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20.4.15

Podes fazer o que quiseres.

Voltei a cruzar-me com a Joana. Pode, para já, não fazer sentido. Mas ela divertia-se imenso e rodava com as emoções com a facilidade com que escondia tudo e inventava como se vivesse faminta. Era menina de cores certas e queria, porque queria, ser capa de revista. Mudava a cor do cabelo e desmentia as evidências, porque queria à força, mostrar que era loira natural. Tão lógico como o afago de algumas manias. Há uns tempos atrás, as casas de banho influenciavam a escolha do espaço. Uma amiga limitava as saídas em grupo com os seus conhecimentos do equipamento sanitário vizinho. Imagina um balcão, uma sala escura. Um bar que já conheceu tantos donos quantos os dias que um mês conhece. Já foi ponto de encontro, já foi lembrança de última hora. Quando já não restava outra hipótese. Válida, pelo menos. No verão passado voltámos uma ou duas vezes, no máximo. Uma alteração ou outra no espaço. Uma rapariga gira a servir ao balcão. Outra sentada à conversa enquanto era servida. Uns quantos tipos de pé. Sentamo-nos. Risada fácil, conversa com memórias. As bebidas sempre a girar. Nisto, enquanto a líder da decoração (vulgo amiga limitadora de escolha) ia confirmar se o roxo mantinha-se na parede, do balcão oiço um olá seguido do meu nome. Afinal, a jovem sentada ao balcão era a Catarina. Cumprimentei-a e trocámos algumas palavras. A servir no escuro, continuava a loira simpática. As noites entre amigos não fazem sentido se não voarem. De regresso da casa de banho, a amiga que encerra restrições, lamenta a troca do roxo pelo vermelho. Diz, não combina com os espelhos. A culpa, continuou, só pode ser da aspirante a actriz de novelas da meia-noite. A Joana era a miúda gira a servir no balcão. Lamento sempre o meu pouco jeito para memorizar algumas coisas. Não me fez confusão a Joana ter virado menina do bar. Gostei, isso sim, de vê-la ainda mais gira e simpática. Noutros tempos, era um sufoco estar sempre à espera do momento em que, ficcionando um desmaio, se jogava ao chão. Grande Joana, o vermelho sempre te ficou bem.

13.4.15

Tipo genuíno e uma convicção verídica.

O fim-de-semana é o recurso dos ocupados. Mesmo que a labuta não cesse, fica sempre um gosto mais requintado. Tens o tempo camuflado. Travestido de outra coisa. Tomas o básico qualificado, como se estivesses a digerir e a aproveitar o alambicado altamente classificado. Dás um, dois ou três beijos, conforme o apetite, porque não interessa nada a flora etiquetada e a fauna desinvestida de uma certa zona de extremos. As gentes boas à beira do mar, junto aos barcos. Os senhores de boa índole que têm relógio bom no pulso e gravata desenhada ao peito. Cruzas-te, física e telefonicamente, com uma série de gente que importa. Recuei ao corredor descoberto do ensino secundário. Em que lavar os dentes e fechar a torneira em cada intervalo da escova, era primordial. Para alguns. Uma discussão que se fundia e confundia com a ambição de um mundo mais cuidado. Tratar para ter retorno. Sempre assim. Cada um de nós opinava e tinha, mais do que uma opinião formada, uma opinião válida. Pelo menos, uma visão com validade. Mesmo que a acção ganhasse terreno. Sobre o conhecimento, portanto, sobre a teoria e a razão. Fora desse ambiente, um amigo que não frequentava os mesmos lugares. Mas batia-se, feroz e eloquente, contra todas as políticas instrumentalizadas pelo defeito e gritava por um mundo cuidado e bem tratado. Cheguei a gabar-lhe a vontade e a genica. Disse-lhe, também nessa altura, sem qualquer espécie de troça, que faziam falta mais tipos como ele. E mantenho. Voltando lá, ele tinha a certeza de que havia de correr mundo, ser feliz e, o mais importante ser pai. Cumpriu quase tudo até ontem. É feliz, vive do mundo, percorrendo-o com vagar. Mas ainda não é pai. Ainda é cedo e não conheceu a mãe dos descendentes. Um dia, dizia-me, tem de voltar para ficar. Só tem uma certeza, pai vai ser, porque só quer continuar a partilhar.

