Guardo,
algures entre o soalho e o rodapé, pinturas que esperam por um lugar. Qualquer
um. O relógio guarda horas obscenas. Deixei-me ficar pela noite, ao invés, de
esquecer. De fazer por adormecer. Faz-nos assim o tempo com tempo, o ritmo
diferente. A rotina que foge, os hábitos da gente. O relógio não deu sossego,
mas a obscenidade ficou. A minha irmã mais nova gaba-me a blusa que trago. Um
sincero elogio logo cedo. No fim do ano, convidam-se os balanços para a mesa.
Como se a transição fosse imediata, como se mudar fosse simples, brando.
Sugerem-se novos ritmos, outras acções, perspectivas obliquamente diferentes.
Na rua, as pessoas carregam, sem alma, sacos. Tantos sacos. Algumas vezes, fui
um deles. A minha irmã mais nova procura a compra pretendida. Ri-se, e
encontra. Outras vezes, sou um dos outros. Dos que se cansam do consumo, dos
que viram a cara à aventesma e, sem espírito, passeiam na mesma. Nunca fui de
guardar promessas, de escrever novas regras. Prefiro a organização das coisas,
as ideias no lugar certo. Talvez, não desminto, me falte o talento para a
previsão. Fica-me a vontade de pensar, fazer e, só depois, ver. Não sei se me
repito, mas guardo, ali mesmo, sobre o soalho confortável e o rodapé
trabalhado, uma série de pinturas bonitas. De tanto passarem de lá para cá, ali
têm vivido. Precisam de um lugar. Vem aí o novo ano, não sei onde as colocar.
Nisto, ainda me lembro da definição da astronomia. Caso perca a vontade, tenho
outro ano, o mesmo tempo, para as pinturas pendurar. Ou guardar. E, assim, os
meus sossegar.
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29.12.15
1.9.15
Em diferido. #39
Sublevação
das gentes - Na sala por onde passei tantas vezes e que me lembro de olhar para
ele, passar os olhos e só guardar a moldura de um dourado gasto. Agora que vejo
bem ou, escolhendo melhor as palavras, agora que presto atenção ao quadro que
sempre esteve naquela sala, vejo nele uma recordação que alguns dizem longe e
sem armas para prevalecer numa sociedade em que os mundos confluem e nunca
beliscam. Nesta sociedade. Na falada sociedade do minuto. Contam tudo ao
pormenor. Sabe-se tudo a cada instante. É uma discussão que desconhece lugar. É
uma aventura de linguagem e comportamento. Fala-se da ditadura efectiva e da
liberdade condicionada com a mesma intensidade. Comparam-se termos e valores
desprovidos de ligação. Salvando a verdade, este quadro recusa qualquer
valorização de um regime ditatorial, antes de um povo que sobrevive sob a
barbárie de um nome. Mas é de um tempo que fugir nem sequer era solução.
Acusam-me, alguns desmemoriados, quando opino sobre o quanto este país ganhou
depois da revolução, de desconhecer a vida de então. Argumento e respondem-me
frases feitas. Um discurso com tão pouco volume, como acreditar que algumas
décadas depois, tudo mudou.
27.10.14
Senta-te comigo e aprecia.
Gosto,
se possível, de acompanhar as lides profissionais, depois das pessoais, dos
meus amigos. Parte deles é arte em cada decisão. Sem necessidade de segurar
verdades e métodos absolutos. As redes sociais amancebadas com o plural e a
pluralidade do iPhone e do iPad desta vida. Da forma de viver tão actual,
instantânea e, por razão da última, instável. Sem desdém, pois acabei de ver
inspiração em estado físico. Através das redes sociais. Já devo ter falado
sobre isto. Algures, se não ultrapassei o consumo das ideias e não perdi a
última porção de energia e memória. Porque é relevante ver a intelectualidade
desenhada em grandes telas. Essas, as telas grandes, podem, sem prejuízo alheio
e patrimonial, ser um muro desgrenhado ou uma parede velha e gasta, onde não
sobra nada senão restos de uma tinta de massas, um branco que já não é. Rei da
tela, altruísta em sessões. E é quase perturbadora, essa dicotomia. Esta minha
amiga, por quem ultrapasso o cordial experimentar sentir coisas boas, renovou
uma parede. Nasceu, algures numa cidade que já ouvi apelidar de feminina -
Lisboa, curvas e postura de mulher que canta a canção da melancolia. Sussurra a
visão com pintas. É artista de rua, esta cidade – uma parede de gesto delicado.
