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13.2.17

Ventilar numa segunda-feira qualquer.

Aventar impugnar sobre política é insano. Tão utópico, quanto estimulante. Por força desta incoerência, um destino que não guarda facilidade no trato e na reacção. Mesmo que reduzas o debate à tua sala de estar, ao café de sempre ou ao restaurante que te faz voltar. Ainda que o teu interlocutor seja alguém com quem privas amiúde, a quem ofereces tempo sem peso, por quem nutres fortes e inesgotáveis sentimentos. Noutra escala, muda o terreno, a bancada de espectadores e, se não te perderes, a cabal convicção das palavras. À frente, outros fazedores de opinião - de quem desconheces a rotina, a herança dos afectos, as escolhas que fazem fora deste ambiente - capazes de zelar pelo que acreditam com todas as armas. Se, ao invés de um deles, estiveres na assistência, vais conhecendo vocabulário que se repete, discussões antigas, confrontos que não acrescentam e, lamentavelmente, não poucas vezes, o afastamento do essencial, da troca que importa. Aventar impugnar sobre política é ímprobo, mas tão fundamental. Num mundo vestido às avessas, destemido na discrepância de valores, fraco na condução das potências e desigual como jamais quisemos. Isto lembra-me alguém. Uma mulher tão politizada quanto humana, que não se coíbe de apelidar a política, generalizando, obviamente, como reduto de uma sociedade derribada. Levanto questões, mas não deixo de ter um prazer imenso em ouvi-la. Vê-la de pernas justapostas, mãos incapazes de sossegar e de discurso bonito na ponta da língua. Assim parece fácil. Assim sou capaz de acreditar.

22.6.16

Lugarejo com raça e no coração o ensejo.

Os lugares pequenos guardam um género capaz e característico, um jeito meio mimoso de estar, de pensar, de receber, até de olhar. É encantador, quase literário. Voltar é ver o tempo a acontecer. É ter sossego no poial da porta de entrada, é pousar os braços no mármore da janela adornada pela cortina costurada pelas mãos. É ter no postigo um compromisso, no vizinho um lance de prosa e no petiz a esperança. Ouvem-se os pássaros a passar por nós, a irromper pelas árvores, soando as folhas a bailar. A mercearia não tem outro nome, senão este. É a única venda do lugar e à semelhança da tasca de azulejos sem fim, o ponto de encontro. Entre o pacote de arroz carolino, o garrafão de vinho e o detergente em pó, as novidades ganham caminho, de boca em boca. O senhor do chapéu axadrezado já leva a vida dos outros na ponta da língua, conta à senhora da bengala e da saia digna de fato domingueiro. A dona Gertrudes, de bata a cobrir as vestes, leva um cesto de fruta e canta, sem preciso pedir, uma modinha das antigas. No poste, logo à esquina, fica o cão da netinha, fugindo da calma, vivendo a sombra. Passa fazendo-se notar, a motinha do outro senhor. Larga fumo e barulho para os que ficam. O capacete mínimo mas no tom da máquina de duas rodas que o carrega. Logo adiante, um fogareiro mesmo à porta, sardinhas e carapaus a assar, o lume a passar, a mão a abanar o leque e a desesperar. Os carros, mesmo poucos, alinham-se pela rua, tão certinhos. Se acontece reconhecerem o rosto da visita, perguntam pela vida, pelo amor e pela carreira, tudo de forma genuína. Não se esquecem de pedir a idade para, num soluço, apresentarem o espanto. As pequenas povoações carecem, e não é displicente lembrar, de suportes. A desertificação oferece novos tempos a uns e esquecimento a outros, aos que ficam. Nestes lugares, mais isolados, pequenos e pouco povoados, vive gente. A mesma gente que, assim como, os lugares, tem traços pejados de raça, de conversas cheias, que nem a rasa ou nenhuma literacia lhes rouba. São gente humilde, de rotinas repetidamente felizes. Tão encantador, mesmo literário. Acenam no momento da partida, pedem-te que voltes, como num bonito fado. Deixam saudade, mesmo que não lhes conheças o presente, tampouco o passado.

6.6.16

Vai indo, como a chama quer.

