O
trânsito está caótico. Mais à frente um carro todo simpático, pintado de um
amarelo sereno, “decidiu” invadir uma propriedade privada. Muro ao chão. Murro
no coração. Imagino a tensão. Vejo uma senhora em aflição. Gente a assistir.
Ansiosos e com a eloquência nas mãos. Os meios de socorro já lá estão. O trânsito
está caótico. Quase parado. Brinco com os dedos no volante. Faço retratos
mentais do que tenho para fazer. Começo a acreditar que vou chegar fora de
horas. E não vou perdoar. Não consigo funcionar de outra maneira. O relógio no
pulso de sempre, o direito, alerta para os minutos a escassear. O carro também
não deixa passar. Toca o telemóvel e hesito. Acabo por atender. Falam do banco,
mais assuntos pendentes e questionário de qualidade. Volta o rádio a tocar. Raramente
mudo a estação que escuto. Servem-me jazz. E nunca digo que não. É uma paixão
antiga. Antes mesmo de ter conhecido a M. Bem, muito antes. A M. entrou na
minha vida já a adolescência corria a bom ritmo. Ela era morena, de olhos
claros. Tinha um cabelo bonito, longo. Era, na altura, uma artista de jazz em
potência. Confirma-se hoje, artista de excelência. Tinha um jeito doce, meigo e
bastante reservado. Nitidamente tímida. E não perdia nada, só lhe acrescentava
charme. Andava, sempre que possível, com o instrumento. Ou eram as aulas ou os
ensaios. Ou os tempos vazios ou a vontade simples. Com ela tomei conhecimento
de mais aspectos deste género musical. E outras tantas partilhas que só nos
fizeram crescer. Enquanto gente em formação interior, cívica e artisticamente. Era
francamente bom. Acabámos por seguir caminhos diferentes. Nada beliscados, mas
com fraca força para dar continuidade a uma relação de convivência próxima. Até
porque ela foi viver para outro país. E os trejeitos da vida não têm de ter
sempre uma justificação. Ou a justificação que pretendemos. A M. continua
sóbria e apaixonada pela arte. O eterno caminho da salvação. Acredito e lembro
sempre que posso. Por maior que pareça o caos, se amares a arte, tens o destino
beneficamente traçado.
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11.5.17
8.5.17
A minha mãe tem claros olhos.
Consigo
rir-me vezes sem conta com e pela minha mãe. Por isso, é sempre uma excelente
companhia. Com o seu jeito quase desmanchado, um tanto contrastante com a
educação e a época que guardou. Tanto mais, quando comparada com a dureza da
sua mãe, minha avó. É de riso e trato fáceis e isso, parece-me, ajuda. Acredito,
é uma boa bengala para a condução dos dias e das expectativas. Talvez por isso
tenha a palavra sempre à espreita, sem esperar, tão sôfrega a vontade de
palrear. Sem escolher o parceiro do diálogo ou desmentir a importância de cada
um. Capaz de aturdir com os pensamentos mais desconcertantes, contudo, inócuos.
O seu telemóvel tem uma vida autónoma. Faz a sua própria gestão. Não pergunta
por nada. Some-se o som, toca largos segundos e não emerge da mala sem fundo. A
carteira menor, idem. Corre o mundo – felizmente reduzido às quatro paredes de
casa - sem que dê por isso. Tem a letra mais bonita que já vi. Gostava de ler
uma novela verdadeira saída das suas mãos. Um deleite, consigo imaginar. Deixa
fugir todas as vezes que é amanhã que faz dieta. E sei, é a sua forma de largar
no vazio dos dias o peso da consciência. Da minha mãe não herdei os olhos
esverdeados. Perderam-se as vastas oportunidades que os olhos claros trazem à
vida de cada um, como bem sabemos. Assim, na retaguarda, consigo adivinhá-los.
Todos e em cada molde. Cabe a brincadeira nestas verdades. A minha mãe não me
deixou os bonitos olhos de herança. Teceu outros e mais apurados aconchegos.
