Missiva
pertinente e trafulha, esta de gostar sem reticências e missões infrutíferas.
Cada feitio com o seu jeito. Sem drama digno das tábuas de um teatro. Sem divas
de cartaz e cavalheiros de nome destacado. Mulheres reais, homens naturais.
Fica sereno, pássaro de livre e fiel querer. Crê nas palavras e nos braços
firmes. É ser alma inteira, comichão nas cordas vocais, paixão na pele e amor
no coração. Chega, mansa e singela, a ligação que há em nós. Cria laços até
deles não nos conseguirmos desenvencilhar. Como se não existisse eira nem
beira. Como se fosse um conhecido adágio ecléctico. Como quando a verdade exige
uma posição. Um caminho distante. Como quando festejar uma data qualquer não é
uma vontade. Assim, nada importa. Vive o ano inteiro, guarda a surpresa no
quotidiano. Chamar-lhe pelo nome, desvendar-lhe pelo olhar. É a vizinha
presença, lado a lado na companhia. Avança cada passo, não deixa de recuar
quando é o caso. Passam anos. Não se fazem contas. Não entende a ideia de concentrar.
De num dia tudo partilhar. Corpo que não precisa de sossego. Entendes isso,
génio mais lindo. Um dia feliz, é o que desejo. Seja um dia vazio, seja o dia
da comemoração do primeiro dia da relação. Aplausos. E seguem caminho num
harmonioso, contudo, distinto, acorde.
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20.1.15
11.12.14
Em diferido. #24
Derramar
luz - A discrição é um facto que se recusa a deixar partir. É a velocidade de
um feitio que ganha contornos de mãos que jogam com a vergonha de expor mais do
que merece importância. A vergonha, palavra que desvenda sensações e
incoerências que dão voltas num monociclo que pensa como gente e obriga a
condução de acrobata gingão. Mas ultrapassa a vergonha. É um feitio que está
inscrito algures. E atrai esse contexto em que não é defeito, senão feitio. O
equilíbrio de um físico que se sustenta nuns saltos altos ou nuns rasos que
nada roubam, na elegância de um corpo que não procura revelação, antes
convicção. É igual ao que sente. As palavras nunca chegam ao fim, nem deseja
fechar os olhos. Gosta de ter tempo e viver numa conversa que tem um sem fim de
segundos. O afecto que partilha, sem obrigação, assenta-lhe na essência que
impõe em cada relação. Efectiva ou se situação. A discrição, conheço-a de
outros tempos. Agora, é infinita a vontade de que a partilha com a proprietária
desta discrição e conversa que me prende a atenção, jamais chegue ao fim.
Escrevi, acredita, sem receio de me esquecer. Escrevi, podes acreditar, para
voltar sempre. E acrescentar. Mesmo que não seja hoje o lugar.
29.9.14
Derramar luz.
A
discrição é um facto que se recusa a deixar partir. É a velocidade de um feitio
que ganha contornos de mãos que jogam com a vergonha de expor mais do que
merece importância. A vergonha, palavra que desvenda sensações e incoerências
que dão voltas num monociclo que pensa como gente e obriga a condução de
acrobata gingão. Mas ultrapassa a vergonha. É um feitio que está inscrito
algures. E atrai esse contexto em que não é defeito, senão feitio. O equilíbrio
de um físico que se sustenta nuns saltos altos ou nuns rasos que nada roubam,
na elegância de um corpo que não procura revelação, antes convicção. É igual ao
que sente. As palavras nunca chegam ao fim, nem deseja fechar os olhos. Gosta
de ter tempo e viver numa conversa que tem um sem fim de segundos. O afecto que
partilha, sem obrigação, assenta-lhe na essência que impõe em cada relação.
Efectiva ou de situação. A discrição, conheço-a de outros tempos. Agora, é
infinita a vontade de que a partilha com a proprietária desta discrição e conversa
que me prende a atenção, jamais chegue ao fim. Escrevi, acredita, sem receio de
me esquecer. Escrevi, podes acreditar, para voltar sempre. E acrescentar.
29.7.14
Em diferido. #14
Foram
rosas, senhor - Saltou do carro. Há um vento fresco, uma contabilidade dos dias
e das temperaturas tão irregulares que obriga a fingir que terminamos,
desalmadamente, mais um ano. Vem de caracóis ao vento, escuros e tão definidos
que sossegam o todo. Um casaco de mangas arregaçadas. Saltos altos, como
sempre. É regra. Os óculos escuros escondem a direcção do olhar, mas o rosto
esboça o sorriso de sempre. Já a vislumbrávamos, pela vidraça corrida, antes de
entrar. Chegou, pousou a mala e levantou os óculos de sol. Falou à sala e
cumprimentou quem a esperava. Dois beijos. Nem se lembra, tampouco, da moda do
beijo singular. Sentou-se e depois de pedir, de gargalhada fácil, contou que
havia recebido um ramo de rosas. Já tinha a jarra em repouso, à espera de lhas
receber. De agora em diante, meus amigos, nunca menos que rosas. Anuímos. E
gabamos o gesto do homem apaixonado.
22.5.14
Foram rosas, senhor.
Saltou
do carro. Há um vento fresco, uma contabilidade dos dias e das temperaturas tão
irregulares que obriga a fingir que terminamos, desalmadamente, mais um ano. Vem
de caracóis ao vento, escuros e tão definidos que sossegam o todo. Um casaco de
mangas arregaçadas. Saltos altos, como sempre. É regra. Os óculos escuros
escondem a direcção do olhar, mas o rosto esboça o sorriso de sempre. Já a
vislumbrávamos, pela vidraça corrida, antes de entrar. Chegou, pousou a mala e
levantou os óculos de sol. Falou à sala e cumprimentou quem a esperava. Dois
beijos. Nem se lembra, tampouco, da moda do beijo singular. Sentou-se e depois
de pedir, de gargalhada fácil, contou que havia recebido um ramo de rosas. Já
tinha a jarra em repouso, à espera de lhas receber. De agora em diante, meus
amigos, nunca menos que rosas. Anuímos. E gabamos o gesto do homem apaixonado.
