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2.2.17

A totalidade do que passa ali.

O casario guarda os tons quentes, mesmo desmaiados pela corrosão característica dos tempos. A rua ladeada de uns poucos automóveis, as senhoras cobertas contra o frio, a idade pesa-lhes nos ossos e na carne, tremem se as raízes desmoronam. Vêem passar e não perdoam a habitual troca de palavras. Tão simples, quanto quotidianamente necessárias. Gesticulam com um braço, o outro desagua na bengala que fingem segurar. Vão, pé ante pé, até aos bancos ripados do pequeno jardim. Uma espécie de centro de dia a céu aberto. Onde se esquecem do mundo e se esquecem delas. Imagino-as tagarelas, outras vezes tufadas. Compete-lhes descontar horas de um dia que ameaça não ter fim. Outro destino vem lá, longe de entender, capaz de desencontrar gritos. Traz os cabelos encarnados, ora ao vento, ora tapados. Chama a atenção o fogo que nasce da imaginação. Aí, assoma-se uma incansável capacidade de recordarmos histórias de encantar. Não deixamos passar o cinema francês, as suas questões do amor sorrateiro e as silhuetas atrevidas. Julgo-a num desfile diário, leve e segura para lá, nos mesmos moldes para cá. Traz os cabelos encarnados, num tom vivo e viçoso, enrola ao pescoço um lenço de fina seda e no rosto mostra um jeito seráfico. Não conheço a sina, os queixumes e as vitórias. Não sei nada. Mais destemido vem um cão de pequeno porte, a ladrar ao mesmo tempo que imita um cavalgar desencontrado. Só sossega quando chega juntinho às velhas senhoras. Parece-me pertença do grupo. O dia está coberto e adivinham chuva e tempo agreste. Capricho ou não, deixam-se ficar. Acredito, dos velhos corpos e das mentes saturadas, há-de sempre nascer sabedoria. Reinventar-se em cada troca de impressões e olhar-lhes nos olhos. Até qualquer dia.

31.1.17

Entre a chuva que maça e o bom dia ditoso.

Não me canso de ver passar, observo sabendo que o melhor do outro está sempre a atravessar, enquanto o melhor de mim arquitecta a mais imponente e, não raras vezes, incoerente instalação. Respiro no compasso. Chove e chove com fé. A mesma que escorrega, fina e desesperada, pela folga dos dedos. Mas essa é matéria para outro eventual aranzel. Vem lá a rapariga que foge dos salpicos, hirta sobre os saltos altos, a mala bamboleante, o chapéu na cabeça a esconder-lhe os olhos bonitos. É a simpática de todos os dias. Desde que larga o seu Mini bege até que chega ao escritório. Ela pega nas pessoas e leva-as no colo de um sorriso bem sincero. Chove e chove com vontade. As senhoras da recepção dedicam as horas ao lastimo da água que cai lá fora, intercaladas com o chamamento do sol e com o trauteio das letras da Kizomba que não dá descanso. Exibem as unhas de gel feitas pela filha da Odete, a Carina que, desde meados do ano transacto, trabalha no cabeleireiro da Dina. Logo se vê, o negócio capilar e afins, ainda recruta conforme o nome de baptismo. “Dina Cabeleireiros” ainda tem saída. Praguejam como se o mundo tivesse perdido a lucidez. Não é mentira, não. Enviesados vão os tempos. Disformes, as acções que ficam escondidas na oratória desleal. Nisto, acomodado neste frenético evento matutino, soa o meu primeiro nome seguido do apelido. À minha espera, o sorriso de sempre. Vejo tudo isto e não me deixo fatigar. Bom dia, deixei-lhes ao sair. Desejo vida longa às unhas de gel e à executante, um verão tão longo quanto capaz de saciar, e umas valentes horas com a rádio nacional como companhia. Desce sempre em mim uma nada escusa vontade de acreditar no modo inócuo de a vida levar.

30.1.17

Verosímil simpatia.

