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2.10.14

Irreflexão sobre a prudência.

Se a memória não me falha, sempre que oiço alguém responder que é ecléctico, seja qual for a faculdade ou preferência a que se refira, que vejo um sorriso esboçado, em alguns casos, uma gargalhada. Talvez, porque as massas abusam de uma certa necessidade de jogar com uma bengala que está sempre presente. O eclectismo, na boca de alguns, não tem génio. Por seu turno, poder-se-á pensar, até aventar, que tem génio que não dorme bem. Um génio ruim que consome a razão a tudo quanto espreite ao seu redor. É uma natureza quase maltratada. Brinca-se com a palavra, porque sobre ela nunca se pensa com a efectiva necessidade que propõe. Encrava uma qualquer necessidade de puxar de um cliché. Tão blasé que perde explicação. É uma sorte reinventada viver na incerteza de que não há certezas, também quando eclécticos, senão dedicar verdade à palavra alheia. É uma saudade de procurar outros vocábulos.

25.9.14

Manifestações de uma sociedade.

Hoje já tive oportunidade de partilhar este jogo, porque é verdade. Gosto de brincar com as palavras. Gosto do português de mil maneiras. Opto, quando o espírito não tem tiques de abantesma, por usar dos significados, da surpresa de nunca me repetir. Embora, saiba tão bem, me aconteça amiúde. Num acaso que é tão acaso como cruzar com alguém a quem conhecemos as rotinas. No caso, voltei a tomar encontro com uma das mais ouvidas músicas, num tempo em que a idade escolhia conforme a resposta de cada batida. A música responde. Porventura, nasce daí a tendência de procurar, com maior ou menor frequência, um determinado estilo. Soa-me bem o italiano. Já escrevi e já o disse. Embora, à excepção deste tema e de outro, nunca me lembro de ouvir cantar nessa língua. Estava a ouvir música italiana. Uma indefinição de estilo. Falam de um pop com destemidas influências. Inclusivamente, este cantor/compositor não deixa de salpicar este pop italiano com um notório hip-hop. Nisto, toca o telemóvel e resta-me um padronizado toque. Reduzimos as diferenças ao ponto de, numa sala com algumas pessoas, em tocando, todos procurarem o telemóvel.

6.8.14

A minha pátria num muro exterior.

 
Escrevi na imagem acima, a frase de um povo. Conhecida como quem não se cansa. Sabida na ponta da língua por quem não se recusa a ler e a entender. Nas entrelinhas. Nas linhas corridas, de pontuação a decorar. Num torneio arredondado de pensamentos entrelaçados com emoções e valentes composições. De ideias, entenda-se. Lamento-me sempre. A minha desajustada coerência e, se quisermos, o meu equilíbrio bambo. No epicentro da decisão, escolho não carregar uma máquina. Tão especial objecto. Uma oportunidade brava. O telemóvel não me serve, quando ganho outras ideias. Mas, neste verão à pressão, estava feita em grafítis, a expressão. A rua movimentada, pareceu-me, não prestou atenção. Qual carimbo numa parede de branco a desfazer. Letras negras. Fernando Pessoa, nacionalista de crença contemplativa, ali. Tão cru. Em bruto. A fonte escolhida para letra. Os tons sem especial atenção. Uma pátria que lhe ganha as formas. Salve-se a cultura. A língua. Ironia, a verdade desenhada numa parede portuguesa.

21.7.14

Dialecto temperado e prosa retalhada.

Dizem-nos, a conjuntura social e os clichés, que já não se escrevem cartas, seja por que motivo for. Guardou-se, algures, o hábito de escrever em papel, de caneta em punho, as palavras que, verdadeiras ou não, passavam mensagens. Impediam, porventura, que se deixasse para depois. Fazendo a ressalva, claro, do período entre o envio e a recepção. Enfim, questões sociais à parte, aproveito o escrito fechado e a data de hoje, tão importante, para deixar correr prosa. O léxico, daqui em diante, pode confundir-se e parecer vulgar, mas é sentido e ajeitado pela vasta gama de sensações. Longe vai o tempo em que nos conhecemos. Lamento, sempre, o facto de a minha memória ser afoita e, por isso, fugir-me amiúde. Não encontro precisão em tudo o que ficou para trás. As datas preferem oferecer-lhe companhia, à memória, e, assim sendo, deixam-me longe de chegar às ocasiões. Algumas, por certo. Gabo-te, inevitavelmente, o teu jeito seguro de opinar sobre tudo, de arriscar numa vida diferente, de seguir por caminhos distantes do óbvio. Gabo-te, igualmente, o sentido de humor timbrado e apurado, a ousadia que imprimes na série de palavras que deixas fugir faladas. São características que imortalizam a imagem que todos, sem excepção, guardam de ti. São pedaços do que, enfim, todos encontram em ti. Tens essa particularidade, um tanto extravagante, que fortalece os laços. Acho graça. Fica-te tão bem, que ficarias a perder se os deixasses, sossegados, no lugar devido. Seja qual for o valor que somemos, importa o vagar como voltas e conduzes a tua vida. Este jogo é, como sabemos, uma sombra disso. Não te canso mais com o meu discurso dotado de sensibilidade, nem desgasto as tuas dioptrias. Até já!

17.10.13

'Geek', porventura.

Não venhas tarde, sem qualquer referência indiscreta à letra, arrisco poema que é musicado em fado, é uma forma ardilosa de atrasar o empolado palavrão dos dias que correm. À espera de serem certeiros e áridos na escolha lexical mas, fugindo à compilação de banais adjectivos portugueses, escolhem chama-los de geek. Tantas vezes, ignorantes do significado do termo, lançam-no em voz acesa. Porventura, também as palavras e/ou termos, são moda. Resvalam os nossos convictos conceitos, enquanto, numa esplanada, fazemos o mesmo. Apelidamos, quem passa, de geek. Seja o que isso for.