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10.3.16

Em diferido. #46

Sem a reflexão imprescindível - Lamentavelmente, os convites já não vêm em carta fechada, com o endereço certo e o nome do destinatário com todas as letras. Sem erros, nem ausentes letras. Por fim, entregues em mão. Hoje em dia, vêm por bem, mas na força proporcional ao quotidiano desta gente invertida. O rio pode ser a passadeira perfeita. As palmeiras que abanam ao sabor do vento, enquanto dão um toque de paraíso à esplanada, podem, perfeitamente, ser bailarinas de serviço. Mas de qualidade. Não têm beleza no nome. Os caixotes de lixo, tão disfarçados, podem ser pratos imaculados de uma bateria. Os sofás que vemos no interior, numa putativa referência vaga às elegantes zebras, podem ser um qualquer piano de cauda. O funcionário, que nos atendeu com a postura correcta, contudo caída em desuso, de braços no lugar, podia, sem mazelas, ser um actor de uma película branca e negra. O sol que nos apanha não tem comparação. Éramos quatro à mesa. Um deles, um puto com graça. Levantou uma questão, que não tem resposta e da qual falarei em breve. Outra, uma mulher que conhecemos no acaso. Simpática, católica praticante e defensora dos grupos e de uma sociedade em definição constante. Posso ter-me enganado, mas foi o que me passou. A terceira pessoa, olhando-me nos olhos, atiça-me com – Quem diria que havíamos de estar numa esplanada, a esta hora, numa segunda-feira, a tomar algo. – É verdade, ninguém. O tempo não acalmou. Gastamo-lo sem dar por isso. Agora é um novo dia e chove copiosamente. Bad girl, bad girl.

29.2.16

Os tempos da dama.

A chuva vem dando tréguas, o céu já está limpo, o azul bonito, o convite certo. O burburinho vai tomando conta da sala. Lá fora, uma avenida composta pelo tom e ambiente característicos da época. A dama vem de saltos, pernas esguias e pouco vestidas. Uma saia curta, acima dos joelhos. Não sei como é que os entendidos lhe chamam, a mim parece-me uma roda com vida. Um casaco comprido lembra que o frio ainda ataca. Uma mala colorida na mão. Pequena, pouco importante na dimensão, o oposto na selecção, fui ouvindo. Uns óculos escuros, diva na passadeira. O cabelo vem preso, alinhado e alinhavado com a temática. Os quiosques ao fundo, uma fotografia com qualidade. Um tipo com aspecto rústico brinca com o fumo. Com o cigarro. Ora entre os lábios, ora caído numa mão fria. Depois, exala e o calor ganha forma. Andou nisto, de máquina fotográfica ao peito, até à aguardada chegada. A dama continua os passos, trocando as pernas, como só elas são capazes de elaborar. Logo depois do fotografo brincalhão e de barba grossa, estão outros. Mais novos, exasperados. Ansiosos pelo retrato perfeito. Apressam-se a chegar-lhe perto. Ela, dama sobejamente conhecida e sabedora do ritual, sorri suavemente. A avenida não chega. Enche-se de qualquer coisa que não se vê. Sente-se, acredite. Neste frenesim, três velhas e carismáticas senhoras, deixam-se ficar num banco, meio apáticas, um tanto atentas. O olhar de todas cai sobre a dama, diva de um país curto. Guardando-a mesmo à sua frente, as velhas senhoras apontam e sorriem. Levam as mãos à boca. Gritam pelo nome e do estado quase inerte avançam para o frenético movimento. Pedem beijos, abraços fortes. A dama devolve-lhes tudo. E embarcam numa troca de afectos de rua. O objectivo é cumprido. Sem pressa, vai até à entrada. Luzes e mais luzes. Afoitas, capazes de embebedar um desprevenido. E lembro-me, neste caso de um documentário. Um relato acerca da trivialidade da vivência de uma excelsa figura. No tempo, uma diva celeste, nada ligeira. No final, tivemos o presente de conhecer a certeza de que o que parece, não é senão a realidade atrofiada. Acordei deste pensamento, com a euforia. Finalmente, ei-la. Chegou. O burburinho adensou-se e ganhou novo corpo. A dama acena com a mão direita. Agradece a companhia. Toma a sala com um discurso eloquente. E, já no fim, garante, não dá tudo. Tem medo de não levar nada, de não voltar com a intimidade no lugar. E tem razão. Acontece-lhe, tal como, aos jovens fotógrafos que a aguardavam ou às velhas senhoras que, levadas pela surpresa, não foram capazes de suspender a acção. Tudo, por tudo. Pela primeira vontade. Pela certeza de que dar é bom. Pela convicção de que levar algo ou alguém para casa é ainda melhor. Como um cigarro que chegou ao fim. Ou como envergar um blazer axadrezado em tons de inverno, uma gravata verde seco e um lenço divertido na lapela.