Vem de longe a minha, mais do que simpatia, admiração pelo genuinamente bom. No mesmo sentido, noutra e maior escala, vem de um ponto que se despede de memória, o meu sentimento de reverência para com as pessoas boas. Não acontece ser um apontamento fugaz, uma voz que deixa aqui, entre a luz do sol e a penumbra da noite, a tentação de fazer parecer. Fá-lo sempre, seja sob o brilho que irradia, seja sob o escuro do destino fatalmente taciturno da noite. Dá-se a sorte no momento em que não fujo à verdade de, sem modéstia, lembrar que conheço gente boa. Mulheres e homens que vivem por e para se dedicar a causas tão terrenas quanto necessárias. Sem que belisquem a individualidade e deixem fugir a vida. Que são fiéis à psique evoluída, ao coração que bate certo e não se deixa indiferente, à carne que não sucumbe ao medo, e que se cumprem no caminho inverso da avalancha que a sociedade atesta. Afasto-me, com a devida vénia, dessa definição. Serei alguém que procura medir a razão e a convicção interna, bem como, no trato com o outro. Fico comedido perante a dimensão da bondade alheia. Também de longe, vem a minha amizade com um tipo que não tem escala. Antes mesmo do tempo em que me apelidava, num tom jocoso, de beto. Respondi-lhe sempre que sou um fruto do acaso. Rimo-nos tanto, que as esperanças eram seguir o trecho do que haviam desenhado para nós. Volvidos estes anos, somos os mesmos. Ele insiste na promoção do bem. Investe no corpo e na alma. Viaja sem destino para o lugar que lhe guarda o fado e a lucidez. No nosso último encontro, dois dias antes da viagem que se seguia, fomos para um lugar de encontros antigos, numa sala reservada para nós, a conversar e a lembrar sem equívocos. Éramos seis à volta de uma mesa improvisada. Que este é um tipo que não escolhe o design. De cerveja na mão, de calções e t-shirt, de sandálias no pé, falou, uma vez mais, com mérito. Hei-de de escrever sobre o meu amigo que é amigo da vida. Dias depois, havia de receber um e-mail dando conta da sua saída das redes sociais – na verdade, da única que utilizava e de forma bastante breve – no mesmo, continuava com um texto que se curva no desejo de voltar a ouvi-lo. Demos um abraço forte. O tipo bom, que tem prosa bonita e sandálias de couro e o tipo que agradece a amizade, calça sapatos bonitos e ténis da moda, dá o braço à perseguição de fazer melhor e que, sem prejuízo, continua a afirmar que é um beto do acaso.

19.12.16

Dezembro embrulhado em luzes.

Vim pela rua, sob um frio nada vulgar, sobre a calçada nacional, com a vontade de contar mentalmente os pontos de luzes a enfeitar, a cabeça a magicar. Larguei os sapatos bonitos e os ténis divertidos. Trouxe as botas felizes. Um lenço farto ao pescoço, o casaco capaz a cobrir o corpo. Vim pela rua secundária, com as luzinhas a desenhar a época. Hei-de desaguar no largo, logo adiante, cuja árvore central brilha e agiganta-se. Rodeada, claro, por petizes animados, pais atentos, amigos em poses peculiares e outros a passar, cúmplices da feitura do quadro. Sem apressar o passo, cheguei antes da hora marcada. Feitio que, com gáudio, teimo em não desperdiçar. Recebido com toda a pompa, sem que assim exigisse a circunstância, respondi com um sorriso comedido. Surge, de entre as cabeças aglomeradas, aquele que nos junta por ora, e de cara leve, dirige-se a mim e lança-se num cumprimento efusivo. Fui recebido assim. Depois pela senhora que enverga um cargo sonante. Depois por este, a seguir por aquele, ainda outro e outros tantos. A todos e sem excepção, agradeci a amabilidade e as honrosas palavras. A sala começa a compôr-se, o burburinho não perdoa, os candeeiros empinocados dão outra dimensão a tudo. E a todos. Num olhar furtivo, encontro um rosto verdadeiramente cúmplice. A distância que a sala impõe, as conversas de situação e a comedida emoção, vetaram uma precipitada reacção. Mais adiante, quando a noite corria longa e prometia roubar largar horas, trocámos um beijo no rosto com demora. Cedemos no sorriso que denuncia. Dezembro, esta altura do ano, é um bom acaso para o descaso de, por fim, nos voltarmos a cruzar. À janela, antevendo a prosa adiada, ficámos sem pressa. Neste embrulho sereno. Voltei pela rua, contido no mesmo frio pojante, sobre as mesmas pedras da calçada e, desta feita, com toda a vontade de mentalmente recordar e garantir que a razão sobrepõe-se a tanto. Até que chegamos a Dezembro, cedemos no cumprimento e emburulhamo-nos em luzes. Em tantas, quantas a necessidade.

15.9.16

Em diferido. #53

A calçada contada - Chegada a vacância que do verão conhecemos, solta-se um ai de pena. Guardam-se os calções listados, as Paez que fizeram a estação. Logo as ruas ganham ares de senhora trabalhadora, menina estudante de trabalhos pesados e catraia desobediente. Senhorial fica o ar de quem as vê passar, cá em cima a tomar algo, lá em baixo na esplanada da moda bebericando qualquer imitador do estrangeiro. Incluo-me nessa estirpe enviesada que se deixa ficar e a ver passar. Se quisermos, numa de descoberta do alheio, incluo-me, igualmente, nos que envergam uns calções listados e, de quando em vez, umas Paez da moda com ares de beto. Dos que lá vão, entre um pé, depois outro, enfrentando a calçada desregulada da cidade, vou conhecendo as suas estórias, algumas pelo menos. Senhora pequena de curva acentuada, mulher de corpo rijo e altura de gigante. De braço dado, entrelaçado. Vão acenando para esta e para aquele, gente da rotina que se vai cruzando. Daquela boca um pouco desajeitada, com menos dentes, quase nenhuns, saem muitas verdades. Trabalhou toda a vida, avança com a cabeça baixa rua fora. Leva no braço direito a amiga de todas as manhãs. A mamã leva à escola, deixa soltar logo depois de um sorriso rasgado, sem vergonha dos dentes que já não estão lá. Que, de resto, lhe valeram a alcunha que carrega nos dias de hoje. No mesmo saco, carrega as dores da idade, a rara flexibilidade e o peso do desgosto. Morreu-lhe o marido, cedo e fugazmente, cedo demais, insiste ela. Ficaram os filhos que não lhe olham no rosto há tempo demais. Um neto que foge da calçada se a encontrar. Vou guardar o resto, que não me obrigo a desvendar a intimidade de quem partilha, desinteressadamente, o que traça as suas carnes, os ossos velhos e, mais importante, a psique. Essa, motor que é fundamental e que se abastece-se na partilha. Que tire férias o verão. Sem prejuízo, havemos de a ele voltar.

