convicção – porventura mais – com que guardei, na altura, uns ténis.
Vem de longe a minha paixão. Usei-os até vê-los ultrajar com insulto aviltante
a minha mãe. Chegou o ultimato: era o fim. Não me lembro se chorei, mas fiquei
irritado. Eram a minha companhia, repetida, bem sei, mas eram. Com eles, se a
memória não me falha, lancei-me numa queda de bicicleta que podia ter causado
estragos sérios. No dia seguinte lembrei-me de um desses velhos que me
ensinaram. O que lá vai, lá vai. Aceitá-lo é mais fácil do que martirizar o
espírito. Não são palavras vazias. Atentemos na intensidade. O puto parou,
repentinamente, e ficou com a tábua hirta nas mãos. Equilibrou o boné encarnado
e verde seco. Os ténis ganharam mais uma para contar. Serviram, uma vez mais,
para a tábua amparar.
21.3.17
Equilíbrio e harmonia nos seus componentes.
Só
nos faltava mais tempo e que a mesa fosse redonda. Não dou espaço para
questionar. Pois, em abono da verdade, não me restam justificações.
Assomou-se-me a ideia de que as mesas redondas guardaram as melhores das
tertúlias. Não será, factualmente, mentira, nem totalmente verdade. Por
oposição, claro. Talvez, e especulo neste instante, a mesa redonda da sala de
jantar da casa dos meus avós maternos me tenha feito guardar, à margem da
história do mundo, esta ideia. Trago a vaga lembrança de deliciosas e demoradas
conversas ao redor da mesma. A minha avó com o seu cabelo tão armado, o seu ar
altivo e um nada rude, escondia a versão divertida, tamanha a preocupação em
servir bem. O meu avô e os seus olhos claros, sempre mais ameno, disposto e a
rede do convívio. Perdi tanto, que lastimo não ter estado lá mais cedo. O que
me contaram será uma medida muito rasa do que, de facto, por lá aconteceu. Hoje
é uma sala em silêncio. Com a mesa ao centro, as flores viçosas numa jarra. O
quadro gigante numa parede e os outros nas restantes. A estante com peças com
memória. Este domingo, a mesa estava lá – outra e noutro ambiente - comprida,
de madeira pesada, por azulejos bonitos adornada. Sobre ela passou de um todo.
A comida é a união. A bebida não perde terreno. Somos família. Aqui, poucos,
mas exactos. A eloquência é característica e, sem atropelos (às vezes), levamos
a nossa prosa adiante. A minha mãe, em alguns casos, teme que a minha avó –
sempre à cabeceira – ruborize. Mas não há razão. Guardámos-lhe todo o respeito
que nos merece. E, volvidos tantos anos, a avó é uma mulher bem mais liberta
(ligeiramente) de obrigações de um protocolo que lhe faz sentido. Tem a cabeça
arejada e ri dos devaneios de uma descendência que a quer viva.
23.2.17
Flor brava e fervorosa.
Venho,
por estes dias, lembrando a velha Rosa. A tia, tão saudosa. Não tem
justificação. Algo ou alguém serviu de mote, mas não encontro um só norte. Como
se a morte, a ausência e a saudade precisassem de regulamento. A minha mãe
guarda lembranças gratas e sem fim desta mulher. É infindável a necessidade de
acolher que a minha mãe suporta, tratando-se de um familiar ou não. Agarrei-lhe,
por isso, o gosto pelo outro, a dedicação mesmo à distância. Tomei as memórias desta
tia e fi-las minhas. Lembro sempre a tia Rosa. Bonacheirona, o cabelo tão
branco, o rosto sedoso, sem medo das palavras, a silhueta dilatada, de riso
fácil e audível – nesta característica é impossível não encontrar a minha mãe.
Pensar nesta mulher é aludir à natureza, ao campo largo, à vista que não se
quer tacanha, ao amor à vida e à verdade dos dias. Imagino-a, catraia, pela
serra descalça, entre o verde típico, o castanho vivo e os realces da flora.
