Voltei
a cruzar-me com a Joana. Pode, para já, não fazer sentido. Mas ela divertia-se
imenso e rodava com as emoções com a facilidade com que escondia tudo e inventava
como se vivesse faminta. Era menina de cores certas e queria, porque queria,
ser capa de revista. Mudava a cor do cabelo e desmentia as evidências, porque
queria à força, mostrar que era loira natural. Tão lógico como o afago de
algumas manias. Há uns tempos atrás, as casas de banho influenciavam a escolha
do espaço. Uma amiga limitava as saídas em grupo com os seus conhecimentos do
equipamento sanitário vizinho. Imagina um balcão, uma sala escura. Um bar que já
conheceu tantos donos quantos os dias que um mês conhece. Já foi ponto de
encontro, já foi lembrança de última hora. Quando já não restava outra
hipótese. Válida, pelo menos. No verão passado voltámos uma ou duas vezes, no
máximo. Uma alteração ou outra no espaço. Uma rapariga gira a servir ao balcão.
Outra sentada à conversa enquanto era servida. Uns quantos tipos de pé.
Sentamo-nos. Risada fácil, conversa com memórias. As bebidas sempre a girar.
Nisto, enquanto a líder da decoração (vulgo amiga limitadora de escolha) ia
confirmar se o roxo mantinha-se na parede, do balcão oiço um olá seguido do meu
nome. Afinal, a jovem sentada ao balcão era a Catarina. Cumprimentei-a e
trocámos algumas palavras. A servir no escuro, continuava a loira simpática. As
noites entre amigos não fazem sentido se não voarem. De regresso da casa de
banho, a amiga que encerra restrições, lamenta a troca do roxo pelo vermelho.
Diz, não combina com os espelhos. A culpa, continuou, só pode ser da aspirante
a actriz de novelas da meia-noite. A Joana era a miúda gira a servir no balcão.
Lamento sempre o meu pouco jeito para memorizar algumas coisas. Não me fez
confusão a Joana ter virado menina do bar. Gostei, isso sim, de vê-la ainda
mais gira e simpática. Noutros tempos, era um sufoco estar sempre à espera do
momento em que, ficcionando um desmaio, se jogava ao chão. Grande Joana, o
vermelho sempre te ficou bem.
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20.4.15
13.4.15
Tipo genuíno e uma convicção verídica.
O
fim-de-semana é o recurso dos ocupados. Mesmo que a labuta não cesse, fica
sempre um gosto mais requintado. Tens o tempo camuflado. Travestido de outra
coisa. Tomas o básico qualificado, como se estivesses a digerir e a aproveitar
o alambicado altamente classificado. Dás um, dois ou três beijos, conforme o
apetite, porque não interessa nada a flora etiquetada e a fauna desinvestida de
uma certa zona de extremos. As gentes boas à beira do mar, junto aos barcos. Os
senhores de boa índole que têm relógio bom no pulso e gravata desenhada ao
peito. Cruzas-te, física e telefonicamente, com uma série de gente que importa.
Recuei ao corredor descoberto do ensino secundário. Em que lavar os dentes e
fechar a torneira em cada intervalo da escova, era primordial. Para alguns. Uma
discussão que se fundia e confundia com a ambição de um mundo mais cuidado.
Tratar para ter retorno. Sempre assim. Cada um de nós opinava e tinha, mais do
que uma opinião formada, uma opinião válida. Pelo menos, uma visão com
validade. Mesmo que a acção ganhasse terreno. Sobre o conhecimento, portanto,
sobre a teoria e a razão. Fora desse ambiente, um amigo que não frequentava os
mesmos lugares. Mas batia-se, feroz e eloquente, contra todas as políticas
instrumentalizadas pelo defeito e gritava por um mundo cuidado e bem tratado.
Cheguei a gabar-lhe a vontade e a genica. Disse-lhe, também nessa altura, sem qualquer
espécie de troça, que faziam falta mais tipos como ele. E mantenho. Voltando
lá, ele tinha a certeza de que havia de correr mundo, ser feliz e, o mais
importante ser pai. Cumpriu quase tudo até ontem. É feliz, vive do mundo,
percorrendo-o com vagar. Mas ainda não é pai. Ainda é cedo e não conheceu a mãe
dos descendentes. Um dia, dizia-me, tem de voltar para ficar. Só tem uma
certeza, pai vai ser, porque só quer continuar a partilhar.