Ensinamentos e conselhos. Sou, ora bem, para além de uma ovelha com ares de
ronhosa, um desditoso filho. Saí da forma e fiz-me gente sob a persistente e
incessante mão cuidadora. Volta sempre a passar a mão pelo meu rosto, com a
barba por aparar, e a beijar-me sem aviso. Sem antes, claro, lembrar que já não
trocamos beijos como antigamente. É a queixa que não perde validade. É isso e
os abraços demorados. Lá fora, entre o jardim do pai, as flores que avó teima
em cuidar e o eterno banco. Ao sol, com cheiro a primavera e o sabor de todo o
ano. Com uns olhos vivos e bonitos numa moldura especial.
24.4.17
Fenómenos da sintonia.
Vem
bamboleante, descomprometida, livre e veraneante. Um vestido comprido, nele os
dias felizes desenhados. Flores e flores miudinhas. Deve ter também ramos e
raminhos. As cores fortes, atractivas. O rosto vestido com o sorriso rasgado de
todos os tempos. O cabelo a tocar nos ombros, com a mesma vivacidade e postura.
Uns brincos que fingem ser gigantes, tamanha a moldura. Uns óculos de sol totalmente
retro, a lembrar uns que a minha mãe teve em tempos. Calça uns CONVERSE ALL STAR brancos. Traz uma
alcofa por laços e tecidos bonitos adornada. Acena a este, diz bom dia àquela.
Brotam do cesto vistoso, verdes e outros que tais. Espreitam quem passa. Pede
meia dúzia de ovos caseiros, aconchega-os junto aos primeiros. Agora sim, vê-me
e antes de apressar o passo na minha direcção, deixa fugir o sorriso habitual e
o aceno de mão com vida. Devolvo-os sem esforço. Pousa o cesto requintado e
abraçamo-nos como da última vez. Não vem de longe a minha demora nos exemplos
físicos do afecto. Mas aconteceu com a convicção de que não é obrigação. E de
que não me disponho para qualquer um. Não somos todos iguais, tampouco nos são
todos iguais. Ainda presos no abraço, diz-me que cheiro bem. Avança que mudei
de perfume. Que estou igual, mas mais refinado, que faço-a pensar no maior dos
nossos encontros. Algures no metro, antes de sumirmos por dias. Onde, sem
reflectir, parecia que não teria fim. E, em abono da verdade, não teve.
Sintonizámos, por seu turno, outras estações, mas mantemo-nos ouvintes e
apaixonados por aquela frequência em particular. Vivemo-la de outra
perspectiva. Agora, olhos nos olhos, elogiei-lhe o traje e o bom ar. De quem
está feliz, consciente disso e a fazer por isso. Trocámos ainda palavreado que
não importa transcrever. Por mais tempo que gastemos ou voltas que o mundo
trave, não me canso de elogiar as pessoas que vêm cruzando a minha vida. Neste
ou noutros planos. Tão simplesmente reais e essenciais, que ficam para sempre –
salvaguardando as excelsas excepções. Que merecem o meu afecto. E cujos
encontros nunca são demais. Bons dias.
20.3.17
Efeitos de um coração bom.
Tem
as pernas cruzadas, sentado sobre a cadeira larga. De madeira e verga. Uns
sapatos bonitos, castanhos, limpinhos, todos finos. As calças engomadas, beges,
bem vincadas. A camisa de boa qualidade, num azul claro, num tom sincero. Uma
malha escura, elegante, toda delicada. As meias espreitam por entre as calças e
os sapatos. Lisas, sóbrias, nada coloridas, da nação dos sapatos. Como manda a
lei. Lembra-lhe, a falta de vista ao perto, de trazer os óculos pendidos sobre
o peito, ao nariz. Assim mesmo, à pontinha. Brinca com os olhos, na frente vê
com a ajuda, para lá, olha com a vista despida. Pega no jornal que está sobre a
mesa baixa, lê as gigantes da capa. Atesta o descrédito das palavras e dos
actos. Demora-se na leitura habitual de fim-de-semana. Atento, deixa fugir aqui
e acolá, algumas palavras, uma espécie de comentário do absurdo. A
incompreensão a tomar-lhe as veias. Apoquentam-lhe as fragilidades deste
terreno, da sociedade de todos. De cada um. Emergem as vivências de outras
épocas. Enfim, termina a leitura. Fecha o jornal, dobra-o com vagar. Devolve-o
à mesa. Tece um último comentário, garante que não compreende. Um balanço que
entendo. Sugiro que procure outras leituras. Que não fique só pelas notícias.