19.7.16

Em diferido. #51

Gente com traquejo algarvio - A questão impõe-se, tão válida. Volta e meia esqueço-me, volto à expressão. Por seu turno, depois de me atiçarem a justificação, depressa me lembro que não faz sentido. Ainda assim, deixo-me tentar. Entre amigos e, ironicamente, aqui no blogue, a discussão teve semente e deu frutos. Gente bonita. Pessoas com pinta. Tipos arranjados e miúdas aperaltadas. Não é ficção, é o espelho da observação. Não é coisa certa e universal. É o entendimento da definição. No Algarve de verdade, com encantos travessos e paixões que tiram o folgo, assisto à desconstrução. O mar não mente, é água com tom imaginado de céu, ondula conforme indicação, a areia brilha por força da cor fina e da luz que reflecte. Os escassos chapéus-de-sol são coloridos, as pessoas estendidas. Outros, entre cá e lá. Poucas pessoas, alguns turistas curiosos. Também amantes e conhecedores da quão bravia e montês pode ser esta região. Mergulhos em água fria, ganha a excelsa vista. Lá ao fundo, quase a perdê-los de vista, um velho casal. Desprotegidos do sol, lêem livros pesados, tão grossos que consigo entrever. Aqui, bem mais perto, três jovens mulheres ganham o desejado tom dourado na pele. Mexem o corpo com a convicção de quem tem vinte e tal anos e não passa despercebida. No meio das ondas avessas, uns quantos tipos a divertirem-se, enquanto fazem por manter-se em equilíbrio na prancha, que o surf é ordem e lição por aqui. Fico entretido nisto. Até voltar a calçar as minhas alpercatas e seguir caminho. Não sem antes tirar-te uma fotografia. Algarve encantado este. E com gente bonita.

30.6.16

Confundir a espécie que prescinde.

Os estendais fascinam e chamam por todos e cada um. Lamento, mas cedo na generalização. As peças pouco importam, no meu conceito, porque é a janela em jeito de festividade de longa data que interessa e compõe as vistas. De adornos vários, com as peças a bebericarem por quem vai passando. O particular suporta o todo. Andei por aqui e além com a minha máquina fotográfica mais recente. Brinquei, passeei e guardei alguns resultados que não envergonham. Só para atalho do compromisso com a experiência. Não perdoo, no entanto, a difusão do geral, a vulgarização de temas e acções relevantes. A displicência conforme o alvo, também me incomoda. A banalização dos actos que são, em favor da democracia, pessoais e intransmissíveis – para aludir aos termos desusados – confunde. Quem os pratica, desajustados da realidade, factualidade e putativa nocividade, e quem os assiste. Os últimos, em não compreendendo, são grande parte do grupo dos inopinados lesados. E leva-se assim, numas mãos trémulas, pouco inclusivas e nada promotoras do progresso, o mundo. Os tais, que aventam sair do mesmo lugar, sofrem no imediato da escolha, antes mesmo da saída efectiva. Agudizam-se os comportamentos xenófobos, tão nefastos, perniciosos e, não se iludam, humilhantes para a nação, pátria de quem os pratica. Os discursos atirados para o ar, numa tentativa de que alguém, que não o vento, os apanhe e limpe. Há resultados, por seu turno, que jamais serão impecáveis. Por quaisquer tentativas que se sucedam, são maus resultados e que envergonham. Tanto mais, pela dimensão que têm e pela exposição da fragilidade de quem proclama firmeza e intelecto. Morre o compromisso, esquece-se a experiência. Enquanto isso, numa das ruas por onde andei, há estendais sem fim, gente que fala outra línguas, animais simpáticos e senhoras de idade avançada a cantarolar. O mundo não gira por acaso. Quem acredita é mais sabedor. Lastimo, mas cedo, uma vez mais, na generalização.

22.6.16

Lugarejo com raça e no coração o ensejo.