25.2.16

Em diferido. #45

Muita saúde e sorte é o que lhe desejo - Doravante foquemo-nos no adágio que apregoa o horário bem matutino e aos seus benefícios. Oiço um bom dia lá ao fundo. O sono vem acompanhando os meus passos desde manhã cedo. Parece mal, assim ao jeito de quem procura o espaço e a cadeira certos para fazer da cama um lugar melhor. Assumir o sono que não dormiu, confrange a sociedade e a obrigação das maneiras bem pausadas e pautadas. Parece-se com a ideia tão estapafúrdia de querer uma cadeira à cabeceira. Duas, diferentes e, se possível, datadas. Compô-las com o tempo. Quão blasé me tornaria – em descasos, ainda mais - se optasse por confundir e difundir ideias desordenadas, imitando uma mímica repetida, ignorando o tédio ao redor. As pessoas passam em grande número e falam alto, na televisão da moda passa um vídeo pop onde as ancas da jovem torneada se mexem com afinco e açambarcam o ecrã, o miúdo vem de rosto lavado em lágrimas porque não comeu o terceiro bolo, um casal vestiu-se para o casamento do ano mas age como se vivesse entre a espada e a parede. Um outro casal, bem mais vivido, leva as mãos enlaçadas, sorriem e apontam curiosos para um pequeno pássaro que está pousado entre os verdes. Casal que, sinceramente, me apeteceu fotografar. Homens apressados carregam caixas pesadas para lá, voltam para cá, e repetem a acção. Os saltos altos soam na calçada e os chinelos ainda são a maioria. O acordo ortográfico, que degrada um tanto do léxico e foi vilmente imposto, come as páginas por onde passo os olhos. Esta compilação provém da desdita que resulta da luta mental em favor do cidadão activo. Tudo isto e mais um par de óculos de sol.

10.2.16

Em diferido. #44

Um café e um romance, por favor - Estás a pensar em quê? Perguntou-me o homem de idade, cabelo grisalho e desportista nato. Não dispensa caminhadas longas e uma certa dedicação à vida saudável. Eu não me lembro da última vez que entrei no ginásio. Talvez passe o tempo de forma desencontrada com a força e o vagar com que uma mão passa pelo cabelo. Não há afagos para o corpo, rasga num mergulho inventado e faz-te homem em cada sentido. Crueldade tamanha. Nada dói, ninguém esquece. Tudo dói, ninguém perdoa. Toma o café, antes que arrefeça. Prefiro assim mesmo, disse-lhe. Também não coloco açúcar, sou incapaz, continuei. Perdes o doce e amargo ímpeto da palavra numa chávena branca, útil, mas básica, atiçou-me. Ri-me e olhei-lhe nos olhos. Para, se possível, tentar perceber a mensagem. Imitei, no lado esquerdo, um olhar que questiona. Ando a ler, voltei-me para a literatura, adiantou. Uma leitura que fala de amor, desabafou. Enquanto eu pensava que, por ignorância, tenho lido substancialmente menos, aplaudi-lhe a decisão. Conte-me, então, o que aprendeu, entretanto, pedi-lhe. Pouco ou nada, fico-me pelas mentiras que vêm lá e gabo-me por ter mentido pouco, disse-me. Isso ou soube fazê-lo, respondi-lhe. Gargalhou. E, agora sim, tomei o café. Ainda vou vê-lo a imitar um romance.

1.2.16

O ano segue.

É como se o novo ano tivesse perdido intenção, força no contexto. Desliguei o carro, apaguei, mentalmente, qualquer coisa e saí. O novo ano já arrancou. Guardo ânsias. De ver renascer, na luta crescer. De pensar e conseguir ganhar tempo para ler. Penso no velho do jornal. Tirei-lhe a vista de cima. Não consigo encarrilhar e, por isso, não consigo adiantar a última vez que com ele me cruzei. Factos na mente, dia no esquecimento. Lia as gordas, pensava as mais miúdas. Falava sobre ambas, perguntava-me e esperava a minha opinião. Escutava-o com primorosa atenção. Íamos até à saudável discussão. Bebíamos um café. Ele temperava-o com a água amena. Devolvo o pensamento, volto ao carro. Carrego a máquina fotográfica. Sem utilizar o raciocínio, avanço pela rua. Passo pelo restaurante de boa fama, ar requintado, talheres elegantes, pratos de qualidade e guardanapos de fino pano. Noutra altura, antes do novo ano, dos outros dois também, rimos ali. Entre uma garfada e um vinho escolhido aleatoriamente. Contudo, foi no desassossego doutro lugar, que demos gargalhadas infinitas, tivemos certezas definidas. Enquanto avanço pela rua, neste jogo, toca o telemóvel. A D., eterna amizade, lembra-me por escrito, a ausência e a saudade. Fala-me das escadas do metro, do abraço apertado. Das suas palavras, da nossa verdade. Da incansável vontade. Trocámos beijos quando pediam distância, partilhámos um copo quando chamavam pela desunião. Estivemos largas horas no bar do hotel, quando me inventavam outro destino. Chega um novo ano e, na verdade, tudo acontece como dantes. Só o “casamento do ano”, pelos protagonistas tão ansiado, já lá vai. Tanto alinhavámos, que lhes saiu a sorte grande. Abri as atrevidas comas, consciente da rasa alusão. De lá, o chapéu encarnado, imitando um fatigante pandã. As boas vindas a lembrar o diabo, fingindo risinhos em desformes normas de passerelle. A rua, neste hiato, quase a terminar, o ano a ganhar terreno. Apanho o ensejo certo, fotografei o amor perfeito. Ri-me com eles. Como naquela mesa de restaurante caro, bem mais na mesa singela de lugar com comida. Mais uns passos, chego ao destino. Com tempo, como faço por repetir. A verdade, que dispensa convida a inteligência, velozmente se torna numa metáfora. Lamento o tempo perdido, os livros por ler. Desconfio, no mesmo nível, das caras eternamente paralisadas no modo felizes para sempre. Ou dos corpos que envergam um trench-coat caro, uns sapatos de pele limpa e um relógio vistoso que agem como suínos a céu aberto. A linguagem torta assalta-me depois dos bons dias não serem devolvidos a uma farda que limpa o soalho. O mesmo que os ditos sapatos pisam. O olhar altivo volta-se e sorri para mim. Com o meu casaco de inverno, abstenho-me de qualquer resposta e sigo caminho. Este que escreve, não olha unilateralmente. Rica senhora que de esfregona e balde às costas, leva um prédio nas mãos. Soube, mais adiante, que Maria Rogélia, de seu nome, tem cinquenta e dois anos e uma família feliz. Não tem casacos com nomes inventados, tampouco, marcas exuberantes a cobrirem-lhe a pele. Ganhou o prémio maior, tem uma família de valor. Agradeci-lhe a breve troca de palavras e gabei-lhe a postura. Até qualquer dia, rematou a senhora. Ainda agora começou e, não nos enganemos, nada mudou. O mundo gira, a arrogância vive em apneia, o snobismo ainda ganha investimento e suplanta o conhecimento. A Maria é da limpeza e o Salvador investe na bolsa. Voltei ao carro. E, neste balanço, os quadros. Os meus quadros, com pesar, permanecem em convivência. Sobre o soalho e junto à parede abraçada pelo rodapé. Novo ano, nada mudou. E segue sem parar.