A vida roda, os pombos não perdoam. A cidade está num filme de publicidade. Mais à frente, no jardim de nome bonito, passou um cão pela trela, soltava uns latidos baixos e avançava nuns pequenos saltos. Era branco e castanho, a fita encarnada e as orelhas pregadas ao alto, assumindo um modo de viver muito próprio. Quem o levava, sorria e dizia bom dia. Debaixo do braço, o jornal matinal. Aqui, na esplanada de primavera, enquanto o café espera, é dona da mesa o jornal do dia e a leitura em continuada actualização é a única razão da pausa e do intelecto a questionar a acção. O jornal tem cheiro e mancha as mãos. Tem no negro a palavra escrita, noutro tom as chamadas de atenção, um ou outro pormenor. A notícia contou-me alguém, não é morrer na teoria. O quê, onde, quando. É, sempre que esteja alinhada a razão, a subjectividade porque não és objecto. A trincada verdade de mãos entrelaçadas com as palavras exactas e sem excessos. Enfim, o jornalismo é um crédito que, entre ameaças tentadoras e reflectidas, vai sobrevivendo. O descrédito não assaltou ninguém por acaso, de rompe sem quaisquer justificações. As pessoas, as entidades, as empresas. Todas, num rol de dúvidas perpetradas pelo punho de uns tantos. A nação e a sua soberania ameaçadas em plena claridade. As vozes que se atropelam e a descarga de culpa que parece infringir a inteligência do povo. Esqueçamos, por ora, a vergonha. E lembro-me do jornal diário, sempre em casa. E de como um fato escuro, uma gravata no mesmo tom e uns sapatos limpos combinam com umas meias pintalgadas, qual dislexia efervescente da cor e um discurso de esquerda. Assumidamente defensor da ideologia e, sem despromoção para o que acredita, veementemente simpatizante da vida como ela é. Não confundir ideologia com religião. Não esquecer que a última pode tomar definições díspares, conforme a cabeça que a entende. E, no fim, o que conta é a informação. Tenhamos as mãos tingidas ou não.

5.10.15

Um banco de madeira que é de excelente casta.

Não me lembro do meu avô temer a chuva, miudinha ou grossa, de deixar para amanhã o que podia fazer, sem prejuízo, naquele instante. Lembro-me, antes, dele sentado, com as suas calças de tecido perfeitamente engomadas, os seus sapatos engraxados com maestria, as camisas impecáveis, as peúgas no tom certo. Até o chapéu, enquanto a idade o permitia gozar da vontade de escolher. Mentiria se dissesse que ontem me sentei com o meu avô a ver as ideias a passar, a verbalizar parte delas. Que nos sentámos naquele banco de madeira castiço, já gasto do tempo. O tempo gasta, quando nasces inocente, igualmente quando nasces azedo, estragado. O banco que me habituei a ver sempre no mesmo lugar. Junto à porta dos fundos, com uma vista altamente privilegiada para as flores tão bem cuidadas da minha avó. De cores sem fim, das tradicionais aos feitios estrambólicos, assumidamente amor e dedicação plantados. Sentados, quase não conseguimos ver dos muros para fora, do portão para a rua. O banco que só não era pequeno porque o amor acrescenta. Ontem, ali sentados, se não fosse mentira, a pensar no todo. A permitir asas à imaginação, como noutros tempos, de petiz perguntador. Não foi, certamente, nesse banco de jardim que conheci a orientação política do meu avô. Militante de um partido, soube na mesma altura, num qualquer jantar de família reunida, militante activo e prestativo de uma força política. Não percebi nada, avento desde logo. Precoce a boa nova, esqueci-me de perguntar mais. Partilhava o entusiasmo com um cunhado e outros tantos desta família. Lembro-me dos jornais e papéis sem fim, alusões inesgotáveis às designações, crenças e questões tão características daquele partido. Lamento, nunca lhe ter perguntado mais, naqueles momentos a pensar e a conversar sem fim, sobre a sua posição. Nunca foi indiferença, infelizmente foi a imaturidade forçada pela tenra idade até à sua morte. Guardo-lhe questões que serviriam, irrevogavelmente, os nossos momentos sentados naquele banco. Entre outros assuntos, teria o maior gosto em atiçá-lo, usando a eloquência que ambos admiramos, explicando porque nunca partilhei com ele a intenção, tampouco, o voto. A abstenção corrói, o voto inconsciente destrói. Quando não resulta, entre os escombros, voltamos ao lugar certo, mesmo que demore. Mentiria se dissesse que ontem partilhei com o meu avô aquele banco. Só não o faço porque, ideologias políticas à parte, partilhamos a óbvia e civilizada vontade de votar e de, claro, opinar.