19.3.15
Homem de vida.
Homem
valente, de rotinas marcadas. O alimento daquele corpo e daquela alma. Acordar
bem cedo, um hábito de sempre. Avançar na rotina e parar para ler e ouvir as
primeiras notícias do dia. Sai depois para um café. Segue para o trabalho. Um
dia atrás do outro. O Benfica campeão, se o mérito permitir. O perfume em doses
relevantes. A preocupação em vestir bem. Os sapatos impecáveis. O relógio,
quando não se esquece, no pulso direito. Tomei-lhe esse hábito, sou incapaz de
usar no braço esquerdo. Um bom vinho numa merecedora taça de vidro. Discurso
coerente, opinião sempre disponível. Defensor de uma série de questões que vêm
sendo destruídas por desmérito e irresponsabilidade de alguns. A integridade
que não lhe permite esquecer. Onde está e de onde veio. A família que diz ter
escolhido. O amor de uma vida, a mulher que o segura, amparando na ausência de eventuais
defesas. O número de filhos exactamente igual ao desejo de outros tempos. A
vontade de ler sem fim, passou-ma ele. A cada livro. Semanas havia em que cada
dia era ocasião para receber um novo livro, uma história maior. A música, uma
paixão de longa data. O rock é rei, num senhor que tem gostos particulares.
Cuidados, também. Este homem é o meu pai. Ou, para ser sincero, esta é uma
parte tão reduzida deste homem, do todo que o compõe. Do meu pai. Volto um ano atrás
e não posso deixar de me repetir. Na era do ecléctico, o meu pai foge das
ranhuras e intermitências do termo. Hoje é um dia profundamente corriqueiro.
Banal nas definições. Particular nas entrelinhas. É dia do pai. É o dia do
homem que ouve música, vibra com os melhores acordes e timbres. E, no meio de
tudo isto, não é ecléctico. Fica o desejo de um dia soberbo, pai. Mas coberto
de incoerências. Mais um ano, volta a tomar um digestivo datado, desta feita,
sem uma única pedra de gelo. Não condenas o líquido todo, é certo, mas não deixa de ser
uma acção tão snobe. Snobe como tu não gostas. Até já.
13.1.15
Faz sol no meu país.
Ó,
tempo, volta para trás. Por um instante, vale um cachimbo da verdade. Há tão
poucos. Motes há, imagine-se, que são tão inocentes. Tão banais na situação,
tão relevantes na emoção. Quando pegamos numa memória física, jamais,
reconhecemos o propósito de inventar a primeira intervenção. Não partimos daí.
Um perfeito quebra-cabeças. Lembro-me de uma máquina fotográfica antiga, das
que já ninguém se lembra, fala ou revela. Mostraram-ma numa cruel desvantagem.
Num tempo em que não conhecia, senão, a sozinha paixão pela fotografia. Pela
imagem, antes. Em pequeno rapaz, onde não era mais do que atracção. Onde não
prestei a devia atenção. No outro dia, uma Polaroid foi a entretenha da comunhão.
Enquanto esperávamos pelo resultado, falámos de uma Manhattan de outros tempos. De
uma década onde as fatiotas janotas eram predicado e condição. Onde saíam dos
lugares e dos transportes com casacos sem comparação. Perdia-se de vista toda a
razão. Estreavam todas as passagens na rua da moda. O pai e a mãe levavam as
crianças pela mão. Depois corriam para o parque de animações. Nessa altura,
outra Polaroid nas mãos, guardava os momentos partilhados. Devolviam os
olhares. Indutora paixão. Naquele serão, de novo, a memória na mão. Não conheço
quem não tenha. Não conheço, não.
13.10.14
Molhado e com um certo brilho.
Fala-se
de educação, dos tipos de educação. Os pais que conheço lêem até ao sufoco. No
final, voltam a questionar tudo e todos. O excesso consome as gentes. A míngua
rouba oportunidades. A infância alimenta-se do que lhe dão. A minha foi cheia e
feliz. Reproduzem-se, contudo, actos, factos e misturam-se ensinamentos. Por
demais quando a redoma é vigorosa. Sinceramente, por mais que esforce, não
consigo lembrar-me da última vez que andei à chuva. É pertinente. Questionável.