7.5.14
Homem escolhe procurar até encontrar.
Não
tem perto da minha idade, porque conta com mais de dez anos que eu, isto sem me
perder a fazer as contas de forma conveniente. É um desviado da
intelectualidade, embora, viva embrenhado nela. É uma contradição como quase
tudo o que lhe conheço. É um amigo que, aos poucos, deixou de ser um mero
conhecido. Aproxima-nos um punhado de coisas. Afastar-nos-á outras tantas.
Conhecemo-nos por entendimento da circunstância. E dos amigos em comum. É
divertido nas expressões e situações mais desengonçadas e sisudo nos momentos
mais informais. Outra contradição, lá está. Não é o preferido em muitos dos
locais onde se move. Porque não se apresenta, escolhe chegar e não pensa no resto.
Não oferece a preocupação de bandeja. Faz de conta que muito do que é não
impressiona os outros e repete, se preciso for, que não lhe causa aflição. Teme
outros males. Nunca viveu um casamento longo. Nunca, em nenhum dos quatro
casamentos. Aflige-lhe outras maleitas. A inesgotável vontade de arriscar no
próximo amor. É, nas conversas em que fuma um cigarro e mais outro, um defensor
do amor. Não lhe conhece as regras, as soluções. Mas entra na luta. Aqui, não
se limita a existir. Avança sem justificar o impulso do corpo e da mente.
Defende o casamento. Só é capaz de viver o peso da paixão e a leveza do amor
num casamento. Desafiado, responde que só amou o número de vezes em que se
casou. Do resto, como em tudo, não se preocupou. Tampouco, senão uma ou outra
lembrança lhe restou. Volta o desafio e responde que só pode com o peso do
sossego e desassossego exterior. Lá dentro, onde guarda o que é, não suporta o
tormento de não viver. Seja porque sim, seja pela infindável necessidade de
estimular. De viver até encontrar.
6.5.14
Em diferido. #8
Bastam-lhe
sessenta segundos. Soa Jeff Buckley. A vidraça quadriculada, cortada pelo
alumínio, está semicerrada. O dia a recomeçar contagem, vai e vem, já lá vão as
zero horas contadas ao soarem. A varanda ao relento, forte aragem e luar
pesado, corando a rua vazia, pingada de um cinzento que lembra uma película a
preto e branco. Peca ou deprava, reforçando o contentor afogado, lá ao fundo.
Nuvens de fumo, aos pulos tremidos, a fugir do cigarro meio, segurado entre os
dedos finos da atrevidamente desajustada, desalinhada e atraente mulher. Ela
repete-se nesta rotina. Debaixo da cacimba. Em trajes menores. Desnudada. Em lingerie. Porque já lhe agonia o sexo.
Diz da boca para fora. Porque lhe levaram a companhia maior. A mulher fuma para
matar o que a corrói. Para consumir os pulmões. Para secar as entranhas.
Levaram-lhe a companhia. A companheira. Desde que as viram embarcar num trocar sentido
de um beijo no vão da escada do agastado prédio. Do lugar que escolheram para
refúgio. Para amar. Em segredo. Guardadas. Até ao momento final. Amar diferente
mata, quando não há liberdade. À espera, esta mulher fuma. Passa, assim, o
tempo morto. Morta está. Até à salvação. Até ao regresso ou ao reencontro.
Ligou, desligou. Intermitente, o candeeiro de rua, ao lado, realçando as
sombras. Focando a diferença. Ostentando a fragilidade. Um fazer de conta, golpeando
a agonia. Um dia que volta e revolta, como o que está antes. Acabou. De costas,
chorou.
14.2.14
Sessenta segundos.
A
vidraça quadriculada, cortada pelo alumínio, está semicerrada. O dia a
recomeçar contagem, vai e vem, já lá vão as zero horas contadas ao soarem. A
varanda ao relento, forte aragem e luar pesado, corando a rua vazia, pingada de
um cinzento que lembra uma película a preto e branco. Peca ou deprava,
reforçando o contentor afogado, lá ao fundo. Nuvens de fumo, aos pulos
tremidos, a fugir do cigarro meio, segurado entre os dedos finos da
atrevidamente desajustada, desalinhada e atraente mulher. Ela repete-se nesta
rotina. Debaixo da cacimba. Em trajes menores. Desnudada. Em lingerie. Porque já lhe agonia o sexo.
Diz da boca para fora. Porque lhe levaram a companhia maior. A mulher fuma para
matar o que a corrói. Para consumir os pulmões. Para secar as entranhas.
Levaram-lhe a companhia. A companheira. Desde que as viram embarcar num trocar sentido
de um beijo no vão da escada do agastado prédio. Do lugar que escolheram para
refúgio. Para amar. Em segredo. Guardadas. Até ao momento final. Amar diferente
mata, quando não há liberdade. À espera, esta mulher fuma. Passa, assim, o
tempo morto. Morta está. Até à salvação. Até ao regresso ou ao reencontro.
Ligou, desligou. Intermitente, o candeeiro de rua, ao lado, realçando as
sombras. Focando a diferença. Ostentando a fragilidade. Um fazer de conta, golpeando
a agonia. Um dia que volta e revolta, como o que está antes. Acabou. De costas,
chorou.
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