Mostrar mensagens com a etiqueta metáforas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta metáforas. Mostrar todas as mensagens

9.3.17

Medição feita por um instrumento.

Viro à esquerda por preferir andar do avesso. Hei-de deixar boquiabertos os que me compõem como um tipo às direitas. Sê-lo-ei, numa base que me rege e que não descuro, mas fujo, noutros pilares, do cinzentismo, das regras que sufocam. Disseram-me, há atrasado, que sou um tipo com coluna vertebral – as metáforas são sempre uma escolha viável – mas que visto uma pele altiva. Disseram-me, outros e mais informados (não sou tendencioso, apenas factual), que sou um tipo bom – menos trabalho no que respeita à procura do léxico, o que denuncia a proximidade – e que isso se reflecte num role inesgotável de razões. Até que sou, em querendo, um comediante em potência – uma hipérbole tamanha, fora de pé, como se quer. No trajecto, uma canção feliz, que exige a alegria e o espírito em animação. Que dispõe o corpo, que o transporta para um começo de dia que augura o melhor. Vozes há, que mudam as letras. Músicas há que as enriquecem. Suplantam o original vezes sem conta. É o caso. Aproveito-me dela e magico ideias nada exequíveis e alienadas. Das que me permitem ruminar largos minutos, desaguando num valente e despenteado momento de felicidade. Serve o introdutivo para lembrar que somos todos, um e cada qual, um cabaz psíquica e emocionalmente recheado. Reagimos conforme o ambiente. Agora um jazz atencioso, a seguir um rock pesado. Um fado arranhado, noutra altura um pop raso. Entro pela porta grande, não me lembro se pela direita ou pela esquerda, sequer tenho memória de qual dos meus pés pisou o solo primeiro. Está à minha espera, o rosto ganha uma luz efusiva, respondo da mesma forma. Acena-me, numa excitação que lhe é característica. Levanta-se, abraça-me e deixamo-nos ficar. É muito bom. Sentamo-nos, um à frente do outro. Antes de qualquer coisa, perguntou-me se ainda escrevo, se ainda dedico as minhas pausas, maiores e menores, às prosas numa folha. Acenei positivamente. Quero ler-te até ao fim, retorquiu. Certamente há fundo de verdade. As leituras são sempre dos outros.

9.4.15

Quebrar com força.

Podes fotografar esta ponte. Aquela ponte. Ou outra qualquer. Podes fotografá-las a todas. Podes, se tiveres interesse e perspectivas várias, fotografar a mesma ponte sempre e em cada dia. Podes fotografá-la sobre o tabuleiro. Podes, se assim entenderes, fotografá-la cá de baixo. Se gostas de estar sozinho ou com alguém, é pormenor. Tem maiores artimanhas na objectiva e na edição. Desprende-te disso e foca e desfoca, sem pensar ou remexer na actividade do editor. Podes também, se não te causar enfado, fotografar todas as pontes por onde passes. As grandes, as pequenas. As altas ou as de baixa estatura. As longas ou as de pouca extensão. Resume-se à tua área de expressões. Precisamente sobre uma ponte, enquanto sais para longe, toca-te o telemóvel. Do outro lado, o lamento de mais uma relação que chega ao fim. Sem forçar ou culpar a idade, a efemeridade tem patamares. Nas relações, por certo, não será diferente. Depois, coisas há que se repetem. Só lhes falta, desta vez, um lustre vistoso no centro da sala. Vai lá e concerta a ruptura. Se assim tiver de ser, não há ponte que não alcance.

6.4.15

Diz-me quem és. Dir-te-ei quem sou.

A ardósia não engana. Uma vez escrito, ainda que, generosamente apagado logo de seguida, ficam as marcas do giz dançando, aos solavancos, por ela. Tomem cuidado com as notas de rodapé. Há propostas que, a seu tempo, quando descobertas, podem tornar-se lei. Preocupem-se, pelo menos, em mostrar uma caligrafia alinhada. O resto, sempre o resto, servir-nos-á de quadro. À entrada ou à saída, conforme a posição. Ali, à espera da mensagem arranjada. Entra. Ou volta sempre.

5.2.15

Lente para socorro da vista.

Sem tempo, abrimos restrições. Quando ocupados, declinamos a regra geral. Não aceitei uma chamada, recusei responder a uma mensagem, depois outra. Ainda outra. Não dei o braço a torcer, não deixei de parte as convicções. Voltei a recusar uma chamada. As mensagens, sempre as mesmas. No telemóvel, no e-mail, até nas redes sociais. Cabeças quentes. Gente esta, de vontades oblíquas. Cabeças que latejam. Gente esta, de lembranças raras. Não é hábito o contorcionismo da ausência de resposta. Não faço. Não espero que façam. Excepção tão extraordinária. Um consenso. Como tantos. Devo, neste trajecto, ter torcido o braço, mordido a língua e batido com a cabeça numa parede. Tudo metafórico. A sério, risquei uma das lentes dos meus fiéis amigos de design. Os óculos. Nisto, decido responder. Nada justifica a lesão. Nada. Nem numa peça real, nem numa pessoa desleal.

24.9.14

O verde do campo.

Barafustando com o campo. No fel do que guarda. Só se permite visitar o que sempre lhe foi proposto quando, em trabalho, o verde do campo deixa de ser recordações e verdades. Quando o campo não é sinónimo de distância e pobres de espírito. Quando, o verde e o fiel retrato do campo passam a ser o cenário perfeito para a fotografia. Metáforas. Aprecio-as.

2.9.14

Época de cores quentes.

Volta as costas para a janela, entreaberta e de cortina a vibrar. Nasce uma silhueta sentada numa secretária de madeira. A divina postura e o divertido balanço de cores com que joga o sol. De um papel de medidas certas, cor forte. Verão num quadrado. Sol na luz e granulado da folha. Desenha um cisne com a coerência, sensatez e simplicidade de quem não pensa. Faz. Como se a candura de não ligar acções e pensamentos fosse um dado adquirido. A sala ganha tons e sombras. Este bocado de papel é um recorte de alguém. O verão é, senão outras definições, um pedaço. De alguém. De quem e a quem importa.

3.6.14

Perdeu o chão.

Desceu do lugar do pendura. Bateu com a porta do carro, meio desavisada, um pouco incomodada, sem mostrar a razão. Fiquei à espera. Seguiu, bateu o portão. Passou a porta de entrada. Bateu-a, também. Parou no hall, lembrou-se que vinha da discoteca que não visitava há algum tempo. Daquela que toda a gente fala e que, explorada muitas vezes, perde a graça e deixa-nos extenuados. Depressa se esqueceu. E voltou a cismar com a razão do arrufo. Guardou-o para si. Aventurou-se nas escadas, para seguir para o andar superior. Envolvida com as mais recentes novidades que nele seguiam sucessivas, perdeu o chão. E o telemóvel. Caíram. Ambos. Relatou-me no dia seguinte, quando me contava que estava sem telemóvel. A imaturidade é lixada. São memórias. E já lá vai o tempo. Nunca me contou a razão. Nem sei por que razão me lembro disto agora. Já não pisamos o mesmo chão. Vou deixar de ouvir, aleatoriamente, músicas guardadas no tempo.