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13.4.17

Inaudito soprar daquele lugar.

Acabo de receber um vídeo e dois pedaços com som. Remonta às idas para o Algarve diferente. Afastado das massas. Preservado pelos amantes daquele lugar, daquelas bandas. Com direito a praias de mar revolto e caminhos íngremes. Gentes da terra com o sotaque fresco e pronto a soltar o verbo. O rádio do carro solta as mais diversificadas canções. Sem incomodar ou impedir de cantar. As casas seguidas, poucas e quase na boca do mar, de branco imaculado, com o verde e o azul a fazer as vezes de adorno. Também pintadas de cores diversas e garridas. Sem esquecer o amarelo que passou da cozedura ou o rosa velho, os pequenos jardins logo à entrada ou as pedras na parede desenhadas. O verde a manter a postura, sem mazelas graúdas. O ar que inalamos é superior e tem um jeitinho sem igual. Os surfistas tomam as ganas das ondas que não perdem o génio. Os lugares, pequenos e familiares, que oferecem tempo e sossego. As pequenas mercearias que servem as necessidades da população, que matam o tempo a todos e a cada um, inclusivamente. O jardim, cujo cenário vive de dois ou três bancos feitos de ripas de madeira, alguns arbustos a envolver e flores com cor de primavera. As velhotas e os velhotes numa tertúlia quase silenciosa. Dão os bons dias, desejam uma boa tarde e só falta a noite feliz. Aí, já no resguardo do lar. Os restaurantes primam pelos pratos da região, nunca falta o peixe fresco. O cenário é atrevido e peculiar, convida à conversa demorada, às partilhas de pele com pele e às indefinidas fotografias. E, claro, sem esquecer as largas memórias que nos traz. Recebi, há escassos minutos, a certeza de que vamos voltar. As imagens de outros dias, tremendamente bem embrulhadas, feitas convite. Tenho saudades. Temos saudades. Tomo com elas a certeza de que há sempre mais. Há ir e voltar. As vezes que entender. As vezes que nos receber.

19.7.16

Em diferido. #51

Gente com traquejo algarvio - A questão impõe-se, tão válida. Volta e meia esqueço-me, volto à expressão. Por seu turno, depois de me atiçarem a justificação, depressa me lembro que não faz sentido. Ainda assim, deixo-me tentar. Entre amigos e, ironicamente, aqui no blogue, a discussão teve semente e deu frutos. Gente bonita. Pessoas com pinta. Tipos arranjados e miúdas aperaltadas. Não é ficção, é o espelho da observação. Não é coisa certa e universal. É o entendimento da definição. No Algarve de verdade, com encantos travessos e paixões que tiram o folgo, assisto à desconstrução. O mar não mente, é água com tom imaginado de céu, ondula conforme indicação, a areia brilha por força da cor fina e da luz que reflecte. Os escassos chapéus-de-sol são coloridos, as pessoas estendidas. Outros, entre cá e lá. Poucas pessoas, alguns turistas curiosos. Também amantes e conhecedores da quão bravia e montês pode ser esta região. Mergulhos em água fria, ganha a excelsa vista. Lá ao fundo, quase a perdê-los de vista, um velho casal. Desprotegidos do sol, lêem livros pesados, tão grossos que consigo entrever. Aqui, bem mais perto, três jovens mulheres ganham o desejado tom dourado na pele. Mexem o corpo com a convicção de quem tem vinte e tal anos e não passa despercebida. No meio das ondas avessas, uns quantos tipos a divertirem-se, enquanto fazem por manter-se em equilíbrio na prancha, que o surf é ordem e lição por aqui. Fico entretido nisto. Até voltar a calçar as minhas alpercatas e seguir caminho. Não sem antes tirar-te uma fotografia. Algarve encantado este. E com gente bonita.

12.7.16

Aparato sumptuoso e digno.

