Um
almoço descapotável e um tubarão no presente de Natal - Dezembro que vem a
descobrir. Vem o inverno e o natal, sem defeito, em omnipresença. Ainda se
vestem os fatos domingueiros, os sapatos engraxados. Escolhem-se as maneiras de
estar fora de casa, não retribuem gentilezas, são feitos de votos de boas
festas. Hoje tive um almoço descapotável, avançou o petiz de palavras
desenvoltas, discurso harmonioso e buliçoso. Enquanto as mãos se ocupavam com o
camião do hipermercado, a máquina retroescavadora, o formula 1 e o carro
familiar. Definiu-os assim. Bem posso assegurar que não falhou. Nada, nem uma
letra da definição imaculada. Alguns, sofridos pela insegurança das mãos que
não procuram sossego. Escolhem a amizade dos actos que apaixonam com a proximidade
da infância que assim já chega. Saltos em altura, em comprimento e o perto que
nunca é chegado na pressa do entendimento. As mãos pequeninas, proporcionais.
Bichos-carpinteiros que não dão tréguas. Brinca, sentado à beira, sem convite.
Troca as pequenas réplicas de saltos em saltos. Boas intenções, aptas piruetas.
Malabarismo que transforma. É a mesa uma gigante pista, como escreveu num
pedido ao pai natal. Logo, sem esperar, avançou a pergunta necessária. – E tu,
já escreveste? – Não, pensei. E não escrevi. Diz que menti. No natal e na
cabeça saudável do petiz da brincadeira não há consoada sem natal e vontade na
carta guardada. Farta mesa e presente na lareira. Frio lá fora, noite acordada.
Sem saber, uma refeição não será, fora da imaginação, descapotável. Por seu
turno, sê-lo-á, assim entenda. Como o carro ligeiro que salta, alegre e
velozmente, sobre o camião que transporta as couves, o arroz e o atum. Petiz em
véspera de natal deliciou-se com uma saborosa e descapotável refeição. No
final, depois de nos despedirmos, chamou-me e saltando na minha direcção,
disse-me que era um coelho. – Posso ser um coelho no natal, não posso? –
Sempre. O ano inteiro. Voltou para a mãe gritando que era um coelho. Como tanto
do que rabisco com palavras, é tão real. Supera, aceito, a imaginação. Petiz
porreiro. Espero que pai natal não se esqueça da pista de corrida gigante com
uma boca de tubarão, igualmente enorme. Por graça, natal houve em que me
apareceu uma portentosa pista na lareira. Natal é ser coelho e gritá-lo sem
medo. Ah, e já agora, já sabe escrever o nome todo. Petiz valente. Natal com
presente.
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9.12.15
22.12.14
Um almoço descapotável e um tubarão no presente de natal.
Dezembro
que vem a descobrir. Vem o inverno e o natal, sem defeito, em omnipresença.
Ainda se vestem os fatos domingueiros, os sapatos engraxados. Escolhem-se as
maneiras de estar fora de casa, não retribuem gentilezas, são feitos de votos
de boas festas. Hoje tive um almoço descapotável, avançou o petiz de palavras
desenvoltas, discurso harmonioso e buliçoso. Enquanto as mãos se ocupavam com o
camião do hipermercado, a máquina retroescavadora, o formula 1 e o carro
familiar. Definiu-os assim. Bem posso assegurar que não falhou. Nada, nem uma
letra da definição imaculada. Alguns, sofridos pela insegurança das mãos que
não procuram sossego. Escolhem a amizade dos actos que apaixonam com a
proximidade da infância que assim já chega. Saltos em altura, em comprimento e
o perto que nunca é chegado na pressa do entendimento. As mãos pequeninas,
proporcionais. Bichos-carpinteiros que não dão tréguas. Brinca, sentado à
beira, sem convite. Troca as pequenas réplicas de saltos em saltos. Boas
intenções, aptas piruetas. Malabarismo que transforma. É a mesa uma gigante
pista, como escreveu num pedido ao pai natal. Logo, sem esperar, avançou a
pergunta necessária. – E tu, já escreveste? – Não, pensei. E não escrevi. Diz
que menti. No natal e na cabeça saudável do petiz da brincadeira não há
consoada sem natal e vontade na carta guardada. Farta mesa e presente na
lareira. Frio lá fora, noite acordada. Sem saber, uma refeição não será, fora
da imaginação, descapotável. Por seu turno, sê-lo-á, assim entenda. Como o
carro ligeiro que salta, alegre e velozmente, sobre o camião que transporta as couves, o arroz e o
atum. Petiz em véspera de natal deliciou-se com uma saborosa e descapotável
refeição. No final, depois de nos despedirmos, chamou-me e saltando na minha
direcção, disse-me que era um coelho. – Posso ser um coelho no natal, não
posso? – Sempre. O ano inteiro. Voltou para a mãe gritando que era um coelho.
