Ver
uma pessoa, absolutamente só e à chuva, de mala no chão, sapatos alagados, à
espera de algo ou alguém, com a mesma postura e olhar de quem fica suportada
pela parede luzidia num dia de verão que conserva o calor e publica o sol mais
atrevido. Não resisto, assim, de sorrir e permitir ter no pensamento que, vida,
ambição e esperança, cada um toma a que quer.
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31.3.14
7.3.14
Especialmente no lugar certo.
Tenho
uma pessoa especial. Desde os tempos em que nos sentávamos lado a lado e
partilhávamos mais do que um lugar. Tenho a sorte de ter uma pessoa especial.
Não sei se é assim que se chama, mas apetece-me. Se posso colocar o sentimento
nestes termos, porquê evitá-lo? Questionei-me, acreditem, neste instante. Nunca
me havia assaltado a dúvida, senão agora. Mas, dizia, tenho uma pessoa
especial. Por várias razões, diferentes termos, imensos anos, tantas
experiências, diversas partilhas, quantas conversas, grandes silêncios,
repetidas chamadas, inequívocas e sucessivas mensagens. Dos sms, se preferirem. Das outras também,
as subliminares. Não é Ela. Agora.
Mas é uma pessoa especial. Senão, a minha pessoa especial. Neste período, não é
sexo, não é carnal. É, insisto, especial. E, sempre que é esta pessoa que me
conduz, ao entrar-lhe no carro, pergunta-me pela escrita. Pergunta-me quando
ganho coragem. Quando volto a escrever como deve ser. Por seu turno, quando sou
eu que a conduzo, entra-me carro adentro e pergunta-me, um sem número de vezes,
quando volto a escrever. Quando é que escrevo e não jogo fora. Nunca sei como
responder. Escrevo, mas de outra forma. Com outra visão. Mas agradeço-lhe a
insistência. Fá-lo sempre que se lembra. Porque é especial. Disserto sobre ti
enquanto ouço uma música antiga que sucede outra ainda mais antiga. O que é
especial não finda. Seja na escrita, seja na definição do que sentes. Mesmo
que, ao longe, nos falte o verbo. Adapta-se. Possivelmente.
23.1.14
Até já, então.
Diariamente,
ignoramos as palavras. Debitamo-las sem justificados pensamentos. Roubamos-lhes
valor. Não digas adeus, sob pena de pareceres definitivo. Fica-te por um até
depois ou por um básico, mas atraente e desconcertante, até já. Na ocasião em
que o melhor que se partilhou, se finda, é importante semear um regresso. Da
pessoa que nos é grata. Tal a sua dimensão e importância. Posto isto, o
aeroporto é um terreno maninho, disfarçado de um ingénuo e multiplicado jardim
exótico. Será o segundo, por razão do regresso. Nas partidas, ver o outro corpo
afastar-se, não é conforto. Torna-se efectiva, a ausência marcada. É um cruel
até já. Porque, ao sabermos isso, esperamos um retorno. O retorno. Sempre já.
Mesmo que seja até lá. Seja o nosso já. Habituei-me à expressão, por via dela.
Por ela. Até já, então.
21.1.14
À maneira.
Não
me canso, jamais, de ficar a vê-la. Tão simples e natural, ali. A saber,
observada com verdade. A sinceridade possível. Enquanto, aparentemente alheia,
se deixa observar, ficamos. Absortos. Em nós. Porventura, da melhor maneira. À
nossa melhor maneira.
6.8.13
Move-se como ela.
Desde
aquela noite, que a recordo de forma diferente, toleravelmente diferente. Não a
conheci novamente, conheci-a um pouco mais. Fiz por estar com ela. Ela percebeu
e reconheceu. Disse-mo. Hoje volto a lembrá-la. Estava impecavelmente vestida
no centro da pista, ornada a rigor, como sempre, para o momento. O negro que
envergava no tronco, brilhando no lugar certo. Os saltos elevavam, ainda mais, a sua beleza e
elegância reais. Entre a multidão que nos rodeava, ela destacava-se, de forma
natural, sem precisar de forçar a sua presença. Lembro cada gesto, cada
movimento, cada sorriso e olhar. Movia-se como guardava vê-la mover-se. Dançava
ao som da música que, ao fundo, na cabina, o DJ colocava. Cada palavra que
trocamos não esqueci. Os sussurros e as respirações compassados que trocamos,
igualmente registados. O que me contou, dizia, em jeito de segredo. E ela
dançou. E ela moveu-se por ali. E, agora, volto a lembrá-la. Volto a vê-la. E
apetece-me, dizer-lhe, uma vez mais, que ela não imagina nem reconhece o que é.
Apetece-me recordar-lhe que a sua beleza, postura e presença ultrapassam, em
larga escala, o que ela vê. Porque ela é muito mais do que mostra e do que vê.
Porque, ao contrário, do que acredita, as que a acompanham ficam muito aquém,
quando comparadas com ela. Porque ela é beleza e conteúdo. E ela dançou. E ela
moveu-se como jamais me esqueceria. E fiquei a vê-la dançar. E perdi-me a
assistir ao que, a dado momento, seria um verdadeiro espectáculo, sem ensaio ou
preparação. E ela dançou. E ela moveu-se como ela. E eu, neste preciso momento,
enquanto recordo o momento e o movimento, sinto impreterivelmente o que senti
ali.
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