Não nos cabe no corpo instigado pela euforia, a experiência de chegar lá pela primeira vez. Fogem-nos as palavras. As certas, as oportunas, as erradas e as impensáveis. As outras, dotadas de um certo tabuísmo, também. O desdém foi arremesso de ocasião, a propósito, em todo o percurso. As veias salientes, o coração possante, o punho cerrado e os dentes numa tensão profunda. Os ecrãs gigantes, as mulheres vibrantes, os homens expectantes e as crianças atentas. As bandeiras nacionais nos lugares mais comuns, nos mais inusitados e nos corpos aturdidos. Os movimentos impacientes, as mãos levadas ao rosto. As lágrimas tomando muitos de assalto. Os gritos de dor sossegada e de felicidade estampada. O Hino Nacional na ponta da língua, o tempo de antena que merece. Um soluço de apneia. No relvado a questão. O plantel na discussão, no esquema da emoção, fazendo frente a quem joga e atenta contra todos e cada ponto. Grita-se por Portugal. Da bancada diante da prova até ao café cheio no país natal e à praça da cidade atulhada. Casais suportando as mãos, grupos de amigos fortemente unidos, velhos e novos no mesmo trajecto. Não se negue, é futebol. É o desporto das massas e corrompe grande parte das antipatias. É o pretexto para assomar junto ao outro. Putativo desconhecido. Trocar ideias e vociferar asneiras. Agradecer, por fim, a cada um dos valentes. Viver e comemorar. Fá-lo como melhor te assenta. São emoções. Fortes e quase umbilicais. Por isso, há instantes, na despedida de alguém especial, pedi-lhe que regressasse bem a França e que os encontrasse ainda ressabiados. Pois, bem sabemos, o título já chegou. E é nosso. Do Portugal dos desdenhados. Saudações!

7.7.16

Relação de intensidade.

O calor traz gente. A nossa e a outra. Rumas a sul na expectativa repetida de encontrares o mar no mesmo lugar, as ondas que vão e trazem, o sol no tempero certo, os petiscos favoritos, os cheiros da época, a fruta vendida na berma, os sotaques variados e ricos, os corpos com a devida cor, o pôr-do-sol na cobertura, cujo nome chega-nos noutra língua. O humor condensa atrevimento, alguma corrosão até, que aprecio. A bebida partilhada com o grupo certo. Os amigos que regressam, as conversas que não perdoamos. Parte dos amigos de sempre, outros que chegam por favor das relações. Os mesmos amigos das idas para o Algarve diferente. Onde, afoitos, partíamos no desassossego da noite, rumo à praia e não deixávamos à margem as boas e dinâmicas tertúlias. A casa listada de amarelo e a outra de verde seco no cimo, o abismo sobre as ondas revoltas. A aragem temperada, a areia húmida, as pranchas no mar. Um livro ou outro. A piscina lotada. Paixões desmedidas. E rir sem parar. Inventávamos um futuro, escolhíamos partes avulsas. Grande parte, na terça-feira passada, por nós lembradas e relatadas com o devido entusiasmo. Ironicamente, numa qualquer cobertura do verão algarvio, o outro, o mais comercial. Com uma piscina discreta, porém, atractiva. De copo na mão, fervilharam centenas de relatos. E, com maior ou menor prejuízos, colocámos as cartas na mesa. O futuro reservado é, noutra escala, melhor do que havíamos imaginado. Ou, pelo menos, mais diversificado. Coisas há, contudo, que não mudam. A praia mais sossegada, os copos bem servidos, a visita ao melhor café da região e o jantar da praxe no restaurante da nossa estória. E eu chego à praia, não poucas vezes, de paez e chapéu. O calor tem as devidas oferendas. As nossas e as dos outros. E Portugal na grande final.

18.11.15

À espera do tom.

Não se pede silêncio. Apagam-se as luzes. Fica o passado ali, o presente a crescer. O futuro que há-de vir, a certeza que se nega. Bate o pé sobre a carpete de desenhos pequenos. A particularidade aos seus pés. As galochas que não escondem a marca da moda. Bate o pé, espera a afinação. Bate o pé, começa o som atrás de si. Bate uma e outra vez. O pé calçado, não tem descanso. A perna balança. Os ombros dançam simpáticos. A um ritmo nada monótono. Soam, atrás, os acordes esperados. Senta-se, enquanto a saia junta as pernas. Sabe que dali só o melhor. Canta com as palavras certas, a goela solta. Pega no microfone com a cara de quem sente. Sente a canção, ri de olhos fechados. Franze o olhar. Semeia o ambiente ideal. Os ombros não mentem, vão para lá, voltam para cá. Os cabelos livres acompanham. Levanta-se, salta levemente. Canta sem impaciência. Repete esta fisicalidade com outras notas, só devemos agradecer. No instante, nada falta. A jovem mulher que canta como senhora de outros tempos. Que calça como menina de brincadeira à chuva. Que sente a canção que é da gente, como se tivesse nascido numa espécie de rua assim. Perde-se a sombra, voltam as luzes. Com a certeza de que, por aqui ficaremos, até à próxima contemplação.

