Trocámos
o abraço de todo o tempo. Demorado como a distância exigiu. Não doutrinamos a
pressa. Jogamos com a solenidade da presença. Não sabia por palavras dela, o
que já sentia. Guardava, singela e constrangida, para o jantar que se seguia. Neste
frente-a-frente, fico a perder. Somos amigos desde tenra idade, sequer sabíamos
eleger categorias de uma vida que havia de chegar. Adivinhávamos. À sorte, pela
sorte. Aqui, olhos nos olhos, nesse certame que é a amizade. Ao redor, há
burburinho, cabeças baixas, ora atentas ao prato, ora presas no telemóvel. Quase
não damos por elas. Alongámo-nos na prosa com recheio. Matámos saudades.
Cumprimos necessidades. Deixámos esfriar os pratos. Tomámos água, para não
adulterar o discurso e a apreensão. E deixei-me seguir, sendo todo ouvidos, com
pausas para retorquir. Neste frente-a-frente, particular e inopinado, fico a
perder. Somos amigos de longa data. Dos tempos em que o meu cabelo já gritava o
quão beto me guardava e em que o dela não desmentia a sua vocação para
menina-princesa. Aprecio quem conversa sem desviar o olhar, atenta e
convictamente. Como acontece. Apreensiva, foi soltando o que guardava para me
contar. Vejo a mulher do momento e a criança do laço gigante na cabeça. Quer
contar-me. E já sei. Finalmente, a coragem fez sair cada palavra. Sorri-lhe,
porque não sei fazer de outra forma. Não dei falsos confortos. Compreendi e
opinei. Não defendo, mas entendo. Neste frente-a-frente, sou manifestamente
menor. Pelo amor que a amizade construiu, pela necessidade de protecção que não
dispenso. Recuso ardilosas palestras sobre o outro. Como se as acções fossem o
resultado do todo. Ou a moral uma presa fácil. Ninguém é tão autómato ou irrepreensível.
Finda a noite, neste frente-a-frente, um inesperado empate. Pela hombridade com
que conduz a sua vida, e eu por vê-la fincar o pé em terreno pantanoso, quando
estava num passeio no parque. Mesmo sem o laço de outrora, continuas a fazedora
de todas as coisas.
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22.2.18
27.4.17
Inócuas tertúlias e um jardim repensado.
É,
toda a parede de fundo, de azulejos vestida. Quadrados exactos, fundo branco,
por amarelo e azul riscados. Formam um desenho bonito, a fazer lembrar os de
outros tempos. É um jardim improvisado. Depois das janelas largas, ei-lo
montado. Paredes altas, largas, típicas dos prédios antigos. Vasos amplos, com
flores a condizer. Verde e outros tons de mãos agarradas. Cheira bem, olha as
rosas empinocadas. As cadeiras com almofadas. A mesa comprida e bem caprichada
no arranjo. Descem dos ares luzes várias e vasinhos com ervas efusivas. Temos
direito a bebidas frescas. Na parede pintada a rolo, um espelho redondo, a
imitar os rostos. Fez-se luz e num desassossego tornaram-no eficaz, cheio de
utilidade. Ali, encerrados naquelas medidas nada exageradas, apetece fins de
dia partilhados e noites sem horas. Tempo quente e a lua presente. Olhamos à
volta e está confortável, confiante. Sobre nós o azul do céu. A vizinha do
andar superior não remoca. Bem pelo contrário, assoma-se à janela e, de copo na
mão, sugere o brinde. Quão castiça, a mulher e a acção. Braços ao ar, daqui um
sonoro CHEERS! Temos música de fundo,
sai de uma coluna Marshall, negra e
ainda mais embelezada com dourados e encarnado vinho. “Summer Wine”, a duas vozes, é agora a maestrina do ambiente.
Matraqueamos como é nosso apanágio, entre as risadas sentidas e as bebidas
servidas. Olha ali, sai a fotografia para o Instagram.
Poses, cabelos aconchegados, risos nada forçados. Prefiro as fotografias para
lembrar, sem pelas redes sociais passar. Mas não tenhamos dúvidas, amizade é
viver e partilhar. Esquecendo as moléculas da cobrança. Estar é sinónimo de
respeitar. Muito mais quando temos uma parede azulejada a fazer as honras de
fundo. Olaré!
20.3.17
Efeitos de um coração bom.
