Um estilo muito próprio - Já é Primavera, num Portugal tomado pela
gentileza de ser. Não sei como lhe chamar. Se largo, praceta ou uma rua
enviesada. Mas cumpre a função, seja qual for o nome que lhe dão. Nesta cidade
de gente nova a passear as roupas despidas, a meia-idade não tem trejeitos à
vista. Guarda-os no sossego da sala de estar do apartamento que ainda paga ou
no baile de esperança e expectativa, cujo propósito é juntar os divorciados e
os viúvos da zona. E dos arredores. Ou, se permitirmos, é tudo mentira. Fatal
utopia, a de antecipar a vida alheia. Sinto-me visita quando volto. Por certo,
porque nunca fui senão visitante com curiosidade e paixão. Por ser impossível,
não esqueço um lugar como este. Onde as tradições nacionais e regionais ainda
existem, mas vão falecendo. Tão moribundas como as ruas numa hora vazia. Lá,
onde vestir bem e sair para a rua, parece ter um duplo sentido.
Desassossegam-se as almas exânimes, tomando fulgor de última temporada. Depois
de levar o corpo pela cidade, volto à praça pequena ou rua sem entrada. Fica
lá, qual majestade, a padaria. Das antigas, onde o nome do fundador é história
relevante. No cimo de uma das portas principais, lá está o nome cravado. Entrei
e falavam de idade e do peso de não conseguir contrariar os declínios. Estava,
daí a conversa, uma senhora de noventa e quatro anos ao balcão. Um charme.
Quando existe, não morre. Jamais. A minha mãe lembrou a minha avó. Viva e tão
apta. À saída, a mesma senhora. Ajudamo-la. – Obrigada, meus queridos. A figura
tão torpe que uma velha consegue fazer. Obrigada e perdoem-me a desfeita. –
Sorrimos. Antecipou um pensamento. Felizmente, em tempo algum, poder-nos-ia
invadir a lembrança. Tenha um bom dia. Até qualquer outro.
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23.3.15
Um estilo muito próprio.
Já
é Primavera, num Portugal tomado pela gentileza de ser. Não sei como lhe
chamar. Se largo, praceta ou uma rua enviesada. Mas cumpre a função, seja qual
for o nome que lhe dão. Nesta cidade de gente nova a passear as roupas
despidas, a meia-idade não tem trejeitos à vista. Guarda-os no sossego da sala
de estar do apartamento que ainda paga ou no baile de esperança e expectativa,
cujo propósito é juntar os divorciados e os viúvos da zona. E dos arredores.
Ou, se permitirmos, é tudo mentira. Fatal utopia, a de antecipar a vida alheia.
Sinto-me visita quando volto. Por certo, porque nunca fui senão visitante com
curiosidade e paixão. Por ser impossível, não esqueço um lugar como este. Onde
as tradições nacionais e regionais ainda existem, mas vão falecendo. Tão moribundas
como as ruas numa hora vazia. Lá, onde vestir bem e sair para a rua, parece ter
um duplo sentido. Desassossegam-se as almas exânimes, tomando fulgor de última
temporada. Depois de levar o corpo pela cidade, volto à praça pequena ou rua
sem entrada. Fica lá, qual majestade, a padaria. Das antigas, onde o nome do
fundador é história relevante. No cimo de uma das portas principais, lá está o
nome cravado. Entrei e falavam de idade e do peso de não conseguir contrariar
os declínios. Estava, daí a conversa, uma senhora de noventa e quatro anos ao
balcão. Um charme. Quando existe, não morre. Jamais. A minha mãe lembrou a
minha avó. Viva e tão apta. À saída, a mesma senhora. Ajudamo-la. – Obrigada,
meus queridos. A figura tão torpe que uma velha consegue fazer. Obrigada e
perdoem-me a desfeita. – Sorrimos. Antecipou um pensamento. Felizmente, em
tempo algum, poder-nos-ia invadir a lembrança. Tenha um bom dia. Até qualquer
outro.
30.10.13
Amuse bouche.
As
tábuas escoltadas fazendo passadiço, decorrendo do portão de acesso. Passado o
cartão, a marina lucra. Os saltos, pouco altos, dando pancadas na madeira. A
companhia, de sapatos moderados, acompanhando o passo. Tentada a fugir do andar
desengonçado imposto pela incerteza do soalho fementido, aproxima o seu braço
esquerdo do braço direito dele, mais forte. Em modo de convite. Ele aceita a
sugestão. Também de outros tempos. O gesto acredita e põe à vista os muitos
anos de companhia. Outros tantos de casamento. Juntos, escolheram o dia de
outono, agora disfarçado de primavera azougada, para um passeio de barco. O
pescoço dela, acomodado por um lenço, os cabelos resguardados por um garboso
chapéu, terminando o figurino. Ele, de malha cobrindo os ombros, a camisa de um
azul pouco trigueiro. De movimentos e expressões felizes, deslizaram água fora,
com a vista privilegiada que o barco oferece. Voltaram à marina, agora para as
despedidas. Não nos levaram. A vida, a dada altura, oferece outras vivências.
Permite-los viver, novamente, a dois. Para trás, fica o barco. Porque, mesmo os
aperitivos têm o seu lugar. Quando têm importância, ficam arrumados no lugar
certo. Seguiram caminho, igualmente felizes. Os aperitivos só fazem falta a
quem os toma. Permito-me pensar.
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