Lá
vai Lisboa vestida de qualquer coisa, porque nos falta os adjectivos. Peca o
termo, porque não veste senão a inteligência, a simpatia, a ternura e a eterna luz
de quem a habita. Neste bairro de nome fácil e conhecido, onde nos lembramos
das marchas populares e da sardinha no pão, assim nos vemos chegados ao seu
espaço. As conversas paralelas, desta janela para aquela. Aquele grito de
verdade, que alude ao pregão de quem, em outros tempos, batia à porta. A vizinha
bonacheirona que brinca com as travessuras que vivem na imaginação dos lençóis.
Os homens que se encontram para beber qualquer coisinha e falar do que já
passou. À esquina, juntam-se as comadres, ouvem-se risadas graves entre as
mentiras com dó e as falsas verdades. O fado que vai acompanhando. Não deixa de
estar, mesmo que avances rua acima, rua abaixo. As cordas sobre as cabeças, ora
cheias da roupa que alguém lavou, ora despidas do branco algodão. Os números
pares deste lado, os impares do outro. As plantas em vasos desavindos mas
impecavelmente cuidadas. Debaixo desses números, portas que escondem outras
pessoas e espaços de convívio. As mesas a espreitar, as toalhas típicas, as
paredes no tom, as garrafas no alto. Vende-se aqui. Apelam e não dizem mentira.
São os melhores, aqui na Tasquinha da velha senhora. Tem bata axadrezada, o
cabelo branco, óculos de avó simpática, jeitos de mãos trabalhadoras. Mesmo a
descoberto, ali ao ar livre, não é esquecido o santo, que não é padroeiro da
cidade mas é casamenteiro. Não se esgota aqui, o bairrismo encantado. Vive, sem
esquecer, o preconceito no outro lado. Aquele snobismo encartado. Como se uns
brincos grandes e pendentes fossem empecilho. Ou uma mala com nome influente.
Perguntam-me, sempre que falo assim de uma Lisboa que não sendo minha, me
apaixona todos os dias, como é que é possível gostar-se assim. Não sei, é a
resposta. Continuam as questões, apelando, agora, ao facto de, em momento
algum, eu ter vivido a experiência de viver num bairro típico desta cidade. Não
sei. Não tenho resposta. Não tenho outra, senão esta.
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6.7.15
11.6.14
Amor e um chapéu.
Nunca
usei chapéu da porta para fora. Talvez, como se isso fervesse importância,
porque o desconforto é superior à vontade. É tão absurdo como verídico. Como se
jogasse com valores ou tivesse qualquer validade para lá de uma simples vontade.
Lembro-me de usar um ou outro boné, ainda, um ou outro gorro. Usava-os em
circunstâncias pontuais. Podiam ser os mais caros e ter as marcas da moda a
gritar por todos os poros do que servia para cobrir a cabeça, que não me
tomavam qualquer paixão. Viessem de que ponto do mundo viessem. Em serviço da
verdade, embora, as tivesse a todas, as marcas, a dado instante, deixaram de
ser um todo. Talvez ficassem pelo acessório. Pousei-os algures, aos bonés e
gorros, e deixei-os para destino incerto. Em tempo algum voltei a usá-los. Mas
o chapéu é diferente. Não sei se desenho ligação com o facto de, há uns anos,
ter herdado um. Do meu avô. Era, para mim e para o meu avô, uma peça
importante, por diferentes motivos, claro. Não me esqueço, mesmo quando a
memória fraqueja, de vê-lo num dos quartos da casa dos meus avós, em jeito de
exposição. Qual obra de arte. Era um apontamento de uma decoração cuidada. Um
quarto, como outros, a ser de visitas, mas raramente usado. Raras, também, eram
as vezes em que, ao visitá-los, não passava por ele. Pelo quarto e pelo chapéu.
Também este, nunca usei. As razões, aqui, conduzem outras avaliações. Guardo-o
com estimação. Mas outros, havia de usá-los. Gosto de chapéus, sem explicação,
mas nunca os ousei usar. Lembro-me disto, se tem relevante sentimento, porque
partilhei, este fim-de-semana, a esplanada com gente boa e genuína. Entre essa
gente, estava um homem com bem mais idade do que eu, com uma pinta sem igual.
Daquelas de capa de revista. Barba cerrada, mas cuidada. Óculos de sol vintage, como se diz. E, claro, um
brutal chapéu. Inevitavelmente, falei-lhe de chapéus. E gabei-lho. Depois de me
passar tantos relatos, ficou de me levar a uma chapelaria de outros tempos.
Quem lá entra, apaixona-se. Que eu aproveite enquanto dura.
9.6.14
Maravilhas num banho de delicado caldo cor de vinho.
Partilhei
um prato requintado, um crepe atrevido e um vinho de qualidade. Derreti um
beijo de vagar demorado. Disse palavras bonitas, por serem sentidas. Sinto-me
espontaneamente romântico. Tal e qual um repentista. Quiçá, esteja certo. Já me
posso casar. Já sou um rapaz de interesse público. Vista-se a noiva a rigor.
Salte-se-lhe o ramo das mãos para lá do véu. Mas não me ofereçam máquinas.
Entendo que sou aquele que não as dispensa, mas não traz sempre consigo o que
ainda não se inventou. Tanto havia para partilhar à entrada. Vamos numa
demorada troca de olhares? O espectáculo merece-nos atenção. Rufem os tambores.
Aproveitemos a acústica. Há dias que vão. Outros tantos que se resumem a vir.
Românticos ou não.
12.12.13
Eu disse-lhes que são ocupações remuneradas pelo consolo do coração.
Sabem
do meu gosto pela arte. Têm conhecimento do meu gosto pela arte da fotografia.
Gosto, no meu limiar, pela fotografia. Não vou ao excelso da arte. Dou, ao
sabor da paixão de principiante, o meu toque, a minha visão e o meu
enquadramento. Sabem. Ou antes, vêm tomando conhecimento. Vêm falando, em
ocasiões de lazer, das minhas fotografias. Das minhas imagens. Do meu gosto
pela fotografia. Contam, nessas ocasiões, que fotografo, num género de ocupação
dos tempos livres e sequioso da experiência, que bate a ternura da eterna
entrega a um amor. Não será paixão, que não a tenha efémera. À fotografia,
ainda que, muito minha e, quem sabe, no meu jeito de princípio entregue, vejo-a
para sempre. Quero-as de rostos limpos ou marcados, sérios de sensibilidade ou
bocas agigantando-se em sorrisos reais, paisagens virgens, montes afoitos,
pessoas distraídas a viver o compasso, mensagens de rua, portas e janelas,
pormenores e maiores atracções. Não tenho sempre uma máquina comigo. Lamento-me
quando esqueço teimar que ela não me importa como companhia. Porque deito fora
o melhor dos cliques. Dos meus cliques. Porque não me cansam os amores vários,
as ocupações do coração. Goste-se ou não. Faço-o por mim, desde logo. Partilho,
se me munir de vontade. Os amores, até os vulgares ocupadores de simples actos,
não têm que ser louvores. Nem têm razão para que não sejam glórias. Não tem início
em ti. Uma vez criados, resultam-se em autónomos retratos partilhados.
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