Tem
as pernas cruzadas, sentado sobre a cadeira larga. De madeira e verga. Uns
sapatos bonitos, castanhos, limpinhos, todos finos. As calças engomadas, beges,
bem vincadas. A camisa de boa qualidade, num azul claro, num tom sincero. Uma
malha escura, elegante, toda delicada. As meias espreitam por entre as calças e
os sapatos. Lisas, sóbrias, nada coloridas, da nação dos sapatos. Como manda a
lei. Lembra-lhe, a falta de vista ao perto, de trazer os óculos pendidos sobre
o peito, ao nariz. Assim mesmo, à pontinha. Brinca com os olhos, na frente vê
com a ajuda, para lá, olha com a vista despida. Pega no jornal que está sobre a
mesa baixa, lê as gigantes da capa. Atesta o descrédito das palavras e dos
actos. Demora-se na leitura habitual de fim-de-semana. Atento, deixa fugir aqui
e acolá, algumas palavras, uma espécie de comentário do absurdo. A
incompreensão a tomar-lhe as veias. Apoquentam-lhe as fragilidades deste
terreno, da sociedade de todos. De cada um. Emergem as vivências de outras
épocas. Enfim, termina a leitura. Fecha o jornal, dobra-o com vagar. Devolve-o
à mesa. Tece um último comentário, garante que não compreende. Um balanço que
entendo. Sugiro que procure outras leituras. Que não fique só pelas notícias.
Com um sorriso típico de quem sabe que tem a resposta certa, responde-me que
sim. Que não vivemos somente do semanário que ainda escreve assente na acção,
tampouco do pasquim diário. Remata dizendo que voltou a Tolstói, e à sua “Ana
Karenina”. Não fui capaz de suster o riso. Tem toda a razão. E leva vantagem.
Que não leio como dantes, nem volto a Tolstói como me apetecia. Ficou definido
que vai dar-mo, assim que termine a releitura. Ora, essa. Muito obrigado. Os
grandes corações agem como se o espaço e o tempo fossem inexistentes. Queria
ser uma ínfima parte. Garanti-lhe.
7.3.17
Lida aturada.
Saí
logo cedo, na rua um valente ensaio da primavera que não tarda. Sabe bem o tom
e o som. Oiço um bom dia largo, logo depois o meu nome. Às vezes antecede-lhe
um menino. Como que a cair na tentação de passar conforto nas palavras. Noutros
tempos, o diminutivo era frequente na mistura do verbo. Respondo, meio absorto,
mas com o sorriso de sempre. Hão-de de julgar que hoje é um dia importante.
Porventura, não sei. Veste-se, no entanto, disso. Vou no carro, quase numa lamúria
interna, ao ver as horas num trote. O trânsito ensaia uma fila inesgotável.
Zango-me com a delonga. Não tolero atrasos, demoras sem razão. Larguei o
sossego do lar bem cedo, para esta moda evitar. Mas não justifico o imprevisto.
Encontrar lugar é uma odisseia para a qual não guardo espaço. Garanto em voz
sumida que não me esqueci de nada. Enveredo pelo acesso mais breve, entro pelas
portas largas e diáfanas. No centro, a menina da recepção, num rosa coquete, o
senhor da segurança mostra-se simpático, de mãos postas. Pessoas num vai e
volta. Por fim, quinze minutos antes da hora marcada, dirijo-me à recepção,
pedem o nome. Estão à minha espera, mas vai demorar. Aquieto-me, trato das
pendências, observo a movimentação à volta. Volvidos perto de vinte minutos
após a hora marcada, a recepcionista divertida entrega-me a identificação para
que possa seguir. A senhora aperaltada cumprimenta-me, pede que a siga. Subimos
dois andares no elevador. Agora, por favor, aguarde – disse-me. Sentei-me.
Desta feita, bem mais apoquentado do que aquietado. Enfim.
18.4.16
Em diferido. #48
Foi
num punhado de ruas que tive esta sorte - Na rua,
singular ou na pluralidade da existência - afastando quaisquer clichés, ainda
assim, deixando-lhes, em jeito de convite, a porta entreaberta - há frases
feitas pelas paredes vazias. Esburacadas, ocas, como já versava a canção.
