Liberdade
de recusar a alforria - Vem do resto do mundo. Grafismo nas palavras. Mas nem
sempre confiável. Porque o molde alheio não quer saber da tua individualidade.
Não quer saber, ponto. Aniquila a franqueza de teres como condição, o direito
de sentires tudo conforme te pareça real e realmente sincero. Em todos os
casos, todos sempre tão específicos é um primor fundamental. Não quer mesmo
saber disso. O resto é conversa. Conversa da fraca. Quem tem medo compra um
cão. Quem não tem importância para recusar o medo, escolhe como desenho da conversa
e dos actos realizados, comprar um cão. Porque nas revistas da especialidade
está em letras garrafais e em fotografias de passerelle, porque a amiga que escreve sobre tendências lhe contou
enquanto tomavam um café, porque o amigo a quem lhe gabam frequentemente a
farpela, vestia o padrão num desses dias, porque nas lojas estão por todo o
lado. Tanto lhe dizem que está na moda, que escolheu as pintas. Escolheu, bem
sabemos, um Dálmata. Agora, passeia-se de tendências por uma trela. De manhã, à
tarde e à noite. Parece tão fácil. Banal como nunca ter trabalho e rigor. Seja
interior, seja exterior.
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14.8.14
17.7.14
Míngua de opções.
Sob
um calor que pesa, numa esplanada de pessoas a conviver. Aquele top de cor
atraente e envolvente como uma chama bamboleante, naquele corpo que tem na pele
a cor do bronze, chama a atenção. Ambos, o top, logo de seguida, o corpo. Entre
nós, não há fumadores. A tempo inteiro, por ora. Pede-lhe um cigarro, apenas
porque quer saber os seus hábitos e ouvir a sua voz sem que, por qualquer
instante, ceda à fraqueza de lhe perguntar o que lhe interessa. Mudam as
regras, neste jogo de fogo e água. Deste jogo do apanha e foge. Do chega e segue.
Aumenta o som e a desenvoltura com que tantos de nós, deliberadamente, expõem a
sua íntimidade. Na forma descompensada como muitos de nós se entrega sem que
lhes perguntem. No jeito fácil e frágil em que se tornou a exposição do que nos
deve ser mais intrínseco e profundo. Neste vício de criar relações. Um espécie
de paródia mal sucessida, que envergonha a obra que está a ser imitada.
Esqueçemo-nos do tempo de falar. Esqueçemo-nos da palavra. Inventam-se e
compõem-se subterfúgios para chegar mais perto e mais depressa. Mudam-se os
tempos, mudam-se as verdades. E esquecemo-nos das reais raridades. Fugiu-nos a
discrição, chegou-nos a copiosa exposição.
3.7.14
O objecto perdido.
Fim
do dia. Sou visita. Gente a chegar e estacionar. Outros a partir. Na rua que não tem saída.
Os portões são os números. Os jardins que espreitam ensaiam nas mentes
distraídas um paraíso. Quebra-se o silêncio e soa um clamor sem fim. Foi levada
em braços um tanto de vezes. Desgrenhada e de voz gritada. A roupa denunciava
desleixo de quem havia de ser surpreendida na cama de quem pagou. Naquele
bairro não é típico esse rancho aglomerado de desavindos actos. Tanto quanto sei.
Preferem calar os desgostos, mantê-los da porta para dentro. Não se amarrota o
tecido, não se desvia a gravata, não se ousa pensar, sequer, em tocar nas jóias
penduradas num corpo que desliga, por não ser próprio. O outro corpo, carregado
como um animal de caça, praticamente desnudado foi a excepção. Pendurada nos
braços de quem a chamou. A magreza num todo mistifório. Berros de quem foi, uma
vez mais, posta à margem. Naquele bairro, tanto quanto conheço, não se expõe.
Compõe-se. A bronca é transversal. Lamento a desumanização autónoma ou
induzida. Lastimo a carência de quem deixou o corpo e a alma por mãos alheias.
2.7.14
Em diferido. #12
Veleidade
carente - Aquela roda gigante era um presente em concreto. Uma volta, depois
outra, a seguir a essa, outra e mais outra. Outras tantas se seguiriam. Só na
imaginação. Vivê-la-ias a velocidades distantes, dispares, tão desiguais. A
idade era o patamar. O resto era dado pelo arranque sonoro do motor. No
discurso alheio, era essa a conversa, aquela roda era o quão funcional se
torna, a dado compasso, um percurso. Meio desavisado, entras na roda gigante e,
daí em diante, não mais comandas. És engrenado no sustento da volta inventada.