7.12.15

Ladeira acima.

Ligo-te depois, avisou-me a mensagem que fiz esquecida. Travava, no instante, uma luta verdadeira. Querer e fazer. Ladeira acima, a calçada insinua-se húmida, os ténis laranja forte, azul concentrado. New Balance, um pouco da tua atenção. Ladeira acima, o pensamento consome. Quão hipster me parece esta ideia. Havia de ganhar coragem, voltar atrás e, de novo, entrar. Chamam-me atrevido, se avançar. Ladeira abaixo, invertendo o meu sentido, vem uma camisa carregada de beijos, uma mala de um amarelo gritante, uma saia mexida e uns sapatos de menino, não fosse a moda um entendedor que basta. Um cabelo longo de madeixas bronzeadas. Um peito hirto, um decote reservado. Sorri com convicção e os óculos escuros obrigam a adivinhar-lhe toda a expressão. Menina bonita, de passo acertado e flores na mão. Trouxe de um amor preso no coração ou leva para o destino dono da paixão. Ladeira abaixo, não resisto e levo, na sua direcção, o olhar. Lá vai ela, dando os bons dias. Aqui e ali. Acenam-lhe e devolvem a simpatia matinal. Por pela hipster montra passar, da minha vontade tornei-me a lembrar. Quão confuso é pensar, insistir e  não actuar. Ladeira acima, lá vou as ideias a juntar. Jogo assim, para desta ideia me livrar. Olha que a rima no momento do acaso, soa mal mas ajuda a avançar. Bom dia, oiço junto ao ouvido. Bom amigo, que oportuno encontro. Conversa passada, pergunta-me por ela. Diz-me, sem pausa para responder, que já não há casamento. Arranjou um trinta e um. Vai ao sabor do vento. Optou por um bigode e sexo constante. É relativamente incerto, mas não lhe falta humanidade. Certamente, dono de outra liberdade. O tempo voa, até mais ver, bom rapaz. Ladeira íngreme e sem fim. É o ponto de partida. Chegado ao carro, um anúncio de cartomante sapiente. Ri sozinho, livrei-me da publicidade. Já decidi, não levo flores, não defino o bigode. Deixo ficar a barba de dias, os ténis juvenis, a carteira no bolso e o carro no jardim. Leva-me para onde quiseres, fala-me ao ouvido e não leves a mal. Quão hispter pode ser a montra de alguém. Ter a certeza, viver sem receio, sem pensar no eventual desdém. Liga-me quando quiseres. Se a paixão ainda respirar, levo-te um coração a palpitar. Um ramo de flores, a promessa de voltar.

2.12.15

Aceitei um bom vinho e uma selfie à saída.

No Novembro frio, noite a negro e branco, apontamentos de sombra dos candeeiros colocados. Um casaco quente, a moda de quem corre por gosto. Convite surpresa, resposta certa. A porta abre-se, a cordialidade de receber. Levam-nos pelo caminho. Espera-nos uma mesa decorada. Um espaço cuidado. Apresento-lhes o que trouxe, respira e tem socalcos atraentes no sabor. Cumprimentos demorados, perguntas da ocasião. Oferecem-nos o lugar, antes uma última resposta à mensagem pendente. De lá longe, as dúvidas que inventam certezas, o inverso acontece tal e qual. Fora da hora marcada, chega alguém. Da casa, esquecida algures. Tem o sorriso largo, como tenho presente. Acena e obriga a nova gestão de lugares. É assertiva, mas engana com soberba. Os braços despidos mostram as tatuagens que, imagino, são estratégias da paixão de decorar o corpo. Ficam-lhe bem, que a responsabilidade do feitio engana com a desconstrução da pintura. Conversa muito e conta estórias sem fim. Logo sentada, oferece-me vinho. Aceito e serve-me com cuidado. Não descura, por qualquer instante, a conversa. Monopoliza, a dado momento, a atenção do olhar. Fala-me de uma cidade distante, de um evento que a levou à raiz. A música que é paixão, escuta sempre com atenção. Não me importava de fotografá-la. Guardar, por certo, a negro e branco, a arrogância da postura e a liberdade das palavras que, em foco, não se ouvem. Lêem-se os lábios, as tatuagens pelos braços abaixo. O café bem longo que tomou no final. Perdi, contudo, uma fotografia do caraças. Ganhei um convite para voltar e para o estúdio de tatuagens conhecer. Perdi a oportunidade de fixar aquela imagem. Não me livrei de uma selfie a dois, com direito a redes sociais. Hei-de lá voltar, jovem de sorriso abrangente. No regresso a casa, de lá longe, a pergunta nunca esquecida. Quem é a dona daquelas feições?