Até à semana passada. Involuntariamente tive de me fazer ao caminho, sob a
chuva copiosa. Juntamente com quem me acompanhava. Andar sob as pingas grossas
passa rápido e dá vontade de rir. Mesmo que chegues ao destino tão molhado que desejes,
somente, praguejar sem fim. Andar sob a chuva é daquelas coisas que cedo levam
para longe de nós. Depois experimentamos e percebemos o que está guardado.
Escrevo isto, devo assumir, para voltar a ler já de seguida, e em todas as vezes
que lhe sigam, quando tiver de atravessar a porta e esforçar-me por passar por
entre os pingos da chuva.
18.9.14
Em diferido. #18
Serve
para ligar um corpo à acção - Mais à frente, o alcatrão típico de uma estrada
movimentada, de quem não espera nem sossega. Nem os semáforos, brincalhões das
cores a condizer com a bandeira. O axadrezado da calçada desenhada e agastada
de cada passada. Assim, debaixo dos seus pés. A rapariga foge com a cara de
quem segue na sua frente. Baixa a cabeça e dança de cabelos colados à mesma
cabeça irrequieta. Diz que é medo de esperar. Diz que é medo de esperar com a
cara levantada. Medo de ver o que não quer. Canta baixinho, como que num aviso
prévio. Canto, apenas e só, para mim
- havia de pensar aquela cabeça. Virou-se, de costas para a estrada, e de mão a
tocar no relógio, disse em voz alta e tremida – Eu não quero esperar. E não sou maluca! – Voltando, logo de
seguida, à posição que conhecemos. Depois seguiu caminho, assim o semáforo deu
ordem de passagem. Aconteceu mesmo. Não é ficção. Aquela cara diz-me qualquer
coisa. Se não é, lembra-me uma miúda de outra altura. Também ela avessa a troca
de olhares. A comunicar. Só cantava na igreja, quando todos se calassem. Sempre
de costas para os fiéis. Entregue à observância daquela crença religiosa. Do
mesmo modo, gritava cá fora, no pátio. E ria alto. E falava, quando a ouviam.
10.9.14
Emmeio.
De
sobra, a incompreensão da embaraçada e agitada previsão do cansaço dos
fenómenos atmosféricos. Liberta-nos, por seu turno, o plural e bravio
pensamento. O imprevisto dança com os compromissos. Joga com a sedução. Combina
com a inveja da monotonia. O barulho da chuva, tão compassado. Aquele som, a
chuva é uma pintura para os ouvidos. Complementa a vista. O ver-te dançar sob
as pingas. Reforça o cheiro. Sentir o teu perfume tão característico. Potencia
o toque. A pele molhada ganha outra textura e toque. Convida o instinto. De
longe, a timidez. De novo, lembro-me desse convite. Esta cidade, noutros
tempos, era a proa de sentimentos. De tanta vida que não tinha fim. Virtude de
um boémio que, inelutável, guarda os momentos.
7.8.14
Gosto de riscas.
Há
naquele toldo de riscas a condizer, qualquer coisa de atraente. Chama-nos ao
pormenor. É decoração a céu aberto, bom gosto ao serviço de quem lhe souber
aproveitar. Convida a atenção a sossegar-se ao seu lado. Lista sim, lista não.
Risca de uma cor, risca seguinte de outra. Repetem-se os dois tons.
Característica de verão quente. Recuamos décadas, mas esquecemos, por ora, um
fragmento da história deste país. Verão quente, mas noutros moldes. O branco é
rei. Cheira a mar desassossegado na temperatura, cordial no vai-vém. Algumas
pessoas, de corpos vestidos com o rigor da estação, olham o toldo e sorriem.
Outros, deixam-se parar. E comprar. É pura memória. É dos tempos de uma linha
onde os ascendentes tinham, por esta altura, vida com vagar. É um toldo, mas
faz recordar. Verão, na linha ou noutro ponto, é um gelado na mão. Uma família
a passear, um toldo por onde passar. No fundo, memórias que, sem esforço,
fazemos por guardar.
4.7.14
Serve para ligar um corpo à acção.