19.3.15

Homem de vida.

Homem valente, de rotinas marcadas. O alimento daquele corpo e daquela alma. Acordar bem cedo, um hábito de sempre. Avançar na rotina e parar para ler e ouvir as primeiras notícias do dia. Sai depois para um café. Segue para o trabalho. Um dia atrás do outro. O Benfica campeão, se o mérito permitir. O perfume em doses relevantes. A preocupação em vestir bem. Os sapatos impecáveis. O relógio, quando não se esquece, no pulso direito. Tomei-lhe esse hábito, sou incapaz de usar no braço esquerdo. Um bom vinho numa merecedora taça de vidro. Discurso coerente, opinião sempre disponível. Defensor de uma série de questões que vêm sendo destruídas por desmérito e irresponsabilidade de alguns. A integridade que não lhe permite esquecer. Onde está e de onde veio. A família que diz ter escolhido. O amor de uma vida, a mulher que o segura, amparando na ausência de eventuais defesas. O número de filhos exactamente igual ao desejo de outros tempos. A vontade de ler sem fim, passou-ma ele. A cada livro. Semanas havia em que cada dia era ocasião para receber um novo livro, uma história maior. A música, uma paixão de longa data. O rock é rei, num senhor que tem gostos particulares. Cuidados, também. Este homem é o meu pai. Ou, para ser sincero, esta é uma parte tão reduzida deste homem, do todo que o compõe. Do meu pai. Volto um ano atrás e não posso deixar de me repetir. Na era do ecléctico, o meu pai foge das ranhuras e intermitências do termo. Hoje é um dia profundamente corriqueiro. Banal nas definições. Particular nas entrelinhas. É dia do pai. É o dia do homem que ouve música, vibra com os melhores acordes e timbres. E, no meio de tudo isto, não é ecléctico. Fica o desejo de um dia soberbo, pai. Mas coberto de incoerências. Mais um ano, volta a tomar um digestivo datado, desta feita, sem uma única pedra de gelo. Não condenas  o líquido todo, é certo, mas não deixa de ser uma acção tão snobe. Snobe como tu não gostas. Até já.

13.1.15

Faz sol no meu país.

Ó, tempo, volta para trás. Por um instante, vale um cachimbo da verdade. Há tão poucos. Motes há, imagine-se, que são tão inocentes. Tão banais na situação, tão relevantes na emoção. Quando pegamos numa memória física, jamais, reconhecemos o propósito de inventar a primeira intervenção. Não partimos daí. Um perfeito quebra-cabeças. Lembro-me de uma máquina fotográfica antiga, das que já ninguém se lembra, fala ou revela. Mostraram-ma numa cruel desvantagem. Num tempo em que não conhecia, senão, a sozinha paixão pela fotografia. Pela imagem, antes. Em pequeno rapaz, onde não era mais do que atracção. Onde não prestei a devia atenção. No outro dia, uma Polaroid foi a entretenha da comunhão. Enquanto esperávamos pelo resultado, falámos de uma Manhattan de outros tempos. De uma década onde as fatiotas janotas eram predicado e condição. Onde saíam dos lugares e dos transportes com casacos sem comparação. Perdia-se de vista toda a razão. Estreavam todas as passagens na rua da moda. O pai e a mãe levavam as crianças pela mão. Depois corriam para o parque de animações. Nessa altura, outra Polaroid nas mãos, guardava os momentos partilhados. Devolviam os olhares. Indutora paixão. Naquele serão, de novo, a memória na mão. Não conheço quem não tenha. Não conheço, não.

13.10.14

Molhado e com um certo brilho.