Dizem-me que fora sempre desordenada, firme, de espírito livre e dona do seu
corpo. Com facilidade, dizem-me que fora sempre um bicho fora de época. Vivia
depois do tempo, para lá do que os olhos dos outros ainda não viam e da
ignorância que não dormia. Não tenho pena desta mulher. Rosa, antes de ser tia
ou mãe, foi vida. Real e sentida. Mulher convicta, desde o pé descalço à psique
desenvolvida. Recordar a nossa gente é fortalecer. Não lhe deixo pena, fico-me
pela saudade, que essa, tal como ela, é eterna.
21.2.17
Estro que me enche o peito.
Ainda
petiz gostava de desenhar. Imaginar e no papel acontecer. Ainda petiz rabiscava
com a convicção da imaturidade, à espera de ocupar o tempo. Deixava, quando não
me esquecia, espaço para os traços. Algures, numa divisão que agrega os
excedentes, devem estar cadernos cheios. Pequenos dons e garatujas também. Lá
atrás, numa atitude meio blasé, ocupei-me a deixar entrever no quadro escuro. A
vaga ideia de que fora um momento feliz. Inventei criar a giz sobre a ardósia,
um cavalo gigante, nele um homem montado. Não descurei os pormenores, desde a
bota adequada ao chapéu de aba larga. Ao peito trazia um cantil. As rédeas na
medida. Tão petiz, numa sala de aula em pausa. E longe de saber que a certeza
da bitola varia. Que a felicidade é instável e a liberdade muda conforte o
entendimento do conceito. Distante de ter em mãos o que, naquela idade, não era
potável. Felizmente. Retirei prazer das aulas de educação visual que, mais
adiante, fui tendo. As notas elevadas eram o retorno de que não ambicionava. A
galope deixou-se ir a série ininterrupta de instantes. Larguei a necessidade de
guardar no papel, em linhas convictas, as mais inusitadas ideias e os mais
banais pensamentos. Se não me falha a recordação, teve este homem destemido em
giz pintado, honras de continuação. A professora gabou-mo e deixou-o ficar.
Juntaram-se, à volta, os colegas. Rimos por tudo. No fundo, por nada.
Inevitavelmente tomei outro rumo. Ou outros. Não segui o trilho das artes, mas
não sou senão um fascinado pelas mesmas. Ironicamente tenho hoje grandes amigos
que são artistas. Dos valentes. Dos que têm talento, sangue e nervo naquilo que
criam. Talvez não por acaso, estou rodeado por felizes autores. E tive relações
que foram amor em estado puro com mulheres dotadas. Por estes dias, uma franca
amiga repetiu a proeza, voltou a expor em Lisboa. A cidade que a adoptou e deu
oportunidades. Ainda petiz não sabia, mas sou um privilegiado. Mesmo que desenhar
seja um passatempo que deixei pendente. À espera que volte uma inspiração
decente.
20.2.17
Prosa para acrescentar algo ao que já foi dito.
Já
lá vão umas horas desde que se fez noite. Atrasos quotidianos, os compromissos
num atropelo, os encontros que não prevíamos, as confusões de um dia sem vagar.
As pessoas que deixam para amanhã mas querem para ontem. Já é noite, estou a
chegar. O caminho é escuro, longe da vista, perto da natureza viva. Guardo
ânsias para o reencontro. Iludo-me e parece que passaram anos, tão exagerado
quanto sentido. Foi ontem, numa metáfora que serve o passar dos dias. Um mês,
talvez. Ouvi, no trajecto, uma música que lhe ofereceria sem pestanejar.
Conduzir é libertador. Vejo-me próximo, o portão largo já está escancarado.