5.10.15

Um banco de madeira que é de excelente casta.

Não me lembro do meu avô temer a chuva, miudinha ou grossa, de deixar para amanhã o que podia fazer, sem prejuízo, naquele instante. Lembro-me, antes, dele sentado, com as suas calças de tecido perfeitamente engomadas, os seus sapatos engraxados com maestria, as camisas impecáveis, as peúgas no tom certo. Até o chapéu, enquanto a idade o permitia gozar da vontade de escolher. Mentiria se dissesse que ontem me sentei com o meu avô a ver as ideias a passar, a verbalizar parte delas. Que nos sentámos naquele banco de madeira castiço, já gasto do tempo. O tempo gasta, quando nasces inocente, igualmente quando nasces azedo, estragado. O banco que me habituei a ver sempre no mesmo lugar. Junto à porta dos fundos, com uma vista altamente privilegiada para as flores tão bem cuidadas da minha avó. De cores sem fim, das tradicionais aos feitios estrambólicos, assumidamente amor e dedicação plantados. Sentados, quase não conseguimos ver dos muros para fora, do portão para a rua. O banco que só não era pequeno porque o amor acrescenta. Ontem, ali sentados, se não fosse mentira, a pensar no todo. A permitir asas à imaginação, como noutros tempos, de petiz perguntador. Não foi, certamente, nesse banco de jardim que conheci a orientação política do meu avô. Militante de um partido, soube na mesma altura, num qualquer jantar de família reunida, militante activo e prestativo de uma força política. Não percebi nada, avento desde logo. Precoce a boa nova, esqueci-me de perguntar mais. Partilhava o entusiasmo com um cunhado e outros tantos desta família. Lembro-me dos jornais e papéis sem fim, alusões inesgotáveis às designações, crenças e questões tão características daquele partido. Lamento, nunca lhe ter perguntado mais, naqueles momentos a pensar e a conversar sem fim, sobre a sua posição. Nunca foi indiferença, infelizmente foi a imaturidade forçada pela tenra idade até à sua morte. Guardo-lhe questões que serviriam, irrevogavelmente, os nossos momentos sentados naquele banco. Entre outros assuntos, teria o maior gosto em atiçá-lo, usando a eloquência que ambos admiramos, explicando porque nunca partilhei com ele a intenção, tampouco, o voto. A abstenção corrói, o voto inconsciente destrói. Quando não resulta, entre os escombros, voltamos ao lugar certo, mesmo que demore. Mentiria se dissesse que ontem partilhei com o meu avô aquele banco. Só não o faço porque, ideologias políticas à parte, partilhamos a óbvia e civilizada vontade de votar e de, claro, opinar.

22.9.15

Intelecto e cultura numa cabana junto à berma.

