Acordei
cedo, sem recorrer ao despertador, ainda que o mencionado esteja sempre
disposto para qualquer eventualidade. De resto, como acontece com clara
repetição. Fi-lo na minha cama, larga o suficiente para me esticar e guardar
espaço. Com a luz subtil do televisor esguio a fingir incomodar. O telemóvel
com acumuladas mensagens. A janela bem cerrada, a cortina fina a guardá-la. Com
escassas peças de roupa adormecidas sobre uma cadeira bonita. Sob o silêncio
dos dias, da rua sempre calma, de um país que ainda dorme com a devida
quietação. Mas é uma espécie de ilusão matinal. Depois levanto-me, percorro o
mesmo silêncio, e as verdades jorram pelos ecrãs afora. O mundo corre doente,
numa patologia encriptada, mal pensada. Imagino-o num cinza e branco, mais pesado
de negro, enfiado em dois comboios compridos. Onde os caminhos não se tocam. Um
para lá, outro para cá. Repete-se este movimento sem que saia do mesmo poiso.
Com ares de boomerang, mais uma das entretenhas do Instagram. Com a pesada excepção, é que este último pesca likes e não fica imortalizado na carne,
nas vísceras ou na vida de alguém. Discute-se, a plenos pulmões, a parentalidade
da senhora das bombas. Uns gritam mãe, do outro lado explicam porque são o pai.
A seguir testam-se mísseis e lembram-se as nucleares que guardam na manga. Morrem
pessoas – seres humanos – todos os dias à mercê de uma guerra que não compram. De
uma tentativa de fuga que não vê a luz do dia. Cospem-se perniciosos discursos
sobre os nossos e os outros. E, pasmados, sabemos da existência de um campo de concentração
para homossexuais na Chechénia. Não me engano se lembrar que estamos em Abril
de dois mil e dezassete. Espantam-me os olhos fechados, as conversas desconexas
e, por vezes, odiosas, que venho assistindo por cá. O mundo gira lá longe, mas
não nos esqueçamos, jamais, que vamos embalados na carruagem que mais parece um
balancé. Que soluço este, minha gente.
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19.4.17
15.2.16
Ora, atente no busílis.
Numa
sala de espera, os ânimos vivem cabisbaixos. A senhora da recepção não condiz
com o espaço. Um andar privilegiado numa zona central. Tem um ar desligado, a
fazer lembrar um inevitável inanimado cadáver. O cabelo incomodado, revoltado
com o mundo em geral, com o vento que faz lá fora de forma bastante particular.
Os óculos grandes, pontiagudos. Negros com salpicos encarnados. As unhas aludem
ao carnaval bem carioca. E o perfume de cheiro duvidoso toma o ar de assalto. A
janela é grande, desafogada, de madeira velha. O vidro aos quadradinhos mostra
a rua. Ora acinzentada, ora pelo sol visitada. Na mesa de apoio, revistas sem
fim. Amores de uma vida, zangas e rancores. Felicidade eterna, mágoas de
ocasião. Verdades secretas, mentiras repetidas. Nas cadeiras corridas, uma
senhora de cabelos brancos lê José Luís Peixoto. Marca as páginas com uma
andorinha de cartão. Ri-se para as letras e deixa acreditar que as mesmas lhe
devolvem afecto. A seguir, uma miúda alourada, de sardas disfarçadas. De
ouvidos ocupados, o pé num desassossegado movimento ao serviço do ritmo.
Invento-lhe um intérprete, porventura, Chromatics.
Lambe os lábios e finca os dedos na perna. Logo depois, um casal. Ele é grande
e esconde os olhos com uns óculos de sol bem redondos. Ela é estrangeira e
sorri sem que o aparelho que traz nos dentes a incomode. Parecem cúmplices. As
mãos enlaçadas. Ainda, neste rol, um homem sisudo. De barba rija, anel no dedo
e o jornal desportivo no colo. Enquanto observo, divido a minha atenção entre o
ambiente da sala e o telemóvel. Faço de conta que trabalho. Afincadamente, pelo
menos. Quero-me enganar. Escrevo e torno a escrever. Recebo e dou de volta.
Invento que termino depois. Espero. De lá da porta, há-de vir, quero antecipar,
um bom conversador. Alguém que faz milagres. Daqueles terrenos e quase
palpáveis. Que dá aos outros o contrário da ilusão. Para reservar e preservar a
saúde do bem geral. Oferece ajuda. O tempo passa devagar. Continuo atento na
sala de espera. A senhora da leitura coloca a andorinha numa página ao acaso,
no lugar certo, e fecha o livro. Dá um suspiro, chegou ao final da história.