Fala-se de educação, dos tipos de educação. Os pais que conheço lêem até ao sufoco. No final, voltam a questionar tudo e todos. O excesso consome as gentes. A míngua rouba oportunidades. A infância alimenta-se do que lhe dão. A minha foi cheia e feliz. Reproduzem-se, contudo, actos, factos e misturam-se ensinamentos. Por demais quando a redoma é vigorosa. Sinceramente, por mais que esforce, não consigo lembrar-me da última vez que andei à chuva. É pertinente. Questionável. Até à semana passada. Involuntariamente tive de me fazer ao caminho, sob a chuva copiosa. Juntamente com quem me acompanhava. Andar sob as pingas grossas passa rápido e dá vontade de rir. Mesmo que chegues ao destino tão molhado que desejes, somente, praguejar sem fim. Andar sob a chuva é daquelas coisas que cedo levam para longe de nós. Depois experimentamos e percebemos o que está guardado. Escrevo isto, devo assumir, para voltar a ler já de seguida, e em todas as vezes que lhe sigam, quando tiver de atravessar a porta e esforçar-me por passar por entre os pingos da chuva.

18.9.14

Em diferido. #18

Serve para ligar um corpo à acção - Mais à frente, o alcatrão típico de uma estrada movimentada, de quem não espera nem sossega. Nem os semáforos, brincalhões das cores a condizer com a bandeira. O axadrezado da calçada desenhada e agastada de cada passada. Assim, debaixo dos seus pés. A rapariga foge com a cara de quem segue na sua frente. Baixa a cabeça e dança de cabelos colados à mesma cabeça irrequieta. Diz que é medo de esperar. Diz que é medo de esperar com a cara levantada. Medo de ver o que não quer. Canta baixinho, como que num aviso prévio. Canto, apenas e só, para mim - havia de pensar aquela cabeça. Virou-se, de costas para a estrada, e de mão a tocar no relógio, disse em voz alta e tremida – Eu não quero esperar. E não sou maluca! – Voltando, logo de seguida, à posição que conhecemos. Depois seguiu caminho, assim o semáforo deu ordem de passagem. Aconteceu mesmo. Não é ficção. Aquela cara diz-me qualquer coisa. Se não é, lembra-me uma miúda de outra altura. Também ela avessa a troca de olhares. A comunicar. Só cantava na igreja, quando todos se calassem. Sempre de costas para os fiéis. Entregue à observância daquela crença religiosa. Do mesmo modo, gritava cá fora, no pátio. E ria alto. E falava, quando a ouviam.

10.9.14

Emmeio.

De sobra, a incompreensão da embaraçada e agitada previsão do cansaço dos fenómenos atmosféricos. Liberta-nos, por seu turno, o plural e bravio pensamento. O imprevisto dança com os compromissos. Joga com a sedução. Combina com a inveja da monotonia. O barulho da chuva, tão compassado. Aquele som, a chuva é uma pintura para os ouvidos. Complementa a vista. O ver-te dançar sob as pingas. Reforça o cheiro. Sentir o teu perfume tão característico. Potencia o toque. A pele molhada ganha outra textura e toque. Convida o instinto. De longe, a timidez. De novo, lembro-me desse convite. Esta cidade, noutros tempos, era a proa de sentimentos. De tanta vida que não tinha fim. Virtude de um boémio que, inelutável, guarda os momentos.

7.8.14

Gosto de riscas.

Há naquele toldo de riscas a condizer, qualquer coisa de atraente. Chama-nos ao pormenor. É decoração a céu aberto, bom gosto ao serviço de quem lhe souber aproveitar. Convida a atenção a sossegar-se ao seu lado. Lista sim, lista não. Risca de uma cor, risca seguinte de outra. Repetem-se os dois tons. Característica de verão quente. Recuamos décadas, mas esquecemos, por ora, um fragmento da história deste país. Verão quente, mas noutros moldes. O branco é rei. Cheira a mar desassossegado na temperatura, cordial no vai-vém. Algumas pessoas, de corpos vestidos com o rigor da estação, olham o toldo e sorriem. Outros, deixam-se parar. E comprar. É pura memória. É dos tempos de uma linha onde os ascendentes tinham, por esta altura, vida com vagar. É um toldo, mas faz recordar. Verão, na linha ou noutro ponto, é um gelado na mão. Uma família a passear, um toldo por onde passar. No fundo, memórias que, sem esforço, fazemos por guardar.

4.7.14

Serve para ligar um corpo à acção.