Ao sabor de um cigarro e depois outro, vamos conversando sobre a banalização da cultura. Atrás de nós um quadro gigante que faz lembrar a conhecida obra que evoca uma tão falada guerra civil. Este não é, em tempo algum, uma tentativa de copiar o original, sou só eu a cuidar pouco da imaginação. Continuam os cigarros malignos e a conversa sobre a negligência. Do fracasso da atribuição dos números e da ausente e persistente necessidade de apelidá-la de parente pobre. Neste governo como noutros. Um deles ri-se porque conheceu um cantor pimba no ginásio e são, desde algum tempo a esta parte, felizes companheiros de actividades que dizem respeito ao domínio do exercício em aparelhos. Entretém-se o mundo com os domingos agitados e abaixo de populares que as televisões nacionais insistem em emitir. Sempre e em simultâneo. Em nome e defesa do entretenimento que alavanca o espírito fatigado do comum cidadão. Apela-se à chamada de acrescentado valor e rir é muito bonito. Entre o cantor que repete largos minutos a mesma frase com três palavras e a intérprete que aposta forte no playback e na selfie em movimento. No fundo, sustenta-se a cultura do processo que vive da gravação preparada atempadamente. E, para ressalva do intelecto, não me limito às cantorias despidas. Já não chega o amor e uma cabana. Literalmente ou no domínio do fantástico. É pouco. Antes, construírem-se torres tão altas. Como se fossem caixas com desenhos bonitos. Umas sobre as outras. Suspensos nesta apneia inopinada e ininterrupta, perde-se o essencial. E esse, contam-nos as avós, não está à mercê de um tipo que, por nomeação, faz de conta que cuida dos interesses da cultura de um país. Cuidar não é sinónimo de matar. Há espaço e tempo. Para os domingos à tarde embalados em cantigas daquele género e de chamadas curtas. Para as torres de caixas empilhadas. Para atentar o intelecto. Até, vamos lá ver, que caiam, uma a uma, as caixas amontoadas. Ganhe-se, logo a seguir, a coragem necessária para juntá-las com coerência, realidade e competência.

9.7.15

Gente com traquejo algarvio.

A questão impõe-se, tão válida. Volta e meia esqueço-me, volto à expressão. Por seu turno, depois de me atiçarem a justificação, depressa me lembro que não faz sentido. Ainda assim, deixo-me tentar. Entre amigos e, ironicamente, aqui no blogue, a discussão teve semente e deu frutos. Gente bonita. Pessoas com pinta. Tipos arranjados e miúdas aperaltadas. Não é ficção, é o espelho da observação. Não é coisa certa e universal. É o entendimento da definição. No Algarve de verdade, com encantos travessos e paixões que tiram o folgo, assisto à desconstrução. O mar não mente, é água com tom imaginado de céu, ondula conforme indicação, a areia brilha por força da cor fina e da luz que reflecte. Os escassos chapéus-de-sol são coloridos, as pessoas estendidas. Outros, entre cá e lá. Poucas pessoas, alguns turistas curiosos. Também amantes e conhecedores da quão bravia e montês pode ser esta região. Mergulhos em água fria, ganha a excelsa vista. Lá ao fundo, quase a perdê-los de vista, um velho casal. Desprotegidos do sol, lêem livros pesados, tão grossos que consigo entrever. Aqui, bem mais perto, três jovens mulheres ganham o desejado tom dourado na pele. Mexem o corpo com a convicção de quem tem vinte e tal anos e não passa despercebida. No meio das ondas avessas, uns quantos tipos a divertirem-se, enquanto fazem por manter-se em equilíbrio na prancha, que o surf é ordem e lição por aqui. Fico entretido nisto. Até voltar a calçar as minhas alpercatas e seguir caminho. Não sem antes tirar-te uma fotografia. Algarve encantado este. E com gente bonita.

2.7.15

Em diferido. #37

A unidade que forma um todo - O mundo pulsa com frequência. Por estes dias, é um mundo noutro compasso. Numa ambiguidade impessoal. Arqueja ao mesmo tempo que ganha firmeza na musculatura. Toma a forma de logração inócua. Avoca, inevitavelmente, a eterna dúvida, como qualquer contradição exposta. É transversal, agora tudo chega a todo o lado. Um ponto corta tudo, sem dó nem alma, até ao ponto final. É uma linha imaginária, por certo, oblíqua. Uma veia melindrada pela invasão inesperada. É uma tentativa de normalizar, ao invés, de padronizar. Surge como uma democracia funcional. Convida o povo a acreditar que exerce a soberania. Mas é uma questão que ganha recheio noutras áreas, tão relevantes quanto uma questão que lateja por resposta, um governo que tem toques de aristocracia. Arraçado de pináculo da linguagem impopular. No entremeio, ficam-nos as questões bem mundanas. Putativamente menos transversais. Como os quadris naturais da mulher que vive fora da cidade serem bem mais tortuosos do que a transversalidade nacional.