22.9.15

Intelecto e cultura numa cabana junto à berma.

Ao sabor de um cigarro e depois outro, vamos conversando sobre a banalização da cultura. Atrás de nós um quadro gigante que faz lembrar a conhecida obra que evoca uma tão falada guerra civil. Este não é, em tempo algum, uma tentativa de copiar o original, sou só eu a cuidar pouco da imaginação. Continuam os cigarros malignos e a conversa sobre a negligência. Do fracasso da atribuição dos números e da ausente e persistente necessidade de apelidá-la de parente pobre. Neste governo como noutros. Um deles ri-se porque conheceu um cantor pimba no ginásio e são, desde algum tempo a esta parte, felizes companheiros de actividades que dizem respeito ao domínio do exercício em aparelhos. Entretém-se o mundo com os domingos agitados e abaixo de populares que as televisões nacionais insistem em emitir. Sempre e em simultâneo. Em nome e defesa do entretenimento que alavanca o espírito fatigado do comum cidadão. Apela-se à chamada de acrescentado valor e rir é muito bonito. Entre o cantor que repete largos minutos a mesma frase com três palavras e a intérprete que aposta forte no playback e na selfie em movimento. No fundo, sustenta-se a cultura do processo que vive da gravação preparada atempadamente. E, para ressalva do intelecto, não me limito às cantorias despidas. Já não chega o amor e uma cabana. Literalmente ou no domínio do fantástico. É pouco. Antes, construírem-se torres tão altas. Como se fossem caixas com desenhos bonitos. Umas sobre as outras. Suspensos nesta apneia inopinada e ininterrupta, perde-se o essencial. E esse, contam-nos as avós, não está à mercê de um tipo que, por nomeação, faz de conta que cuida dos interesses da cultura de um país. Cuidar não é sinónimo de matar. Há espaço e tempo. Para os domingos à tarde embalados em cantigas daquele género e de chamadas curtas. Para as torres de caixas empilhadas. Para atentar o intelecto. Até, vamos lá ver, que caiam, uma a uma, as caixas amontoadas. Ganhe-se, logo a seguir, a coragem necessária para juntá-las com coerência, realidade e competência.

1.9.15

Em diferido. #39

Sublevação das gentes - Na sala por onde passei tantas vezes e que me lembro de olhar para ele, passar os olhos e só guardar a moldura de um dourado gasto. Agora que vejo bem ou, escolhendo melhor as palavras, agora que presto atenção ao quadro que sempre esteve naquela sala, vejo nele uma recordação que alguns dizem longe e sem armas para prevalecer numa sociedade em que os mundos confluem e nunca beliscam. Nesta sociedade. Na falada sociedade do minuto. Contam tudo ao pormenor. Sabe-se tudo a cada instante. É uma discussão que desconhece lugar. É uma aventura de linguagem e comportamento. Fala-se da ditadura efectiva e da liberdade condicionada com a mesma intensidade. Comparam-se termos e valores desprovidos de ligação. Salvando a verdade, este quadro recusa qualquer valorização de um regime ditatorial, antes de um povo que sobrevive sob a barbárie de um nome. Mas é de um tempo que fugir nem sequer era solução. Acusam-me, alguns desmemoriados, quando opino sobre o quanto este país ganhou depois da revolução, de desconhecer a vida de então. Argumento e respondem-me frases feitas. Um discurso com tão pouco volume, como acreditar que algumas décadas depois, tudo mudou.