Como tanto do que rabisco com palavras, é tão real. Supera, aceito, a
imaginação. Petiz porreiro. Espero que pai natal não se esqueça da pista de
corrida gigante com uma boca de tubarão, igualmente enorme. Por graça, natal
houve em que me apareceu uma portentosa pista na lareira. Natal é ser coelho e
gritá-lo sem medo. Ah, e já agora, já sabe escrever o nome todo. Petiz valente.
Natal com presente.
11.9.14
Glosar enquanto toma um vinho.
Desliguei
a pretensão deste acto se tornar num mote. Pelo menos, vistoso, válido e
pertinente. Mesmo com o ambiente certo à volta. As paredes seguram molduras
para não esquecer. As paredes têm um tom gasto, propositado. O matizado de dois
tons. A moda evoluiu, a decoração de tantos espaços mantém-se fiel. Ao
proprietário, à sala, aos clientes que o procuram e, inevitavelmente, voltam.
Tenho para mim, que à essência. A madeira que sobe desde o rodapé até à medida
certa. As toalhas de ponto trabalhoso sobre a mesa. O vinho tinto que chega
como deve ser pegado. O requinte e a malvadez dão as mãos. Pernicioso, este
atentado que é a vontade de escolher sem conhecer. Perde-se o desenvolvimento,
pelo mote mal interpretado. Surpresa. Pode servir.
20.8.14
Sensibilidade no lugar certo.
O
fundo é tão verão como um fim de tarde ventoso, uma maré agitada ao fundo, o
sol a espreitar e a espalhar pequenos espelhos pela água, o casario pintado de
cores vivas e diferentes. Aquela gargalhada, se quisermos uma valente risada,
enquanto as duas mãos se juntam e esboçam, tanto quanto lhe é possível, um
coração. A maldade do tempo é que, se procrastinarmos, ele fia-se no nosso
balanço desassossegado e ajuda-nos a perder vontades. Ela nunca percebeu a
necessidade de devolver às mãos, um coração. Seja amostra do carinho e tentação
palpitante do seu coração, seja a pretensão de que o de alguém, ali ou
distante, lhe pouse, vaidoso, entre os dedos. A risada era tão sonora e descia
pelo corpo que respondia com movimentos que mostram incapacidade de resistir.
Desmanchou-se, sem remédio, o coração inventado. Lamentava-se, entre risos e o
desajusto do corpo, nunca ter feito uma fotografia com o coração nas mãos.
Cruzou os braços e posou, desencontradas, as mãos. Uma em cada ombro. Já está.
Uma fotografia. Um coração no lugar certo. Vai continuar, felizmente, sem viver
com o objecto do afecto nas mãos.
7.7.14
Tema desenvolvido em verso. Prosa, talvez.
Em
letras garrafais, o nome da sala onde se pode ouvir música variada e guardada
numa caixa que soa e ressoa pelo espaço, ainda dançar e tomar umas bebidas.
Onde há fumo fictício e gente a falar de corpos colados. Pessoas bonitas fisicamente
e despidas. Pessoas despojadas de roupa e de outros predicados relevantes. No
cimo daquela porta larga, onde alguém encostado escolhe entradas, está um
emaranhado de letras, que dá o nome à casa. Naquela rua de cidade antiga, que
chama sempre um valente concurso de convivas. Chamam as letras a atenção dos
reunidos. Na mesma rua, no lado oposto, o mesmo traço arquitectónico tem
varandas curtas, tem janelas de sacada escancaradas. Tem movimento. Pé dentro,
pé fora. Tem tectos desenhados. Receberam-nos à entrada, começaram os risos e a
conversa antes de subir a escada. Divirtam-se e desfrutem, foi o mote.
19.6.14
Um triz de encontro.