Os lugares pequenos guardam um género capaz e característico, um jeito meio mimoso de estar, de pensar, de receber, até de olhar. É encantador, quase literário. Voltar é ver o tempo a acontecer. É ter sossego no poial da porta de entrada, é pousar os braços no mármore da janela adornada pela cortina costurada pelas mãos. É ter no postigo um compromisso, no vizinho um lance de prosa e no petiz a esperança. Ouvem-se os pássaros a passar por nós, a irromper pelas árvores, soando as folhas a bailar. A mercearia não tem outro nome, senão este. É a única venda do lugar e à semelhança da tasca de azulejos sem fim, o ponto de encontro. Entre o pacote de arroz carolino, o garrafão de vinho e o detergente em pó, as novidades ganham caminho, de boca em boca. O senhor do chapéu axadrezado já leva a vida dos outros na ponta da língua, conta à senhora da bengala e da saia digna de fato domingueiro. A dona Gertrudes, de bata a cobrir as vestes, leva um cesto de fruta e canta, sem preciso pedir, uma modinha das antigas. No poste, logo à esquina, fica o cão da netinha, fugindo da calma, vivendo a sombra. Passa fazendo-se notar, a motinha do outro senhor. Larga fumo e barulho para os que ficam. O capacete mínimo mas no tom da máquina de duas rodas que o carrega. Logo adiante, um fogareiro mesmo à porta, sardinhas e carapaus a assar, o lume a passar, a mão a abanar o leque e a desesperar. Os carros, mesmo poucos, alinham-se pela rua, tão certinhos. Se acontece reconhecerem o rosto da visita, perguntam pela vida, pelo amor e pela carreira, tudo de forma genuína. Não se esquecem de pedir a idade para, num soluço, apresentarem o espanto. As pequenas povoações carecem, e não é displicente lembrar, de suportes. A desertificação oferece novos tempos a uns e esquecimento a outros, aos que ficam. Nestes lugares, mais isolados, pequenos e pouco povoados, vive gente. A mesma gente que, assim como, os lugares, tem traços pejados de raça, de conversas cheias, que nem a rasa ou nenhuma literacia lhes rouba. São gente humilde, de rotinas repetidamente felizes. Tão encantador, mesmo literário. Acenam no momento da partida, pedem-te que voltes, como num bonito fado. Deixam saudade, mesmo que não lhes conheças o presente, tampouco o passado.

31.5.16

Em diferido. #49

Nesta rua, a vida é ao contrário, vimos a tia-avó e o homem bom - Nota-se o movimento nas ruas. Diferente, apenas. Nesta rua, repara, está uma loja com nome de senhor bom. Daqueles que lêem livros antigos, contam estórias sem fim, vestem camisas claras e pousam as mãos num balcão de madeira forte. Dos que nos fazem lembrar outros tempos. Lembrar ou, se não te falha a memória, conhecer. Dão-nos cultura que não vivemos, vidas que não conhecemos, opções que não pensamos. Daqueles velhos homens que vivem o trabalho. Que fazem relatos majestosos, que nos fazem pensar. Conta sobre aquele acontecimento que só conhecemos nos livros, dos relatos e da história que vai ficando. Tantas vezes, os homens encarregam-se de adulterar a efeméride para, obviamente, alcançarem altos benefícios ou disfarçarem a realidade factual que lhes é inconveniente. Outra visão. Abre-nos, no fundo, o espectro da discussão. Tudo isto, só pelo nome que vive na cabeceira daquela loja. Depois de entrar, por força da curiosidade, temos uma visão do que já passou. Tal e qual como falávamos antes. A vida acontece ao contrário. Ficámos a saber que, embora, este velho senhor tenha o mesmo nome que está à entrada, não foi ele quem deu nome à casa. É herança de um ascendente que lhe passou o bicho. O nome e o espaço. Continua na lida diária, de pano laranja pelas estantes a passar. Foi bom conhecê-lo. Continuação de boas conversas e, se lhe deixarem, de vendas suficientes. A ver vamos, juventude, a ver vamos. Rematou assim o senhor da loja que tem nome de homem bom. Até qualquer dia, então. Sorrimos e voltámos à rua. Repara, esta rua tem nome de senhora que fica para tia e veste o papel com maestria. Rimos juntos. Isso é a tua memória a falar alto. Lembras-te da tia-avó dos contos? É ela.

30.5.16

No gira-discos da tua casa.

Cruza as pernas. Descruza as pernas. Volta a cruzá-las. Leva a mão ao cabelo arranjado, todo puxado. Os olhos já são belos, ficam com a maquilhagem ainda mais esbeltos. Os sapatos altos na outra mão. É admirável a confusão. O vestido parece que voa e não tem descanso. Apetece-lhe da boca largar um palavrão. Pensou no cigarro, mas já lá vai o tempo da iludida sensação. Aquieto-me, à espera. Invento outro pensamento. Fotografo para passar o tempo. Os lábios atraentes, no desenho da tentação. Fi-la ficar a preto e branco e liguei o gira-discos. Tal como o aparelho, o disco do mais vintage. É maravilhoso guardar o retrato. Envia um beijo com a mão e a postura é atrevida. Assim, neste frenesim, aconteceu neste dia e nos restantes. Foi amor à primeira. Separação na data verdadeira. Ficámos amigos para a vida inteira. E não me engano. Que o amor fora apertado e profundamente sexualizado, mas a amizade é, no mínimo, um prazer danado. Talvez, também por isto, não neguemos a admiração. E não desmentimos. Amar é partilhar. Mas não será errado sugerir que amar é admirar. Pisca-me o olho desse jeito. E vamos morrer com a amizade viçosa, a memória com genica e fruitiva prosa. E que nunca nos falhe a música boa e o vinho de fina casta.

25.5.16

Intricado destino.