2.11.15

Ideias não nos faltam.

Não venhas tarde, meu bom conviva. Ora, gente afoita e dada à rambóia, façam o favor de entrar. Na mão, a surpresa da ocasião. Nesta sala por almas trivialmente apaixonantes composta. Logo adiante, já o tempo se sumiu. Sobre a mesa já jazem várias garrafas. Por restarem vazias, já lhes perdemos a conta. Os copos multiplicam-se e com destino. O vinho é senhor, na voz é rei. Podia rimar, mas fico-me pela conversa. A troca de prosa válida e com substância. A noite é grande, nada curta. Olhos nos olhos, que dos senhores e da verdade reza a história. Boa comida para sossegar as ânsias. Estômago compostinho abrevia caminho. A pitada apimentada, a dona da gargalhada. Hei-de, numa corrida cheia de paleio, tão breve quanto a minha memória desmembrada, falar sobre a artista de variedades que encabeçou a arte e monopolizou, para gáudio dos comensais, o humor da mesa. Guardam-se, algures, fotografias e vídeos. Escondem-se porque a intimidade tem barreiras. Nunca a força do vinho, sempre as ideias que não nos largam. Imaginamo-la, baixa e frenética, num palco grande. Cartazes à porta, anúncios com trejeitos de outros tempos. Ora, tomem atenção, é chegada a hora da comédia que agrada ao povo. Pois, entre linguagem habilmente prosaica e gestos esbeltos, vem do coração.

14.10.15

Em diferido. #41

Vai guiando os ensaios por onde quiser - Volto sempre lá. Ou voltava até ao dia em que se mudaram. Que a cidade é bela e tem encantos sem fim, já todos sabemos. Tem luz de casa real e prédios de decoração fina. Tem beicinho se não prometer voltar. Sem ser preciso supor, tenho uma paixão sem fim. A cidade é fina e tem lugares vários. Na mesma cidade, volto às visitas. Volto sempre. Agora, volto a outro lugar, a mesma cidade. Antes, aqueles prédios enormes. Cá do asfalto, antes do padrão português e do jardim trabalhado, olho para cima e parece que nunca mais se endireita. É um indutor, tão sedutor, do pensamento. Lá em cima, numa varanda larga, o cigarro de ocasião. A visão inversa, o mesmo sentimento, a mesma sedução. Entre a conversa e a vertigem passageira, passa no asfalto uma velha mulher. Se não me engano, vi-a todas as vezes que os visitei. Sempre a passar naquela rua. De negro se tapava. Só lhe víamos o rosto. Tão cansado e abatido. Um lenço negro a tapar-lhe os cabelos, uma saia negra pelo joelho. Um casaco negro ou uma camisa no mesmo tom. Umas meias negras a esconder a pele. Curva, parecia que nunca tirava os olhos do chão. Puxava, com as mãos que imagino vencidas pelo tempo, um carrinho. Daqueles que servem para o auxílio das compras. Era, sem falsas ideologias, a excepção daquele lugar. Chamou-me, particularmente, a atenção. Todas as vezes. Nesse fim de tarde, a última vez em que estive naquela casa, enquanto a velha senhora passava, perguntei-lhes sobre ela. Não tinham muito para contar. Somente, que todos os dias arranjava um canto para estender os livros e tentar vendê-los. Assim, o carrinho com duas rodas era o armazém. Quão valioso o conteúdo, permiti-me pensar. Como na literatura, a vida quotidiana é um ensejo permanente. Até à página final.

13.10.15

Homem muito sabedor.

Ao fundo, no canto da sala, um velho homem toca piano. Brinca com as negras, com as claras. Veste ganga da cabeça aos pés. Tem barba acinzentada, o tom do cabelo. Calça umas botas grossas e castanhas. O pulso direito guarda umas pulseiras. O som é sossegado mas em nada displicente. Tem dom na carne e no espírito. Os espelhos à sua volta compõem o cenário, como se fosse um ensaio constante. Ao redor, outros aparelhos, ninguém lhes chega perto. O soalho de madeira, uma carpete digna. Fisicamente, o espectáculo não perde um soluço. As mãos, ainda as vejo a percorrer cada tecla. A exigente passada do talento. Um encontro do dito com o feito, um encontro de vontades, o velho homem sabedor e o piano de cauda ansioso. Um resumo erudito de elegantes partilhas. Chega o silêncio para, logo depois, entrar impetuosamente uma nova melodia. O som é, nesta fase, robusto, igualmente expressivo. Do tecto, nasce um grande candeeiro com braços sem fim. A luz perfeita. Quem assiste, aproxima-se, e opta, intuitivamente, por sobrestar a respiração. Os pequenos espectadores sentaram-se junto ao homem velho e ao piano e olhavam, olhavam com encanto. Outra vez o silêncio e a coragem ofereceu-lhes, ao talentoso homem e ao afinado piano, um aplauso demorado. O artista levanta os braços, acena com as duas mãos, e desta forma agradece. Gostei de vos sentir, ao invés de ouvir, rematou. Apreciar arte e os autores é, muitas vezes, dar-lhes o fundo que merecem. Em tempo algum, é o espaço. Sempre os preceitos de quem sabe.

