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13.5.15

Este também é um mundo de mulheres.

As redes sociais são um atrevimento. Rasgam-se palavras amargas sobre o voyeurismo na televisão, mas há sempre quem nunca desista de bisbilhotar online o que foi feito desta ou daquele. Democratizou-se a o interesse pelo alheio. Tanto, que já quase ninguém se lembra do passado. A sério, risca essa merda toda e nunca mais voltes a fazê-lo. Terminou assim. A miúda que só precisava de umas botas amarelas, umas meias rasgadas,  mas sempre negras e um cabelo muito comprido e super liso. Andava sempre com uma mala XXL e nunca parecia contente. Nunca lhe vi um sorriso, nunca lhe ouvi a voz antes desta frase. Pintava os lábios grossos de encarnado e tinha os olhos sempre escuros. Nunca tinha companhia e arrastava-se pelos corredores. Só me lembro disto. Antes, claro, de ouvi-la pela primeira vez. Depois de vê-la indignada com aquela outra miúda, voltei a encontrá-la sempre da mesma forma, algures num ponto daquele corredor largo. Vim, mais tarde, a saber que era uma aluna de excelência. Parte dos professores tinha uma simpatia extrema por ela. Na minha opinião, com todo o mérito. Seria um ano mais velha do que eu. Por isso, desde que terminou os estudos, nunca mais a vi. Soube esta semana, através de uns amigos, que é uma jovem mulher igualmente misteriosa. Continua bonita, de lábios encarnados. Agora é profissional da área da justiça e não lhe faltam elogios. Sequer conversamos uma vez, mas fiquei contente por saber dela e do percurso profissional. A outra miúda, com quem ouvi-a gritar, parece que foi um amor de juventude. É uma fortuna ter o mundo em andamento e sangue a fluir a favor do caminho certo.

6.5.14

Em diferido. #8

Bastam-lhe sessenta segundos. Soa Jeff Buckley. A vidraça quadriculada, cortada pelo alumínio, está semicerrada. O dia a recomeçar contagem, vai e vem, já lá vão as zero horas contadas ao soarem. A varanda ao relento, forte aragem e luar pesado, corando a rua vazia, pingada de um cinzento que lembra uma película a preto e branco. Peca ou deprava, reforçando o contentor afogado, lá ao fundo. Nuvens de fumo, aos pulos tremidos, a fugir do cigarro meio, segurado entre os dedos finos da atrevidamente desajustada, desalinhada e atraente mulher. Ela repete-se nesta rotina. Debaixo da cacimba. Em trajes menores. Desnudada. Em lingerie. Porque já lhe agonia o sexo. Diz da boca para fora. Porque lhe levaram a companhia maior. A mulher fuma para matar o que a corrói. Para consumir os pulmões. Para secar as entranhas. Levaram-lhe a companhia. A companheira. Desde que as viram embarcar num trocar sentido de um beijo no vão da escada do agastado prédio. Do lugar que escolheram para refúgio. Para amar. Em segredo. Guardadas. Até ao momento final. Amar diferente mata, quando não há liberdade. À espera, esta mulher fuma. Passa, assim, o tempo morto. Morta está. Até à salvação. Até ao regresso ou ao reencontro. Ligou, desligou. Intermitente, o candeeiro de rua, ao lado, realçando as sombras. Focando a diferença. Ostentando a fragilidade. Um fazer de conta, golpeando a agonia. Um dia que volta e revolta, como o que está antes. Acabou. De costas, chorou.

4.4.14

A modista.

Aproveitou o regresso do sol. A ausência da chuva e do cinzento cerrado. Aproveitou, de manhã cedo, o regresso do sol invadindo-lhe o ateliê, montra adentro. A luz dando brilho e dinâmica às máquinas de costura. Os tecidos pendidos, ganharam cores sadias e vibrantes. Ajeitou os pormenores. Os trabalhos, uns expostos, outros guardados ou em construção. Os esboços, que lhe são do coração, tal o amor que lhes empresta, estão na mesa de trabalho, ordenados por épocas e clientes. As linhas, voltou a organizá-las no matizado que as une. A auto-estima, jamais esquecida, ajudou-lhe na escolha do figurino. De costas, reparava o teatro de que se faz a montra. De costas, repara-se, desde logo, no trio de laços. Três laços, três. De negro pano, desenhado pelas suas mãos, criado da imaginação. As costas despidas, de laços a embrulhar. A imaginação numa luta pela descoberta. Também esta jovem, que se assume modista de profissão, desafia-se, a cada dia, a descobrir-se mais e de contornos sempre diferentes. Impares. Assume-se modista. Diz, porque é feliz e viu a felicidade brotar do rosto e das mãos da avó, deformadas com o tempo. De pequena ficam-lhe as memórias e os moldes que abrem caminho para a árdua tarefa de se fazer o que se gosta. Moldei os meus planos, antes que me moldassem e atentassem. Rematou, antes da gargalhada. Antes de receber mais uma flausina. Uma cliente que guarda o melhor do termo.

7.2.14

Só para reforçar.

Quão arrepiante é ouvir o testemunho diluído em medo, terror e desespero. De quem luta a todas as horas contra a violência doméstica e a perseguição patológica. A quem vive refém, numa ginástica tremenda, de uma vida levada pé ante pé, sob pena das ameaças se tornarem em concretas experiências. De quem, trémula, coloca a hipótese de hipotecar o futuro, largando a casa, a família, a rotina, o núcleo social e o emprego. Porque do telefone chovem chamadas, calam-lhe a voz com gritos e ameaças de rapto e morte. Atentam contra ambas. A ela e à sua cria. De viva voz, de rosto colado ao dela, lhe esgrime argumentos ignorantes, delinquentes e perversos. Mesmo depois do ponto final. Mesmo depois do término da relação. Como se só ficasse frio na memória. Só para não esquecermos, jamais, de um mal social. Quão arrepiante é ver e ouvir o medo de alguém.