Sigo pela intuição. Voltar aqui é agarrar tantas memórias que não seria
possível largar num discurso só. Fomos felizes, entre os risos da idade e o
desespero da vontade. Os dias na piscina sob o sol ardente ou as noites de
banho de lua. Bebemos taças de bom vinho sem lhe dar importância, comemorávamos
a liberdade e a esperança. Na parede do quarto, fotografias ao acaso. Estava em
muitas. Felizes, sempre. Paro o carro, logo vejo a silhueta na minha direcção. Entra,
por fim, e o ambiente valoriza. Chega feliz, de sorriso rasgado, olhos bonitos e
de coração limpo. Trocámos um beijo com verdade, os olhos cruzam-se com demora,
as saudades em exibição. Gosto de ti, sei que lhe disse. Este é um prémio da
idade a contar. Facilito no momento de deixar fugir o quão gosto de alguém. Ainda
assim, só para os que vivamente importam. Gosto desta mulher profundamente
relevante há anos suficientes para não me enganar. No carro, não queremos senão
conversar. Viver é uma profunda chatice. E eu já tinha percebido. Ela lamenta a
efemeridade de tudo, o tempo a deixar-nos mais velhos e sem margem para
manobras excepcionais. Respirámos fundo. Chegámos ao destino. Rimo-nos sem
receio e não perdemos o olhar de vista. Vamos lá. Viver é tramado. Não nos
apetece. Rimo-nos outra vez. Um, dois, três. A idade corre, mas nós, embora não
mostremos sempre, somos os mesmos do primeiro dia em que partilhámos a carteira
da escola. Uma vida cheia. Não duvides.
9.2.17
Pronome pessoal com divinas honras.
Encontrei,
entre um tanto de coisas, uma fotografia. Devo tê-la deixado ficar por ali sem
propósito. Devo tê-la tirado há uns valentes anos, não arrisco um número, por
me ver frágil na contabilidade dos dias e na sinceridade das distâncias. A
negro e branco, num estilo desalinhado entre o compromisso de reproduzir por
meio de fotografia e a vontade de guardar amor. Facilita ver-me convidado a
fotografar pelo impulso. Já naquela época era assim. Vê-la, resumida numa
silhueta de tons cinza, pela força da luz de um fim de tarde. Ao lado, o gato
no mesmo tom, de olhos claros, a inverter a posição. A janela gigante favoreceu
o encanto. Os prédios altos, finos, compostos por janelinhas que jamais
terminavam. De costas, com as pernas cruzadas debaixo do corpo, sobre a cadeira
estilizada de madeira. O cabelo desarrumado e a beleza natural. Resumia o
movimento com a mão repetida sobre o gato que inventava um sorriso de puro
deleite. Deixei-me ficar, por temer prejudicar o ambiente. Deixei-me ficar ali,
quase inerte, numa folga do pensamento, a apreciar. Peguei na máquina dela, por
estar mais próxima e cliquei. Uma e outra vez. Ganhei uma imagem sem legenda.
Recebi em mãos, meses mais tarde, num envelope grande, bonito e com escritos, a
dita fotografia. Noutro lugar, noutra vibração, mas o beijo de sempre.
Encontrei, entre outros valores, uma fotografia que não tem explicação clara ou
sucinta. O mote para o desfiar de memórias e de afectos. Lembro-me, sem
excepções, de cada segundo. E não minto, se deixar fugir que só guardo o que me
acrescenta.
6.2.17
Virente memorizar.
Rabiscar
a parede como se fosse uma tela. Permitir carburar as ideias, burilar sobre o
branco limpo, o que se lhe assoma no intelecto. Desde que me lembro, guarda-a
para o efeito. Ora desenha com o traço fincado, ora risca com o desmérito que
promove. Ambas resultam numa obra digna daquela exposição. O talento jorra-lhe
das mãos, dedica-se nas horas desocupadas e São Francisco, não tão longe, é a
razão. Coloca música para guardar o ambiente, boa música no caso. Não é de hoje
que o talento é ocasião para a reunião, que já não esqueço as horas ininterruptas
que lhe oferecemos. Logo jovens adultos, numa inconstante procura e numa
vontade com constância. Espargimos sobre a época todas as nossas capacidades. Com
todas as certezas, despendemos largas horas às tertúlias fecundas e às sem ornatos
também. À viola do mestre e ao olho atrevido para a fotografia. À prosa
escorreita e à poesia que roborizava e deslustrava. Às cartas e aos jogos que
instigavam a fuga à denúncia do olhar. Um armazém de pendulares memórias. Ali,
verticais, à espera de quem passa. Porque há algum tempo que não coloco a vista
em cima, mandou-me, ontem ao final da tarde, imagens de mais um pormenor.