Mais à frente, o alcatrão típico de uma estrada movimentada, de quem não espera nem sossega. Nem os semáforos, brincalhões das cores a condizer com a bandeira. O axadrezado da calçada desenhada e agastada de cada passada. Assim, debaixo dos seus pés. A rapariga foge com a cara de quem segue na sua frente. Baixa a cabeça e dança de cabelos colados à mesma cabeça irrequieta. Diz que é medo de esperar. Diz que é medo de esperar com a cara levantada. Medo de ver o que não quer. Canta baixinho, como que num aviso prévio. Canto, apenas e só, para mim - havia de pensar aquela cabeça. Virou-se, de costas para a estrada, e de mão a tocar no relógio, disse em voz alta e tremida – Eu não quero esperar. E não sou maluca! – Voltando, logo de seguida, à posição que conhecemos. Depois seguiu caminho, assim o semáforo deu ordem de passagem. Aconteceu mesmo. Não é ficção. Aquela cara diz-me qualquer coisa. Se não é, lembra-me uma miúda de outra altura. Também ela avessa a troca de olhares. A comunicar. Só cantava na igreja, quando todos se calassem. Sempre de costas para os fiéis. Entregue à observância daquela crença religiosa. Do mesmo modo, gritava cá fora, no pátio. E ria alto. E falava, quando a ouviam.

27.5.14

Perdoem-me a excessiva referência à pão de forma, mas faz-me todo o sentido.

Quando petiz, um tanto antes da adolescência e durante a mesma, ainda os tempos nos pareciam eternos e, embora, fossemos rapaziada consciente, a nossa inexperiência convidava-nos à perpetuação de uma ideia materializada de um sonho típico, onde nada ousaria, sequer, beliscar as nossas vontades, ideologias e acções. Contentávamos conversa com a certeza de que havíamos, mais adiante, de ter uma pão de forma. Não importava a cor, a quilometragem. Chegava-nos o acontecimento de ganhar a maioridade, de passar a tangente. De ter, de facto, os tão afamados dezoito anos. Acontecer-nos-ia a fortuna de correr mundo. De conhecer pessoas, espaços e arquitecturas, convicções religiosas, terra sem fim, línguas e linguagens de outros. Sem provas, mas convictos, seria uma viagem sem data nem fim. Onde, à vez, um de nós abriria caminho ao volante. Voltados estes anos, que já passaram a perna aos dezoito, não tivemos uma pão de forma, nem viajamos como desenhamos. Mas faz memória eterna. No domingo passado, falava com uma das sonhadoras desta viagem, não falámos da pão de forma, mas repetimos a idade que temos e da necessidade de ter juízo, como se fosse, uma vez mais, por metas. Aos dezoito anos a pão de forma, agora o juízo. E respondi-lhe que há coisas que não mudam. Seja qual for a idade que nos pesa. Nem tivemos a pão de forma na idade que sonhamos, nem alteramos a faculdade do discernimento quando nos dizem que tem que ser. Imagine-se, deixar de sonhar, apenas e só, porque nos falhou aos dezoito anos.

19.5.14

Questiona tudo, nunca deixes de perguntar.

Começo pela incerteza. Pela ausência de respostas. Pelo facto de que não existem argumentos para ceder refutação, seja qual for. Seja fiel ou fictícia. Princípio, como indica, de impulso, sem me segurar numa explicação qualquer daquelas que, de tão óbvias, esquecemos que têm uma razão de ser. Não tenho nada, senão a lembrança reproduzida. Recuando, por estes dias, venho ouvindo com frequência esta música. A razão não releva importância. Ainda assim, voltando a ouvi-la, a imagem é a de um verão passado. Junto à praia, numa das festas típicas da época, onde só entram os convites. A piscina ao centro, os dois pontos de bar a ladear o recinto, a pista de dança, as mesas lá ao fundo, a decoração característica, o DJ a passar as batidas da década escolhida. Ao balcão, descansando o cotovelo esquerdo, estava a rapariga que, de sorriso rasgado e sardas, chamava a atenção, por tudo, menos pelo óbvio. O cabelo comprido, castanho escuro, à solta. Um chapéu arrojado na cabeça. Um top de alças com bolas várias, uns calções curtos da cor do chapéu. Tinha um olhar tímido, um ar discreto, embora, não surtisse efeito. Perto dela, perguntou-me o nome. Respondi-lhe. E rimo-nos os dois.

9.5.14

Chama-se Margarida e recusa roubar a identidade ao tom, negando chamar-lhe de encarnado.