Mais
à frente, o alcatrão típico de uma estrada movimentada, de quem não espera nem
sossega. Nem os semáforos, brincalhões das cores a condizer com a bandeira. O
axadrezado da calçada desenhada e agastada de cada passada. Assim, debaixo dos
seus pés. A rapariga foge com a cara de quem segue na sua frente. Baixa a
cabeça e dança de cabelos colados à mesma cabeça irrequieta. Diz que é medo de
esperar. Diz que é medo de esperar com a cara levantada. Medo de ver o que não
quer. Canta baixinho, como que num aviso prévio. Canto, apenas e só, para mim - havia de pensar aquela cabeça.
Virou-se, de costas para a estrada, e de mão a tocar no relógio, disse em voz
alta e tremida – Eu não quero esperar. E
não sou maluca! – Voltando, logo de seguida, à posição que conhecemos.
Depois seguiu caminho, assim o semáforo deu ordem de passagem. Aconteceu mesmo.
Não é ficção. Aquela cara diz-me qualquer coisa. Se não é, lembra-me uma miúda
de outra altura. Também ela avessa a troca de olhares. A comunicar. Só cantava
na igreja, quando todos se calassem. Sempre de costas para os fiéis. Entregue à
observância daquela crença religiosa. Do mesmo modo, gritava cá fora, no pátio.
E ria alto. E falava, quando a ouviam.
27.5.14
Perdoem-me a excessiva referência à pão de forma, mas faz-me todo o sentido.
Quando
petiz, um tanto antes da adolescência e durante a mesma, ainda os tempos nos
pareciam eternos e, embora, fossemos rapaziada consciente, a nossa inexperiência
convidava-nos à perpetuação de uma ideia materializada de um sonho típico, onde
nada ousaria, sequer, beliscar as nossas vontades, ideologias e acções.
Contentávamos conversa com a certeza de que havíamos, mais adiante, de ter uma
pão de forma. Não importava a cor, a quilometragem. Chegava-nos o acontecimento
de ganhar a maioridade, de passar a tangente. De ter, de facto, os tão afamados
dezoito anos. Acontecer-nos-ia a fortuna de correr mundo. De conhecer pessoas,
espaços e arquitecturas, convicções religiosas, terra sem fim, línguas e
linguagens de outros. Sem provas, mas convictos, seria uma viagem sem data nem
fim. Onde, à vez, um de nós abriria caminho ao volante. Voltados estes anos,
que já passaram a perna aos dezoito, não tivemos uma pão de forma, nem viajamos
como desenhamos. Mas faz memória eterna. No domingo passado, falava com uma das
sonhadoras desta viagem, não falámos da pão de forma, mas repetimos a idade que
temos e da necessidade de ter juízo, como se fosse, uma vez mais, por metas.
Aos dezoito anos a pão de forma, agora o juízo. E respondi-lhe que há coisas
que não mudam. Seja qual for a idade que nos pesa. Nem tivemos a pão de forma
na idade que sonhamos, nem alteramos a faculdade do discernimento quando nos
dizem que tem que ser. Imagine-se, deixar de sonhar, apenas e só, porque nos
falhou aos dezoito anos.
19.5.14
Questiona tudo, nunca deixes de perguntar.
Começo
pela incerteza. Pela ausência de respostas. Pelo facto de que não existem argumentos
para ceder refutação, seja qual for. Seja fiel ou fictícia. Princípio, como
indica, de impulso, sem me segurar numa explicação qualquer daquelas que, de
tão óbvias, esquecemos que têm uma razão de ser. Não tenho nada, senão a
lembrança reproduzida. Recuando, por estes dias, venho ouvindo com frequência esta música. A razão não releva importância. Ainda assim, voltando a ouvi-la, a
imagem é a de um verão passado. Junto à praia, numa das festas típicas da
época, onde só entram os convites. A piscina ao centro, os dois pontos de bar a
ladear o recinto, a pista de dança, as mesas lá ao fundo, a decoração característica,
o DJ a passar as batidas da década escolhida. Ao balcão, descansando o cotovelo
esquerdo, estava a rapariga que, de sorriso rasgado e sardas, chamava a atenção,
por tudo, menos pelo óbvio. O cabelo comprido, castanho escuro, à solta. Um
chapéu arrojado na cabeça. Um top de alças com bolas várias, uns calções curtos
da cor do chapéu. Tinha um olhar tímido, um ar discreto, embora, não surtisse
efeito. Perto dela, perguntou-me o nome. Respondi-lhe. E rimo-nos os dois.
9.5.14
Chama-se Margarida e recusa roubar a identidade ao tom, negando chamar-lhe de encarnado.