Não
é fácil juntar pessoas numa mesa. Fingir que se conhecem, quando nunca se haviam
visto. Talvez, numa ou outra ocasião, tivessem oportunidade de ouvir o nome,
ler umas palavras sobre ou da autoria dos convivas inesperados. Nunca mais do
que isso. Mas a curiosidade matou o gato. E, em podendo, ninguém fica
indiferente à possibilidade de dividir uma qualquer refeição abstracta, num
prato de loiça fina, desenhado e pensado com o máximo e pertinente primor, com
um bom vinho nacional. Mesmo que a cumplicidade seja a única desistente da
reunião à mesa. Degustam o menu enquanto, todos eloquentes, vociferam palavras
ordenadas pela vantagem de ter um vasto – coerente ou não – currículo. No final,
se os recebêssemos à saída, dir-nos-iam que foi bastante agradável, produtivo.
Mas não sabem nada de quem os ladeou. Gabo a ginástica de forçar o ajuntamento
de pessoas. Seja à mesa, seja na cúpula de uma sociedade.
17.4.14
Bisarma.
Sente-se
o pulsar do movimento novo, o burburinhar de quem se aproxima, os corpos bem
tratados e de rigorosas farpelas. Os sons dos carros que cessam ao estacionar,
logo na entrada da rua estreita. O prédio é alto, rústico e passa-nos a mão
pelo cabelo, em jeito de boas-vindas. É datado, coberto de azulejos verdes e trabalhados,
ao invés da tinta ou da cal, tão caracterísitica de algumas regiões, que se
repete pelas paredes deste país. O prédio sustenta-se, pelas diversas ocasiões.
Reinventa-se em cada evento e atrevimento. Dinamiza-se e oferece a tal mão,
logo à entrada. Por falar em entrada, assim que cheguei, antes de entrar,
soou-me um sopro. Soou-me, à distância, um saxofone. Jamais me atrevi, sequer,
tocar-lhe. Quanto mais, ousar tocá-lo. Diz quem entende, que as notas diferem
do som. Não sei, senão do que ouvi dizer. Talvez seja um disparate tremendo.
Mas, depois do átrio principal, lá estava um jovem rapaz, de ar de quem não tem
compromisso, sobre uma carpete garrida, a dar tom à cidade. A oferecer talento
à cidade numa emissão inócua. O rapaz, de pé, o saxofone a soar e o
amplificador ao lado. Super minimalista, como complexo. Assim é o espectáculo
que é ter tempo e disposição para sossegar e escutar música. Mesmo que à nossa
volta, se vista de festa e gente o salão nobre.
6.1.14
A esperar-te autor.
Chamou-me
de poeta, assim saciou a vontade, instantes depois de me ler. Comentou a minha
criatividade e a coordenação que encontrou nos meus versos. A mensagem que lhe
fiz chegar, tão banal quanto desmedidamente poderosa. Não sabe, ninguém sabe,
nem lhes cabe em obrigação. Não sabem que fujo da poesia, porque a verdade é
triste. Bater no fraco é vulgar, é oposto gritante do bonacheirão. Fujo, dizia
eu, do poema. Dos poemas a criar, dos poemas a nascer. Por medo do que é
monumental. Não me atrevo. Não me reconheço no arriscar poemas escrever.
Esqueçam, não faço senão ler poesia de autor. Dos que abrem espaço à
organização das regras, mesmo que as matem. Poesia também é isso. Explico que
não tenho poemas. Mas não tenho por medo. Tive-lhos, em tempos. Perderam,
contudo, a função. Pedi a mim que parasse de escrever, focando-me, justamente,
no escutar. Apenas escutar. Apenas assim. Até, quem sabe, aprenda como e com
quem nasceu poeta. Mas há-de vir, porventura, um dia a lembrança. Mesmo triste
que seja. Poesia não escolhe. A poesia, no lugar certo, grita por alguém. Para
alguém.
9.12.13
Flagrante destino.
Por
fim, vesti o blazer. Um dos vários. Estava pronto. Concluiu o resto. Pois já
tinha o meu relógio preferido, no pulso de eleição. Os sapatos de uma afamada
marca de qualidade nacional. Um homem não pode perder-se de amores. Fiquemo-nos
pelo não deve, para sermos mais realistas. Ainda assim, enamorado que esteja,
não pode, jamais, descurar os sapatos e o relógio. No pulso esquerdo ou
direito. Satisfaça a vontade e o à-vontade. Porventura, tome atenção ao corte
do blazer, perfeito, privilegiando o perfil e a silhueta. Menores acessórios,
pensarão os somíticos. Os sábios familiares chamam-lhes de elegantes e
requintados conteúdos.
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