Mostrar mensagens com a etiqueta pai. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta pai. Mostrar todas as mensagens

20.4.17

Em diferido. #58

Tipicamente recalcitrante - As revistas multiplicam-se cá por casa, mas já foram mais. Há em mim um certo distanciamento, porventura, uma certa sobranceria que me obriga, fatalmente, a ser selectivo. Guardo-as quando me importam. Momentos há em que mudo o rumo e revisito-as. Porque procuro uma matéria em concreto ou porque me apetece tornar a fazê-lo como se fosse a primeira vez. Qual dom de ocasião graciosa acontece-me, não raras vezes, surpreender-me com o conteúdo. Foi esse o caso, estava a passar os olhos por uma revista de fotografia das boas. No entretanto, perguntava-me pelo poder da certeza absoluta sobre a dúvida. Induzido, claro, por uma reportagem que falava com a imagem. Não sei se uma fotografia só é arte ou, pelo menos, digna, se falar e trocar impressões com quem olha. Distinta será quando promove a troca de sensações, ainda que, fugindo totalmente a qualquer toque na pele. A bola de neve instala-se no pensamento e depressa me lembro da opinião, tão irredutível, do meu pai no que diz respeito aos ténis. Paixão minha de longa data. Inimigo fatal, sem memória, do meu pai. Um homem adulto tem de saber calçar porque é fundamental para se apresentar, defende ele. E continua, ninguém fica bem de fato completo, camisa engomada, gravata de um bom tecido e botões de punho com uns ténis nos pés. É lamentável, termina. Esgrimimos no mesmo terreno, com as mesmas armas. A dada altura, num empate técnico, cedo a vitória. Primeiro, uns bons sapatos. Depois os ténis. De preferência, sempre um calçado que tenha dignidade, qualidade distintiva e personalidade. Tal e qual uma revista de tiragem mundial, com a arte em destaque, sem se permitir melindrar desde a paginação ao tipo de letra. Obrigado pai, mas acabo de escrever com uns ténis calçados.

28.4.15

Em diferido. #33

Tipicamente recalcitrante - As revistas multiplicam-se cá por casa, mas já foram mais. Há em mim um certo distanciamento, porventura, uma certa sobranceria que me obriga, fatalmente, a ser selectivo. Guardo-as quando me importam. Momentos há em que mudo o rumo e revisito-as. Porque procuro uma matéria em concreto ou porque me apetece tornar a fazê-lo como se fosse a primeira vez. Qual dom de ocasião graciosa acontece-me, não raras vezes, surpreender-me com o conteúdo. Foi esse o caso, estava a passar os olhos por uma revista de fotografia das boas. No entretanto, perguntava-me pelo poder da certeza absoluta sobre a dúvida. Induzido, claro, por uma reportagem que falava com a imagem. Não sei se uma fotografia só é arte ou, pelo menos, digna, se falar e trocar impressões com quem olha. Distinta será quando promove a troca de sensações, ainda que, fugindo totalmente a qualquer toque na pele. A bola de neve instala-se no pensamento e depressa me lembro da opinião, tão irredutível, do meu pai no que diz respeito aos ténis. Paixão minha de longa data. Inimigo fatal, sem memória, do meu pai. Um homem adulto tem de saber calçar porque é fundamental para se apresentar, defende ele. E continua, ninguém fica bem de fato completo, camisa engomada, gravata de um bom tecido e botões de punho com uns ténis nos pés. É lamentável, termina. Esgrimimos no mesmo terreno, com as mesmas armas. A dada altura, num empate técnico, cedo a vitória. Primeiro, uns bons sapatos. Depois os ténis. De preferência, sempre um calçado que tenha dignidade, qualidade distintiva e personalidade. Tal e qual uma revista de tiragem mundial, com a arte em destaque, sem se permitir melindrar desde a paginação ao tipo de letra. Obrigado pai, mas acabo de escrever com uns ténis calçados.

19.3.15

Homem de vida.

