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21.2.18

Ininterrupção de instantes.

Venho chegando, com a noite assumida, enquanto oiço Gorillaz. Esta canção tem história, prosa demorada, para outros temperos. Viro à esquerda, para encontrar o beco. Casas grandes, com jardins bonitos. Sei-os de cor, tantas as visitas. Junto ao portão escancarado, depois de estacionar o seu Mini, alguém acena, com vontade e precisão, temendo não ser vista. Devolvo, com sorriso e tudo. Procuro estacionar, mas não fico satisfeito. Saio do carro contrariado. Conjuro no desassossego mental, léxico que tem falta de maturação. Trago um presente, um vinho pomposo. Mãos ocupadas, eu na corda. Chego-me à simpatia do aceno, trocámos dois beijos – ainda sou pela dupla do verbo. E pergunta pelo que me traz ali. Afazeres, ensaiei responder. Fiz-me melhor rapaz, cumpri a verdade e procurei pela família. Todos bem, como se quer. O irmão volta em breve. Amigo de outras paragens. Agora tenho de ir, que já me faço em cima da hora. Fracos passos e toco na campainha. Vejo a luz acender, logo se faz ouvir o cão da casa. Recebe-me antes de todos. O entusiasmo de sempre. Não guardo palavras para a empatia que fixámos, eu e o pequeno animal. Pequeno com todas as comas. Passadas as brincadeiras iniciais, entrego o empolado vinho. Lembrando, entre risadas, outros bem fajutos que outrora bebericámos. Feitos todos os cumprimentos, volta a certeza de que estou sempre bem por aqui. Falta alguém, mas não resta assunto. Fica para depois. Enquanto me leva o casacão, pisca-me o olho. Devo ter esboçado uma fácies atabalhoada. Pior, só a barba demorada. Negligentemente aparada. O meu pai já nem aventa questionar. Ganho, por estar longe da vista. Servem-me a primeira taça. Grande noite se principia.

19.2.18

Qualidade vacilante.

Lá fora, enquanto atravessava a rua, cruzei-me com um autocarro quase vazio. Uma senhora, com ar pendente, esboçava movimentos com a boca. E a mão fingia garatujas no ar. Devia levar uma conversa governada de interesse com o senhor condutor. Toca o telemóvel e a dúvida absorve uns quantos. As massas a funcionar com as maçãs. Soa e somos o mesmo. Estou numa espécie de fila – um tanto desordenada, outro tanto desordeira - num lugar cansado, cujo ar está saturado, com o meu casaco comprido, aos quadrados desenhado, os óculos graduados colocados, os de sol na gola dobrada do casaco de malha grossa presos. Desliguei a chamada há instantes, a minha irmã mais nova a trazer novidades, no seu discurso sempre vestido de pressa, genuíno e de menina travessa. Entre pensamentos, reparo na senhora que está ao meu lado. Quase inerte, numa apneia que me permiti diagnosticar. O olhar, quase baço de admiração, está focado - pasme-se - nas minhas meias. Ou peúgas. Conforme a nação de cada um. Perco-me, com alguma facilidade, nas nomenclaturas. Nisto, arqueio a sobrancelha, como se fosse tipo para esse ensaio. Levo, instintiva e imediatamente, os olhos às ditas. E rio-me. De mim e para mim. Espreitam, dinâmicas e de humor comedido, entre o que trago calçado e a dobra das calças. Não são as mais atrevidas que tenho, quis contar-lhe – à senhora, claro – mas fiquei tímido. São mesmo triviais, talvez a cor lhes torne especiais. Enfim, os nossos olhares cruzaram-se. E chega, na minha direcção, vinda do fundo da neblina que são aqueles olhos, a estupefacção. Fiquei na dúvida, tratar-se-ia de vergonha por eu ter percebido o delito ou, cheia de verdades sobre a arte de bem trajar reprovou as minhas sossegadas meias. Ou peúgas. Assim levei a manhã, numa ambiguidade sem precedentes.

31.1.18

Prosa do acaso.

O compromisso entre o sotaque e o sorriso largo atribui-lhe qualidades que não são sem vigor. Chega de cabelos bem desenhados, num cinza e branco bem combinados, e acena com os olhos. São claros. O corpo é pequeno, magro, mas tem trejeitos de fazedora de assuntos pesados. Os óculos graduados pendem peito abaixo, fingindo-se seguros por um frio encarnado. No tom do que traz calçado. O casaco comprido, para lá dos joelhos, dá-lhe um ar polido. Anda, mas parece que balança. Dá saltos breves e divertidos. É singela no passo. Pergunta-me se pode tomar-me com um abraço. Devolvi-lhe com o acto. E foi simpático, sensato e sossegado. Apresento-me e diz-se conhecedora do que venho fazendo. Fiz, corrijo. E sorri. Conhece-me pela prosa de outros que lhe foi chegando. Embora, tenhamos tido vínculo com a mesma empresa, fez-se em tempos desfasados. Jamais houve oportunidade de nos cruzarmos. Já gosto de si, atirou. E eu dela, genuinamente. Encaminhou-me e levou-me para o que reconheço como um jardim de inverno. Uma estrutura cosida a vidro, ligada a ferro escuro. A luz entra sem remorsos. Faça chuva ou sol. Água miúda ou desgovernada. Calor trivial ou descomunal. À volta, flores várias, variadas e nada resignadas. Pelo contrário, feitas de vida. Por fim, sentamo-nos numas cadeiras grandes de braços, estofadas com um tecido que imita o verde da mostarda. Daí, seguimos o trajecto da conversa bem temperada. Algures, entre elogios sinceros e ambições um tanto certeiras, outro tanto lunáticas, reiterou que entende as mudanças. A minha inclusivamente. É o desassossego dos dias que promove e renova o que há-de vir. Nisto, passaram tantas horas. Sem que houvéssemos pestanejado. Tanto que me vi atrasado. Agradeci sem fim. Vamos ter tempo para criar. Devolve o primeiro abraço, agora envolvidos pelo casulo de inverno. Levou-me, nos seus saltinhos característicos, até ao carro. E acenou com os olhos. Vestindo o sorriso largo.

