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23.10.14

Nomes ao vento.

A vida, se não induzida pelo espicaçar de gostar de observar, não foge da rotina. De fotografar o ambiente que tem raça. A fotografia que não vai de encontro com a comodidade de viver naquele número, naquela porta e rua concretas. Desviar um segundo da monotonia, conhecer o passeio de outras bandas. As costas quase nuas daquele corpo sobem e descem a rua com o prazer de quem escolheu na noite anterior. A farpela, o trajecto repetido, a ausência de vergonha, a vontade de ser e permanecer como é. Não é rapariga de evitar, temendo que nunca resulte. Que fuja do certo. Faz a cara da moda, mudou as pontas do cabelo longo. É discreta na conversa. Não quer saber de vós. De nós, se mesmo visita, me juntar ao camarote. Não chama a atenção para o relato da vida que nunca será igual, como o trajecto que volta e repete. Do chão nasce o seu estilo que tem ginga. As costas um tanto despidas daquele corpo descem e sobem a rua. Parece-me, do que nos deixa ver, com a verdade e consolo de quem jamais se importa com os ruídos das muitas vozes que se juntam à esquina. É, também disto, que se fazem os lugares típicos. Tão castiços. O bairro ali tão perto. Não lhe conheço o nome. Todavia, quem me acompanhava chamou-lhe Carmo.

5.5.14

Sem alteração inesperada.

Não é novidade. Acredito nas viagens que fazemos com as marcas da alma, conduzidos por uma qualquer criatividade quente e palpitante no desejo de nunca escassear e pelo convite de um indutor simples. Gosto de livros. Gosto bastante de livros. Gosto, talvez numa luta de proximidade, de ver para lá do instinto. De observar e olhar o que se faz à minha volta. Aprecio reparar na arquitectura particular, de tomar atenção nas construções banais ou de ficar a recordar dos prédios em desfeito abandono. Uma parte dos meus amigos, não negam, gostam de parar para ver passar. Não sei se é opinião de muitos. Mas, a nós, faz-nos felizes. Sossegar e relatar, em silêncio, as palavras que criamos em resposta às imagens sucessivas. Nunca pára. Há de modo infindável, movimento. As pessoas que passam, a quem lhes desenhamos traços de personalidade. As janelas que escondem vidas. Tudo. No entanto, volto sempre aos livros. Gabo sempre as bibliotecas. Tenho-me distanciado, por negligência. Volto às palavras escritas, quietas. Daquelas que dá para partilhar vezes sem conta. Não ficam, somente, em nós. Devemos sempre regressar-lhes e partilhar. Uma das imagens que guardo junta o livro, as pessoas e a pausa para ver. O cenário é limpo. Claro nos tons, requintado na decoração. Duas poltronas e escolhemos o sofá do lado, que nos recebe bem mais juntos. Segurando o livro, segredávamos a história. A experiência de partilhar um livro. Não é novidade que junta pessoas.