A Margarida é a memória e as lembranças de infância. De uma infância feliz e fornecida de tudo o que nos balizava a felicidade, daquela época em que por mais que a cronologia nos falhe, não perdemos a identidade de outros tempos. Ela é a descoberta da capacidade de gerir, ainda que não se aperceba, a educação centrada e espartilhada de uma família típica daquela região, com a azougada necessidade de se imiscuir com o restante. É tímida e intrometida em simultâneo. Fala de jeito suave, mas ri com sede. Escolheu que as amizades não têm nivelamento. Escolheu, ainda no tempo em que não se media, não ludibriar factos. Senta-se com quem for. Conversa com quem lhe oferecer palavra. Temos, precisamente, a mesma idade. Crescemos desde lá atrás. Desde a altura em que as varandas do andar superior das nossas casas se olhavam de frente. Hoje em dia pousa para as câmaras fotográficas. De pernas esguias e compridas, o décor a rigor, a ventoinha sem parar, o cabelo de um tom castanho mel a esvoaçar. O vestido da cor que não gosta, mesmo que lhe chame vermelho ao invés do encarnado de outras lides. Os saltos altos de uma marca de influente atracção. A pose intuitiva. Os flashes na frente. O rosto maquilhado e luminoso. Neste instante é tão real como quando despe o vermelho, abandona os saltos altos, lhe desligam a ventoinha e despede-se da objectiva. Porque, acredite-se ou não, há sempre quem não recue no momento de fazer a diferença. Boa sorte!

8.5.14

Uma casa portuguesa.

Lembro-me do espelho desenhado em tons dourados, nos contornos trabalhados da data, na parede de entrada, centímetros acima da mesa de apoio. A parede, escondida pelo aparatoso espelho, era coberta por papel de parede inocente. De cores sóbrias, de riscos simples. Liso, talvez. Logo depois da porta grande, aquele espelho era a estrela. Era a festa de muitos que por ali passavam. Não me lembro se, na não menos majestosa mesa de apoio, havia mais do que uma base de prata, uma jarra com flores frescas e um candeeiro vindo de fora. Uma vez por outra, um livro. A memória falta-me sempre. Menos, quando é festejo. Não simpatizo ou, melhor contando, não me sinto confortável com o facto de ser o alvo da comemoração. De tudo o que me diga respeito. Naquele espelho, vi pessoas observarem-se. De tantas e distintas formas. A mulher que se prepara para sair e não resiste retocar o cabelo arranjado instantes antes, de voltar a tocar no batom, de segurar a jóia que prende a atenção para as orelhas. O homem que chega ao fim do dia, pousa o que lhe pesa nos bolsos, respira enquanto se mira. Nós, ainda petizes, tentando chegar-lhe. Pouco a pouco. Primeiro, apenas o rendilhado dourado. Depois, surge-nos o reflexo do cima da cabeça. A seguir, os olhos ganham vida nesse espelho. Até ao dia em que, sem sabermos, imitávamos selfies imaturas. A risada era pegada. Naquela casa de sempre. O espelho sente saudades de ver passar. Tal como nós. De ver chegar. Comemorar, seja o que for, não tem data marcada. Mesmo que espere por nós sentada.

29.4.14

Português vivaz.

A janela de cortina a balançar, debaixo ou no enquadramento do que se seguirá adiante, é o ponto de partida, por dela soar pátria. O céu azul suave, quase imaculado, não fossem as ternurentas, embonecadas e salpicadas nuvens. Desmaiadas, é certo. Ainda assim, nuvens. O sol oferecendo brilho, luzindo pelos cantos vários. Os azulejos azuis e brancos. Tradição, característica, coração português. Calçada portuguesa, em tom sim, tom não. Num aparece e desaparece de figuras típicas. Avenida acima. As riscas na blusa, a saudade do azul e branco que lembra a maresia. A memória a funcionar, as lembranças a jorrar. A barbearia, no sentido oposto, de cadeira de comando. De espelhos gastos do tempo, como o couro. Só isso. O verde é sombra. A madeira é repouso. Calçados, os ténis que repetem a saudosa marca da adolescência. O sorriso faz parelha com a gargalhada. São proporcionais à dimensão do lugar que açambarca o todo deste quadro. As pernas cruzadas. As mãos sem sossegar. A máquina fotográfica pousada. Depois, terminei cortando o cabelo. E aparando a barba. Com óculos de ver.