11.10.17

Em diferido. #60

O puto do skate e as marcas contadas - Passou por mim um puto sobre a tábua. Um boné todo porreiro, num encarnado sangue, envolvido por um verde seco. Uma pala à maneira, na cabeça bem seguro e direito, contra o estágio de outros tempos, em que o dito seguia de esguelha. Um boné que por estes dias ganhou outro nome, pelo menos foi assim que me foi contado. Passou por mim, ainda cedo, um puto sobre uma tábua bem estilizada. Seguia seguro e bastava olhá-lo para senti-lo confiante das suas acrobacias. As rodas queimavam o asfalto. O barulho típico do material a fazer das suas, o puto com um sorriso rasgado. Torneando as linhas, seguiu nessa trivial actividade, com a tábua bonita. Sob os pés enfiados nuns VANS todos rebentados. Lembro-me de pensar, lá atrás, que essas eram as marcas físicas e visíveis que faziam falta. Que davam liberdade e individualidade. Analogia aos velhos que me rodeavam e que, cheios de marcas no rosto, no corpo, tinham as mais atraentes e dinâmicas estórias. E partilhavam-nas com gosto e empenho. Corri o mundo sentado sobre as pernas cruzadas, num chão bonito e trabalhado, ao ouvi-los prosear. Numa cadeira de orelhas ou num sofá datado. Envolvidos por quadros bonitos com molduras douradas, prateadas e de madeira bonita. Também num quintal coberto de cimento, envolvido por vasos aleatórios cheios de flores coloridas e roupas num canto a secar. Os meus olhos largavam num deslumbre escarrapachado. Que não mentia: estava interessado. Guardei essas conversas com a mesma convicção – porventura mais – com que guardei, na altura, uns ténis. Vem de longe a minha paixão. Usei-os até vê-los ultrajar com insulto aviltante a minha mãe. Chegou o ultimato: era o fim. Não me lembro se chorei, mas fiquei irritado. Eram a minha companhia, repetida, bem sei, mas eram. Com eles, se a memória não me falha, lancei-me numa queda de bicicleta que podia ter causado estragos sérios. No dia seguinte lembrei-me de um desses velhos que me ensinaram. O que lá vai, lá vai. Aceitá-lo é mais fácil do que martirizar o espírito. Não são palavras vazias. Atentemos na intensidade. O puto parou, repentinamente, e ficou com a tábua hirta nas mãos. Equilibrou o boné encarnado e verde seco. Os ténis ganharam mais uma para contar. Serviram, uma vez mais, para a tábua amparar.

12.6.17

Marchas (im)populares.

Tenho andado muito. E a pé. Sobre a calçada portuguesa, toda bonita, toda descalça. Sobre a madeira antiga, em linhas estendida, rezingona como só o tempo permite. Sob o sol mais picante, na sombra de um espaço bonito também. Não esqueço os meus óculos de sol de todo o tempo. A mochila com um ar descomprometido faz-se companhia. Tem a cor certa e o tecido combina – inventei agora, mas juro que não é mentira. Só este mês, num espaço curto, cancelei duas viagens. Uma dentro de portas, outra fora. Perdi alguns dias de partilha com os convivas habituais. No fim-de-semana que acabou, foram dias de veraneio num Alentejo que é saudade. E que não presenciei. Foram as muitas fotografias, vídeos e ligações do festival de música que aconteceu a norte, e que iam chegando num enxurro sem classificação. E que não visitei. Nesta azáfama, nestes passos que não conto, mas que os sei muitos, vislumbro muita gente. Eles e elas cuja cútis avermelha com os primeiros raios de sol, de máquina fotográfica a pender do pescoço. Com chapéus dignos do mais alucinado safari. Os homens com a tez escurecida e franzida pela força das maleitas do sol, a carregar cabos, colunas gigantes, escadotes e tábuas. Fazem de uma qualquer rua, um palco a céu aberto. É o tempo das festas, do vinho na caneca de barro, do cheiro que impregna tudo e todos. Das ruas feitas corredores de animação. O microfone parece já montado no lugar certo. Sem voz nem corpo. Os mesmos homens, gastos da trabalheira, deixam-se sossegar alguns minutos, sentados no poial de uma porta larga, no fresco de uma brisa que, de quando em vez, deixa-se sentir. Tocam-me, sem intento, no ombro e pedem-me desculpas num inglês de praia. Era uma habitante da terra equivocado. Devolvo um não faz mal, no meu português de sempre. Chego ao destino, quem me apresenta fá-lo dizendo o meu nome completo. Sorriem-me e, uma vez mais, perguntam-me se sou familiar do doutor com o mesmo nome. Repito-me e de sorriso no lugar certo, nego. Não sou. Mas tenho andado muito. A pé e de olhos atentos. Se quer saber.

29.5.17

Estrepitoso amanhecer.