Percebendo o olhar furtivo de todos, desabafa que lhe incomodou. Foi sugestão
de uma amiga. O autor é bom, mas a história é pior. Afoito, aproveitei a
oportunidade e perguntei como era isso possível. Simpática, respondeu-me que o
autor é verdadeiro e escreve como se a conhecesse ou, simplesmente, se lhe
ouvisse o pensamento. Escreve, entre outras coisas, sobre a morte. Sobre a
vida. Ela respirou ao longo de toda a leitura mas, acima de tudo, humilhou o
compasso da mesma. Imitou uma apneia sem fundo. Faz sentido, disse-lhe eu. Não
faz outra coisa, devolveu. Não faz, posso garantir-lhe, senão bater-nos no
coração, continuou. E, se não minto, o coração quer acção e reacção. A massagem
é perfeita para isso, terminou. Ali, naquela sala ocupada, cheia de outros,
esta mulher de cabelo branco, chegou ao fim de um remédio. Bateu-se contra a
dor, a favor do amor. Morreu-lhe alguém. Não perguntei quem. Foi ali, ausente
de privacidade, que o amor voltou. O amor sobrevivente de alguém ausente. Dar
luta ao vazio para que o conteúdo volte. Mesmo que a luta viaje nas palavras
escritas. Na ficção em páginas. Na imaginação de outro. Já passam das onze.
Venha de lá, é a sua vez. Dona Helena, professora em tempos, actual
sobrevivente. Guardá-la-ei na minha mente.
20.2.14
Absurdo como aparatoso.
Se
sossegarmos o espírito, ganhamos margem e terreno. Permitimo-nos pensar,
lembrar. Recordar, de fisga lançada às memórias. Arremessando-lhes
assertivamente. Tão gráfico como doloroso, quantas vezes. Incontroláveis, as
memórias equilibram-se no âmago da intempérie. Acontecem, é certo, sem que as
convoquemos. Porque, neste mês, que há muito me habituei a ouvir que é mês
desastroso, peganhento e de maus fígados. Aceito, precisamente, por ter sido
num distante mês de Fevereiro, que me disseram que o meu avô havia partido.
Havia morrido. Primeiro, ao telefone, a dona Gracinda desfazia-se em desculpas
mil, para a demora do meu pai e para a ausência da minha mãe. O meu pai que
tardava em apanhar-me no fim de mais uma manhã de aulas. Estranhei,
inevitavelmente. Mas, em tempo algum, suspeitei. Atrasado, o meu pai chegava
com a minha mãe e a minha irmã mais velha. Aconteceu assim. O resto, de tão
íntimo e assustadoramente expectável, não merece relato. Foi, precisamente, no
mês que corre, que o meu avô morreu. Um homem de palavra e dedicação. De
família, sempre. De camisas e calças de tecido fino altamente engomadas e
vincadas. Os sapatos impecavelmente engraxados, outras vezes, brilhantes. Sem
dispensar os relógios. Um é meu para a eternidade. A postura hirta, algo elegante,
o passo certo e firme. Da cortiça que lhe guiava o trajecto profissional. A
pedreira também lhe preencheu o design
da carreira. Com intrepidez, não se limitava a gerir, arregaçava mangas quando
preciso. Um homem, um profissional. Sem artifícios. Sou suspeito, bem sei. Não
lhe herdei os olhos claros. Somente porque não tinha que ser. Ganhei-lhe outros
hábitos e feitios, quero acreditar. A morte é uma ressecção. Mantém-se a moça,
mas arranjam-se medidas compensatórias. Contrario-me, pois, lamentavelmente,
não acredito na compensação. Arranjam-se, então, medidas de salvação e continuação.
Nos meses todos que se seguem. Sem intermitência. Para sempre. Foi neste mês,
todos estes anos volvidos, que ouvi que o meu avô havia morrido. Foi neste,
podia ter sido noutro qualquer. É uma merda. É, sem metáforas, uma merda.
5.10.12
Margarida Marante tinha 53 anos
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| (Fotografia: www.noticas.sapo.pt) |
A conhecida jornalista faleceu hoje, aos 53 anos, em Lisboa, vítima de um ataque cardíaco.
É com pesar que assistimos à morte prematura de alguém. Recusamos sempre a ideia de que a morte é exímia no que à surpresa diz respeito.
Quando se fala em Margarida Marante são raros os que não conhecem e reconhecem o nome e talento da jornalista que fez nome nos mais diversos programas de entrevistas. Mulher com a palavra assente num discurso firme e fluente recebeu e entrevistou, olhos nos olhos, grandes nomes da actualidade.
Importa, também, nestas situações, recordar que:
"Todos os anos morrem cerca de 10.000 portugueses devido a ataques cardíacos, enquanto outros vinte mil sobrevivem a este evento extremamente perigoso. Até à meia-idade morrem mais homens que mulheres, mas a partir da menopausa o risco aumenta muito na mulher, o que está relacionado com a descida dos estrogéneos, a hormona feminina, que tem uma acção protectora na mulher." (Fonte: www.saude.sapo.pt)
Hoje, depois de muita ausência, todos lembram a jornalista. A jornalista Margarida Marante.
Hoje, depois de muita ausência, todos lembram a jornalista. A jornalista Margarida Marante.
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