Com um sorriso típico de quem sabe que tem a resposta certa, responde-me que
sim. Que não vivemos somente do semanário que ainda escreve assente na acção,
tampouco do pasquim diário. Remata dizendo que voltou a Tolstói, e à sua “Ana
Karenina”. Não fui capaz de suster o riso. Tem toda a razão. E leva vantagem.
Que não leio como dantes, nem volto a Tolstói como me apetecia. Ficou definido
que vai dar-mo, assim que termine a releitura. Ora, essa. Muito obrigado. Os
grandes corações agem como se o espaço e o tempo fossem inexistentes. Queria
ser uma ínfima parte. Garanti-lhe.
8.3.17
Em diferido. #56
Breviário sobre o espaço e o tempo - Assomou-se à porta e num
poucochinho de voz lembrou-lhe que tinha esquecido o relógio. Não abusou do
postigo, pintado de branco imaculado. A porta encarnada e gasta, numa madeira
que grita ao sabor da medida interna dos instantes. Ele devolveu-lhe o olhar,
sorriu e num passo de corrida chegou-lhe perto. Toma lá, desnaturado, avançou
ela. Nestes lugares, meio pequenos, ainda se vê o que parece ido. O tempo,
sendo o mesmo, cavalga noutro ritmo. As portas ainda se encontram entreabertas,
a mercearia ainda tem lugar, as senhoras de idade não deixam os lenços em casa
e as batas a proteger a roupa. Ainda escolhem o fato domingueiro e vão à missa,
que o padre é bom homem e a religião ainda comanda os trejeitos do lugar. Os
velhos senhores não dispensam o boné e o chapéu e trocam cartadas numa mesa
improvisada. As varandas e janelas têm suportadas as roupas a secar. Ladeira
acima, com a calçada gigante, leva uma alma, um saco à cinta. Eu sou visita de
uma gente que tem receio, num primeiro contacto, de olhar na cara, mas não
perdoa os bons dias. Vou olhando com calma, especado no centro da passagem. A
matriz é imponente e guarda o centro da vila. Os mais pequenos passam a fugir.
Os carros são poucos, mas estão bem cuidados. Passa um tractor com feno e um
senhor cuja idade parece não o consumir. Imagino-lhe animais de grande porte à
espera. Num jardim, uma estátua. Lembra-me um tio. Irmão da minha avó, homem
eternamente solteiro. Dono de um corpo leve, mas impecavelmente vestido. As
calças vincadas, os sapatos brilhantes, as camisas de bom tecido, os pulôveres
sempre engomados. E, por fim, o chapéu. Sempre o chapéu. E o relógio de bolso.
Sempre a tirar as horas e a dar-lhe corda. Ainda me lembro, no seu jeito
aparentemente rude, sentado na sala, com o relógio na mão e o chapéu pousado no
joelho. Conversámos, era eu um miúdo, sobre frivolidades. Tenho hoje um bonito
relógio de bolso. Herdado, claro. De um tio. Do meu tio. Sair do nosso lugar e
tempo é conhecer e aprender. É aludir aos nossos. Às nossas memórias. E sempre
com a corda toda.
13.2.17
Ventilar numa segunda-feira qualquer.
Aventar
impugnar sobre política é insano. Tão utópico, quanto estimulante. Por força
desta incoerência, um destino que não guarda facilidade no trato e na reacção.
Mesmo que reduzas o debate à tua sala de estar, ao café de sempre ou ao
restaurante que te faz voltar. Ainda que o teu interlocutor seja alguém com
quem privas amiúde, a quem ofereces tempo sem peso, por quem nutres fortes e
inesgotáveis sentimentos. Noutra escala, muda o terreno, a bancada de
espectadores e, se não te perderes, a cabal convicção das palavras. À frente,
outros fazedores de opinião - de quem desconheces a rotina, a herança dos
afectos, as escolhas que fazem fora deste ambiente - capazes de zelar pelo que
acreditam com todas as armas. Se, ao invés de um deles, estiveres na
assistência, vais conhecendo vocabulário que se repete, discussões antigas,
confrontos que não acrescentam e, lamentavelmente, não poucas vezes, o
afastamento do essencial, da troca que importa. Aventar impugnar sobre política
é ímprobo, mas tão fundamental. Num mundo vestido às avessas, destemido na discrepância
de valores, fraco na condução das potências e desigual como jamais quisemos.