8.4.14

Em diferido. #7

Partida, largada, fugida. É infantil quanto baste. Mesmo que acabe de ouvir da boca de uma criança. Enquanto, absorvido pela idade da brincadeira, faz do amplo corredor do jardim, uma pista olímpica digna do atleta mais afamado. Da sua boca faz sentido. Na cabeça adulta, é uma reportagem do infantil, do que fica daquilo que já passou. Não é tentador de grandes questões e dissertações. De bons ventos, fazem-se excelentes casamentos. Simbólico quanto baste. Mesmo que acabe de sair da boca de uma noiva que não quer casar. Faz sentido da boca de uma moça casadoira. Regada de ilusões várias. Na cabeça de um adulto coerente, é uma reportagem de uma história de amor que termina sem aviso prévio, porque não há, senão vendaval de incoerência. E nada disto faz sentido. Porque, em abono da verdade, notas soltas são isto mesmo. Anotações de passagens verídicas, tantas vezes sem a preocupação da grafia, da pontuação, nem da cronologia. Tanto se dá, como se deu. Serve-nos de cadeados para a memória. Só abre quem nós queremos. Dito e feito.

28.3.14

Uma senhora não tem idade, mesmo que esteja de parabéns.

Acordei cedo e ofereci-lhe um beijo. Podia escrever-lhe um cartaz gigante, com letras desenhadas, de forma impecável, à mão. Podia desenhá-las como fiz e escrevi durante anos, até ao instante em que me cansei, da forma mais redonda e primária. Tal e qual aprendemos nos primeiros anos de escola. Talvez por isso, lhe chamávamos letra de primária. Podia fazê-las, no desenho ao meu jeito, mas haviam de ser tão grandes como o cartaz. Seria, de outra forma, impensável. Imensas, as letras. Imenso, o cartaz. Ambos imensos, à semelhança do amor que lhe tenho. Do amor que, sem excepção, esta família lhe tem. Conforme acredito, os números são somente memórias, porque é de gente e afectos que se faz uma vida. Que se escreve um calendário. Para a minha família é assim. A família que, por grito da vida que se perde, se fez e segurou-a como a base do nosso sistema. Como a matriarca. Dela, não me esqueço, jamais. Com ela me cruzo amiúde. Não perco a memória de vê-la na cadeira, na sua cadeira, num dos cantos da sala, com o seu ar, por vezes, áspero, que enganava, somente, os mais distraídos. A estatura média, suportando um tailleur vistoso de tecido nobre, o cabelo irrepreensivelmente armado, instalada na extremidade, tal qual lhe ensinaram. As pernas juntas, apartadas para a esquerda, os braços ligeiramente justapostos e as mãos entrelaçadas. Na mão esquerda, permanece a aliança. Memória residente. Nisto tudo, é uma mulher tão modesta, da mesma forma como nos sentamos numa cadeira. Ensinou-me, desde cedo, que homem ou mulher, não nos esgotamos na aparência, muito menos naquilo que possuímos. E, não consigo esconder o orgulho. O orgulho de tê-la como minha avó. Parabéns. Por hoje. Por tudo.

24.3.14

Aumentar a parada.

Olha, senta-te aí. Ficamos a olhar. Senta-te no passeio, sobreposto. Deixas, sem medo, os pés a marcar a estrada. Afagas a máquina fotográfica no colo. Aqueces-te com o cachecol, as luvas e o sobretudo. Atinas a vista, fugindo do sol invernoso, com os óculos de sol. Do lado de lá está uma montra pejada de livros. Carregada de títulos. Sobrecarregada de quadros na parede. Acumulando memórias. Vamos namorá-la antes de entrar. Aprecio convites súbitos. Aceito, claro. Temos tempo.

19.3.14

Serve-se do digestivo datado, pai?