A
Margarida é a memória e as lembranças de infância. De uma infância feliz e fornecida
de tudo o que nos balizava a felicidade, daquela época em que por mais que a
cronologia nos falhe, não perdemos a identidade de outros tempos. Ela é a
descoberta da capacidade de gerir, ainda que não se aperceba, a educação
centrada e espartilhada de uma família típica daquela região, com a azougada
necessidade de se imiscuir com o restante. É tímida e intrometida em
simultâneo. Fala de jeito suave, mas ri com sede. Escolheu que as amizades não
têm nivelamento. Escolheu, ainda no tempo em que não se media, não ludibriar
factos. Senta-se com quem for. Conversa com quem lhe oferecer palavra. Temos,
precisamente, a mesma idade. Crescemos desde lá atrás. Desde a altura em que as
varandas do andar superior das nossas casas se olhavam de frente. Hoje em dia
pousa para as câmaras fotográficas. De pernas esguias e compridas, o décor a
rigor, a ventoinha sem parar, o cabelo de um tom castanho mel a esvoaçar. O
vestido da cor que não gosta, mesmo que lhe chame vermelho ao invés do
encarnado de outras lides. Os saltos altos de uma marca de influente atracção.
A pose intuitiva. Os flashes na frente. O rosto maquilhado e luminoso. Neste
instante é tão real como quando despe o vermelho, abandona os saltos altos, lhe
desligam a ventoinha e despede-se da objectiva. Porque, acredite-se ou não, há
sempre quem não recue no momento de fazer a diferença. Boa sorte!
8.5.14
Uma casa portuguesa.
Lembro-me
do espelho desenhado em tons dourados, nos contornos trabalhados da data, na
parede de entrada, centímetros acima da mesa de apoio. A parede, escondida pelo
aparatoso espelho, era coberta por papel de parede inocente. De cores sóbrias,
de riscos simples. Liso, talvez. Logo depois da porta grande, aquele espelho
era a estrela. Era a festa de muitos que por ali passavam. Não me lembro se, na
não menos majestosa mesa de apoio, havia mais do que uma base de prata, uma
jarra com flores frescas e um candeeiro vindo de fora. Uma vez por outra, um
livro. A memória falta-me sempre. Menos, quando é festejo. Não simpatizo ou,
melhor contando, não me sinto confortável com o facto de ser o alvo da
comemoração. De tudo o que me diga respeito. Naquele espelho, vi pessoas
observarem-se. De tantas e distintas formas. A mulher que se prepara para sair
e não resiste retocar o cabelo arranjado instantes antes, de voltar a tocar no
batom, de segurar a jóia que prende a atenção para as orelhas. O homem que
chega ao fim do dia, pousa o que lhe pesa nos bolsos, respira enquanto se mira.
Nós, ainda petizes, tentando chegar-lhe. Pouco a pouco. Primeiro, apenas o
rendilhado dourado. Depois, surge-nos o reflexo do cima da cabeça. A seguir, os
olhos ganham vida nesse espelho. Até ao dia em que, sem sabermos, imitávamos selfies imaturas. A risada era pegada.
Naquela casa de sempre. O espelho sente saudades de ver passar. Tal como nós. De
ver chegar. Comemorar, seja o que for, não tem data marcada. Mesmo que espere
por nós sentada.
29.4.14
Português vivaz.
A
janela de cortina a balançar, debaixo ou no enquadramento do que se seguirá
adiante, é o ponto de partida, por dela soar pátria. O céu azul suave, quase
imaculado, não fossem as ternurentas, embonecadas e salpicadas nuvens.
Desmaiadas, é certo. Ainda assim, nuvens. O sol oferecendo brilho, luzindo
pelos cantos vários. Os azulejos azuis e brancos. Tradição, característica,
coração português. Calçada portuguesa, em tom sim, tom não. Num aparece e
desaparece de figuras típicas. Avenida acima. As riscas na blusa, a saudade do
azul e branco que lembra a maresia. A memória a funcionar, as lembranças a
jorrar. A barbearia, no sentido oposto, de cadeira de comando. De espelhos
gastos do tempo, como o couro. Só isso. O verde é sombra. A madeira é repouso.