Escancarou a janela grande da cozinha, antes havia subido os estores na totalidade. O sol da manhã a corroer qualquer possibilidade de olhar para além do chão. Os olhos incapazes de focar dignamente – evitem o sol forte e a ausência de óculos graduados - reparam na cozinha arrumada, toda limpinha. Sem qualquer rasto das taças de vinho, tampouco dos acepipes. Ou dos restantes sustentos do divertimento. Nada a beliscar a noite anterior. Sentado numa cadeira bastante certinha, numa casa que não é minha, imagino o fim dos dias sobre a minha cabeça: um cabelo humilhantemente desarrumado. Mas fico-me pela dúvida, evito a sentença. A silhueta cheia de vida deixa-se sossegar. Encosta-se à bancada de pedra, escura e fria. Quase sentada sobre a dita. Reparo que me dirige o olhar. Numa tentativa sem reflexão de focar, cruzámos olhares. E sei que ela riu. Baixinho, sem alarido. A resposta inequívoca, esbocei um ar nada delicado. Entrei na dança, rimos juntos. De pernas cruzadas, a saírem de uns calções curtos, perguntou-me se dormi bem. Tendo em conta o horário, não podia mentir, dormi o insuficiente. Ela não gostou da almofada. Preferiu lutar contra a cozinha desarrumada. Agradeci-lhe a simpatia, mas lembrei-lhe que não era função de um só. Cortou esse caminho e perguntou-me o que eu estava a pensar fazer durante o dia, uma vez que estava num lugar que não conhecia. Sair, ver, conhecer, disse-lhe. Ela, sendo também visita, era repetida. Deu-me sugestões. Ofereceu-me muitas saídas. Mostrou-se disponível para nos acompanhar. Agradeci. Desenhados os sorrisos, passos de silêncio. Ela, num só salto, desce da bancada, procura o granulado do seu bulldog francês, enche a taça e renova a água. De costas, vira a cabeça na minha direcção e deixa fugir que gostou muito do jantar do ZM. Foi graças a ele que nos conhecemos. Anuí com a cabeça. Sem travar, perguntou-me se lhe tirava uma fotografia. Gostei do que vi, continuou. Disponibilizei-me. Ali mesmo, numa cozinha estranha, precocemente cedo, com uma luz simpática, a fotografar uma estranha bem-parecida. Não é outra coisa. É o acervo do acaso. Há instantes, uma carta. Prosa bem cosida e um agradecimento especial. Ainda há quem escreva. Cartas e à mão. E, o melhor dos nossos dias, sem mácula. Sem um erro ortográfico. Há combinações crepitantes.

4.5.17

Sequioso estar.

O senhor que hoje pede um café. Ontem uma água mineral natural. No outro dia um descafeinado. O senhor que lê o jornal desportivo agora. Antes leu o generalista. Lê depois a revista sobre o coração. Passa os olhos, como prefere lembrar. Correm os minutos em passos curtos, que a demora é feita. Contudo, é nas letras que se deixa ficar, sem esquecer as imagens. Fica nessa entretenha enquanto a prosa não lhe rouba tempo. E, caraças, perder tempo é uma desilusão. Avanças na descoberta e, não poucas vezes, percebes que o interesse escasseou.  É tremendo. A idade não limou todas as arestas, mas deu-lhe a capacidade de escolher e, em não querendo, de se perder. Deixou ficar o prazer das conversas. O senhor que toma café quando pode, que prefere a água quando o coração, o corpo e a cabeça habituam num desgoverno. O descafeinado para os dias vagos. Médios e castigados por coisa nenhuma. Sentado na mesa do costume ou noutra qualquer. Os óculos são o auxílio dos dias. Acena à entrada, qual majestade chegada. Dirige-se aos presentes, não esquece os bons dias. Diz que não se considera engraçado. Eu discordo. Acho mesmo que tem a noção toda e, por isso, não perdoa na hora de enviar para fora as suas estórias animadas. Os aplausos são risadas largas. Finge-se uma amostra de um anfiteatro por aquelas bandas e não se quer outra coisa. Ser-se feliz não se compadece com a constante chuva de realidade. Sossegam os dias nesta rotina híbrida. Vazia de ocupações antigas, cheia de partilhas nada ébrias. Assim vão aqueles dias. Tão naturais como a vida. Tão efémeras como a mesma. Daqui, um valente aceno de mão. E boas leituras. Eu fico-me pelo café esfriado.

19.4.17

Espaço com todos os seus corpos e seres.

Acordei cedo, sem recorrer ao despertador, ainda que o mencionado esteja sempre disposto para qualquer eventualidade. De resto, como acontece com clara repetição. Fi-lo na minha cama, larga o suficiente para me esticar e guardar espaço. Com a luz subtil do televisor esguio a fingir incomodar. O telemóvel com acumuladas mensagens. A janela bem cerrada, a cortina fina a guardá-la. Com escassas peças de roupa adormecidas sobre uma cadeira bonita. Sob o silêncio dos dias, da rua sempre calma, de um país que ainda dorme com a devida quietação. Mas é uma espécie de ilusão matinal. Depois levanto-me, percorro o mesmo silêncio, e as verdades jorram pelos ecrãs afora. O mundo corre doente, numa patologia encriptada, mal pensada. Imagino-o num cinza e branco, mais pesado de negro, enfiado em dois comboios compridos. Onde os caminhos não se tocam. Um para lá, outro para cá. Repete-se este movimento sem que saia do mesmo poiso. Com ares de boomerang, mais uma das entretenhas do Instagram. Com a pesada excepção, é que este último pesca likes e não fica imortalizado na carne, nas vísceras ou na vida de alguém. Discute-se, a plenos pulmões, a parentalidade da senhora das bombas. Uns gritam mãe, do outro lado explicam porque são o pai. A seguir testam-se mísseis e lembram-se as nucleares que guardam na manga. Morrem pessoas – seres humanos – todos os dias à mercê de uma guerra que não compram. De uma tentativa de fuga que não vê a luz do dia. Cospem-se perniciosos discursos sobre os nossos e os outros. E, pasmados, sabemos da existência de um campo de concentração para homossexuais na Chechénia. Não me engano se lembrar que estamos em Abril de dois mil e dezassete. Espantam-me os olhos fechados, as conversas desconexas e, por vezes, odiosas, que venho assistindo por cá. O mundo gira lá longe, mas não nos esqueçamos, jamais, que vamos embalados na carruagem que mais parece um balancé. Que soluço este, minha gente.