Isto lembra-me alguém. Uma mulher tão politizada quanto humana, que não se coíbe
de apelidar a política, generalizando, obviamente, como reduto de uma sociedade
derribada. Levanto questões, mas não deixo de ter um prazer imenso em ouvi-la.
Vê-la de pernas justapostas, mãos incapazes de sossegar e de discurso bonito na
ponta da língua. Assim parece fácil. Assim sou capaz de acreditar.
14.4.16
Breviário sobre o espaço e o tempo.
Assomou-se
à porta e num poucochinho de voz lembrou-lhe que tinha esquecido o relógio. Não
abusou do postigo, pintado de branco imaculado. A porta encarnada e gasta, numa
madeira que grita ao sabor da medida interna dos instantes. Ele devolveu-lhe o
olhar, sorriu e num passo de corrida chegou-lhe perto. Toma lá, desnaturado,
avançou ela. Nestes lugares, meio pequenos, ainda se vê o que parece ido. O
tempo, sendo o mesmo, cavalga noutro ritmo. As portas ainda se encontram
entreabertas, a mercearia ainda tem lugar, as senhoras de idade não deixam os
lenços em casa e as batas a proteger a roupa. Ainda escolhem o fato domingueiro
e vão à missa, que o padre é bom homem e a religião ainda comanda os trejeitos
do lugar. Os velhos senhores não dispensam o boné e o chapéu e trocam cartadas
numa mesa improvisada. As varandas e janelas têm suportadas as roupas a secar.
Ladeira acima, com a calçada gigante, leva uma alma, um saco à cinta. Eu sou
visita de uma gente que tem receio, num primeiro contacto, de olhar na cara,
mas não perdoa os bons dias. Vou olhando com calma, especado no centro da
passagem. A matriz é imponente e guarda o centro da vila. Os mais pequenos
passam a fugir. Os carros são poucos, mas estão bem cuidados. Passa um tractor
com feno e um senhor cuja idade parece não o consumir. Imagino-lhe animais de
grande porte à espera. Num jardim, uma estátua. Lembra-me um tio. Irmão da
minha avó, homem eternamente solteiro. Dono de um corpo leve, mas
impecavelmente vestido. As calças vincadas, os sapatos brilhantes, as camisas
de bom tecido, os pulôveres sempre engomados. E, por fim, o chapéu. Sempre o
chapéu. E o relógio de bolso. Sempre a tirar as horas e a dar-lhe corda. Ainda
me lembro, no seu jeito aparentemente rude, sentado na sala, com o relógio na
mão e o chapéu pousado no joelho. Conversámos, era eu um miúdo, sobre
frivolidades. Tenho hoje um bonito relógio de bolso. Herdado, claro. De um tio.
Do meu tio. Sair do nosso lugar e tempo é conhecer e aprender. É aludir aos
nossos. Às nossas memórias. E sempre com a corda toda.
21.12.15
Canção de supermercado.
O
natal, há pouco, vestia as paredes frias. A rua vai dando aos transeuntes o que
o comum cidadão procura. Uma apropriada bola de neve. As caras dos espectadores
acompanham a magia numa ficção pintalgada. As bocas brincam como fantoches
comandados. É engraçado pensar. As fotografias da rotina acontecem em cada
esquina. É engraçado não reparar. Damos, de novo, prioridade aos passos. Vamos
lá, há mais para contar. Quanto mais acentuada é a falta de sentido, mas
atraente. Quanto mais ausente é a monotonia e o comportamento amorfo, melhor e
vencedor. Entre a secção dos enlatados e a barreira das massas, antes de
vislumbrar a banca dos frescos e de piscar o olho aos brinquedos, há uma menina
cantadeira. Tem tom de rouxinol, timbre de fada madrinha. Inventa a letra,
canta como se estivesse na luz de um palco rei. Inventa o público eufórico,
esgotado mas firme. Se ficarmos ali, com atenção, ouvem-se os aplausos. Os
gritos fortes, em uníssono. A menina canta, soa a qualquer coisa. Ficar e
escutar não é opção, é a força da razão. A boca tem vida, as cordas vocais não
têm receio. Imagino-as num bailado sem fim. Numa corrida sem precedente. Que
espectáculo graúdo. Voz de supermercado, canção de menina sem pecado. Na mão um
pai natal luminoso é o perfeito microfone mimoso. Pelo meio do palavreado
seguido, percebe-se a alusão à época. A festa da gente, a razão da família.