Homem valente, de rotinas marcadas. O alimento daquele corpo e daquela alma. Acordar bem cedo, um hábito de sempre. Avançar na rotina e parar para ler e ouvir as primeiras notícias do dia. Sai depois para um café. Segue para o trabalho. Um dia atrás do outro. O Benfica campeão, se o mérito permitir. O perfume em doses relevantes. A preocupação em vestir bem. Os sapatos impecáveis. O relógio, quando não se esquece, no pulso direito. Tomei-lhe esse hábito, sou incapaz de usar no braço esquerdo. Um bom vinho numa merecedora taça de vidro. Discurso coerente, opinião sempre disponível. Defensor de uma série de questões que vêm sendo destruídas por desmérito e irresponsabilidade de alguns. A integridade que não lhe permite esquecer. Onde está e de onde veio. A família que diz ter escolhido. O amor de uma vida, a mulher que o segura, amparando na ausência de eventuais defesas. O número de filhos exactamente igual ao desejo de outros tempos. A vontade de ler sem fim, passou-ma ele. A cada livro. Semanas havia em que cada dia era ocasião para receber um novo livro, uma história maior. A música, uma paixão de longa data. O rock é rei, num senhor que tem gostos particulares. Cuidados, também. Este homem é o meu pai. Ou, para ser sincero, esta é uma parte tão reduzida deste homem, do todo que o compõe. Do meu pai. Volto um ano atrás e não posso deixar de me repetir. Na era do ecléctico, o meu pai foge das ranhuras e intermitências do termo. Hoje é um dia profundamente corriqueiro. Banal nas definições. Particular nas entrelinhas. É dia do pai. É o dia do homem que ouve música, vibra com os melhores acordes e timbres. E, no meio de tudo isto, não é ecléctico. Fica o desejo de um dia soberbo, pai. Mas coberto de incoerências. Mais um ano, volta a tomar um digestivo datado, desta feita, sem uma única pedra de gelo. Não condenas  o líquido todo, é certo, mas não deixa de ser uma acção tão snobe. Snobe como tu não gostas. Até já.

12.3.15

Tipicamente recalcitrante.

As revistas multiplicam-se cá por casa, mas já foram mais. Há em mim um certo distanciamento, porventura, uma certa sobranceria que me obriga, fatalmente, a ser selectivo. Guardo-as quando me importam. Momentos há em que mudo o rumo e revisito-as. Porque procuro uma matéria em concreto ou porque me apetece tornar a fazê-lo como se fosse a primeira vez. Qual dom de ocasião graciosa acontece-me, não raras vezes, surpreender-me com o conteúdo. Foi esse o caso, estava a passar os olhos por uma revista de fotografia das boas. No entretanto, perguntava-me pelo poder da certeza absoluta sobre a dúvida. Induzido, claro, por uma reportagem que falava com a imagem. Não sei se uma fotografia só é arte ou, pelo menos, digna, se falar e trocar impressões com quem olha. Distinta será quando promove a troca de sensações, ainda que, fugindo totalmente a qualquer toque na pele. A bola de neve instala-se no pensamento e depressa me lembro da opinião, tão irredutível, do meu pai no que diz respeito aos ténis. Paixão minha de longa data. Inimigo fatal, sem memória, do meu pai. Um homem adulto tem de saber calçar porque é fundamental para se apresentar, defende ele. E continua, ninguém fica bem de fato completo, camisa engomada, gravata de um bom tecido e botões de punho com uns ténis nos pés. É lamentável, termina. Esgrimimos no mesmo terreno, com as mesmas armas. A dada altura, num empate técnico, cedo a vitória. Primeiro, uns bons sapatos. Depois os ténis. De preferência, sempre um calçado que tenha dignidade, qualidade distintiva e personalidade. Tal e qual uma revista de tiragem mundial, com a arte em destaque, sem se permitir melindrar desde a paginação ao tipo de letra. Obrigado pai, mas acabo de escrever com uns ténis calçados.

16.7.14

Ligação afectiva e efectiva.