12.4.17

Viveza rara.

Traz os caracóis vincados, sobre a cabeça todos aconchegados. O cabelo curto ajuda à composição. Diz que são naturais, fazem-se com a vontade da genética, do crescimento. Não escapa, sequer, um branco. Todo escuro, enrolado, bastante sossegado. Aí, o contraste total com o corpo, pequeno mas pejado de energia. Magra o suficiente, avança. Não se deixa desmentir, dá a certeza de que tem genica maior do que tantos homens que conhece ou juventude que vê crescer. Veste-se conforme a confiança. Não me lembro de vê-la de vestido ou saia. Senão numa ou noutra fotografia antiga. Tampouco com uns saltos altos. Agora é informal no traje, e vem de longe a postura desbocada no trato. É eloquente e não dispensa a gargalhada aberta. Magica autênticas instalações sociais. Coloca-as da boca para fora, sem pensar um tanto de segundo. Emprega-as na vida de quem a rodeia. Prefere a religião a outros serões. Sobre a temática, já tivemos sérias discussões. Tão saudáveis quanto construtivas. Lá atrás, afoito, fui um nada rude e assertivo demais. Senta-se de perna cruzada e conta estórias sem fim. Com ela, perco-me em gargalhas sucessivas. Rimo-nos juntos. Tal como os telefonemas, em tempos, tão longos. Não é falso lembrar as horas ao telemóvel. Fala com tanta vontade que quase não dá sossego à tagarelice, descurando o que havia de ser uma conversa a dois. Mas até isso lhe oferece graça. Fã assumida de tecnologia, já lhe conheci um sem número de telemóveis, máquinas fotográficas e outros gadgets. Uma fase houve em que a prosa não era outra coisa que não repetida. Estava disposta a mudar a alimentação. A favor do corpo mais leve e da saúde em pleno. Tirava todas as dúvidas, lembrava sugestões. Lançou-se na prática de exercício físico e até o corredor comprido de casa fora a sua sala de movimentar o corpo. O seu nome rima com alegria. E de outro jeito não era expectável. É uma das minhas tias. E uma mulher activa.

10.4.17

Mariazinha, a dona da lhaneza.

As verduras frescas sobre a bancada. O verde reluzente. Os legumes bem cuidados, listados, as cores certas e os tamanhos irregulares. Os frutos em harmonia numa cama dividida, sadios e numa troca, quase lasciva, de olhar. Têm marcas visíveis, mas é a qualidade e a vontade de comer com certezas. Os orégãos dependurados, as folhas de louro na mesma carreira. Os limões vivos amancebados com as limas frescas. O alecrim apresenta-se em arranjos aperaltados. As malaguetas fervilham em ramos inventados. As batatas têm espaço e as alfaces são amigas das couves. As aromáticas fazem justiça ao nome. A bancada toda arranjada, sem prosápia nem falta de maneiras. De lá, ouve-se uma receita de arroz de safio e uma mezinha para a tosse, e de cá o pedido para que deixe ficar o saco carregado. Apresenta-se ao serviço, apresso-me a dar-lhe honras de dona da banca, uma senhora de alguma idade. Um pouco curva, de cabelos esbranquiçados, macérrima, de chapéu a cobrir a cabeça. Uma bata de xadrez, com apliques de renda branca, a defender a roupa de sair. Apetece-me dar-lhe os bons dias. E assim fiz. Devolveu-me um sabido e agradecido bom dia. Com o ar de quem o faz há tantos anos. Logo depois, quase sem cessar, serviu-me um sorriso gigante. Simpática e dinâmica pergunta o que quer o freguês. Penitencio-me no vazio dos pensamentos, pois, queria no imediato, prosa de visitante. Fotografar-lhe se não fosse ousadia. Ouvi-la conversar. Gabar-lhe os produtos frescos. Sugeriu-me o mel feito pelo senhor António. De resto, deixou-me à sorte das minhas necessidades. Perguntei-lhe o nome e contou-me que é Maria. Mariazinha para os antigos. E foi assim que, daí em diante, me pediu que a tratasse. Deixou-me fotografar o negócio montado, mas sem que ela se assomasse à objectiva. Respeitei. Trouxe uma fotografia vestida com a moldura da dona Mariazinha. A imagem na cabeça ao longo da manhã. E um frasco do mel do senhor António – imagino-o de bigode, não me sei entender. Logo eu, fraco fã de mel ao natural. Hei-de lá voltar. Nem que seja para lhe contar.

4.4.17

O puto do skate e as marcas contadas.