12.10.15

Apogeu figurado.

A sala compõe-se ao nível da certeza de querer bem receber. A música presente, as luzes a passar e as velas ao centro. Na folga da comemoração, tempo há para a conversa e a devida reflexão. Os palmos, até certa idade, são grandeza. Desejas medir com a mão, uma e outra vez, até chegares ao resultado final. Os passos, daí até outro tempo, são a validade da medição. Do pequeno carro vermelho de brincar até à fachada sem fim da casa onde moras. Não pensas nisso, mas tudo é enorme. Falava com o petiz do lado e tomei-lhe a graça das palavras. Pertinentes, num português correcto e variado. Largou um lamento sentido, a música de fundo é perfeita para dormir, tão chata lhe parece, a mesa é tão comprida, o bolo é maior do que a vontade de comer que, eventualmente, todos juntos pudéssemos ter. Continuava, lembrando-me que a força da nossa animação estava a perder-se. Rimos muito, aplaudimos outro tanto, falávamos pelos cotovelos. São as horas a passar, como entende ele, petiz cansado pela agitação do dia longo. Somos uma réplica dos loucos. Foge-nos a efusiva erupção da convivência. E nem damos por isso. Amanhã acordamos, as horas teimaram em não esperar. Tudo mudou, até aquele imponente relógio ao fundo da sala. Tão menor, que parece outro. Não arrisques chegar-lhe perto e medir de novo. A desilusão nunca esquece, pior ainda, nunca falha. Guardo a saudade de acreditar que, em subindo ao cume daquela árvore, hoje perfeitamente normal, à época monstruosamente grande, ficaria tão perto do céu. Do palmo e meio ao passo de gigante está tudo. Um aplauso para isso.

8.10.15

Sumário.

Soa “Ain’t no sunshine” numa versão admirável e é coincidência. Sinto-lhe a pele fria, notoriamente afectada pela brisa e pela temperatura a baixar. Um arrepio que se vê. Partilhámos a mesma praia vezes sem conta. Nas manhãs quentes, nas tardes de verão sem fim e nas noites longas. Dividimos o quotidiano num tempo contado. Nos dias frescos, nas semanas ocupadas e rápidas. Nos meses largos, nas horas sentidas. Rimos muito e em voz alta. Lembrou-me a palavra risada e nunca mais a perdi da ideia. Desvendou alguns pormenores, li-lhe nos lábios algumas certezas. A atracção e a admiração na mesma conta. Promessas vãs, maturidade inútil. O corpo tão bonito e a cara perfeita. Os cabelos a bailar. Sob o luar, a luz certa no mar, falámos em voz reduzida. Partilhámos o corpo. Contámos segredos e pensámos em poesia. Os olhos claros tinham vergonha, as mãos desenhavam o pensamento. Prendeu-me a atenção. E levou-me pela mão. Ensinou-me a beleza, ocupou-me a cabeça. Partilhámos paixão e paixões. Olhei, desde então, para o elefante com outra perspectiva. Animal de eleição, simpatia para a vida. Encontrei, há instantes, a fotografia perfeita. Havia de lha enviar, não fosse a sorte fugir-lhe. Esse tempo já lá vai. Ficou a terna e infinita amizade. As mensagens na altura certa. Muitos elefantes para logo, é o que desejo. Tão grandes e imponentes quanto a sorte que sei que te está reservada. Precisamente hoje, que acontece o que já me havias contado e sabias tão certo lá atrás.

24.9.15

Expressão de despedida.

