Não
se pede silêncio. Apagam-se as luzes. Fica o passado ali, o presente a crescer.
O futuro que há-de vir, a certeza que se nega. Bate o pé sobre a carpete de
desenhos pequenos. A particularidade aos seus pés. As galochas que não escondem
a marca da moda. Bate o pé, espera a afinação. Bate o pé, começa o som atrás de
si. Bate uma e outra vez. O pé calçado, não tem descanso. A perna balança. Os
ombros dançam simpáticos. A um ritmo nada monótono. Soam, atrás, os acordes
esperados. Senta-se, enquanto a saia junta as pernas. Sabe que dali só o
melhor. Canta com as palavras certas, a goela solta. Pega no microfone com a
cara de quem sente. Sente a canção, ri de olhos fechados. Franze o olhar.
Semeia o ambiente ideal. Os ombros não mentem, vão para lá, voltam para cá. Os
cabelos livres acompanham. Levanta-se, salta levemente. Canta sem impaciência. Repete
esta fisicalidade com outras notas, só devemos agradecer. No instante, nada
falta. A jovem mulher que canta como senhora de outros tempos. Que calça como
menina de brincadeira à chuva. Que sente a canção que é da gente, como se
tivesse nascido numa espécie de rua assim. Perde-se a sombra, voltam as luzes.
Com a certeza de que, por aqui ficaremos, até à próxima contemplação.
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18.11.15
7.5.15
Ficar por aqui, olhar e voltar.
Aquela
rua é vertiginosa. Tem casas de um lado e outras tantas do lado oposto. Tem
carros parados num sentido. Muitos e variados, para todos os gostos e
carteiras. Não é larga, mas engana. Parece que tudo encaixa na perfeição. É uma
rua onde quase não se vêem pessoas. No cimo da mesma, em que as vertigens são
ameaçadas, a vista não tem explicação, sequer justificação. Sobrevivem as cores
garridas, o azul lá ao fundo. Antes de a conhecer, parecia-me impossível que
daquele lugar saíssem tantos tons e tão vivos. Estes são salpicados pelas
pingas brancas. Roupa a bailar, o sol a bater. Debaixo do braço uma revista
americana, emprestada por quem entende do assunto. Lá dentro, fotografias
bonitas, artigos de actualidade, sugestões do que chamam ser moda e o resto do
mundo que eu não entendo. Resume-se à básica questão, tão inocente, ou gosto ou
não gosto. Muito daquilo que vi, pareceu-me bem. Gosto da palavra singela. E a
moda também é isso. Numa estação afunilam-se as tendências e nesse caminho
estreito colocam-se as cores possíveis. Num dia é fogo, noutro é água. Quase no
final da rua, ainda a revista debaixo do braço, os mesmos carros ficaram para
trás, as roupas no estendal. Mais próximo do rio, contudo, perdeu-se a vista
maravilhosa. Toca o telemóvel e do outro lado dizem-me que já está, já
terminou. Suspiro. Vou ter de subir.
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