2.7.15

Em diferido. #37

A unidade que forma um todo - O mundo pulsa com frequência. Por estes dias, é um mundo noutro compasso. Numa ambiguidade impessoal. Arqueja ao mesmo tempo que ganha firmeza na musculatura. Toma a forma de logração inócua. Avoca, inevitavelmente, a eterna dúvida, como qualquer contradição exposta. É transversal, agora tudo chega a todo o lado. Um ponto corta tudo, sem dó nem alma, até ao ponto final. É uma linha imaginária, por certo, oblíqua. Uma veia melindrada pela invasão inesperada. É uma tentativa de normalizar, ao invés, de padronizar. Surge como uma democracia funcional. Convida o povo a acreditar que exerce a soberania. Mas é uma questão que ganha recheio noutras áreas, tão relevantes quanto uma questão que lateja por resposta, um governo que tem toques de aristocracia. Arraçado de pináculo da linguagem impopular. No entremeio, ficam-nos as questões bem mundanas. Putativamente menos transversais. Como os quadris naturais da mulher que vive fora da cidade serem bem mais tortuosos do que a transversalidade nacional.

11.6.15

Em diferido. #36

Há festa Portuguesa (Um e outro ano) - Há cores por cima de cada cabeça, a fazer de conta um arco-íris. Há verdes fitas, amarelas, vermelhas, azuladas e brancas até. O bailarico começa lá em cima, onde se bamboleiam as iluminadas faixas lisas com cores fortes. Esticam-se de um prédio ao outro. Deslizam entre e sobre os arames estrategicamente colocados. Açambarcam ruas, átrios, pracetas e becos. Unem janelas e vizinhos. Daquela ponta, onde a janela sossega escancarada, até ao outro lado, de varanda decorada, de manjericos pousados. Das afamadas coloridas fitas, caem adornos vários. É alusão ao santo, à folia, à comemoração. É festa que une população. Pedem-se casamentos felizes e relações abençoadas. Começam namoros, arrancam casórios. Em cada ruela a surpresa. Montam-se arraiais em cada esquina. Enquanto se faz caminho passa-se a mão pelos manjericos vários, cheiram-se as sardinhas no fogo, ouve-se o vinho a escorrer para cada copo. Lisboa leva atenção. Da terra ou visita, se fazem os convivas. À noite, as marchas pisam solo requintado, deslizam avenida fora. Aplausos e vencedores. É noite de animação sem fim. É um festejo popular, rompendo país fora. É um vai e vem que deixa saudade. Até ao novo ano, até à festa democrática.

10.3.15

A unidade que forma um todo.

O mundo pulsa com frequência. Por estes dias, é um mundo noutro compasso. Numa ambiguidade impessoal. Arqueja ao mesmo tempo que ganha firmeza na musculatura. Toma a forma de logração inócua. Avoca, inevitavelmente, a eterna dúvida, como qualquer contradição exposta. É transversal, agora tudo chega a todo o lado. Um ponto corta tudo, sem dó nem alma, até ao ponto final. É uma linha imaginária, por certo, oblíqua. Uma veia melindrada pela invasão inesperada. É uma tentativa de normalizar, ao invés, de padronizar. Surge como uma democracia funcional. Convida o povo a acreditar que exerce a soberania. Mas é uma questão que ganha recheio noutras áreas, tão relevantes quanto uma questão que lateja por resposta, um governo que tem toques de aristocracia. Arraçado de pináculo da linguagem impopular. No entremeio, ficam-nos as questões bem mundanas. Putativamente menos transversais. Como os quadris naturais da mulher que vive fora da cidade serem bem mais tortuosos do que a transversalidade nacional.

21.10.14

Uma espécie de provérbio.

