A
noite foi longa, quente como o verão de memória latente. Ouvi música contente,
disposta e digna do ambiente. Encostei-me na cadeira da época, profunda obra de
design, ouvi estórias e lembrei-me das ausências. Rodeado por alguns dos meus, uns
recém-chegados à verdade da amizade. Tomei bebidas frescas, recusei a
cigarrilha oferecida e não perdi a bonita vista. O calor acontece e favorece. A
noite fez-se extensa, talhada como só o verão é capaz. Não fugi, antes pelo
contrário, dos relatos entusiasmados. Nessa frenética prosa, eles foram os
medalhados. Conhecem a distância como o sustento diário da relação. Ela é
divertida, de sorriso rasgado e gesticula com bastante facilidade. Ele embarca
na animação, tem jeito de intelectual, é sóbrio e fala com a razão. Lado a lado
resultam num simpático quadro. Este ainda é um período de relações, como já
havia pensado. Início, fim e recomeço. Paulatinamente, a convivência surge. Ameaçam
ficar nesta moldura para sempre. Entre viagens felizes e quilómetros
incontáveis. Não canto uma canção italiana, não porque não soe melhor, mas para
não desdenhar o amor. Mas remeto-me ao silêncio quando o tema é o tempo e o
sentimento. Logo este, à tua espera na primeira esquina ou na manhã seguinte.
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5.9.16
16.7.15
Em diferido. #38
Tema
desenvolvido em verso. Prosa talvez - Em letras garrafais, o nome da sala onde
se pode ouvir música variada e guardada numa caixa que soa e ressoa pelo
espaço, ainda dançar e tomar umas bebidas. Onde há fumo fictício e gente a
falar de corpos colados. Pessoas bonitas fisicamente e despidas. Pessoas
despojadas de roupa e de outros predicados relevantes. No cimo daquela porta
larga, onde alguém encostado escolhe entradas, está um emaranhado de letras,
que dá o nome à casa. Naquela rua de cidade antiga, que chama sempre um valente
concurso de convivas. Chamam as letras a atenção dos reunidos. Na mesma rua, no
lado oposto, o mesmo traço arquitectónico tem varandas curtas, tem janelas de
sacada escancaradas. Tem movimento. Pé dentro, pé fora. Tem tectos desenhados.
Receberam-nos à entrada, começaram os risos e a conversa antes de subir a
escada. Divirtam-se e desfrutem, foi o mote.
22.1.15
Não é no sentido figurado.
Sugestões
de semana a meio. Diz o povo, corta o tempo e passa rápido. Jantar numa
quarta-feira, é comer os dias. Romper com a ansiedade de um fim que ainda
parece demorar. Sabedoria de um popular que finge ser menor. Seja num inverno
rigoroso, seja num verão de tanto calor. No frio, procuram-se as cores para
contrariar. No lusco-fusco da rua vazia. Dão o braço e caminham confiantes. Conta
a menina ao menino, veste a saia até ao joelho. Disfarça e parece um vestido.
Cidade antiga, não é Lisboa. É como a saia, do joelho para baixo, fosse este
país um corpo. Rua antiga, como a cidade despida. É noite carregada. Conta o
menino à menina, gosta do preto e branco. As tonalidades vincadas. Tão marcadas
que não esquecem as rugas. A expressão. Como no quadro que está naquele salão. Ou
nas pessoas que parecem o dobro, por se repetirem em cada espelho corrido. Lá
ao fundo, centrado. As janelas fazem parelha. Recebem no espaço composto.
Sugerem a mesa que ganha com o talento que está na parede. Sentados, ficam
marionetas autênticas. Aqueles braços que adivinham estar a gesticular,
enquanto comandam um fio que ninguém vê. Sem que te esforces muito, fazes uma
fotografia que conta a mesma história. Assume o papel e posiciona-te como se
fosses refém do comando. Fazemos de conta que ninguém vê. Agora! Disparou. Está
feito. Por uma vez, fingindo um boneco que se mexe à mercê de um cordel por
alguém gerido. Não é, por certo, no sentido figurado. Rimo-nos sem fim.
Ocupam-se os dias com muito mais do que responder. É diferente quando assumimos
as rédeas. Mesmo que, por um fio invisível, adestrados.
15.12.14
Conto de fadas e heróis.
A
noite e um candeeiro. A noite certeira e certa. A noite com tanto pela frente,
um candeeiro antigo de luz pisca. Um passeio ali tão perto. Ninguém acredita.
Duas pessoas, uma rua deserta. Não passa nada nem ninguém. Não se passa nada.
Nem se ouve a cantiga que convém. Agasalho quente em noite fria. Ambição
guardada em convicção moldada. Avista-se o brinquedo da noite. Um deserto de
janelas vazias. Pedaços de prédios antigos. Juram-se certezas do momento de
porta fechada. Acende a luz, janela sim, janela não. Não é ouro o que reluz. A razão
não é vista nem achada. Ninguém acredita. Senão os protagonistas da noite
desdita. São ruas vividas por heróis. Sonhes com a cabeça no travesseiro ou
ambiciones conhecer a lua que brilha como fortes faróis.
13.11.14
Na outra noite.