Calçados, os ténis que repetem a saudosa marca da adolescência. O sorriso faz parelha
com a gargalhada. São proporcionais à dimensão do lugar que açambarca o todo deste
quadro. As pernas cruzadas. As mãos sem sossegar. A máquina fotográfica
pousada. Depois, terminei cortando o cabelo. E aparando a barba. Com óculos de
ver.
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8.4.14
Em diferido. #7
Partida,
largada, fugida. É infantil quanto baste. Mesmo que acabe de ouvir da boca de
uma criança. Enquanto, absorvido pela idade da brincadeira, faz do amplo
corredor do jardim, uma pista olímpica digna do atleta mais afamado. Da sua
boca faz sentido. Na cabeça adulta, é uma reportagem do infantil, do que fica
daquilo que já passou. Não é tentador de grandes questões e dissertações. De
bons ventos, fazem-se excelentes casamentos. Simbólico quanto baste. Mesmo que acabe
de sair da boca de uma noiva que não quer casar. Faz sentido da boca de uma
moça casadoira. Regada de ilusões várias. Na cabeça de um adulto coerente, é
uma reportagem de uma história de amor que termina sem aviso prévio, porque não
há, senão vendaval de incoerência. E nada disto faz sentido. Porque, em abono
da verdade, notas soltas são isto mesmo. Anotações de passagens verídicas,
tantas vezes sem a preocupação da grafia, da pontuação, nem da cronologia.
Tanto se dá, como se deu. Serve-nos de cadeados para a memória. Só abre quem
nós queremos. Dito e feito.
28.3.14
Uma senhora não tem idade, mesmo que esteja de parabéns.
Acordei
cedo e ofereci-lhe um beijo. Podia escrever-lhe um cartaz gigante, com letras
desenhadas, de forma impecável, à mão. Podia desenhá-las como fiz e escrevi
durante anos, até ao instante em que me cansei, da forma mais redonda e
primária. Tal e qual aprendemos nos primeiros anos de escola. Talvez por isso,
lhe chamávamos letra de primária. Podia fazê-las, no desenho ao meu jeito, mas
haviam de ser tão grandes como o cartaz. Seria, de outra forma, impensável. Imensas,
as letras. Imenso, o cartaz. Ambos imensos, à semelhança do amor que lhe tenho.
Do amor que, sem excepção, esta família lhe tem. Conforme acredito, os números
são somente memórias, porque é de gente e afectos que se faz uma vida. Que se
escreve um calendário. Para a minha família é assim. A família que, por grito
da vida que se perde, se fez e segurou-a como a base do nosso sistema. Como a
matriarca. Dela, não me esqueço, jamais. Com ela me cruzo amiúde. Não perco a
memória de vê-la na cadeira, na sua cadeira, num dos cantos da sala, com o seu
ar, por vezes, áspero, que enganava, somente, os mais distraídos. A estatura
média, suportando um tailleur vistoso
de tecido nobre, o cabelo irrepreensivelmente armado, instalada na extremidade,
tal qual lhe ensinaram. As pernas juntas, apartadas para a esquerda, os braços
ligeiramente justapostos e as mãos entrelaçadas. Na mão esquerda, permanece a
aliança. Memória residente. Nisto tudo, é uma mulher tão modesta, da mesma
forma como nos sentamos numa cadeira. Ensinou-me, desde cedo, que homem ou
mulher, não nos esgotamos na aparência, muito menos naquilo que possuímos. E,
não consigo esconder o orgulho. O orgulho de tê-la como minha avó. Parabéns.
Por hoje. Por tudo.
24.3.14
Aumentar a parada.
Olha,
senta-te aí. Ficamos a olhar. Senta-te no passeio, sobreposto. Deixas, sem
medo, os pés a marcar a estrada. Afagas a máquina fotográfica no colo.
Aqueces-te com o cachecol, as luvas e o sobretudo. Atinas a vista, fugindo do
sol invernoso, com os óculos de sol. Do lado de lá está uma montra pejada de
livros. Carregada de títulos. Sobrecarregada de quadros na parede. Acumulando
memórias. Vamos namorá-la antes de entrar. Aprecio convites súbitos. Aceito,
claro. Temos tempo.
19.3.14
Serve-se do digestivo datado, pai?