Nas mãos temos o mundo e sequer pensamos. Evitamos o pensamento, que miséria tão grande. A distância do outro parece mentira e que ninguém avente desmentir. Na hora da conversação substituímos os lábios sapientes, quiçá atraentes, pelos dedos amestrados, quem sabe irritados. Letras garrafais acenaram, faz tempo, a questão do mundo enviesado. Hoje esperam-lhes parcas linhas num tamanho de letra ridículo. Talvez fotografias repetidas. Afoitos há, que se fazem ao caminho íngreme e despojado e atendem à inspiração. Guardar numa gaiola a exposição da natura, da liberdade. Invertem-se as definições. Entram as contradições. Somente, se a interpretação dos factos ficar pela rama. Homem ao mar, gritavam dantes. Bordo fora, pelas águas tomadas pelo terror do frio adentro. Hoje é razão de ajuntamentos que vociferam impropérios. Como qualquer acto de exprobração, resume-se à ignominiosa sensação. É gente de fraco espírito, por só dos deles querer salvação. Na mesa do café, com a segurança e a liberdade trazidas debaixo do braço, tudo é palavreado fácil e egoísmo na razão. Quem chega de lá e pisa chão, leva os braços ao coração. Pede ajuda e salvação. Que a morte fora certa e o destino tem ramo de ficção. Ide, ide. O adágio repete-se e não engana, a esperança é sempre a última a partir.

23.5.16

Uma manhã qualquer.

O sol olvidou-se. A ameaça é constante. As meninas da recepção, entre o dedilhar no teclado com as unhas gigantes e o atendimento que as distrai, choram a ausência do calor, dos dias grandes e da praia a perder de vista. Já ninguém tolera a questão. Ameaçam-se os céus e os santos. Adiante, que o que lá vai não é nosso. Ouvi, assim que passei o corredor iluminado pelas vidraças gigantes. Um senhor e uma senhora, que imagino casados, trocavam a prosa sabedora. Ficámos à espera. Um pequeno rapaz faz birra e garante que não quer estar ali, o irmão ainda menor brinca com carrinhos no chão e guarda outros tantos na mochila. A mãe ameaça abandonar o propósito que os mantém ali e seguir para a escola. A televisão, silenciada, esboça uma apresentadora animada numa conversa cujo tema revela toda a maestria do conversador matutino. No telemóvel as redes estão ligadas e no Instagram já se vêem biquínis coloridos, praias a enquadrar e sumos de cores berrantes, aludindo, claro, aos últimos cartuchos da anterior época balnear. No Facebook somos todos qualquer coisa, conforme o dia apeteça. As notícias frescas, os acontecimentos que fervem e não deixam sossegar. Recebeu-nos com o sorriso rasgado e a amabilidade de sempre. Não os sabia por aqui, façam favor, adiantou enquanto nos encaminhava. Havia, por certo, tempo demais que não nos cruzávamos. Daí, a surpresa. Gabo-lhe, sem cerimónia, os seus bonitos suspensórios. Louvo a aparente extravagância, que do termo nada tem. É uma mistura do estilo com a vontade. E, contra a última, nada há a fazer. Num xadrez preto e branco, imitando o tapete de um jogo. Sobre, imagine-se, uma camisa na cor do vinho. Em simbiose exacta com a gargalhada característica. Não se engane o povo, o risco é falecer. Tudo o resto, mais cedo ou mais tarde, há-de chegar e, se não for moda, ficar. Um aperto de mão e já garantimos a manhã.

16.5.16

O putativo lesado e a sua barba rija.

Vem de longe a vontade de chegar depressa. Num tom de vermelho e branco, sem preceito, tão a propósito. Vem de outras núpcias a gana de chegar além. Vem, numa espécie de barba rija, a guerreia de chegar ao ponto. Falo, enquanto o meu relógio de pulso humilha o tempo, na barba de alguém. Que rija, só a humildade. A minha, finalmente aparada quase como manda a lei da avó de outros tempos ou do avô que guarda o cheiro da colónia que assalta o rosto logo depois da navalha. Há quem insista em passar-me a mão pelo rosto e persista nesta revelação de emoção, de amor. Cedo-lhe sem pesar. Mesmo quando barafusta e pede o rosto lisinho. Se pouco ou nada importa o que está atrás, não perde relevo o que segue adiante. A primavera acordou. Assaltou-me sem aviso e deixou-me à mercê das suas vontades, numa alergia irregular e acidentada. Ontem, entre gritos e apitos, a festividade foi longe. Com a raça de quem corre por gosto. Com a fé de quem ameaça romper com a barba de larguíssimos anos. Temeu-se, a favor do campeão, perder-se a rija pilosidade facial de um homem cuja idade já não tem senão contabilidade. Contava-me hoje, entre o sol da manhã e a pressa do almoço, essa efeméride. Sem me conhecer, lembrou o sem fim de gente que ontem brincou e saltou. Acenei em jeito de aprovação. Vem de outro tempo a necessidade de guardar espaço para a vontade, para a gana e a guerra inócua. Mesmo que o resumo sejam parcas linhas que explanam acerca de um duplo tom. No fim, o melhor irrompe e deixa-se ficar. Permite a ocasião, sem desprimor para o intelecto, abusar dos hashtags. Isso e do português correcto.