Passou por mim um puto sobre a tábua. Um boné todo porreiro, num encarnado sangue, envolvido por um verde seco. Uma pala à maneira, na cabeça bem seguro e direito, contra o estágio de outros tempos, em que o dito seguia de esguelha. Um boné que por estes dias ganhou outro nome, pelo menos foi assim que me foi contado. Passou por mim, ainda cedo, um puto sobre uma tábua bem estilizada. Seguia seguro e bastava olhá-lo para senti-lo confiante das suas acrobacias. As rodas queimavam o asfalto. O barulho típico do material a fazer das suas, o puto com um sorriso rasgado. Torneando as linhas, seguiu nessa trivial actividade, com a tábua bonita. Sob os pés enfiados nuns VANS todos rebentados. Lembro-me de pensar, lá atrás, que essas eram as marcas físicas e visíveis que faziam falta. Que davam liberdade e individualidade. Analogia aos velhos que me rodeavam e que, cheios de marcas no rosto, no corpo, tinham as mais atraentes e dinâmicas estórias. E partilhavam-nas com gosto e empenho. Corri o mundo sentado sobre as pernas cruzadas, num chão bonito e trabalhado, ao ouvi-los prosear. Numa cadeira de orelhas ou num sofá datado. Envolvidos por quadros bonitos com molduras douradas, prateadas e de madeira bonita. Também num quintal coberto de cimento, envolvido por vasos aleatórios cheios de flores coloridas e roupas num canto a secar. Os meus olhos largavam num deslumbre escarrapachado. Que não mentia: estava interessado. Guardei essas conversas com a mesma convicção – porventura mais – com que guardei, na altura, uns ténis. Vem de longe a minha paixão. Usei-os até vê-los ultrajar com insulto aviltante a minha mãe. Chegou o ultimato: era o fim. Não me lembro se chorei, mas fiquei irritado. Eram a minha companhia, repetida, bem sei, mas eram. Com eles, se a memória não me falha, lancei-me numa queda de bicicleta que podia ter causado estragos sérios. No dia seguinte lembrei-me de um desses velhos que me ensinaram. O que lá vai, lá vai. Aceitá-lo é mais fácil do que martirizar o espírito. Não são palavras vazias. Atentemos na intensidade. O puto parou, repentinamente, e ficou com a tábua hirta nas mãos. Equilibrou o boné encarnado e verde seco. Os ténis ganharam mais uma para contar. Serviram, uma vez mais, para a tábua amparar.

27.3.17

Receio palpável num encontro inusitado.

Estou sentado numa sala toda bonita, com vasos bem revestidos. Flores largas, coloridas, cheias de pormenores. Num andar que testa a minha capacidade de gestão de alturas, de um delíquio que tenta assomar-se. Nas minhas costas uma janela gigante, vestida de vidro, limitada por um material que espero que ofereça segurança. Numa furtiva troca de olhar com o exterior, percebo que sobre a placa de um dos prédios da frente, habita um simpático jardim. Lembrou-me uma cidade que guardou, em tempos, uma das minhas pessoas. Das que os laços não são de sangue, são de amor e verdade. De volta à sala, as cadeiras, simpaticamente trajadas com um azul forte. Confortáveis, como que a ensinar a demora. Senta-se ao meu lado uma mulher. Havíamo-nos cruzado na entrada, no piso zero, e partilhámos o elevador. Repete-me os bons dias, e devolvo com simpatia. Nesta área prefiro o repetido, ao invés do interdito. No silêncio seguinte, respondi ao seu sorriso com outro. Perguntou-me, no mesmo soluço – como que ganhando terreno sobre a possibilidade de um novo hiato de silêncio se sobrepor – se estava nervoso. Olhei-lhe – e devo ter arqueado a sobrancelha, no meu mais corriqueiro ar de surpresa – e devolvi prosa resumida. Disse-lhe que não. Não havia razão. O que me trouxe aqui é uma simples reunião. Agarrou a mala preta, sobre o colo, e garantiu que também não estava. Procurava ser ela, sem outras diligências. Percebi, no decorrer no discurso, que estava à espera para entrar para uma entrevista. Mexia no cabelo, olhava o ambiente à volta, segurava a mala com fé. Andou nisto até que a chamassem. Antes de entrar, junto à porta, dirigiu-me o olhar, agradeceu-me com um obrigada profundo e desejou-me o melhor dos dias. Tão sui generis quanto genuíno, pareceu-me. Levantei a mão direita, acenei e procurei ser o que esperava naquele momento. Boa sorte, faça da sua melhor maneira – avancei. Bateu a porta. Continuei na sala, de costas voltadas para a janela cuja altura é insana. Dei por mim a rir sozinho. Os medos são fazedores do receio. Contudo, valem tanto quanto o que lhes colocarmos nas mãos. Valem tudo até revolvermos a mecânica, avançarmos no vazio e garantirmos as faculdades do raciocínio. Paro por aqui, não sou orador da demagogia.