Na era do ecléctico, o meu pai foge das ranhuras e intermitências do termo. Não me lembro de o ver assistir a grandes concertos ao relento, a céu aberto, pisando o asfalto ou o pó que ganha vida debaixo dos pés e condena qualquer indumentária alusiva ao estilo musical que aplaudiria, para ficar nas primeiras linhas que sucedem o palco. Não me lembro, porque nunca aconteceu. Rezam os relatos, os momentos áureos da corrida aos nomes valentes do rock, ficaram para trás, para o passado, assim a vida adulta e o casamento se fizeram fronteira. Depois disso e do nascimento dos descendentes, exasperou-se-lhe a vontade e a dedicação. Suspeito que adiou. Deixou para depois. Ou viveu o suficiente, no toque do eficiente. O meu pai não se assume um eterno ecléctico quando o assunto é música. A resposta brota, ainda a questão vai no termo. A boa música fez-se nos anos do rock, mas faz-se hoje, tão boa, de outro jeito. O meu pai oferece o termo à canção. É arte, quando feita com as bases do talento e do trabalho, conta ele. Como, de resto, se faz um todo da vida. Este homem vive e vibra com os hits da sua memória, aplaude as novidades que lhe soam a puro deleito. Seja rock. Os amigos da nossa família já lhe conhecem a disciplina. E tomam-lhe a influência. Não sei se importa, mas ser uma parte num núcleo de um todo, é um tremendo privilégio. Hoje é um dia profundamente corriqueiro. Banal nas definições. Particular nas entrelinhas. É dia do pai. É o dia do homem que ouve música, vibra com os melhores acordes e timbres. E, no meio de tudo isto, não é ecléctico. Um dia feliz, pai. Mas coberto de incoerências. Toma um digestivo datado, enquanto usa uma pedra de gelo. Condenando o líquido todo, é uma acção tão snobe. Snobe como ele não gosta. Até já.

13.3.14

Café da manhã.

A janela fica sempre a descoberto. Não cerra as portadas, porque lhe roubam mais sol do que o pretendido. Não usa cortinas porque desmaiam a luz. O despertador, contava-me, toca sempre no momento mais inoportuno. No instante contado em que o melhor da metamorfose acontece. Em que, estendido na cama de todos os dias, avesso na postura, o corpo cede tempo. Eleva-se-lhe, disse-me tal e qual assim, eleva-se-lhe o espírito e entra numa zona possessa, rítmica, desconstruída, sexuada, pujante e descontraída. Sem artimanhas banais. É possível. Acontecem-lhe, com frequência, os sonhos que lhe excitam a mente e o corpo. E nem precisa de sexo ficcionado no cardápio. Reduzir excitação e prazer ao sexo teórico, não compensa. É travestir. E, tudo volvido e vivido, são horas de levantar. Guardou a memória. Mas não esquece. Não consegue esquecer que, até no sonho, ficou pela metade. Entendes, perguntava-me enquanto o açúcar fugia-lhe das mãos, antes de envolver e casar com o café. Vou-me embora.

10.3.14

Gaveta de expressões.

Guardo do ano passado, uma imagem que para mim, foi a Moda Lisboa. Este ano, não tenho ideia do movimento e do trajecto dos nomes expostos. Dos desfiles e da arquitectura. Bem sei, devo manter a ressalva de que não sou o mais versado na área, mas vêem-se expressões. Não fui, nem passei perto do Pátio da Galé. Não estou em Lisboa, como se vem fazendo rotina. E terminou ontem. Uma amiga teve convite. Guardou-o e, soube há instantes, esqueceu-se que o tinha, desligou as datas. Não foi. Fica obrigada agora a guardá-lo na gaveta dos problemas de expressão. Com alfazema ao lado. Mas, Moda Lisboa para mim, pelo menos, no ano transacto, é a imagem daquela mulher à entrada, vestida para sair, atarefada entre a mala ao ombro, o relógio e as pulseiras num balanço, a mão esquerda no cabelo à solta, a máquina fotográfica a pender-lhe da mão direita, as revistas e o caderno a balançarem-lhe presos pelo braço. O sorriso rasgado. Vestida de forma elegante e descontraída. A jovem mulher conseguiu a proeza. Numa montra de momentos em que cada um sente o que quer. E admito, não merece a pena que me perguntem quem passou o quê. Guardo, somente, esta imagem. Aquela moça mulher, tal como a descrevi, com a montra da Moda Lisboa lá atrás. E foi muito giro.