Rabiscar a parede como se fosse uma tela é aumentar o préstimo do que nos
rodeia. É aconselhar a percepção intelectual. E deles, retirar o melhor.
4.2.16
Disque, disque.
Cumpre-se
a semana com um jantar. Absorto, toco no ecrã. Sem pensar. Devolvo a prosa
possível, desdém entendido, nervo de sal. Picante agreste, rosa-dos-ventos na
pele. Literal, assim. Percebo o amor, a confusão da interpretação. Chamam-me
pelo primeiro nome, seguido do segundo. Gabo-lhe a tatuagem, o bom gosto e a
coragem. Se não me atraiçoa a memória, devo ter, algures, um telefone. Daqueles
negros, bem robustos, cuja rodela ao centro conta os algarismos. E deixa
brincar. Uma volta, depois outra. As voltas de que me lembrasse. Se não me
roubaram a memória, estava lá atrás, tão distante quanto a minha infância. No
recinto, entre o corredor e as escadas largas. A seguir à porta de entrada. À
frente da imponente porta do escritório. Mesmo defronte para a janela enorme,
de vidro limpo, de jardim a espreitar. Daquelas vistas que roubam as palavras.
Que o quotidiano belisca a relevância. Gatunos perfeitos. A dar atenção à mesa
de uso próprio. Madeira forte, cadeira agregada. O espelho gigante, o quadro
que lembrava um elefante. Um dia, uma jarra partida. Pequeno curioso, fartei-me
de nela pousar. O telefone era a razão para ali ficar, uma e outra vez, a fazer
de conta. A inventar. O dedo escolhia um número. Outro e outro.
24.8.15
Confissão inopinada no regresso a casa.
Voltei
ao tempo das pausas obrigatórias e da rotina. Como aquele velho homem que, a cada
dia da semana, se obriga a passar a rua inteira, de chapéu na cabeça, a barba
branca e rija, os olhos meio fechados, debaixo do sol quente ou da chuva em
pranto. Obriga-se a fazê-lo pela primeira página. E pelas outras. Pela capa e
pelas letras gordas. Esmiúça com a convicção de que só assim, fica liquidada a
viagem. Voltei a ouvir uma canção que tem tantos anos que, assumidamente, já me
havia esquecido dela e do interprete. Depois, quase patologicamente, vem sendo
a minha companhia. Agora, neste instante também. Foi um amigo antigo, daqueles
que têm sempre boas memórias e oferecerem-nas com convictos lembretes. De lá
longe – não tão longe como as palavras fazem parecer – chega uma mensagem.
Ditava assim: Cheguei, estou por cá. Faz-te à vida. Arranja espaço. Fico até
tal dia. Sucinto, como é hábito. No final da mesma mensagem, ao invés de uma
assinatura desnecessária ou de uma saudação pouco proveitosa – que pode incluir
golos putativos, desavenças pseudo-políticas, corpos desnudados desta ou
daquela - deixa-me um link. A tal canção. Acho que umas décadas valentes vibraram
ao som disto. Connosco – eu e ela de então - aconteceu mais tarde. Um dia
levo-te a dançar. Tenho a certeza que te disse isso. Tampouco, sem precisar que
mo dissesses nos dias seguintes. Tal e qual, como vieste a fazer. Perguntaram-me,
algures neste verão tão vivido, por ti. Depois, claro, de lhes lembrar esta canção.
Somos amigos. Mesmo que, por inquietação da juventude desmedida e da
precocidade do pensamento e dos actos, me tenha esquecido dessa dança. E de, no
dia seguinte, deitada ao meu lado na cama improvisada, ma tenhas agradecido. A
rua de então, à luz da razão, era um valente esticão.
1.6.15
O meu avô e o petiz sou eu.
