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29.4.14

Português vivaz.

A janela de cortina a balançar, debaixo ou no enquadramento do que se seguirá adiante, é o ponto de partida, por dela soar pátria. O céu azul suave, quase imaculado, não fossem as ternurentas, embonecadas e salpicadas nuvens. Desmaiadas, é certo. Ainda assim, nuvens. O sol oferecendo brilho, luzindo pelos cantos vários. Os azulejos azuis e brancos. Tradição, característica, coração português. Calçada portuguesa, em tom sim, tom não. Num aparece e desaparece de figuras típicas. Avenida acima. As riscas na blusa, a saudade do azul e branco que lembra a maresia. A memória a funcionar, as lembranças a jorrar. A barbearia, no sentido oposto, de cadeira de comando. De espelhos gastos do tempo, como o couro. Só isso. O verde é sombra. A madeira é repouso. Calçados, os ténis que repetem a saudosa marca da adolescência. O sorriso faz parelha com a gargalhada. São proporcionais à dimensão do lugar que açambarca o todo deste quadro. As pernas cruzadas. As mãos sem sossegar. A máquina fotográfica pousada. Depois, terminei cortando o cabelo. E aparando a barba. Com óculos de ver.

17.3.14

Gira a roleta falida.

Apreende o coração de muitos. É alimento de conversas várias. É cimento que não molda nas ideias de inúmeros. Capatazes de uma roda. Gira a roleta. Surpreende a revolta que não acontece. Embasbaca com o ponteiro da indiferença e da aversão à diferença. Vinga, na sociedade que grita a liberdade e preconiza a fórmula do interesse superior do indivíduo menor e maior, mas resume-se à orientação que repele, que joga com o atentado à palavra e ao acto. Sem assumir a vergonha de castrar. Julgam libertinagem, pois alguma vez ganharam de ouvido, agigantando o tormento do outro. Hoje é um dia igual aos outros. Para tantos de nós, será. Não tenho dúvidas. Para tantos outros, festeja-se ainda a bruteza de um acto. De uma acção que tem consequências. Para os restantes, maldizem, passado o fim-de-semana, a decisão mal adornada. Pouco me importa se foram uns inóspitos cinco votos. Como se a vida e a individualidade fossem roleta nas mãos de terceiros. Como se juntar votos, muitos ou nenhuns, fosse orientação. É, bem sabemos, uma opção que convém. É o não quero saber. Antes, um deitar por terra. Camuflar com votos que desconhecem as chamas de um momento eterno. É, antes, entrar pela porta sem bater nem receber autorização. É um jogo falido e rafeiro. Rápido. Mas é de pessoas que falamos, depois dos números e das decisões finais. Foram cinco votos que, para mim, nada importam. É nacional. E não foi nada bom. É furtar. Sem pensar nem olhar. Lamentável.

7.1.14

Despedi-me do teu corpo.

Horroriza-me que o meu país seja paupérrimo, também, e sobretudo, no que concerne à cultura. Não a permitem democratizada. Não se incita o sentido estético. Não se convida o português correcto. Por ausência de conhecimento, caricatura-se o que apelidam de ridículo. Não se vê cinema português, quando ele acontece. O teatro é, demasiadas vezes, o parente pobre. Os bailarinos mostram e atestam talento lá fora. Os artistas, plásticos ou outros, fazem nome e ganham estatuto nas grandes montras do mundo. A música, quando de autor, não é ouvida. Os museus perdem-se, por não serem primeira ou, tão pouco, segunda opção. Os livros não são um hábito, o preço não convida todos. Tanto, mas tanto que se perde por obra de macérrimos pensamentos e irrisórios orçamentos. É caso para sugerir que nos levem tudo, tudo aquilo que quiserem. Não procurem, mais tarde, as vanguardistas soluções, tão vistosas e infalíveis, porque ficamos nos primórdios da ignorância. Quando nos faltam as bases da arquitectura evolutiva de uma sociedade, esgotamo-nos, facilmente, nos actos e conceitos banais. Perdoem-me, mas gosto do cheiro, do toque e do desenho de um livro, do som de um disco a tocar num leitor, até de um bilhete guardando memórias. Enche-me de entusiasmo ver representar sobre as tábuas de um palco. Estamos pobres, porque estamos. Sabemo-lo de cor, tal a realidade. Mas privamo-nos do essencial. Não se riam porque não conhecem e, assim, vos faltam argumentos. Avancem uma virtuosa palavra. O léxico também nos importa. A saque, mas imperativos e assertivos, assim nos cultivemos.

12.11.12

Questões quotidianas #3

A questão que hoje me assalta vem bastante a propósito.
 
Acredito que, dentro de meses, fico sem amigos, pelo menos num raio de km aprazível. É que, de repente, quase todos decidiram, infelizmente, entrar no
“fatídico jogo da moda”, o “Emigrar é Solução”.
 
Assim não é comportável. Devolvam-me as expectativas que me vieram vendendo acerca do país em que vivo.

Obrigado.

13.9.12

À Pátria.

Assusta-me, cada vez mais, a disparidade de opiniões e vontades que se vêm vivendo no nosso país. O povo, que somos todos nós, é dividido em insustentáveis grupos, originando esse desfasamento e, no geral, recusa a ideia de que existem sempre alternativas às piores e mais medíocres opções. Aceito que, tantas vezes, essas reprováveis opções sejam, para muitos, a única e derradeira opção. Será mesmo? Até que ponto, centrados, essas passariam para segundo plano, iluminando-os para caminhos bem mais realistas e socialmente aceites?
 
Regredimos no que a tantas coisas diz respeito. Apontam-se os dedos que duas mãos permitem, em todas as direcções. Os cafés e as ruas deixaram de ser um lugar de convívio para se tornarem num palco de verdadeiros debates, em que as opiniões se dividem, mostrando a revolta e o desânimo que estes tempos provocam. Ao mesmo tempo, nessas mesmas tertúlias de desabafo, ouvem-se sucessivas incitações à violência e terror. Por outro lado, dizem, "não vale a pena fazer nada, muito menos sair para as ruas em protesto".
 
O certo é que todos somos donos da nossa opinião e forma de encarar as coisas, no entanto, sejamos lúcidos (tanto quanto nos deixarem) e sejamos sólidos na forma correcta de nos impormos.
 
Somos um povo lúcido e de brandos costumes, dizem. Mas até quando? Colocados à prova já estamos, resta esperar pelo resultado final.