Aproveita-se a fachada, assim meio desligada da convivência mundana, e
espetam-lhes frases. Algumas, alegram-lhes as vistas. Vestem-nas de imagens e
palavras que se tornam, em levando a atenção à disposição, em tremendas
equações. Mesmo que a matemática te escape, mesmo que a tenhas esgotado num
atrasado e distante ano lectivo. Na rua, ou nessas múltiplas e diversificadas
ruas, vou tendo sorte. Desde a janela escancarada, num primeiro piso antigo,
que deixa as cortinas fugirem com o vento, para espreitar quem passa por baixo,
donde saía, para além do tecido amancebado com a brisa, música boa. Alguns,
sacanas preguiçosos, haviam de apelidá-la de ecléctica. Um bom jazz e logo depois Janis Joplin meio
arranhada. Teve essa rua, pelo menos, naqueles minutos, vida nova. Sequer
imagino se, porventura, é um hábito daquela janela. Mas que soava bem, isso não
desminto. Passando por uma outra, onde desprovida de complexos, uma velha
senhora descia de uma carrinha, e dançava para os companheiros de viagem. Lá
dentro, todos sorriam, aplaudiam e acenavam felizes. Cá fora, no asfalto, os
cabelos brancos, o corpo franzino davam liberdade. Saltava, imitava uma espécie
de dança e ria. Elevando os braços. Uma reveria inqualificável à liberdade, à
vida. Ri-me com ela. Por acreditar na sinceridade. Inacreditavelmente ou talvez
não, fiquei feliz enquanto os via. Continuei e nunca mais esqueci a baixinha
senhora que escolheu viver a vida, sob pena de perder pedaço. Até uma outra
rua, onde, sem que o conhecesse, um jovem senhor acomodou-se ao meu passo e
acompanhou-me rua abaixo. Desnivelado e desenrascado. Pensei. As palavras
trôpegas e dispersas, a conexão inexistente. Vai esperar a namorada que está
para chegar. Comprar uma casa e morar para sempre naquele amor. Anunciou-me que
em tal superfície comercial os computadores portáteis estão a bom preço e numa
outra os telemóveis preferidos são os mais vendidos. Trazia, debaixo do braço,
papéis de publicidade que comprovavam. Bom casamento, amigo. Para ti também,
que deve dar trabalho viver e pensar. Ri-me com ele. É verdade. Cansa, por
demais. Loucos somos todos. E só merece o título se o fizermos sem prejuízo
para a mente. Um viva!
26.8.15
Foi num punhado de ruas que tive esta sorte.
Na
rua, singular ou na pluralidade da existência - afastando quaisquer clichés,
ainda assim, deixando-lhes, em jeito de convite, a porta entreaberta - há
frases feitas pelas paredes vazias. Esburacadas, ocas, como já versava a
canção. Aproveita-se a fachada, assim meio desligada da convivência mundana, e
espetam-lhes frases. Algumas, alegram-lhes as vistas. Vestem-nas de imagens e
palavras que se tornam, em levando a atenção à disposição, em tremendas
equações. Mesmo que a matemática te escape, mesmo que a tenhas esgotado num
atrasado e distante ano lectivo. Na rua, ou nessas múltiplas e diversificadas
ruas, vou tendo sorte. Desde a janela escancarada, num primeiro piso antigo,
que deixa as cortinas fugirem com o vento, para espreitar quem passa por baixo,
donde saía, para além do tecido amancebado com a brisa, música boa. Alguns,
sacanas preguiçosos, haviam de apelidá-la de ecléctica. Um bom jazz e logo depois Janis Joplin meio
arranhada. Teve essa rua, pelo menos, naqueles minutos, vida nova. Sequer
imagino se, porventura, é um hábito daquela janela. Mas que soava bem, isso não
desminto. Passando por uma outra, onde desprovida de complexos, uma velha
senhora descia de uma carrinha, e dançava para os companheiros de viagem. Lá
dentro, todos sorriam, aplaudiam e acenavam felizes. Cá fora, no asfalto, os
cabelos brancos, o corpo franzino davam liberdade. Saltava, imitava uma espécie
de dança e ria. Elevando os braços. Uma reveria inqualificável à liberdade, à
vida. Ri-me com ela. Por acreditar na sinceridade. Inacreditavelmente ou talvez
não, fiquei feliz enquanto os via. Continuei e nunca mais esqueci a baixinha
senhora que escolheu viver a vida, sob pena de perder pedaço. Até uma outra
rua, onde, sem que o conhecesse, um jovem senhor acomodou-se ao meu passo e
acompanhou-me rua abaixo. Desnivelado e desenrascado. Pensei. As palavras
trôpegas e dispersas, a conexão inexistente. Vai esperar a namorada que está
para chegar. Comprar uma casa e morar para sempre naquele amor. Anunciou-me que
em tal superfície comercial os computadores portáteis estão a bom preço e numa
outra os telemóveis preferidos são os mais vendidos. Trazia, debaixo do braço,
papéis de publicidade que comprovavam. Bom casamento, amigo. Para ti também,
que deve dar trabalho viver e pensar. Ri-me com ele. É verdade. Cansa, por
demais. Loucos somos todos. E só merece o título se o fizermos sem prejuízo
para a mente. Um viva!
2.2.15
Uma noite de risada pegada e uma imagem bem guardada.