Ser beto ou dondoca é uma definição gasta, mas persistente. De resto, como as práticas tão típicas de um Portugal que insiste em vestir de gala as vergonhas de um país desbaratado e desesperado. Aqueles casacos de fato, com um corte tão desajustado do corpo, são negligentes escolhas. As calças seguem o caminho que está guardado. As escolhas de quem não guarda na boca e na educação a obrigação de escolher um bom fato. Uma segunda pele, ouvi algures e voltei a ouvir mais e mais vezes. É um ensinamento de imagem, da imagem que faz uma pessoa. Arrisco eu, que não deixo de compreender quem erra na escolha. Eu sei e percebo que não conhecemos todos as mesmas verdades, porque na vida a verdade muda de feição com a necessidade. A elegância de mão dada com a combinação do corte, tecido, cor e os botões de punho. Os últimos, para esta medida, nada importam. Mas é vê-las, às erradas escolhas, a fazerem-se passear sobre os corpos que não lhes pertencem. Hoje, adultos formados e homens confirmados. Como se um fato medisse a má rês de uma pessoa. Voltamos à universidade onde, a dada altura, os fatos aparecem. Para alguns, pela primeira vez. Ou compram na loja que todos conhecemos ou pedem emprestado ao familiar que o mantém minimamente em bom estado com ajuda da naftalina. Paro, então, para me lembrar dos meus amigos que seguiram direito. Poucos, para ser sincero. Uma escolha cómoda, lembro-me de falarmos disso. Por estes dias, desses poucos, apenas um se manteve fiel. Os outros fugiram da área. Usam, contudo, a formação para outras profissões. E, passa tão rápido que nunca mais tiveram vontade de colocar um fato. Ressalvo ocasiões formais. Na anarquia que rouba o ser para eleger o parecer, só veste a pele quem quer.

8.10.14

Lá diz o rifão.

Brincam, vaidosos. Vil comando que não conduz a sabedoria de gerir um número de plurais pessoas. É um jogo pernicioso. Tão torpe que não há justificação que combata um discurso ardiloso. No mesmo toque, negligente o suficiente para moldar e ferir vidas que não têm voto, senão na hora das massas se sentirem na obrigação de lhes fugir, o mais rápido que lhes saia do pêlo. Disso, ensaio e experiência, sobra-lhes. Um país que deixou de ser um convicto e sensato gestor, para tomar as rédeas de um irrisório perfil. Por estes dias, velhacos, voltam a dar e a tirar. A moda de que quem faz por bem, semeia o bem, é de sobremaneira ultrapassada nestas mesmas vozes. Velhacos. Não sou professor, mas conheço a dança de quem segue um sonho. Hoje decide-se. Amanhã regride-se. Entre o ontem e o hoje, mudam-se vidas, moradas, relações. Mantêm-se, porventura, as convicções. É a sorte deste trapaceiro modelo, que vive e sobrevive à conta de um povo melindrado e, ainda assim, convicto das suas ambições e obrigações. Não fosse a realidade dos factos anteriores, restar-nos-ia o conforto de um ditado, quem dá e tira vai para o inferno.

30.9.14

Sublevação das gentes.

É na sala por onde passei tantas vezes, que me lembro de olhar para ele, passar os olhos e só guardar a moldura de um dourado gasto. Agora que vejo bem ou, escolhendo melhor as palavras, agora que presto atenção ao quadro que sempre esteve naquela sala, vejo nele uma recordação que alguns dizem longe e sem armas para prevalecer numa sociedade em que os mundos confluem e nunca beliscam. Nesta sociedade. Na falada sociedade do minuto. Contam tudo ao pormenor. Sabe-se tudo a cada instante. É uma discussão que desconhece lugar. É uma aventura de linguagem e comportamento. Fala-se da ditadura efectiva e da liberdade condicionada com a mesma intensidade. Comparam-se termos e valores desprovidos de ligação. Salvando a verdade, este quadro recusa qualquer valorização de um regime ditatorial, antes de um povo que sobrevive sob a barbárie de um nome. Mas é de um tempo que fugir nem sequer era solução. Acusam-me, alguns desmemoriados, quando opino sobre o quanto este país ganhou depois da revolução, de desconhecer a vida de então. Argumento e respondem-me frases feitas. Um discurso com tão pouco volume, como acreditar que algumas décadas depois, tudo mudou.

24.9.14

O verde do campo.

Barafustando com o campo. No fel do que guarda. Só se permite visitar o que sempre lhe foi proposto quando, em trabalho, o verde do campo deixa de ser recordações e verdades. Quando o campo não é sinónimo de distância e pobres de espírito. Quando, o verde e o fiel retrato do campo passam a ser o cenário perfeito para a fotografia. Metáforas. Aprecio-as.

16.9.14

Toda a esfera nacional.