22.3.17

Em diferido. #57

Bravo - Aquele gajo compôs uma autêntica diversidade de boas notas. Aquele gajo é descomprometido com tudo, desde sempre. Conheci-o há alguns anos, algures numa adolescência que ganha um certo tom de vedetismo. As calças daquela marca, os ténis da outra, ainda os pólos com fartura. E ele nada. Desmarcava-se disso com uma pinta sem igual. Talvez, porque nessa altura não me agradavam os pólos e as camisas aos quadrados, demo-nos bem. Embora, as tenha vestido algumas vezes e de feitio torcido, tão contrariado. E devo ter sido beto. Ou arraçado disso. Mas não importava. Como não importa. Valia a cabeça e a construção das conversas. A música que já era tão presente. Ouvíamos o som da altura, mas que já era passado. Apresentou-me um sem número de nomes que ainda hoje trago na minha lista de preferências. Volto sempre a ouvi-las, em todas as vezes que não me esqueço. Reencontro-me com as suas sugestões musicais bem mais amiúde do que com ele. Uma pena descomunal. Vive entre Cascais e Londres. Toca como só um gajo como ele consegue. Tem composições incríveis. Algumas não saem de casa. Este gajo ainda vai ser reconhecido, porque o melhor já é. Sem qualquer adorno dispensável. Continua a ser aquele gajo descomprometido. Fiel. Dispensa, ainda hoje, as camisas engomadas, as calças marcadas e os ténis. Há gajos do caraças.

16.3.17

Distintos num dia de Março.

Surgem, logo depois do prédio antigo, de mãos dadas. Ela traz o sorriso bonito. Ele com o olhar sempre atento. Carregam, nas mãos enlaçadas e nos rostos harmoniosos, a comunhão entre a viagem feliz e a paixão. Deixei-me aventar. Denunciam ser turistas. O físico não desmente, as mochilas também não. Abordaram-me pedindo indicações. São escoceses e falam português. Com o sotaque do Brasil. A América do Sul foi poiso durante uma temporada. Tecem elogios largos à cidade, às pessoas disponíveis e à luz que não cessa. Prometem voltar, para matar as saudades do paladar. Garantem o regresso, por levarem na bagagem a sintonia do país. Agradeço-lhes as palavras bonitas e encaminho-os para o destino pretendido. Cruzar gente boa não tem qualificação. Ultrapassa qualquer cotação. Invisto no meu trajecto, pois já vou tarde. Cumprimento a senhora da ourivesaria, amiga de longa data da família. Pergunta-me pelos pais, pelas irmãs e, claro, pela avozinha. Vejo-a desgastada, com as mazelas que a idade causa. Lembra que a saúde é fraca, que o tempo passa e que me conhece deste tamanho – levou a mão o mais baixo que a coluna dorida lhe permitiu. É verdade, sim senhora. Diz-me que cresci bem e fiz-me um garboso rapaz. Sou fã assumido dos velhos, da sua posição e da palavra que entregam com outro gosto. Não esqueço o marido – já falecido - mas prefiro não trazer à memória. Pergunto pela filha, que a sei doente. Leva como Deus quer, respondeu. Foi aí que os olhos marejaram. Passei a mão pelo ombro, trocámos dois beijos e vim embora. Entravam duas clientes, que pelo bom dia percebi serem velhas conhecidas. Garantidamente, é nestas ocasiões que as minhas palavras são parcas. Não é que não as tenhas, é o respeito que todos os detentores de muita idade me merecem. Em suma, as pessoas boas deixam-me francamente sensibilizado.

13.3.17

Procurar entreter-se.

Na rua acontecem os mais inusitados acontecimentos. Uma guerreia canina, que afugenta transeuntes como se a maior hecatombe viesse no seu encalço. Com direito a latidos fortes, dentes afiados e desespero nos olhos, até ao sossego final. Uma mulher apresenta-se desgovernada, vociferando como se o mundo tivesse mudado. O seu, pelo menos. Carregada de sacos gastos, cheios de coisas. Chamam-lhe desabrigada, tonta e incapaz. A mim, inculto social, chamar-lhe-ia mulher sem norte, consequência de uma vida que terá perdido. Ambienta-se, por ora, aos novos moldes. À nova realidade. Anda com a passada larga, olha para o céu e para o chão, vezes que não somos capazes de contar. Até que a perdemos de vista. Paz é o que me apraz desejar. A calçada portuguesa atraiçoa alguns, elas imitam a certeza de que estão sobre uma corda tão bamba. As cores ímpares fazem o resto. Os tuk-tuk parecem flechas por entre as ruas exíguas. Uma jovem de vestido airoso dá voltinhas à frente do telemóvel, arrisco que vai sair mais uma publicação no Instagram. A correria habitual é ponto certeiro. Vêem-se bicicletas, poucas, mas é um sinal da evolução dos dias. Um carteiro grita à porta de uma loja de comércio local e assoma-se uma senhora de cabelo arrumado e elevado a instalação. Por cima, janelas velhas, quase trancadas. Imagino a solidão fechada a sete chaves. Na entrada de um prédio alto, espaço de uma série de negócios, estão homens com fatos engomados, mulheres de saltos altos. Trocam ideias na pausa para fumar. Nisto, estou quase a chegar. Sou um deles, desta sociedade cuja roda não cessa. As pessoas também ficam a ver-me passar. Atentas ou simplesmente esquecidas.

9.3.17

Medição feita por um instrumento.