Entre o atum acondicionado e a esparguete em exposição, canta a menina de voz
doce. A canção de supermercado. O natal vive em qualquer um, vive em qualquer
lado.
14.12.15
A primeira letra.
Sentado
algures, oiço-te e vejo-te como se estivesses à minha frente. O tempo não
chega, aniquilo por completo o tempo, nunca a qualidade, para as relações que
vivem definidas pela distância. Procurares-me com a desculpa inusitada de que
queres relatar-me toda a tua experiência nas últimas férias no Dubai. É estranho.
A conversa demorou-se e, em pouco tempo, contaste-me o que achaste importante,
tudo menos as tuas férias. Depois de desligar, a memória que me falha vezes sem
conta, levou-me à nossa última estada fora de portas. Das nossas portas. Aconchego
os meus óculos graduados de ocasião e, longe, dou a falsa sensação de estar
presente. Chama-me, recorrendo à primeira letra do meu nome. Nesse instante,
nada. Não tinha espaço no pensamento, senão para o piano de cauda. A vontade
quase sôfrega de querer guardá-lo ali, perpetuá-lo nas nossas vidas. Imaginar
que é a maior descendência de umas mãos que, em tempo algum, negaram o talento
e a arte de se sentar, sentir e partir nesse trote de matizadas teclas.
Chama-me, outra vez, usando a primeira letra do meu nome. Então, respondi. E
menti. Nessa tarde, já o escuro ganhava, disse-lhe que acreditava nos romances.
Nos de encantar. Que acreditava nos beijos trocados sobre a areia molhada, com
cheiro a água salgada, sob o pôr-do-sol que tem tons alaranjados e corta a
respiração. Nessa tarde, longe de casa, partilhámos a varanda de outros,
passámos a mão pelo gato, companhia de soslaio. Tomámos algo e ela, com a cara
mais equivocada, confidenciou-me que lhe magoava a boca exagerada. Os lábios
grossos, carnudos rosados. Nessa tarde, depois de pousar o copo de vinha na
mesa baixa, fintei-lhe o olhar, roubei-lhe a confissão perfeita. Nesse hiato,
não menti. Garanti que não era defeito, era perfeito. A letra inicial do meu
nome fugiu-lhe da boca e daí vieram outras. Parcas, cheias. Um beijo muito bem
editado com os meus melhores cumprimentos. Para reservar voos que o meu nome é
este. Não acredito nos romances de encantar, talvez no primeiro beijo ao luar.
Gosto de ti assim, a partir de agora, o que se passa com o meu nome é o que se
passa com o meu coração. Uma letra para começar o que pode num grande amor
tornar-se. Foi o nosso momento. O piano de cauda em falta esteve na imaginação.
Inventei uma melodia qualquer. Guardei a verdade para ti. Fomos felizes assim.
Um dia a boca perdeu o sentido, a primeira letra o som ouvido. Guardámos uma
espécie de romance nas entrelinhas. Um livro de revisões e de recordações para
a vida. Rimos juntos. Avançámos a solo. No outro dia, quando me procuraste e lembravas
que o teu coração perdeu o objecto, não tive pena. Só respeito. Gostei de ti,
nunca menti. Volvidos anos, gosto de ti. Reinterpretados sentimentos. A boca
continua feliz, as dúvidas perdeste. Liga-me hoje. Sempre. Das relações, guardo
o melhor. Uma boca invejável, uma alma magistral. Um beijo, um copo de vinho e
a certeza de que o teu coração é forte, vai ganhar uma vida nova e estável. Um
príncipe sem título, crianças para a tua corte. Terminas como começaste, com a
letra que abre o meu nome. E amigos para sempre.
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