18.4.16

Em diferido. #48

Foi num punhado de ruas que tive esta sorte - Na rua, singular ou na pluralidade da existência - afastando quaisquer clichés, ainda assim, deixando-lhes, em jeito de convite, a porta entreaberta - há frases feitas pelas paredes vazias. Esburacadas, ocas, como já versava a canção. Aproveita-se a fachada, assim meio desligada da convivência mundana, e espetam-lhes frases. Algumas, alegram-lhes as vistas. Vestem-nas de imagens e palavras que se tornam, em levando a atenção à disposição, em tremendas equações. Mesmo que a matemática te escape, mesmo que a tenhas esgotado num atrasado e distante ano lectivo. Na rua, ou nessas múltiplas e diversificadas ruas, vou tendo sorte. Desde a janela escancarada, num primeiro piso antigo, que deixa as cortinas fugirem com o vento, para espreitar quem passa por baixo, donde saía, para além do tecido amancebado com a brisa, música boa. Alguns, sacanas preguiçosos, haviam de apelidá-la de ecléctica. Um bom jazz e logo depois Janis Joplin meio arranhada. Teve essa rua, pelo menos, naqueles minutos, vida nova. Sequer imagino se, porventura, é um hábito daquela janela. Mas que soava bem, isso não desminto. Passando por uma outra, onde desprovida de complexos, uma velha senhora descia de uma carrinha, e dançava para os companheiros de viagem. Lá dentro, todos sorriam, aplaudiam e acenavam felizes. Cá fora, no asfalto, os cabelos brancos, o corpo franzino davam liberdade. Saltava, imitava uma espécie de dança e ria. Elevando os braços. Uma reveria inqualificável à liberdade, à vida. Ri-me com ela. Por acreditar na sinceridade. Inacreditavelmente ou talvez não, fiquei feliz enquanto os via. Continuei e nunca mais esqueci a baixinha senhora que escolheu viver a vida, sob pena de perder pedaço. Até uma outra rua, onde, sem que o conhecesse, um jovem senhor acomodou-se ao meu passo e acompanhou-me rua abaixo. Desnivelado e desenrascado. Pensei. As palavras trôpegas e dispersas, a conexão inexistente. Vai esperar a namorada que está para chegar. Comprar uma casa e morar para sempre naquele amor. Anunciou-me que em tal superfície comercial os computadores portáteis estão a bom preço e numa outra os telemóveis preferidos são os mais vendidos. Trazia, debaixo do braço, papéis de publicidade que comprovavam. Bom casamento, amigo. Para ti também, que deve dar trabalho viver e pensar. Ri-me com ele. É verdade. Cansa, por demais. Loucos somos todos. E só merece o título se o fizermos sem prejuízo para a mente. Um viva!

13.4.16

Um dia.

Desconfio que me canso, a passos largos, de algumas conversas, até de posturas. Um tanto inócuas e frívolas, outro tanto desonestas e até sádicas. Mesmo que carregues um sumo que sustenta a ideia e a necessidade de limpar o corpo. Uma revista de nome pomposo na outra mão, uma maçã na algibeira e outra num saco que tem as iniciais estampadas. Assim se faz a corrida matinal do contratempo. Ou é acaso. Que, com prejuízo, relegas para outras horas a limpeza do tronco humano. Se acreditares, da alma também. Ainda agora demos o primeiro passo do dia, já vai ameaçando cansar. Chegas e ouves vozes baixas, passos leves e cafés nas mãos. Sorriem com a facilidade de um manequim dentário. Devolves, se o senso te permitir. Na pausa maior, há almoço marcado. Levas a maçã que não te deixa sossegar, os óculos de sol elegantes, o casaco bonito e o perfume preferido. Somos uns quantos, alguns nunca vi. Avançamos numa conversa com passo, tema livre. A paixão de uns, o desamor de outros. Levam-se, estes ritmos, à ficção da exaltação. Que a vida cospe, mas não há como mudar certas vicissitudes. Neste barco, adiante até ao despique da tagarelice. O sexo oposto chama a atenção. O trabalho efectivo ou o desejado em cima da mesa. O olhar atento para com os refugiados. Aqui, ganha espaço o indouto. Não replico se não for caso disso. Se não se aprouver de importância o ser que vocifera alarvidades. Ao fim do dia, com tudo em caminho da pausa. Ganho a certeza de que me venho cansando. De determinadas conversas e de gente salobra. Dá-se a sorte de me rodear de pessoas boas. Uma certeza destrói o putativo. Mesmo que irrompa inopinadamente no nosso sentido.

11.4.16

Apresentar como qualidade habitual.