O tempo tem espaço, corpo e difere do dia para a noite. É uma maré cheia na Praia da Rocha, um pôr-do-sol na Manta Rota, um vendaval da Costa Norte de um outro Portugal, a fama da Meia Praia. O tempo é das pessoas. Mesmo que nos centremos nos minutos que escapam. Seja das Amoreiras ao Chiado. De Alfama à Graça. O Cais do Sodré é a roupa de quem no defeito do tempo, procura as escadinhas de espuma de uma Lisboa que pode ser o leme. E é tão castiço. Da mesma que veste, liberta e valente, de adornos vários e dourado. O pensamento vive profundamente ligado ao tempo a passar. Como lembrar que somos do tempo em que o comércio era, inevitavelmente, rua. Depois, o tempo lembra que viver é coordenar vontades. Como o Bairro Alto desenhado de gente, de lotaria em cada passo. Voltas e mais voltas. Sabes que sentir é ter tempo. Mesmo que supere uma imponente fachada da mais falada estação.

4.9.14

Estado do espírito.

Numa zona de tempos remexidos, pano de fundo de uma cidade que perdeu figuras, conta a história. Lembramos desgoverno de gente, assim se fez a tentação de marcar. Atirar. Hoje, tem outro convite. Por estes dias, volta a ser tela. De movimento exposto nas paredes. De pessoas que regressam ao encontro de ver passar. As idades não têm exclusividade. Os lugares não têm obrigação de coerência. Guardam, se quisermos, a memória da ocorrência. As cabeças seguem as imagens. Começa o espectáculo com data marcada. Dinamizam-se as noites. No entretanto, faz-se silêncio. A rua é palco. Mesmo que a tela não seja a arquitectura datada. Ainda que, mesmo por ela passando, não se lhe perceba a desenvoltura e dedicação. Se possível, é voltar atrás e ver de novo.

5.8.14

Verão matizado, impetuoso como sereno.

Veranear algures. Percorrer o encanto nacional, conhecer e fotografar o ambiente de um exterior tão desejado como a saudável condução de um país. Também o nosso, de preferência. Guardem-se os costumes, poupem-se as palavras, apavorem-se as pessoas, ridicularizem-se as acções. De umas e das outras. Toca desafinado o movimento bolsista de um antro. Um cenário que soa desacorde com uma sucessão de opções que persistem numa alinhavada separação de classes. Opiniões de outrora, recentes como o verão delicado, suportavam a solução interna, poupando o desgaste, mal-grado a dificuldade de encontrar concordância e veracidade na combinação das ideias expelidas em discurso de horário nobre. É um mistifório pegado, ausente de senso. Experimentam-se, neste canto de privilégios sem fim, um pedaço do tanto que é um rolo sem fim de expectativas e necessidades imediatas de fazer acontecer. Fazem-se ensaios. Depois perguntas. Escutam-se os mesmos. Discursos e aqueles que os lêem. Enquanto nos assaltam os primitivos acontecimentos, penso como é sereno olhá-la a passar a mão no cabelo. Há sempre melhor.

24.7.14

No resto do mundo.

Aterrar em Portugal tem outro sabor. Gabam-lhe, um sem número de vezes, a luz. E têm razão. Outras vezes não esquecem a simpatia de quem os recebeu. A qualidade do que é tão típico também merece elogio. Quando pisar terras lusas é regressar a casa, dizem que não se explica. Tanto mais quando se vivem vidas fora deste país. Quando se adoptam lugares e características, quando se permitem deixar adoptar por gentes da terra e por definições de vida mais aprazíveis. Sabíamo-lo de regresso, por uma semana apenas, mas sabíamo-lo por terras lusas, num regresso de desejo e saudade. De cessar as saudades. De matá-las por força dos afectos e vozes que o recebem. Sempre. A distância não é a maior. É longe da cultura, da língua e das gentes. Da localidade e da hospitalidade que o formaram. É o vestígio de um grau ou degrau que dá permissão para descobrir o mundo. O resto.