Viro à esquerda por preferir andar do avesso. Hei-de deixar boquiabertos os que me compõem como um tipo às direitas. Sê-lo-ei, numa base que me rege e que não descuro, mas fujo, noutros pilares, do cinzentismo, das regras que sufocam. Disseram-me, há atrasado, que sou um tipo com coluna vertebral – as metáforas são sempre uma escolha viável – mas que visto uma pele altiva. Disseram-me, outros e mais informados (não sou tendencioso, apenas factual), que sou um tipo bom – menos trabalho no que respeita à procura do léxico, o que denuncia a proximidade – e que isso se reflecte num role inesgotável de razões. Até que sou, em querendo, um comediante em potência – uma hipérbole tamanha, fora de pé, como se quer. No trajecto, uma canção feliz, que exige a alegria e o espírito em animação. Que dispõe o corpo, que o transporta para um começo de dia que augura o melhor. Vozes há, que mudam as letras. Músicas há que as enriquecem. Suplantam o original vezes sem conta. É o caso. Aproveito-me dela e magico ideias nada exequíveis e alienadas. Das que me permitem ruminar largos minutos, desaguando num valente e despenteado momento de felicidade. Serve o introdutivo para lembrar que somos todos, um e cada qual, um cabaz psíquica e emocionalmente recheado. Reagimos conforme o ambiente. Agora um jazz atencioso, a seguir um rock pesado. Um fado arranhado, noutra altura um pop raso. Entro pela porta grande, não me lembro se pela direita ou pela esquerda, sequer tenho memória de qual dos meus pés pisou o solo primeiro. Está à minha espera, o rosto ganha uma luz efusiva, respondo da mesma forma. Acena-me, numa excitação que lhe é característica. Levanta-se, abraça-me e deixamo-nos ficar. É muito bom. Sentamo-nos, um à frente do outro. Antes de qualquer coisa, perguntou-me se ainda escrevo, se ainda dedico as minhas pausas, maiores e menores, às prosas numa folha. Acenei positivamente. Quero ler-te até ao fim, retorquiu. Certamente há fundo de verdade. As leituras são sempre dos outros.

1.3.17

Ser humano do sexo feminino.

Chega no BMW, com o cabelo arranjado, de longe vê-se que é pintado. O sol ora espreita, ora faz gazeta. Demora a estacionar, o lugar de sempre, a teimosia também. A boca num movimento exacerbado denuncia a chamada. Acena com a mão esquerda, esboça um sorriso largo, provavelmente, num soluço da conversa. O volante gira e torna a girar. Por fim, o carro está no espaço que pretendia ocupar. Primeiro um pé num salto generoso, a seguir o outro. A sola vermelha é a assinatura. Traz o iPhone colado ao rosto, a mala com a marca visível e uns brincos extensos. O perfil alongado e chamativo. Nós, sentados na esplanada a que voltamos com frequência. Pensamentos e afirmações num reboliço. Tão somíticos no palavreado quanto possível. Chega, então, a dona do BMW. Os olhares alheios têm um só destino: a própria. Cumprimenta-nos, um a um, e faz-nos companhia. Desculpa-se pela demora, mas foi culpa da cliente e da nora. É amiga de longa data de uns, conhecida de outros. Amiga da putativa noiva, madrinha se o casório sair. É puro divertimento partilhar o espaço com ela. Animada como poucos, dinâmica, profundamente inteligente e isso reflecte-se, entre outros aspectos, no humor dilacerante. Leis é com ela, capaz de interpretar e fazer por resultar. O corriqueiro quotidiano não lhe escapa e adora fazer parte. Quando regressávamos, em jeito de balanço, lamentávamos os pré-conceitos. Desde logo por ser mulher, bonita, sofisticada. Depois, por ser a prova de que essas características são genuinamente capazes de viver em harmonia com uma vida profissional cheia, difícil e que a realiza. Certamente, há que temer um tanto deste mundo e do outro, nunca as mulheres que o são por inteiro. Sem travestir, sem medo de existir.

23.2.17

Flor brava e fervorosa.

Venho, por estes dias, lembrando a velha Rosa. A tia, tão saudosa. Não tem justificação. Algo ou alguém serviu de mote, mas não encontro um só norte. Como se a morte, a ausência e a saudade precisassem de regulamento. A minha mãe guarda lembranças gratas e sem fim desta mulher. É infindável a necessidade de acolher que a minha mãe suporta, tratando-se de um familiar ou não. Agarrei-lhe, por isso, o gosto pelo outro, a dedicação mesmo à distância. Tomei as memórias desta tia e fi-las minhas. Lembro sempre a tia Rosa. Bonacheirona, o cabelo tão branco, o rosto sedoso, sem medo das palavras, a silhueta dilatada, de riso fácil e audível – nesta característica é impossível não encontrar a minha mãe. Pensar nesta mulher é aludir à natureza, ao campo largo, à vista que não se quer tacanha, ao amor à vida e à verdade dos dias. Imagino-a, catraia, pela serra descalça, entre o verde típico, o castanho vivo e os realces da flora. Dizem-me que fora sempre desordenada, firme, de espírito livre e dona do seu corpo. Com facilidade, dizem-me que fora sempre um bicho fora de época. Vivia depois do tempo, para lá do que os olhos dos outros ainda não viam e da ignorância que não dormia. Não tenho pena desta mulher. Rosa, antes de ser tia ou mãe, foi vida. Real e sentida. Mulher convicta, desde o pé descalço à psique desenvolvida. Recordar a nossa gente é fortalecer. Não lhe deixo pena, fico-me pela saudade, que essa, tal como ela, é eterna.

16.2.17

É sempre benfazejo.