Ora, vejam lá. A senhora lavadeira nas horas que deveriam ser vagas e cozinheira naquele restaurante a tempo inteiro lê nas horas vazias. Ora, fechem as bocas que o espanto ainda vem a galope. Que não lê as gordas do jornal genérico nem esmiúça as fotografias da revista semanal cujo objectivo é saber da vida alheia. A senhora, de cabelo aloirado, com as raízes a gritar, de avental aos quadrados. Aqui azul, ali branco. Aqui azul, ali branco. À cinta, uma tira de tecido florido. Adelgaça a mesma e faz lembrar a primavera. Põe sobre os ombros, para compor a vestimenta, um casaco de malha. Azul silvestre, avançou. Fala com pressa, a língua não se atrapalha e, se for o caso, ainda trauteia umas canções de Roberto Carlos ou da Dina. Prefere o cancioneiro português e brasileiro, ao invés, das desculpas que Bieber vai gritando em cada esquina. Conhece o pequeno do outro lado, porque a neta ouve a despropósito todo o santo dia. Um ramo de salsa na mão, viçoso e airoso. A mão esquerda leva-a ao brinco que não quer guardar o lugar. Sem que fora preciso perguntar, não guardou a palavra e deixou passar que é dona do seu nariz, vive ali há tanto que já olvidou e com o seu homem se casou. Teve dois filhos e um emprestado, comprou o vestido com o dinheiro que ganhou numa casa de fado. Sonhou ser professora de meninos pequenos, perdeu a sorte e ganhou o palato apurado. Com o casamento, veio o restaurante, foi a menina do balcão, serviu às mesas até ao dia em que a cozinha lhe recheou o coração. Hoje é mãe e avó, ri com gosto e fé, põe as mãos na anca e afinca o pé. Quando a noite já vai perdida, encosta a cabeça no travesseiro alto e lê a companhia de cabeceira. O marido já dorme, ela lê Mario Vargas Llosa. Conheceu-o aquando da atribuição do prémio Nobel. Daqui a pouco é manhã. O sono sumiu-se num nada, há gente para cuidar, roupa para lavar e engomar e um restaurante para comandar. Ora, vejam só. A cozinheira de mão cheia tem na arte a compreensão. Fá-lo tão bem, que gere o tempo de forma a ler depois do serão.

7.4.16

Autêntica cegueira moral.

Bem petiz, aventurei-me no golfe. Tampouco consigo avaliar como é que me deixei levar. Uma certa sobranceria da idade, avessa a desordens que nada me convenciam, batia de fronte com uma outra. A sobranceria de menino bom e de bem aplicar-se nas letras e contas, ajustar-se na cordialidade de ser um bicho social e de comprometer-se com o desporto. Fui longe noutra modalidade, uma vez mais, sem pensar. Nessa, apliquei-me com vontade. Fui desprovido de pensamento, fui sempre na vontade de chegar mais à frente. Ganhei medalhas, títulos e louvores. Para despromoção do que escreve, ganhei sempre ao nível do que me permiti competir. Sempre nivelado pelo campeonato dali. Nunca fui campeão de coisa alguma, sempre jogador nas horas desprendidas. Valeu pela aprendizagem. E, sem desprimor, para a labuta física e intelectual. Nisto andei até ao dia em que, nitidamente, a justiça não morava no lugar certo. Não adianto prosa, por dela não ser merecida. Volto ao mote. Sujeitei-me à ventura. Experimentei o golfe. Os termos e os ensinamentos sem fim. Éramos três. Eu e mais dois amigos. O professor já o conhecia de outros afazeres. O taco certo, a posição enfadonha. Esmoreci ali. E, outra vez, questiono-me como é que permiti ali chegar. O professor era sabedor, aplicado e não deixava de repetir. Até ao dia em que, a comande de superiores, a nós juntou-se um outro miúdo. Da nossa idade, inspirado. Ao contrário de nós, pelo golfe entusiasmado. Apercebi-me, logo cedo, que a atenção dispensada era amplamente díspar. O novo companheiro de golfe vinha ao abrigo de uma instituição. Portanto, sem mensalidade. Bem petiz, aventurei-me no golfe. Não fui além das três aulas. Porque, já naquela idade, a altivez descompensada, já me incomodava. Não sou boa pessoa. Sei bem disso e não proclamo o contrário. Contudo, em tempo algum, hei-de de compactuar com mimetismos de gente acéfala. A sociedade morre aos bocados. Se não a remendamos, perde-se para sempre. Ontem, volvidos estes anos, ouvi alguém relatar, em sofrimento, o preconceito para com a neta. Não interessam os motivos. Caduca um pouco mais a validade da sociedade sempre que alguém não acede ao que lhe pertence. Ao que, por direito, é dela. Marcam-se pessoas. E os imitadores de coisa alguma seguem em frente. Neste caso, falece a crença numa sociedade que convive em harmonia. Já em petiz pensava. O seu a seu dono. Para o bem, assim como, para o mal.

4.4.16

Saúde e alegria sobre rodas.