Aí em casa. Aqui também. Prestem atenção, gente de bom coração. Volta,
tempo sim, tempo não. Queremos sempre, escolhemos quando dá. Temos coisas para
ti, tenho coisas para vocês. Batem as pestanas das meninas, piscam os olhos dos
rapazes. Tudo bem medido. Conversas sem fim, como se insiste no termo da
semana. Ascende a tentação de ficar no sossego. Gente minha, à volta das
palavras, das histórias com final. Uns felizes, outros tristes aprendizes. À
volta da ironia característica, no conforto da partilha e do quente tão típico.
Pediram-me, no meio de tudo isto, que desenhasse. Que a desenhasse. No mínimo,
que fotografasse. Que a fotografasse. Por favor, voltou a insistir. Não dou
tréguas com facilidade. Não é maldade de génio caprichoso e altivo. É o lamento
do receio. Porque não é uma opção. Nem sei se, porventura, é uma necessidade.
Permanece por aí, pedi. Vamos ver. Ligámos, via Skype, para outra parte deste
grupo, para um país que nos levou uma boa margem. Agora, todos, fizemos um
relato sem fim. Bebemos e brindámos à amizade longa. Rimos com vontade. Até do
sarcasmo voraz. Partilhámos. Nisto, decidi guardar-lhe a pose. Sem dar por
isso. Enquanto ouvia atenta e ria em resposta. Voltava a cabeça e girava o
longo cabelo. Não lhe disse. Voltámos ao brinde, à conversa sem medida e à
partilha à distância. Toma. Beijou-me, antes de ver. Obrigada, disse-me. Vou
dançar com outra convicção. Tão contente por me fazeres em pausa nesta noite de
feliz confusão, continuou. Outro beijo. Rimo-nos. A sério, rimo-nos sempre. Por
bem. Juntos, seja qual for o motivo. Todos os dias que o ano tem.
11.12.14
Em diferido. #24
Derramar
luz - A discrição é um facto que se recusa a deixar partir. É a velocidade de
um feitio que ganha contornos de mãos que jogam com a vergonha de expor mais do
que merece importância. A vergonha, palavra que desvenda sensações e
incoerências que dão voltas num monociclo que pensa como gente e obriga a
condução de acrobata gingão. Mas ultrapassa a vergonha. É um feitio que está
inscrito algures. E atrai esse contexto em que não é defeito, senão feitio. O
equilíbrio de um físico que se sustenta nuns saltos altos ou nuns rasos que
nada roubam, na elegância de um corpo que não procura revelação, antes
convicção. É igual ao que sente. As palavras nunca chegam ao fim, nem deseja
fechar os olhos. Gosta de ter tempo e viver numa conversa que tem um sem fim de
segundos. O afecto que partilha, sem obrigação, assenta-lhe na essência que
impõe em cada relação. Efectiva ou se situação. A discrição, conheço-a de
outros tempos. Agora, é infinita a vontade de que a partilha com a proprietária
desta discrição e conversa que me prende a atenção, jamais chegue ao fim.
Escrevi, acredita, sem receio de me esquecer. Escrevi, podes acreditar, para
voltar sempre. E acrescentar. Mesmo que não seja hoje o lugar.
29.9.14
Derramar luz.
A
discrição é um facto que se recusa a deixar partir. É a velocidade de um feitio
que ganha contornos de mãos que jogam com a vergonha de expor mais do que
merece importância. A vergonha, palavra que desvenda sensações e incoerências
que dão voltas num monociclo que pensa como gente e obriga a condução de
acrobata gingão. Mas ultrapassa a vergonha. É um feitio que está inscrito
algures. E atrai esse contexto em que não é defeito, senão feitio. O equilíbrio
de um físico que se sustenta nuns saltos altos ou nuns rasos que nada roubam,
na elegância de um corpo que não procura revelação, antes convicção. É igual ao
que sente. As palavras nunca chegam ao fim, nem deseja fechar os olhos. Gosta
de ter tempo e viver numa conversa que tem um sem fim de segundos. O afecto que
partilha, sem obrigação, assenta-lhe na essência que impõe em cada relação.
Efectiva ou de situação. A discrição, conheço-a de outros tempos. Agora, é
infinita a vontade de que a partilha com a proprietária desta discrição e conversa
que me prende a atenção, jamais chegue ao fim. Escrevi, acredita, sem receio de
me esquecer. Escrevi, podes acreditar, para voltar sempre. E acrescentar.
30.6.14
Escolhe uma cor.