Vem aturdido, os nervos em franja, a fazerem das suas. A cara marcada pelo sangue pujante, o coração a bater sem suporte. Vem cheio de dúvidas, tremem as pernas e o joelho parece um balancé. A ansiedade come parte do entendimento. Foges para fora de pé, sem que tenhas sentido. Vem cabisbaixa, nervosa comedida, o rosto pesado. As mãos entrelaçadas, a coluna um tanto dobrada. O receio colhe frutos com maior facilidade. Perdes-te nele sem que te permitas raciocinar. Vem altiva, mostra segurança, os olhos vivos. Os saltos altos não vacilam, os lábios encarnados reforçam a ideia de segurança. Corrigir atitudes não é mentir. É valorizar a capacidade de gestão. A ligação entre o corpo e a cabeça, sem que nenhum te denuncie. Juntam-se, todos três, numa sala de espera que tem jeitos de corredor. A luz irrompe pelos vidros largos. À frente acontece, também à descoberta do olhar, o que os trouxe até aqui. Lá dentro, já está o primeiro da lista. Sentados, desesperam no compasso do tempo. Ele coloca as mãos trémulas sob as pernas que balançam. Ela finge estar ocupada, enquanto, curva, olha para o vazio do ecrã do telemóvel. O dedo sobe e desce e fá-lo vezes sem conta. Ainda neste arco humano, com os pés impreterivelmente sossegados no mesmo lugar. A última a chegar, de perna cruzada, mexe no cabelo solto, toma pequenos goles de água e sorri para quem passa e não se esquece de partilhar os bons dias. Foram, à vez, sendo chamados. Saíram de rosto rosado, peso na respiração, mas o corpo mais bambo. Quão desigual é o corpo e a mente. Perante o desconhecido, o medo irracional, a vontade de vencer e o desespero de falhar, mudam-te imediatamente. E respondes, como não poderia deixar de ser, de formas tão díspares. A bagagem funcional do que vens vivendo tolda-te de igual jeito. Entender o outro fica mais fácil quando dás tréguas à pressa e ficas a observar. Tanto melhor, a ouvir e a falar.

8.2.17

Em diferido. #54

O ano segue - É como se o novo ano tivesse perdido intenção, força no contexto. Desliguei o carro, apaguei, mentalmente, qualquer coisa e saí. O novo ano já arrancou. Guardo ânsias. De ver renascer, na luta crescer. De pensar e conseguir ganhar tempo para ler. Penso no velho do jornal. Tirei-lhe a vista de cima. Não consigo encarrilhar e, por isso, não consigo adiantar a última vez que com ele me cruzei. Factos na mente, dia no esquecimento. Lia as gordas, pensava as mais miúdas. Falava sobre ambas, perguntava-me e esperava a minha opinião. Escutava-o com primorosa atenção. Íamos até à saudável discussão. Bebíamos um café. Ele temperava-o com a água amena. Devolvo o pensamento, volto ao carro. Carrego a máquina fotográfica. Sem utilizar o raciocínio, avanço pela rua. Passo pelo restaurante de boa fama, ar requintado, talheres elegantes, pratos de qualidade e guardanapos de fino pano. Noutra altura, antes do novo ano, dos outros dois também, rimos ali. Entre uma garfada e um vinho escolhido aleatoriamente. Contudo, foi no desassossego doutro lugar, que demos gargalhadas infinitas, tivemos certezas definidas. Enquanto avanço pela rua, neste jogo, toca o telemóvel. A D., eterna amizade, lembra-me por escrito, a ausência e a saudade. Fala-me das escadas do metro, do abraço apertado. Das suas palavras, da nossa verdade. Da incansável vontade. Trocámos beijos quando pediam distância, partilhámos um copo quando chamavam pela desunião. Estivemos largas horas no bar do hotel, quando me inventavam outro destino. Chega um novo ano e, na verdade, tudo acontece como dantes. Só o “casamento do ano”, pelos protagonistas tão ansiado, já lá vai. Tanto alinhavámos, que lhes saiu a sorte grande. Abri as atrevidas comas, consciente da rasa alusão. De lá, o chapéu encarnado, imitando um fatigante pandã. As boas vindas a lembrar o diabo, fingindo risinhos em desformes normas de passerelle. A rua, neste hiato, quase a terminar, o ano a ganhar terreno. Apanho o ensejo certo, fotografei o amor perfeito. Ri-me com eles. Como naquela mesa de restaurante caro, bem mais na mesa singela de lugar com comida. Mais uns passos, chego ao destino. Com tempo, como faço por repetir. A verdade, que dispensa convida a inteligência, velozmente se torna numa metáfora. Lamento o tempo perdido, os livros por ler. Desconfio, no mesmo nível, das caras eternamente paralisadas no modo felizes para sempre. Ou dos corpos que envergam um trench-coat caro, uns sapatos de pele limpa e um relógio vistoso que agem como suínos a céu aberto. A linguagem torta assalta-me depois dos bons dias não serem devolvidos a uma farda que limpa o soalho. O mesmo que os ditos sapatos pisam. O olhar altivo volta-se e sorri para mim. Com o meu casaco de inverno, abstenho-me de qualquer resposta e sigo caminho. Este que escreve, não olha unilateralmente. Rica senhora que de esfregona e balde às costas, leva um prédio nas mãos. Soube, mais adiante, que Maria Rogélia, de seu nome, tem cinquenta e dois anos e uma família feliz. Não tem casacos com nomes inventados, tampouco, marcas exuberantes a cobrirem-lhe a pele. Ganhou o prémio maior, tem uma família de valor. Agradeci-lhe a breve troca de palavras e gabei-lhe a postura. Até qualquer dia, rematou a senhora. Ainda agora começou e, não nos enganemos, nada mudou. O mundo gira, a arrogância vive em apneia, o snobismo ainda ganha investimento e suplanta o conhecimento. A Maria é da limpeza e o Salvador investe na bolsa. Voltei ao carro. E, neste balanço, os quadros. Os meus quadros, com pesar, permanecem em convivência. Sobre o soalho e junto à parede abraçada pelo rodapé. Novo ano, nada mudou. E segue sem parar.