Olha
o petiz vaidoso. Fica quase embasbacado a olhá-lo. Pequeno, bem mais do que
ele. Gira, gira e torna a girar. De madeira sobre o chão da rua, naquele espaço
rodeado de flores e bom gosto, afazeres da avó. Não tinha sossego, o pião que
rodava brincalhão. Entre as mãos do avô, depois do pequeno rapaz. Entre as mãos
que o envolviam na corda e o chão que fazia as vezes de um palco que não
existia. A diversão continuou. Naquela tarde quente de verão, no dia a seguir,
no outro, depois no outro. Continuou até ao esquecimento. Guardavam aquele
objecto com a importância que merecia. Sempre envolvido na corda, naquele móvel
de jardim. Um móvel que sempre havia estado ali. Num tom amarelado, de
puxadores trabalhados. Duas gavetas e duas portas. Na gaveta da direita, ficava
o pião da diversão. Em todas e cada vez. Porque a vida corre, ninguém sabe
dizer quando foi a última vez. Mas passaram tantos anos, que o avô já faleceu e
o neto cresceu. Tornou-se adolescente, depois adulto. E, garante o neto,
lamenta tudo aquilo que nunca partilhou, desde o momento fatal, com o avô. Das
conversas que se perderam, do afecto que continua mas que ficou sem toque.
Imagina os assuntos que ficariam sobre a mesa, a forma como ambos os definiriam
e defenderiam. Lá atrás, ainda de pião nas mãos, o neto nunca pensou no último
encontro, porque não era o momento. Sabia, contudo, que seria eternamente
grato. A ambos, ao avô e à avó. Talvez, imaginava, lhe passassem a mão pelo
rosto durante a vida toda. Junho não foi o mês da despedida, mas é tão importante,
porque nos lembra a vida. O neto sou eu. O avô era o meu. E há tanto de mim e
dos meus que não conheceu. Mas a intuição, a imaginação e o amor serão sempre
mais fortes. Num domingo de Maio deste ano, depois de ter estado na casa que é
agora a morada apenas da minha avó, a minha mãe disse-me que tinha algo para me
entregar. Era o pião. Estava imaculado. Tinha a corda a envolvê-lo, como naquele
tempo. Perguntei-lhe como o encontrou. Respondeu-me que estava no lugar de
sempre, no móvel amarelado. Ganhei um presente inesperado e logo me lembrei de
cada detalhe. Agradeço ao avô. Por tudo. Guardá-lo-ei sempre. Se possível,
junto ao relógio que me deixaste. E, por respeito à saudade, teimo em não usar.
Já voltei a pô-lo a rodar.
13.5.15
Este também é um mundo de mulheres.
As
redes sociais são um atrevimento. Rasgam-se palavras amargas sobre o voyeurismo
na televisão, mas há sempre quem nunca desista de bisbilhotar online o que foi
feito desta ou daquele. Democratizou-se a o interesse pelo alheio. Tanto, que
já quase ninguém se lembra do passado. A
sério, risca essa merda toda e nunca mais voltes a fazê-lo. Terminou assim.
A miúda que só precisava de umas botas amarelas, umas meias rasgadas, mas sempre negras e um cabelo muito comprido
e super liso. Andava sempre com uma mala XXL e nunca parecia contente. Nunca
lhe vi um sorriso, nunca lhe ouvi a voz antes desta frase. Pintava os lábios
grossos de encarnado e tinha os olhos sempre escuros. Nunca tinha companhia e
arrastava-se pelos corredores. Só me lembro disto. Antes, claro, de ouvi-la
pela primeira vez. Depois de vê-la indignada com aquela outra miúda, voltei a
encontrá-la sempre da mesma forma, algures num ponto daquele corredor largo.
Vim, mais tarde, a saber que era uma aluna de excelência. Parte dos professores
tinha uma simpatia extrema por ela. Na minha opinião, com todo o mérito. Seria
um ano mais velha do que eu. Por isso, desde que terminou os estudos, nunca
mais a vi. Soube esta semana, através de uns amigos, que é uma jovem mulher igualmente
misteriosa. Continua bonita, de lábios encarnados. Agora é profissional da área
da justiça e não lhe faltam elogios. Sequer conversamos uma vez, mas fiquei
contente por saber dela e do percurso profissional. A outra miúda, com quem
ouvi-a gritar, parece que foi um amor de juventude. É uma fortuna ter o mundo
em andamento e sangue a fluir a favor do caminho certo.
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