Na
era do ecléctico, o meu pai foge das ranhuras e intermitências do termo. Não me
lembro de o ver assistir a grandes concertos ao relento, a céu aberto, pisando
o asfalto ou o pó que ganha vida debaixo dos pés e condena qualquer
indumentária alusiva ao estilo musical que aplaudiria, para ficar nas primeiras
linhas que sucedem o palco. Não me lembro, porque nunca aconteceu. Rezam os
relatos, os momentos áureos da corrida aos nomes valentes do rock, ficaram para
trás, para o passado, assim a vida adulta e o casamento se fizeram fronteira.
Depois disso e do nascimento dos descendentes, exasperou-se-lhe a vontade e a
dedicação. Suspeito que adiou. Deixou para depois. Ou viveu o suficiente, no
toque do eficiente. O meu pai não se assume um eterno ecléctico quando o
assunto é música. A resposta brota, ainda a questão vai no termo. A boa música
fez-se nos anos do rock, mas faz-se hoje, tão boa, de outro jeito. O meu pai
oferece o termo à canção. É arte, quando feita com as bases do talento e do
trabalho, conta ele. Como, de resto, se faz um todo da vida. Este homem vive e
vibra com os hits da sua memória,
aplaude as novidades que lhe soam a puro deleito. Seja rock. Os amigos da nossa
família já lhe conhecem a disciplina. E tomam-lhe a influência. Não sei se
importa, mas ser uma parte num núcleo de um todo, é um tremendo privilégio.
Hoje é um dia profundamente corriqueiro. Banal nas definições. Particular nas
entrelinhas. É dia do pai. É o dia do homem que ouve música, vibra com os melhores
acordes e timbres. E, no meio de tudo isto, não é ecléctico. Um dia feliz, pai.
Mas coberto de incoerências. Toma um digestivo datado, enquanto usa uma pedra
de gelo. Condenando o líquido todo, é uma acção tão snobe. Snobe como ele não
gosta. Até já.
13.3.14
Café da manhã.
A
janela fica sempre a descoberto. Não cerra as portadas, porque lhe roubam mais
sol do que o pretendido. Não usa cortinas porque desmaiam a luz. O despertador,
contava-me, toca sempre no momento mais inoportuno. No instante contado em que
o melhor da metamorfose acontece. Em que, estendido na cama de todos os dias,
avesso na postura, o corpo cede tempo. Eleva-se-lhe, disse-me tal e qual assim,
eleva-se-lhe o espírito e entra numa zona possessa, rítmica, desconstruída, sexuada,
pujante e descontraída. Sem artimanhas banais. É possível. Acontecem-lhe, com
frequência, os sonhos que lhe excitam a mente e o corpo. E nem precisa de sexo
ficcionado no cardápio. Reduzir excitação e prazer ao sexo teórico, não
compensa. É travestir. E, tudo volvido e vivido, são horas de levantar. Guardou
a memória. Mas não esquece. Não consegue esquecer que, até no sonho, ficou pela
metade. Entendes, perguntava-me enquanto o açúcar fugia-lhe das mãos, antes de
envolver e casar com o café. Vou-me embora.
10.3.14
Gaveta de expressões.
Guardo
do ano passado, uma imagem que para mim, foi a Moda Lisboa. Este ano, não tenho
ideia do movimento e do trajecto dos nomes expostos. Dos desfiles e da
arquitectura. Bem sei, devo manter a ressalva de que não sou o mais versado
na área, mas vêem-se expressões. Não fui, nem passei perto do Pátio da
Galé. Não estou em Lisboa, como se vem fazendo rotina. E terminou ontem. Uma
amiga teve convite. Guardou-o e, soube há instantes, esqueceu-se que o tinha,
desligou as datas. Não foi. Fica obrigada agora a guardá-lo na gaveta dos
problemas de expressão. Com alfazema ao lado. Mas, Moda Lisboa para mim, pelo
menos, no ano transacto, é a imagem daquela mulher à entrada, vestida para
sair, atarefada entre a mala ao ombro, o relógio e as pulseiras num balanço, a
mão esquerda no cabelo à solta, a máquina fotográfica a pender-lhe da mão
direita, as revistas e o caderno a balançarem-lhe presos pelo braço. O sorriso
rasgado. Vestida de forma elegante e descontraída. A jovem mulher conseguiu a
proeza. Numa montra de momentos em que cada um sente o que quer. E admito, não
merece a pena que me perguntem quem passou o quê. Guardo, somente, esta imagem.
Aquela moça mulher, tal como a descrevi, com a montra da Moda Lisboa lá atrás.
E foi muito giro.
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