O ambiente é pesado, não fosse o descanso eterno um adeus. Sem sobressaltos que venham a seguir. Um ponto final. Sem margem para dúvidas, não raras vezes, um ponto final precoce. Antes do tempo certo. Como se o tempo tivesse essa contabilidade. O ambiente é pesado, não fosse a igreja imponente, idealmente escolhida. Os dourados sobre o branco e a pedra. O frio quase inerente. As vestes elegantes no altar. As imagens à volta. As flores em jeito de homenagem. A cerimónia fúnebre. O peso nos rostos. Da primeira fila à última. O silêncio meio atrofiado. Como se este fosse, assim sem que nos apercebamos, roubado pelo barulho de um género de brisa. A porta da igreja totalmente aberta, deixando o convite. Entra luz por todos os lados. Os tectos trabalhados ganham outra vida. Escondem-se os olhos, desde logo as emoções, atrás de uns óculos escuros. Cumprimentos de quem não vê caras, mas lembra nomes e laços familiares. A saudade, palavra recorrente. A missa, como se ia ouvindo de boca em boca, foi bonita. Os cânticos, fundamentais apontamentos. Seguram-se, aqui e ali, lenços brancos que enxugam as lágrimas teimosas. Não é fácil. E penso nisso, enquanto olho para o marido e para os descendentes na primeira fila. Não é fácil sentar naquele lugar. Como não foram fáceis os últimos dias, os meses que antecederam a morte demorada. Aquele lugar tem um peso que não tem competição. É chegado o momento que também a fez tremer ao longo de toda a cerimónia. De vestido negro, saltos altos e um rosto caído, a filha, minha prima distante, avança na leitura do discurso preparado. Não lhe conheço, senão a cara e o nome. Se noutro tempo trocámos palavras, já me esqueci. Aludiu à vida cheia da mãe, ao amor aos seus, à entrega às causas em que acreditava, sempre carregada de humanidade. Dos meses frios até chegarem ali, da doença, do cancro. Foi, ao longo de cada palavra dita, exibindo um sorriso. Não chorou. Transbordaram, contudo, as emoções. Não sei se é sempre assim, mas há emoções que passam a mensagem, mesmo que olhes fixamente para as tábuas velhas, ou para os pés que não têm sossego. Fechou-se a grande porta. O resto, já sabemos. É saudade e, como lembrou o filho no derradeiro instante, é parar hoje e ganhar balanço para amanhã.

23.9.15

Como disse?

Século XXI, chega o Outono no ano dois mil e quinze. Sentadas tomam umas águas, sossegam os óculos de sol na mesa. Em copos altos, brilhantes. De cabelos armados, cores simpáticas, bem ao jeito da verdadeira e recatada senhora da sociedade. Dentes brancos e direitos, batom cor de sangue, figurino a condizer. Saltos altos e malas no tom. Ouro e fantasia em amena convivência. Depois da morte, assunto de largos momentos, chega a depressão da sociedade global. Cruzam-se, imagine-se, raças, credos e outros fundamentos. A medo, esta amiga de longa data da minha mãe, conta que a filha vem mantendo uma relação com um rapaz. Silêncio. Um rapaz preto. Ouço um suspiro. Voltou a voz baixa e a ressalva que imperava: um rapaz preto, mas nada de especial, assim clarinho. Uma simpatia de moço. Limpa, cozinha e tem um sem fim de talentos. Mas é preto, o malandro. Esperando pelo fim do discurso, a minha mãe pergunta: - Estão felizes? - Claro, só não aguento ter de partilhar a televisão no horário da novela dos pretos. Peço-lhe, encarecidamente, que mude de sala. – A minha mãe ofereceu uma gargalhada das típicas e termina: - Que o rapaz a trate como ela merece, que sejam felizes. Longe de tornar a prosa anterior e a seguinte num estilo armado de ferro e ausente de ternura dos pés à cabeça. Da que me vem de dentro, fugindo assim a atenção do que possa, eventualmente, parecer. Mas apontando o dedo à miséria emocional e intelectual do outro. Não faz sentido, por força da verdade de cada um. Encontrei uma explicação para os encontros com esta conhecida serem propositadamente ausentes, demorados no tempo. É um absurdo que não se cultive a multiculturalidade. Certamente, tornei-me num homem com as características que me são intrínsecas e com uma outra parte, fruto dos estímulos e das circunstâncias. O preto, por exemplo, figura no topo das minhas cores favoritas. Mas não se esquece aí. À mesa, sentam-se bons amigos pretos. E, vamos lá perceber, temos conversas altamente cativadoras e reveladoras de inteligência. E, tal como eu, apreciam uma boa pausa para a ironia e respeitam a fraqueza alheia.

21.9.15

A calçada contada.

Chegada a vacância que do verão conhecemos, solta-se um ai de pena. Guardam-se os calções listados, as Paez que fizeram a estação. Logo as ruas ganham ares de senhora trabalhadora, menina estudante de trabalhos pesados e catraia desobediente. Senhorial fica o ar de quem as vê passar, cá em cima a tomar algo, lá em baixo na esplanada da moda bebericando qualquer imitador do estrangeiro. Incluo-me nessa estirpe enviesada que se deixa ficar e a ver passar. Se quisermos, numa de descoberta do alheio, incluo-me, igualmente, nos que envergam uns calções listados e, de quando em vez, umas Paez da moda com ares de beto. Dos que lá vão, entre um pé, depois outro, enfrentando a calçada desregulada da cidade, vou conhecendo as suas estórias, algumas pelo menos. Senhora pequena de curva acentuada, mulher de corpo rijo e altura de gigante. De braço dado, entrelaçado. Vão acenando para esta e para aquele, gente da rotina que se vai cruzando. Daquela boca um pouco desajeitada, com menos dentes, quase nenhuns, saem muitas verdades. Trabalhou toda a vida, avança com a cabeça baixa rua fora. Leva no braço direito a amiga de todas as manhãs. A mamã leva à escola, deixa soltar logo depois de um sorriso rasgado, sem vergonha dos dentes que já não estão lá. Que, de resto, lhe valeram a alcunha que carrega nos dias de hoje. No mesmo saco, carrega as dores da idade, a rara flexibilidade e o peso do desgosto. Morreu-lhe o marido, cedo e fugazmente, cedo demais, insiste ela. Ficaram os filhos que não lhe olham no rosto há tempo demais. Um neto que foge da calçada se a encontrar. Vou guardar o resto, que não me obrigo a desvendar a intimidade de quem partilha, desinteressadamente, o que traça as suas carnes, os ossos velhos e, mais importante, a psique. Essa, motor que é fundamental e que se abastecesse na partilha. Que tire férias o verão. Sem prejuízo, havemos de a ele voltar.