Constantemente
não é óbvio, remédio que convém à torção de um músculo que já não ensaia. Na
terra batida encontramos tudo. As botas com desenhos distraídos da terra
fugidia, os botins de todas as estrelas, os ténis de corrida, os ténis com a
marca adornada no desenho da mais recente moda, os sapatos assimétricos, também
os clássicos e, imagine-se, os chinelos e os saltos. No pé de cada nome,
naquela terra batida, olhamos de tudo. Tanta gente junta, tanta diversidade
feliz. Calca-se a terra a cada passo adiante. Tanta gente reunida. Fazem-se
grupos de amizade. Amigos e conhecidos em roda. Risada, conversa e gargalhada.
Mas há sempre quem nos arrepie. A pele ganha outra textura, um toque de relevo
robusto da sensação desprevenida. E ficamos a vê-la. E ficamos a ouvi-la. Só me
interessa se tiver passagem desligada de repetidas imagens. Na terra batida
sustentam-se relações. Investem-se razões para conhecer quem és.
5.6.14
Em diferido. #10
Um
beijo e um segredo - Pode, no desenrolar, não fazer sentido, mas a ocasião é
portentosa e valiosa, qual sorriso. No sossego, queremos saber do envolvimento
que faz bem ao ânimo e que sugere a pausa obrigatória. O telemóvel toca, agora
não sabemos se é uma chamada perdida, uma mensagem pendente, uma fotografia do
cão na praia ou de sushi a chegar ao Instagram ou uma novidade, mascarada de likes, marcações em fotografias ou
convites sem voz, numa qualquer outra rede social. Adiamos, por força da
procrastinação. Porque, a dada altura, não interessa assim tanto. Mas, porque
eles insistem, rendemo-nos à evidência da curiosidade, e vamos ver. Não sei bem
que respostas havemos de devolver às solicitações cruelmente repetidas. Enfim,
percebo que não. Há fotografias várias, convites sem sustento, likes a inventarem atenção, mas a
mensagem é outra. Vem de lá, do número que nos leva para o remetente que
procuramos sempre. E é tremendamente pontual, ao mesmo tempo que está carregada
de sentimento. É, inequivocamente, um sinal de lembrança. É sedutor e pesado.
Ela não sabe tudo, mas é melhor nas emoções, no seu tratamento e na forma como
as fala. Por tudo, e por muito mais, é que não deixo de querer comer algodão
doce com ela. E dizer-lho ao ouvido.
29.5.14
Não o aproveitar enquanto é ocasião é um perfeito despropósito.
Vou
ser somítico. Bastante apegado às palavras. Vou poupar-lhes o desgosto de
gastá-las, se assim conseguir. Naquela rua da baixa, hoje movimentada, noutros
tempos ainda mais festejada, passávamos. Num dos prédios que sempre gabo, vive
uma montra de loja, que é novidade, sangue novo e negócio contemporâneo. É
dinamismo e devoção na mente criativa que, felizmente, decidiu fazer-se de
coragem e de obras às ideias, entender, por fim, concretizar. Havia gente a passar, de língua
afiada, da montra a desdenhar. Nós parámos. Ficamos a olhar e a ver. É letras e
sonhos. É bravura de quem não desiste, nem perde sombra dos seus instantes a
mordiscar a carne e a vida alheias. Hei-de lá voltar.
28.5.14
O meu amigo C.
Ontem,
já o dia ia longe, o escuro avisava a distância, lembrei-me do meu amigo C. Nem
sei bem porquê, não encontro justificação, porque pensar em alguém não tem
razão, senão quando fora induzido. Porventura, porque não lhe ouço as estórias
há uns meses valentes. Mas rebentou-me nas lembranças, primeiro a sua imagem,
depois o seu movimento frenético, por fim, o seu nome e os discursos sem fim. O
meu amigo C. tem sete anos. Sete anos de uma desenvoltura de raciocínio
bastante pertinente. Conheço o pai, fui colega de escola dos tios, um sem
número de anos. Um lugar, a dada altura, convidou-nos à convivência. Umas vezes
seguida, outras tantas compassada. Não consigo, porque me falha a memória, perceber
como nos aproximámos. Talvez, pela mão da minha irmã mais velha, rainha entre
os miúdos. Desenvolveu-se uma narração feliz de amizade. É um conversador nato,
não guarda a opinião nem as questões que lhe assaltam a cada momento. Não tem a
maior simpatia pela dinâmica da escola, prefere o desporto escolar. Ainda
assim, arrisca os números. Distancia-se das letras. Aprendeu cedo a contar. O
raciocínio imediato é-lhe característico, não posso deixar de repetir. Os jogos
inventados conforme as suas valências, fá-los acontecer, se preciso, ao redor de
uma mesa. Pede a novos e velhos que entrem na brincadeira. É guarda-redes num
clube da zona. Relata-me cada jogo com entusiasmo. Não esquece os detalhes,
usando da expressão corporal, em precisando, para ilustrar a jogada. Também
falha, diz-me ele. Deixa entrar golos. Às vezes, perdem. Mas volta sempre,
treina ainda mais. Usa óculos. Tem dificuldade, como é apanágio da idade, em
manter-se sossegado. De quando em vez, pede-me o telemóvel para jogar. Quer
entrar numa corrida de pontos. É um fã maior do Benfica. Assiste aos jogos,
quantas vezes, no estádio. Onde grita e canta em voz esforçada cada cantiga de
homenagem. A última vez que nos cruzamos, vinha a fugir, tomando a rua, o pai
ao lado. Reparando que eu estava no lugar do costume, parou, entre a porta,
gritou o meu nome e perguntou se eu estava bom. Gritei-lhe, de volta, o nome.