Alguém que chegue de bicicleta vai, por certo, atrair a minha atenção. Seja onde for. No outro dia não foi excepção. Não é outra atracção senão o objecto. Porventura, uma ou outra me vá passando à revelia. Não aquela, que há atrasado passeou e parou num jardim da cidade. Perto dos malmequeres viçosos. Entretenha, aqui e ali, de crianças que jogam à sorte. Procurando, num desfile de pétalas pelo ar, chegar à adoração de bem-querer. Parou, com ligeireza, a bicicleta branca. Bonita, de elegante porte, de pedais finos e rodas a condizer. Trazia, antes do guiador, um cesto claro, abrindo caminho. A condutora, uma jovem mulher, de cabelo loiro e lábios rosados. Os olhos expressivos, o nariz bem desenhado. Uma franja que, em tudo, coadunava-se com o seu ar de liberdade. Uma camisa de gola subida um tanto escondida pelo sobretudo. Não saiu da bicicleta, saltou. Encostou-a e no banco ao lado sentou-se. Pegou num caderno de notas e sossegou. Da mala, uma caixa, de lá tirou pedaços de cenoura e à boca levou. Daqui em diante, deixei de acompanhar. Não sei quem é, não sei como acabou. Quem partilhava comigo a pausa, avançou que é uma jovem veterinária com jeitos e trejeitos que lembram outros tempos. Ilude-nos a visão quando não temos na mão o guião. Pouco, mesmo nada, me importa se é verdade ou, antes, uma perfeita ilusão. Atraiu-me a bicicleta com ar romântico, só depois a mulher que a trazia e preferiu escrever à mão, num caderno bonito, petiscando fracções de cenoura. Ao invés de chegar num carro da moda, com os saltos que morrem na calçada e de tomar notas no iPad que, sem fonte de energia, morre a qualquer instante. Gosto de bicicletas. Não menos, até mais, vou acreditando, gosto de pessoas. E de vê-las passar.

31.3.16

Em diferido. #47

Um estilo muito próprio - Já é Primavera, num Portugal tomado pela gentileza de ser. Não sei como lhe chamar. Se largo, praceta ou uma rua enviesada. Mas cumpre a função, seja qual for o nome que lhe dão. Nesta cidade de gente nova a passear as roupas despidas, a meia-idade não tem trejeitos à vista. Guarda-os no sossego da sala de estar do apartamento que ainda paga ou no baile de esperança e expectativa, cujo propósito é juntar os divorciados e os viúvos da zona. E dos arredores. Ou, se permitirmos, é tudo mentira. Fatal utopia, a de antecipar a vida alheia. Sinto-me visita quando volto. Por certo, porque nunca fui senão visitante com curiosidade e paixão. Por ser impossível, não esqueço um lugar como este. Onde as tradições nacionais e regionais ainda existem, mas vão falecendo. Tão moribundas como as ruas numa hora vazia. Lá, onde vestir bem e sair para a rua, parece ter um duplo sentido. Desassossegam-se as almas exânimes, tomando fulgor de última temporada. Depois de levar o corpo pela cidade, volto à praça pequena ou rua sem entrada. Fica lá, qual majestade, a padaria. Das antigas, onde o nome do fundador é história relevante. No cimo de uma das portas principais, lá está o nome cravado. Entrei e falavam de idade e do peso de não conseguir contrariar os declínios. Estava, daí a conversa, uma senhora de noventa e quatro anos ao balcão. Um charme. Quando existe, não morre. Jamais. A minha mãe lembrou a minha avó. Viva e tão apta. À saída, a mesma senhora. Ajudamo-la. – Obrigada, meus queridos. A figura tão torpe que uma velha consegue fazer. Obrigada e perdoem-me a desfeita. – Sorrimos. Antecipou um pensamento. Felizmente, em tempo algum, poder-nos-ia invadir a lembrança. Tenha um bom dia. Até qualquer outro.

23.3.16

Nunca mais é verão.

Literal e metaforicamente. Na rua, no meio da calçada nacional, de chapéu-de-chuva em repouso, felicidade da chuva fugida. O dia nascido cinza, um tanto desgastado. Na rua, sobre a calçada já um nada molhada, o petiz reguila pergunta ao adulto que lhe dá a mão se beijar é bom. Diz-lhe o graúdo que é coisa boa se acontecer com verdade. No mesmo passeio, o pequeno insiste nas questões e pergunta por que razão o mundo gira sem parar e ele não sai do mesmo lugar. Diz-lhe o graúdo que é a ciência a desmentir a razão. E quem ganha, atiçou. O coração, devolveu-lhe. E a televisão, só mostra a realidade ou vive do faz de conta? Avançou o adulto sério um redondo não sei. É a realidade se acontecer ali. É faz de conta se for maior do que isso. Dispõe, o petiz, em pregas bem miúdas o seu olho. Vestindo de dúvida o rosto. Se forem os bons a vencer é verdade ou mentira? É, se quiseres, a tua imaginação a comandar e o teu coração a dizer-te. Eu só gosto dos bons. Dos maus, só se ficarem presos para sempre. E depois, os bons vão guardando tudo numa caixa grande. Um cubo com bons a brincar à volta e maus a dormir lá dentro. Nisto, já o céu tomou o tom azul tão característico, salpicado por nuvens vivas. Vêm, também, rasgos de luz. O sol tem luz e nos teus olhos se reflecte. Ontem foram lágrimas sem fim, questões que a razão repudia e a que ciência não justifica. O mundo girou tal e qual como nos outros dias. Vazios de alento ou carregados de beijos trazidos de mais além. Parar, pensar e lembrar. Que o passado, porventura, também tem culpa de um presente desavindo. Sossegar, quando possível, reflectir e agir. Porque o verão teima sempre em demorar. E, a juntar expectativas todos os anos, dava para garantir verão sem vento por longos meses. Do nada, vem a fatalidade e esmorecem as esperanças baseadas na probabilidade. Que desilusão. Nunca mais é, literal e metaforicamente, verão. Fora da caixa, a viver o bom tempo. E a viver os dias sem a pressão do medo. Tal e qual um petiz perguntador.