Restar-te-á a escolha ilusória. Ou desfrutas e não ousas, sequer, pensar no
segundo seguinte ou passas a primeira, segunda, terceira e todas as voltas que
se sigam, num pranto sem fim. Aquela roda gigante, maior do que todas as outras
rodas, era um presente. Daqueles que te compram mas não pensam em ti, julgam-te
pelo comprador. Depois de entrares, atreve-te, nem que por um instante,
reclamar. E vais entender. Cai-te o céu azul em cima. O mesmo que serve de pano
de fundo às voltas. Porque, no momento em que te dão sinal verde para um visto
sem fim previsível, não te podes queixar. Do queixume não reza o entretenimento.
Que não te passe pela moleira cogitar qualquer fim antecipado. Por seu turno,
podes recusar tudo o que está para trás e seres apenas. Mandas parar, desces e
procuras uma fortuna diferente. Não te esqueças, é claro, de agradecer. E
pagar, que é o mais importante. Há sempre quem viva preso à quimera que sempre
fora a sua própria roda.
24.6.14
Contas de um corpo desenhado.
A
matemática é o absurdo de uns, a paixão de tantos, o desgosto de um sem fim de
progenitores, a máxima descoberta de alguns, o desaire de uns quantos. Mas, o
que não se ousaria supor, é que a matemática pudesse, em algum momento,
intervir na decisão de desenhar num corpo despido. A barba desgrenhada, tal o
seu comprimento, as calças de ganga largas da marca que todos conhecemos, os
ténis imponentes que chamam para si todos os olhares, o pólo que ganha logótipo
no lugar do coração, os óculos graduados grandes e estilosos, oferecem aos
disponíveis de definir com a antecipação de conceitos vagos e memorizados, que
o rapaz é um noctívago, deambulante por tentações desmedidas e piedosas.
Lamento, não é. Preferiu, se escolho bem a palavra, manter-se fiel às
convicções que só a ele lhes competem respeito, em detrimento de um lugar na
norma de uma sociedade de obrigações proporcionais à idade de um indivíduo. Escolheu,
algures na matemática que não tem fim, um motivo para tatuar. Um motor que
impulsionou e um conjunto de linhas com sentido que, por fim, desenhou.
2.6.14
Veleidade carente.
Aquela
roda gigante era um presente em concreto. Uma volta, depois outra, a seguir a
essa, outra e mais outra. Outras tantas se seguiriam. Só na imaginação. Vivê-la-ias
a velocidades distantes, dispares, tão desiguais. A idade era o patamar. O
resto era dado pelo arranque sonoro do motor. No discurso alheio, era essa a
conversa, aquela roda era o quão funcional se torna, a dado compasso, um
percurso. Meio desavisado, entras na roda gigante e, daí em diante, não mais
comandas. És engrenado no sustento da volta inventada. Restar-te-á a escolha
ilusória. Ou desfrutas e não ousas, sequer, pensar no segundo seguinte ou
passas a primeira, segunda, terceira e todas as voltas que se sigam, num pranto
sem fim. Aquela roda gigante, maior do que todas as outras rodas, era um
presente. Daqueles que te compram mas não pensam em ti, julgam-te pelo
comprador. Depois de entrares, atreve-te, nem que por um instante, reclamar. E
vais entender. Cai-te o céu azul em cima. O mesmo que serve de pano de fundo às
voltas. Porque, no momento em que te dão sinal verde para um visto sem fim
previsível, não te podes queixar. Do queixume não reza o entretenimento. Que
não te passe pela moleira cogitar qualquer fim antecipado. Por seu turno, podes
recusar tudo o que está para trás e seres apenas. Mandas parar, desces e
procuras uma fortuna diferente. Não te esqueças, é claro, de agradecer. E pagar,
que é o mais importante. Há sempre quem viva preso à quimera que sempre fora a sua
própria roda.
28.4.14
Liberdade de recusar a alforria.
Vem
do resto do mundo. Grafismo nas palavras. Mas nem sempre confiável. Porque o
molde alheio não quer saber da tua individualidade. Não quer saber, ponto.
Aniquila a franqueza de teres como condição, o direito de sentires tudo conforme
te pareça real e realmente sincero. Em todos os casos, todos sempre tão específicos
é um primor fundamental. Não quer mesmo saber disso. O resto é conversa.
Conversa da fraca. Quem tem medo compra um cão. Quem não tem importância para
recusar o medo, escolhe como desenho da conversa e dos actos realizados,
comprar um cão. Porque nas revistas da especialidade está em letras garrafais e
em fotografias de passerelle, porque
a amiga que escreve sobre tendências lhe contou enquanto tomavam um café,
porque o amigo a quem lhe gabam frequentemente a farpela, vestia o padrão num
desses dias, porque nas lojas estão por todo o lado. Tanto lhe dizem que está
na moda, que escolheu as pintas. Escolheu, bem sabemos, um Dálmata. Agora,
passeia-se de tendências por uma trela. De manhã, à tarde e à noite. Parece tão
fácil. Banal como nunca ter trabalho e rigor. Seja interior, seja exterior.
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