2.9.15

Nomes fictícios. #3

O Felipe não quer casar. Não é uma questão de tempo ou de vivências. É peremptório. Sempre que o assunto é casório. Repete-se, quantas vezes se multiplicam as questões. Verdade lhe seja entregue, não baixa a capacidade de voltar a sacudir as letras, formando-as resposta. Afirma, de mão passando na barba desfeita, e pelas linhas do rosto, acentuadas pela nudez, que casar não é ser-se. É estar-se. Ele não é muita coisa. Sabe que está muitas outras. Por outro lado, entende-se incapaz de gostar muito tempo. Não saberia viver, suportando alguém, num longo prazo. Sempre o soube. Escassos os namoros longos. Apreciou, sem forçar, os relacionamentos efémeros. O casamento, ilusões desfeitas, não é para ele. Diz, de expressão suportada na voz e com ar displicente, que para o homem, casar é ceder o lugar. Há homens que se desfazem desde tenra idade. O Felipe não esconde a desmedida relação e atracção pelo lugar primeiro. Pelo vazio da enganada liberdade. Pelo papel principal, não fossem a expressão e o conteúdo foleiros. Seja com este, seja com outro. Nome, fictício ou de certidão.

1.9.15

Em diferido. #39

Sublevação das gentes - Na sala por onde passei tantas vezes e que me lembro de olhar para ele, passar os olhos e só guardar a moldura de um dourado gasto. Agora que vejo bem ou, escolhendo melhor as palavras, agora que presto atenção ao quadro que sempre esteve naquela sala, vejo nele uma recordação que alguns dizem longe e sem armas para prevalecer numa sociedade em que os mundos confluem e nunca beliscam. Nesta sociedade. Na falada sociedade do minuto. Contam tudo ao pormenor. Sabe-se tudo a cada instante. É uma discussão que desconhece lugar. É uma aventura de linguagem e comportamento. Fala-se da ditadura efectiva e da liberdade condicionada com a mesma intensidade. Comparam-se termos e valores desprovidos de ligação. Salvando a verdade, este quadro recusa qualquer valorização de um regime ditatorial, antes de um povo que sobrevive sob a barbárie de um nome. Mas é de um tempo que fugir nem sequer era solução. Acusam-me, alguns desmemoriados, quando opino sobre o quanto este país ganhou depois da revolução, de desconhecer a vida de então. Argumento e respondem-me frases feitas. Um discurso com tão pouco volume, como acreditar que algumas décadas depois, tudo mudou.

31.8.15

Muita saúde e sorte é o que lhe desejo.

Doravante foquemo-nos no adágio que apregoa o horário bem matutino e aos seus benefícios. Oiço um bom dia lá ao fundo. O sono vem acompanhando os meus passos desde manhã cedo. Parece mal, assim ao jeito de quem procura o espaço e a cadeira certos para fazer da cama um lugar melhor. Assumir o sono que não dormiu, confrange a sociedade e a obrigação das maneiras bem pausadas e pautadas. Parece-se com a ideia tão estapafúrdia de querer uma cadeira à cabeceira. Duas, diferentes e, se possível, datadas. Compô-las com o tempo. Quão blasé me tornaria – em descasos, ainda mais - se optasse por confundir e difundir ideias desordenadas, imitando uma mímica repetida, ignorando o tédio ao redor. As pessoas passam em grande número e falam alto, na televisão da moda passa um vídeo pop onde as ancas da jovem torneada se mexem com afinco e açambarcam o ecrã, o miúdo vem de rosto lavado em lágrimas porque não comeu o terceiro bolo, um casal vestiu-se para o casamento do ano mas age como se vivesse entre a espada e a parede. Um outro casal, bem mais vivido, leva as mãos enlaçadas, sorriem e apontam curiosos para um pequeno pássaro que está pousado entre os verdes. Casal que, sinceramente, me apeteceu fotografar. Homens apressados carregam caixas pesadas para lá, voltam para cá, e repetem a acção. Os saltos altos soam na calçada e os chinelos ainda são a maioria. O acordo ortográfico, que degrada um tanto do léxico e foi vilmente imposto, come as páginas por onde passo os olhos. Esta compilação provém da desdita que resulta da luta mental em favor do cidadão activo. Tudo isto e mais um par de óculos de sol.

26.8.15

Foi num punhado de ruas que tive esta sorte.