Alinham-se anseios no momento de desvendar um dos tantos pontos indiscretos. Sorrimos, hesitando horas de tormento em que se assume a ponte entre o gostar e o sentir. Não falo de relações, tampouco de relacionamentos. Estão cansados, alguns. Fugazes, qual moda de rua. Qual modelo de passerelle. Como se desfilar, independentemente do lugar, fosse o ponto mais importante. A alma cansa-se com o testemunho vivido. Discutem-se corpos treinados, opções fugidias. Combinam-se festas, ocasiões díspares, exigindo modelitos diferentes. Mas volto ao sorriso, que tão gasto, oferece-se sempre como alternativa. Sorrio, instantes antes de admitir ter comprado uns ténis. Mais um par, pensarão tantos. São os ténis, digo eu. Por obra do acaso, no mesmo dia, comprei mais um par de sapatos. Mas prefiro os ténis, sempre. Ao meu pai, numa conversa tão descontraída, contei-lhe primeiro dos sapatos. Um pré-aviso. Em tantas vezes, assume a sua postura irredutível no que concerne ao uso dos ténis. Limitem-se a usá-los nos espaços apropriados, diz ele. Refere-se, claro, a ginásios, desportos vários e uma ou outra situação bem mais casual. Refuta qualquer ligação entre um par de ténis e um fato. Hei-de escrever sobre isto. Agora, sorrio. Antes mesmo de dizer que comprei uns ténis. Alinham-se anseios por nada. E por tudo.

19.3.14

Serve-se do digestivo datado, pai?

Na era do ecléctico, o meu pai foge das ranhuras e intermitências do termo. Não me lembro de o ver assistir a grandes concertos ao relento, a céu aberto, pisando o asfalto ou o pó que ganha vida debaixo dos pés e condena qualquer indumentária alusiva ao estilo musical que aplaudiria, para ficar nas primeiras linhas que sucedem o palco. Não me lembro, porque nunca aconteceu. Rezam os relatos, os momentos áureos da corrida aos nomes valentes do rock, ficaram para trás, para o passado, assim a vida adulta e o casamento se fizeram fronteira. Depois disso e do nascimento dos descendentes, exasperou-se-lhe a vontade e a dedicação. Suspeito que adiou. Deixou para depois. Ou viveu o suficiente, no toque do eficiente. O meu pai não se assume um eterno ecléctico quando o assunto é música. A resposta brota, ainda a questão vai no termo. A boa música fez-se nos anos do rock, mas faz-se hoje, tão boa, de outro jeito. O meu pai oferece o termo à canção. É arte, quando feita com as bases do talento e do trabalho, conta ele. Como, de resto, se faz um todo da vida. Este homem vive e vibra com os hits da sua memória, aplaude as novidades que lhe soam a puro deleito. Seja rock. Os amigos da nossa família já lhe conhecem a disciplina. E tomam-lhe a influência. Não sei se importa, mas ser uma parte num núcleo de um todo, é um tremendo privilégio. Hoje é um dia profundamente corriqueiro. Banal nas definições. Particular nas entrelinhas. É dia do pai. É o dia do homem que ouve música, vibra com os melhores acordes e timbres. E, no meio de tudo isto, não é ecléctico. Um dia feliz, pai. Mas coberto de incoerências. Toma um digestivo datado, enquanto usa uma pedra de gelo. Condenando o líquido todo, é uma acção tão snobe. Snobe como ele não gosta. Até já.

19.11.13

Os meus livros.

Desconheço, na verdade mais íntima, os livros que tenho. Não os sei em números. Passam para lá do óbvio, vão mais longe do que o que existe em diminuta vontade. Das estantes revestindo as paredes mascaradas de papel de parede ou iludidas de uma qualquer cor. Estão por aí, grande parte deles. Outros estão tolerando-se uns sobre os outros. Imagino, fabulando, numa tentativa perdida de tratar o impossível com domínio, as histórias e as personagens cruzando-se, dando origem, todas elas, a uma mixórdia de um mundo louco e adulterado pela imbecil lembrança de os ligar. Pela minha, feliz ou infeliz, ideia de os aglomerar. A memória não me quebra as recordações, quando assisto, de imediato, à minha infância recheada de livros. Foi o meu pai quem mos comprou. Quase todos. Dava-mos de diferentes temas. As capas, mais ou menos, apelativas. Umas duras, as outras de fortes títulos. Os textos, a cada ano passando, a tomarem temas e formas de escrita mais entusiasmantes. Sempre os achou relevantes. Muito. Herdei-lhe, desta forma, a vontade sôfrega de ler. De despender horas a ler, horas a convencer-me do que relatam escrevendo. O meu pai acredita nisso. Ainda hoje. Eu também, desde tenra idade. Desde que soube, pela sua mão, o que era um livro. Desde que percebi que um livro é uma companhia inequívoca. Das que se passam de pai para filho.