2.7.14

Em diferido. #12

Veleidade carente - Aquela roda gigante era um presente em concreto. Uma volta, depois outra, a seguir a essa, outra e mais outra. Outras tantas se seguiriam. Só na imaginação. Vivê-la-ias a velocidades distantes, dispares, tão desiguais. A idade era o patamar. O resto era dado pelo arranque sonoro do motor. No discurso alheio, era essa a conversa, aquela roda era o quão funcional se torna, a dado compasso, um percurso. Meio desavisado, entras na roda gigante e, daí em diante, não mais comandas. És engrenado no sustento da volta inventada. Restar-te-á a escolha ilusória. Ou desfrutas e não ousas, sequer, pensar no segundo seguinte ou passas a primeira, segunda, terceira e todas as voltas que se sigam, num pranto sem fim. Aquela roda gigante, maior do que todas as outras rodas, era um presente. Daqueles que te compram mas não pensam em ti, julgam-te pelo comprador. Depois de entrares, atreve-te, nem que por um instante, reclamar. E vais entender. Cai-te o céu azul em cima. O mesmo que serve de pano de fundo às voltas. Porque, no momento em que te dão sinal verde para um visto sem fim previsível, não te podes queixar. Do queixume não reza o entretenimento. Que não te passe pela moleira cogitar qualquer fim antecipado. Por seu turno, podes recusar tudo o que está para trás e seres apenas. Mandas parar, desces e procuras uma fortuna diferente. Não te esqueças, é claro, de agradecer. E pagar, que é o mais importante. Há sempre quem viva preso à quimera que sempre fora a sua própria roda.

12.6.14

Há festa Portuguesa.

Há cores por cima de cada cabeça, a fazer de conta um arco-íris. Há verdes fitas, amarelas, vermelhas, azuladas e brancas até. O bailarico começa lá em cima, onde se bamboleiam as iluminadas faixas lisas com cores fortes. Esticam-se de um prédio ao outro. Deslizam entre e sobre os arames estrategicamente colocados. Açambarcam ruas, átrios, pracetas e becos. Unem janelas e vizinhos. Daquela ponta, onde a janela sossega escancarada, até ao outro lado, de varanda decorada, de manjericos pousados. Das afamadas coloridas fitas, caem adornos vários. É alusão ao santo, à folia, à comemoração. É festa que une população. Pedem-se casamentos felizes e relações abençoadas. Começam namoros, arrancam casórios. Em cada ruela a surpresa. Montam-se arraiais em cada esquina. Enquanto se faz caminho passa-se a mão pelos manjericos vários, cheiram-se as sardinhas no fogo, ouve-se o vinho a escorrer para cada copo. Lisboa leva atenção. Da terra ou visita, se fazem os convivas. À noite, as marchas pisam solo requintado, deslizam avenida fora. Aplausos e vencedores. É noite de animação sem fim. É um festejo popular, rompendo país fora. É um vai e vem que deixa saudade. Até ao novo ano, até à festa democrática.

2.6.14

Veleidade carente.

Aquela roda gigante era um presente em concreto. Uma volta, depois outra, a seguir a essa, outra e mais outra. Outras tantas se seguiriam. Só na imaginação. Vivê-la-ias a velocidades distantes, dispares, tão desiguais. A idade era o patamar. O resto era dado pelo arranque sonoro do motor. No discurso alheio, era essa a conversa, aquela roda era o quão funcional se torna, a dado compasso, um percurso. Meio desavisado, entras na roda gigante e, daí em diante, não mais comandas. És engrenado no sustento da volta inventada. Restar-te-á a escolha ilusória. Ou desfrutas e não ousas, sequer, pensar no segundo seguinte ou passas a primeira, segunda, terceira e todas as voltas que se sigam, num pranto sem fim. Aquela roda gigante, maior do que todas as outras rodas, era um presente. Daqueles que te compram mas não pensam em ti, julgam-te pelo comprador. Depois de entrares, atreve-te, nem que por um instante, reclamar. E vais entender. Cai-te o céu azul em cima. O mesmo que serve de pano de fundo às voltas. Porque, no momento em que te dão sinal verde para um visto sem fim previsível, não te podes queixar. Do queixume não reza o entretenimento. Que não te passe pela moleira cogitar qualquer fim antecipado. Por seu turno, podes recusar tudo o que está para trás e seres apenas. Mandas parar, desces e procuras uma fortuna diferente. Não te esqueças, é claro, de agradecer. E pagar, que é o mais importante. Há sempre quem viva preso à quimera que sempre fora a sua própria roda.