De verdes e imponentes imitadores de um tecido natural. A natureza de folhas
vivas, onde nem o orvalho da neblina matinal fica esquecido. E, contrariando
alguns momentos de opinião em caixa, simpatizo com a facilidade de estar ao
lado de alguém. Mesmo que tenhas ido procurar outras luzes. Quando voltas, é
como se sempre tivesses visto a evolução. Porque te sobram o motivo e a
motivação.
30.9.14
Sublevação das gentes.
É na
sala por onde passei tantas vezes, que me lembro de olhar para ele, passar os
olhos e só guardar a moldura de um dourado gasto. Agora que vejo bem ou,
escolhendo melhor as palavras, agora que presto atenção ao quadro que sempre
esteve naquela sala, vejo nele uma recordação que alguns dizem longe e sem
armas para prevalecer numa sociedade em que os mundos confluem e nunca beliscam.
Nesta sociedade. Na falada sociedade do minuto. Contam tudo ao pormenor.
Sabe-se tudo a cada instante. É uma discussão que desconhece lugar. É uma
aventura de linguagem e comportamento. Fala-se da ditadura efectiva e da liberdade
condicionada com a mesma intensidade. Comparam-se termos e valores desprovidos
de ligação. Salvando a verdade, este quadro recusa qualquer valorização de um
regime ditatorial, antes de um povo que sobrevive sob a barbárie de um nome.
Mas é de um tempo que fugir nem sequer era solução. Acusam-me, alguns
desmemoriados, quando opino sobre o quanto este país ganhou depois da
revolução, de desconhecer a vida de então. Argumento e respondem-me frases
feitas. Um discurso com tão pouco volume, como acreditar que algumas décadas
depois, tudo mudou.
8.7.14
Pintado à mão.
Falava
esta manhã, logo cedo, da minha ausência, enquanto espectador, do grande
movimento dos espectáculos onde se tratam, com respeito, as tábuas pelo nome,
das visitas a exposições várias, onde cada objecto é uma certeza de que nunca
conhecemos uma ínfima parte de um todo. Desse todo que gritamos querer
conhecer, como se fosse um dos cinco desejos obrigatórios, mas nunca o havemos
de concretizar. No meio dessas linhas de incoerentes vontades, lembrei-me de
outro ponto. Tenho uma amiga maquilhadora, não sei se há um padrão para
imaginarmos nas nossas cabeças a definição física quando pensamos em
maquilhadoras. Contudo, quando olho para ela, vejo-a como tal. Bem sei, posso
estar a ser tomado por uma questão de simpatia entre a minha memória e a sua
imagem. Esta amiga é assertiva e vivaz no discurso. Um tanto altiva. É cuidada
no todo. Veste-se de forma coincidente com o discurso. O rosto, porque chama a
atenção, é a tela maior do seu trabalho. A própria diz, não poucas vezes, que a
sua imagem e, lá está, o rosto em particular, são o seu cartão-de-visita. É uma
entrada que convida a conhecer o resto da obra. Levanta-se, escolhe as cores,
aproveita a tela despida e cria. Ao fim do dia desmonta o serviço, limpa a
tela. É uma espécie de roda. Uma roda inventada que não pára. Não cessa
enquanto se gosta do que se faz. Enquanto o que se faz comporta sentimento. A
resiliência tem sempre lugar. De honra.
2.4.14
Falta(va) alguma coisa.
No
cimo das escadas, no hall superior,
que dar-lhe-ia acesso aos quartos, lembrou-se da falta de cor. Do branco total.
Da luz em excesso. Foi então que, voltou ao andar inferior e pegou nas canetas.
No quarto, deu forma à imaginação e, agora, tem vida. Tem luz, sossego e muito
menos aborrecimento. Tem uma galeria em casa, com talento e sentimento.
Faltava. E eu gostei de conhecer.
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