Cai
a noite sobre uma cidade que tem gasto as luzes com o cinza dos dias frios e
com a chuva em ritmo frenético. Os chapéus-de-chuva, tão coloridos ou desenxabidos
rua abaixo. As castanhas bailam nos assadores e largam fumo de presença. É
aviso em cada esquina. Uma, depois outra. As suficientes para chamar as
lembranças. Logo se faz noite e ela se engalana de pontos de luz cruzados. As
fachadas de cada prédio da baixa, ganham um amarelo que lhes bate no material
que os protege e, assim, reflecte. Responde ao descarrilar das vontades
concretas sem destino. É melancólico, esse amarelo tão ogre. Mas ao longe, é
desenho a ouro. Canta Carlos do Carmo o ponto luz em que acredita que a capital
se fica. E tem razão. Cai a noite sobre a bela e feminina Lisboa e as luzes em
cada janela e porta de loja dos prédios antigos fazem como se uma casa de
bonecas fossem. Nada disto é mentira e quem nos vê de fora, não esquece. Quando
falo com amigos estrangeiros, repetem a beleza e a tristeza. Portugal não larga
o fado mas em todo o tempo recebe a visita com agrado. Vai longa a noite. Mais
tarde volto a matar saudades.
15.9.14
Assento de espera.
Um
banco de jardim, numa noite destemida, pode ser a equação de um grupo.
Juntam-se pessoas, num jardim da cidade, com o propósito de esperar e trocar
prosa. Noite longa não tem preceito. Tem a alegria e a sinceridade no peito. Saiu-lhe
a sorte grande. Como que dando elasticidade à sorte. Ao lado, sugerem que a
sorte não se mede. Acontece. Ou surge, ou nunca vem. Ou constróis, ou alguém
foge com ela. Ou trabalhas como se o mundo respirasse no compasso em que te
desenvencilhas na corrida pela sorte, ou perde-la para sempre. Para um sempre
que tem elástico como a sorte. Ao lado, um indivíduo desmente. O sempre não tem
tamanho. Tem distância. Saiu-lhe a sorte grande de saber esperar. Sempre e pelo
sempre eterno.
4.9.14
Estado do espírito.
Numa
zona de tempos remexidos, pano de fundo de uma cidade que perdeu figuras, conta
a história. Lembramos desgoverno de gente, assim se fez a tentação de marcar.
Atirar. Hoje, tem outro convite. Por estes dias, volta a ser tela. De movimento
exposto nas paredes. De pessoas que regressam ao encontro de ver passar. As
idades não têm exclusividade. Os lugares não têm obrigação de coerência. Guardam,
se quisermos, a memória da ocorrência. As cabeças seguem as imagens. Começa o
espectáculo com data marcada. Dinamizam-se as noites. No entretanto, faz-se
silêncio. A rua é palco. Mesmo que a tela não seja a arquitectura datada. Ainda
que, mesmo por ela passando, não se lhe perceba a desenvoltura e dedicação. Se
possível, é voltar atrás e ver de novo.
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7.7.14
Tema desenvolvido em verso. Prosa, talvez.
Em
letras garrafais, o nome da sala onde se pode ouvir música variada e guardada
numa caixa que soa e ressoa pelo espaço, ainda dançar e tomar umas bebidas.
Onde há fumo fictício e gente a falar de corpos colados. Pessoas bonitas fisicamente
e despidas. Pessoas despojadas de roupa e de outros predicados relevantes. No
cimo daquela porta larga, onde alguém encostado escolhe entradas, está um
emaranhado de letras, que dá o nome à casa. Naquela rua de cidade antiga, que
chama sempre um valente concurso de convivas. Chamam as letras a atenção dos
reunidos. Na mesma rua, no lado oposto, o mesmo traço arquitectónico tem
varandas curtas, tem janelas de sacada escancaradas. Tem movimento. Pé dentro,
pé fora. Tem tectos desenhados. Receberam-nos à entrada, começaram os risos e a
conversa antes de subir a escada. Divirtam-se e desfrutem, foi o mote.
22.8.13
À esquina.
Juntos,
havíamos estado sentados. Todos. Na mesma mesa, na mesma esplanada. Exactamente
na mesma mesa, no mesmo lugar que, ao meio dia, estivemos. Conversamos. Sobre
tudo, sobre nada. Éramos quatro. A minha vida. A tua vida. A vida dele. A vida
dela. As nossas vidas. Cruzam-se, felizmente, tantas vezes. A propósito, há que
combinar o jantar de sábado, lembrou alguém. Recusamos, uma vez mais, não
aceitar. Vamos jantar com aquela pessoa. A vontade, a prazo, desvanece. Mas
vamos. Vamos porque sim. Porque faz sentido. A noite, embora quente, já vai
longa. Nem todos repousam em férias. Na manhã seguinte, bem cedo, há trabalho.
Vamos embora. Para trás, a esplanada que nos recebeu. Mais à frente, a esquina,
a de sempre. É rotina. Parados, esquecemos o avançado da hora. Carros. Cores.
Elas e Eles. Foram os temas. Entre outros, com certeza. Aqui, à esquina, somos
amigos e felizes. Aqui, porque calhou. Somos conversas e amizade. Até amanhã,
dissemos em uníssono.
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