Está tudo certo. É o meu amigo C., de sete anos. Porque, desde sempre, sei que
os amigos não têm idade.
21.5.14
Em diferido. #9
É
o retrato de um bando de petizes. A imagem condói. É doída, castigada. Sofrida.
Pela rua, a direito, quando o sol de primavera, ao fim da tarde, ameaça fazer mossa
e convida à paragem numa pretensiosa
esplanada, quando já não dispensamos os óculos de sol da nossa marca
favorita e guardamos os afazeres para o dia seguinte na agenda do iPhone, surgem três rostos, novos, lá ao
fundo. Três crianças num trejeito típico. Num linguajar característico. Num tom
de decibéis desconcertados. Cada uma, carregando um balde. De forças
melindradas. De ânimo exaltado a disfarçar o peso do que carregam à obrigação
de uma herança desgovernada. Os cabelos empeçados, as roupas tingidas, os olhos
remelentos e de vislumbre penetrante, os rostos pintalgados com a cor da terra.
A insensibilidade do hábito, escorrendo-lhes rosto abaixo. As roupas tão
saturadas do tempo e do vivenciar tão quotidiano. Com isto, começaram a
aproximar-se e tudo o que ficou para trás no relato está, nesta altura, mais
focado. As vozes mais próximas, os decibéis confirmam-se carregados. O perfil
desalinhado de quem nunca tomou o conhecimento de outra vida. E apregoavam,
numa tentativa, até aqui, infrutífera de vender. Fosse o que fosse. Entre um
transeunte e outro, entre o apregoar, voltavam a insistir. A pedir também, que
lhes dessem um euro. Pode ser só um euro, diziam. E ninguém, ao passar, levanta
o rosto ou parava para os ouvir, tão pouco lhes olhavam. Mas os petizes
insistiam, sem que parassem, ou pousassem os baldes. A ladainha mantinha-se.
Quando, já junto a nós, perguntaram se queríamos comprar. Agradecemos, mas
dissemos que não. Sorrimos-lhes. Ela, como sempre, dirigiu-se-lhes, tornou a
agradecer e com a sensibilidade de sempre, voltou-lhes algumas palavras. E eles
sorriram, ao mesmo tempo que quase paralisaram a olhar-lhe. Obrigado, menina.
Disseram-lhe os três. E seguiram caminho. De baldes nas mãos. Voltando a
arrematar pregão. Nós, igualmente, seguimos caminho, enquanto pensávamos o
mesmo. Preferimos não falar. Novamente, colocámos os óculos de sol. Estamos em
Portugal. Que aperto pensar. Que aperto é observar.
2.5.14
A classe de ser quem é.
Domingo
próximo é dia da mãe. Até lá, por razões várias, faltar-me-á espaço para parar
e pousar por aqui. Por estes dias, porque o sol e a moda assim o ditam, os
óculos de sol da minha mãe, de matriz vintage,
são uma das suas imagens de marca. São elegantes, tolerantes, mas atrevidos, ao
jeito de uma qualquer diva de cinema e pejados de identidade. Assemelham-se à
sua gargalhada fácil. À forma despretensiosa de viver o que lhe apetece e como
lhe serve de interesse. Contudo, é infinitamente dotada dos seus predicados.