Na rua, singular ou na pluralidade da existência - afastando quaisquer clichés, ainda assim, deixando-lhes, em jeito de convite, a porta entreaberta - há frases feitas pelas paredes vazias. Esburacadas, ocas, como já versava a canção. Aproveita-se a fachada, assim meio desligada da convivência mundana, e espetam-lhes frases. Algumas, alegram-lhes as vistas. Vestem-nas de imagens e palavras que se tornam, em levando a atenção à disposição, em tremendas equações. Mesmo que a matemática te escape, mesmo que a tenhas esgotado num atrasado e distante ano lectivo. Na rua, ou nessas múltiplas e diversificadas ruas, vou tendo sorte. Desde a janela escancarada, num primeiro piso antigo, que deixa as cortinas fugirem com o vento, para espreitar quem passa por baixo, donde saía, para além do tecido amancebado com a brisa, música boa. Alguns, sacanas preguiçosos, haviam de apelidá-la de ecléctica. Um bom jazz e logo depois Janis Joplin meio arranhada. Teve essa rua, pelo menos, naqueles minutos, vida nova. Sequer imagino se, porventura, é um hábito daquela janela. Mas que soava bem, isso não desminto. Passando por uma outra, onde desprovida de complexos, uma velha senhora descia de uma carrinha, e dançava para os companheiros de viagem. Lá dentro, todos sorriam, aplaudiam e acenavam felizes. Cá fora, no asfalto, os cabelos brancos, o corpo franzino davam liberdade. Saltava, imitava uma espécie de dança e ria. Elevando os braços. Uma reveria inqualificável à liberdade, à vida. Ri-me com ela. Por acreditar na sinceridade. Inacreditavelmente ou talvez não, fiquei feliz enquanto os via. Continuei e nunca mais esqueci a baixinha senhora que escolheu viver a vida, sob pena de perder pedaço. Até uma outra rua, onde, sem que o conhecesse, um jovem senhor acomodou-se ao meu passo e acompanhou-me rua abaixo. Desnivelado e desenrascado. Pensei. As palavras trôpegas e dispersas, a conexão inexistente. Vai esperar a namorada que está para chegar. Comprar uma casa e morar para sempre naquele amor. Anunciou-me que em tal superfície comercial os computadores portáteis estão a bom preço e numa outra os telemóveis preferidos são os mais vendidos. Trazia, debaixo do braço, papéis de publicidade que comprovavam. Bom casamento, amigo. Para ti também, que deve dar trabalho viver e pensar. Ri-me com ele. É verdade. Cansa, por demais. Loucos somos todos. E só merece o título se o fizermos sem prejuízo para a mente. Um viva!

25.8.15

Um chapéu e uma maçã verdes.

Acabo de sair do carro, e vejo pessoas com vontade de que o verão não morra. Estou como elas e com elas, sigo caminho e tomo as escadas. Trago um livro na mão. Tenho outro sossegado na mesa-de-cabeceira. Ainda outro na mesa de múltiplos afazeres. Ler, assim mesmo, vale por si. Não precisa de parentes emprestados, vontades inquinadas e valores monitorizados. Ler, sem mais nem menos, é um absurdo e valente gosto. Desgosto, se não acontece. Por seu turno, absorve-nos o frenesim constante da rotina. Consome-nos a fantasia de que vale sempre mais. Fazer mais e deixar o resto em estufada espera. Também por isto, pesa-me o facto de adiar leituras. De deixá-los, aos livros, por aí, até à merecida oportunidade. De desligar-me, com a idade a cavalgar, das idas à biblioteca da cidade. Da minha cidade. Num destes dias, daqueles de transição, entre o chegar, o ir e o voltar. Passei, volvidos tantos anos, à porta dessa biblioteca. Por fora, despida e sentida do tempo, continua oportunamente à disposição. Em tempos idos, sozinho a ler títulos, descrições e autores, não tantas vezes como pudesse, eventualmente, querer. Noutras vezes juntava-me ao pessoal, por força de trabalhos escolares, entre a pesquisa efectiva, a escrita pertinente, os diálogos estratosféricos, a imaginação sem fim, os livros abertos e a informação a ferver. Precisamente num desses dias, nós os três, companheiros de sempre, sossegávamos o espírito no átrio, ao ar livre. Numa mesa mesmo ao lado, um senhor. Hoje, se conseguir com algum esforço lembrar-me da sua cara, dar-lhe-ia uns cinquenta anos, sessenta no máximo. Naquele dia, pareceu-me um verdadeiro ancião. O senhor tinha um chapéu de veludo verde-escuro, uns óculos graduados, uma barba farta e esbranquiçada. Cruzava as pernas e lia o jornal, enquanto pousados na mesa, estavam dois livros e uma maçã verde. Um deles, tão pesado. Por duas vezes, ouvimo-lo falar, mas não entendemos uma sequer palavra. Falava mais alto, como que a dar a entender que se fazia ouvir. Tornou e numa terceira investida, pergunta-nos se sabíamos alguma informação sobre aquilo que comíamos. Sinceramente, não me recordo o que era. Respondemos-lhe por educação. Ele continuou e disse-nos que a carne e os açúcares, assim como, outros pertences da alimentação quotidiana, acabariam por nos matar. Discorreu sobre este e outros assuntos. Comam maçãs, terminou. Tenho pena, muita, de me ter esquecido de grande parte do seu discurso. Comam maçãs, bebam água e criminalizem todo o fumo que vos invadir o corpo. Simpaticamente, agradecemos-lhe. Ele levantou-se, enrolou o jornal, pô-lo debaixo do braço, agarrou nos dois livros e na maçã. Esta, levou-a à boca e mordeu-a. – Agora, dizia ele, tenham uma boa tarde. E muitas maçãs, é o que vos desejo. – Estava longe, muito, de imaginar que um dia, não tão distante quanto isso, eu iria proceder a uma mudança alimentar com expressão. Unicamente, por convicção e interpretação próprias. Acabo de chegar, pousar o livro e escrever este texto. Aprecio a ironia mas não atribuo menos importância à valentia de alguém se levantar para deixar a opinião ficar.