Sabe gerir e gesticular opiniões. Perde-se quando a emoção toma de amarras a
razão. Não tem vocação para males maiores ou menores, contudo, vive-los sem
entender. Mas dispõe-se naturalmente para ajudar o outro. Não precisa que lhe
justifiquem, ajuda somente. Vocação é a palavra maior quando falamos da sua
posição de mãe. Fá-lo por e com amor, requinte, convicção e vocação, não tenho qualquer
espécie de dúvidas. Hipotecou um tanto da sua experiência e oportunidades, por
amor a uma família que havia de chegar. Vive um casamento por amor. Uma
família, desde sempre, tradicional. É atrevidamente doce e impulsiva no seu
linguajar. A gargalhada é conhecida e reconhecida pelos que lhe querem bem. É,
porventura, um ou mais passos à frente, no que à educação que recebeu à época diz
respeito. Não rasgou a tradição, mas rompeu com estigmas do itinerário
feminino. É feliz em tanto. Parte desse tanto, são os três filhos. Esta manhã,
ainda cedo, convidou-me para a acompanhar numa ida às compras. Numa loja fora
dos centros comerciais, próxima da avenida, que frequenta com alguma
regularidade. Pediu-me opinião como se fosse fundamental. Anui, mas não me
canso de lhe repetir que prefiro, sempre, vê-la ao seu gosto. Sorriu-me, como de
costume. Acabou por comprar a peça que recebeu o nosso consenso. Terminamos, de
óculos de sol pousados, os dela junto aos meus, a tomar o pequeno-almoço, como
noutras sextas-feiras. Felizes como sempre. A conversa nunca esgotamos. A minha
mãe é sempre mais do que parece. Sempre! Vou, no domingo, de viva voz
desejar-lhe o melhor dos dias e que se mantenha daí em diante. Um beijo, mãe.
Até já!
23.4.14
Conformidade entre vidas.
Os
nós das mãos disputam atenção com as veias tão salientes. Pousadas, uma sobre a
outra, as mãos agarram com a fé de quem espera não perder a segurança, na
bengala. A força de se manter em pé. Castanha, de berloques trabalhados, a
bengala ajuda-o no percorrer daquele lugar. Calça umas botas grosseiras da cor
do caramelo, veste umas calças vincadas, de um verde seco. Cobre o tronco que
veste uma blusa, com uma camisa grossa, axadrezada, em jeito de casaco. Na
cabeça, o chapéu. Também castanho, mas bem mais escuro. Não sei se por aqui,
lhe chamam chapéu. Apropriei-me do meu termo. Junto ao mar, na praia de
pescadores, salvando a já pouca destreza física, mantendo-se no paredão. Mas
curva-se para ver. As pequenas embarcações por ali, o mar quieto. À volta, as
redes tão características da pesca. As caixas que carregam ou já trouxeram o
peixe. Os pescadores a falar, ouvem-se alto, enquanto mexem no peixe. No ar, as
gaivotas sobrevoam. Num executar de bailado típico de quem procura alimento. É
um quadro feliz. Daqueles em que os protagonistas vivem. Não se limitam a concordar.
17.4.14
Bisarma.
Sente-se
o pulsar do movimento novo, o burburinhar de quem se aproxima, os corpos bem
tratados e de rigorosas farpelas. Os sons dos carros que cessam ao estacionar,
logo na entrada da rua estreita. O prédio é alto, rústico e passa-nos a mão
pelo cabelo, em jeito de boas-vindas. É datado, coberto de azulejos verdes e trabalhados,
ao invés da tinta ou da cal, tão caracterísitica de algumas regiões, que se
repete pelas paredes deste país. O prédio sustenta-se, pelas diversas ocasiões.
Reinventa-se em cada evento e atrevimento. Dinamiza-se e oferece a tal mão,
logo à entrada. Por falar em entrada, assim que cheguei, antes de entrar,
soou-me um sopro. Soou-me, à distância, um saxofone. Jamais me atrevi, sequer,
tocar-lhe. Quanto mais, ousar tocá-lo. Diz quem entende, que as notas diferem
do som. Não sei, senão do que ouvi dizer. Talvez seja um disparate tremendo.
Mas, depois do átrio principal, lá estava um jovem rapaz, de ar de quem não tem
compromisso, sobre uma carpete garrida, a dar tom à cidade. A oferecer talento
à cidade numa emissão inócua. O rapaz, de pé, o saxofone a soar e o
amplificador ao lado. Super minimalista, como complexo. Assim é o espectáculo
que é ter tempo e disposição para sossegar e escutar música. Mesmo que à nossa
volta, se vista de festa e gente o salão nobre.
14.4.14
Um bando de petizes.
A
imagem condói. É doída, castigada. Sofrida. Pela rua, a direito, quando o sol
de primavera, ao fim fim da tarde, ameaça fazer mossa e convida à paragem numa
pretensiosa esplanada, quando já não
dispensamos os óculos de sol da nossa marca favorita e guardamos os afazeres
para o dia seguinte na agenda do iPhone,
surgem três rostos, novos, lá ao fundo. Três crianças num trejeito típico. Num
linguajar característico. Num tom de decibéis desconcertados. Cada uma,
carregando um balde. De forças melindradas. De ânimo exaltado a disfarçar o
peso do que carregam à obrigação de uma herança desgovernada. Os cabelos
empeçados, as roupas tingidas, os olhos remelentos e de vislumbre penetrante,
os rostos pintalgados com a cor da terra. A insensibilidade do hábito,
escorrendo-lhes rosto abaixo. As roupas tão saturadas do tempo e do vivenciar
tão quotidiano. Com isto, começaram a aproximar-se e tudo o que ficou para trás
no relato está, nesta altura, mais focado. As vozes mais próximas, os decibéis
confirmam-se carregados. O perfil desalinhado de quem nunca tomou o
conhecimento de outra vida. E apregoavam, numa tentativa, até aqui, infrutífera
de vender. Fosse o que fosse. Entre um transeunte e outro, entre o apregoar,
voltavam a insistir. A pedir também, que lhes dessem um euro. Pode ser só um
euro, diziam. E ninguém, ao passar, levanta o rosto ou parava para os ouvir,
tão pouco lhes olhavam. Mas os petizes insistiam, sem que parassem, ou
pousassem os baldes. A ladainha mantinha-se. Quando, já junto a nós,
perguntaram se queríamos comprar. Agradecemos, mas dissemos que não.
Sorrimos-lhes. Ela, como sempre, dirigiu-se-lhes, tornou a agradecer e com a sensibilidade
de sempre, voltou-lhes algumas palavras. E eles sorriram, ao mesmo tempo que
quase paralisaram a olhar-lhe. Obrigado, menina. Disseram-lhe os três. E
seguiram caminho. De baldes nas mãos. Voltando a arrematar pregão. Nós,
igualmente, seguimos caminho, enquanto pensávamos o mesmo. Preferimos não
falar. Novamente, colocámos os óculos de sol. Estamos em Portugal. Que aperto
pensar. Que aperto é observar.
26.3.14
Um a um.
Os
números dão-nos dias, ao longo de cada mês. As semanas encaminham de forma a
não perdermos a conta. O ritmo e a importância que lhes damos, mudam ao sabor
de outras contas. O número, nesses casos, volta a fazer lembrança. Mais nada. Ganham
relevância, por regra, com as pessoas que compõem o suficiente do nosso núcleo.
Juntamo-nos à esquina e seguimos rua fora. Dispara, ao primeiro toque, a
campainha que vai soando lá ao fundo, depois da escadaria principal. Escassos
minutos volvidos, a porta de entrada é aberta e somos recebidos por quem
importa. Surpresa! Foi o que nos apeteceu gritar. Na harmonia do momento e da
surpresa efectiva, acredito que nos esquecemos de gritar, ao invés de
Surpresa!, um valente Parabéns! Convidou-nos a entrar, e fizemo-lo de caixa e
bolo na mão, de sacos felizes nas cores, desenhos e palavras. Daí adiante, o resto
deste relato, foi comemoração, conversa e risos multiplicados. Os amigos são os
dias, escondendo os números em afectos. E o melhor de tudo isto é que fomos nós
que escolhemos.
25.3.14
Um beijo e um segredo.
Pode,
no desenrolar, não fazer sentido, mas a ocasião é portentosa e valiosa, qual
sorriso. No sossego, queremos saber do envolvimento que faz bem ao ânimo e que
sugere a pausa obrigatória. O telemóvel toca, agora não sabemos se é uma
chamada perdida, uma mensagem pendente, uma fotografia do cão na praia ou de sushi a chegar ao Instagram ou uma novidade, mascarada de likes, marcações em fotografias ou convites sem voz, numa qualquer outra
rede social. Adiamos, por força da procrastinação. Porque, a dada altura, não
interessa assim tanto. Mas, porque eles insistem, rendemo-nos à evidência da
curiosidade, e vamos ver. Não sei bem que respostas havemos de devolver às
solicitações cruelmente repetidas. Enfim, percebo que não. Há fotografias
várias, convites sem sustento, likes
a inventarem atenção, mas a mensagem é outra. Vem de lá, do número que nos leva
para o remetente que procuramos sempre. E é tremendamente pontual, ao mesmo
tempo que está carregada de sentimento. É, inequivocamente, um sinal de
lembrança. É sedutor e pesado. Ela não sabe tudo, mas é melhor nas emoções, no
seu tratamento e na forma como as fala. Por tudo, e por muito mais, é que não
deixo de querer comer algodão doce com ela. E dizer-lho ao ouvido.
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