11.6.15

Em diferido. #36

Há festa Portuguesa (Um e outro ano) - Há cores por cima de cada cabeça, a fazer de conta um arco-íris. Há verdes fitas, amarelas, vermelhas, azuladas e brancas até. O bailarico começa lá em cima, onde se bamboleiam as iluminadas faixas lisas com cores fortes. Esticam-se de um prédio ao outro. Deslizam entre e sobre os arames estrategicamente colocados. Açambarcam ruas, átrios, pracetas e becos. Unem janelas e vizinhos. Daquela ponta, onde a janela sossega escancarada, até ao outro lado, de varanda decorada, de manjericos pousados. Das afamadas coloridas fitas, caem adornos vários. É alusão ao santo, à folia, à comemoração. É festa que une população. Pedem-se casamentos felizes e relações abençoadas. Começam namoros, arrancam casórios. Em cada ruela a surpresa. Montam-se arraiais em cada esquina. Enquanto se faz caminho passa-se a mão pelos manjericos vários, cheiram-se as sardinhas no fogo, ouve-se o vinho a escorrer para cada copo. Lisboa leva atenção. Da terra ou visita, se fazem os convivas. À noite, as marchas pisam solo requintado, deslizam avenida fora. Aplausos e vencedores. É noite de animação sem fim. É um festejo popular, rompendo país fora. É um vai e vem que deixa saudade. Até ao novo ano, até à festa democrática.

12.5.15

Mulher que se foi libertando das pressões burguesas.

A vida é bela, rapaz. Volto a lembrar-me de um dos filmes que mais gostei, pelas tantas razões que hei-de sempre lembrar. Que, por ora, nada importam. Passei, entre outras coisas, o gosto pelo filme à minha irmã mais nova. Lembram-se as gerações de que viver em harmonia nem sempre é fácil. Arrumam-se os livros de história, esquecem-se as tradições regionais, afastam-se os mais velhos, destroem-se as praias porque ganharam títulos, compilam-se em discos externos as fotografias, consome-se até à exaustão a música comercial. Nunca mais voltámos a eles. A facilidade e a rapidez comandam ao nível da ambição. A vida é bela. É nome de filme, volto a lembrar e é uma espécie de sonho, uma utopia que tem jeito de petiz travesso. Como aquela sala, outrora cheia de gente ansiosa pela orquestra imaculada, bem comandada e pela voz que viria depois. Os camarotes, reis da vista privilegiada. Agora, vazia e com uma acústica excepcional, esta sala é espaço de conversa. Logo à noite, apresentar-se-ão películas datadas. Neste instante, a sala está despida de gente ansiosa e do burburinho que especula sobre o que está a estrear. Agora, senta-se e somos todos ouvidos. Estes quase noventa anos são a prova viva, guardada e pronta para passar para uma prosa valente e inquietante, um Portugal de outros. O dela, por certo. Estes quase noventa anos lamentam a sala vazia, nunca de público, mas de obras, de óperas, da arte que merece ter tábuas para pisar. Tem um humor particular, sorri com o rosto todo, mostra legitimidade e coerência no discurso e, ainda mais, nos lamentos. Os brincos grandes fazem a moldura. As mãos marcadas brincam com o fio que pende sobre o peito. Não pede mais oportunidades, porque já não interessa. Aproveitou todas as que lhe fizeram parar e suspirar. Hoje, pede a dignidade e a classe que a permita, nunca quando lhe apetecer, mas sempre que surgir um cartaz à porta, para sair de casa, bem vestida, disponível para passar um bom bocado. E, no final, aplaudir. Se preciso, de pé. Palmas.

29.4.15

Imaginar qualquer coisa de novo.

Mostraram-me um esboço de um trabalho criativo, para que eu opinasse. O que quer que eu diga, vale o que vale. Não vou para além da minha sensibilidade e da forma como reajo perante aquilo que me apresentam. Vejo e espero uma reacção. Ou gosto e digo, ou não gosto e digo. Certamente, em sendo a segundo opção, procuro escolher com outra maturidade a justificação. Se quisermos, é uma simplicidade inquinada, mas mais polida. Sem qualquer desprimor para o autor. Que a subjectividade não se ausenta. Sempre válida. Neste projecto em concreto, ainda mal o tinha visto e logo me lembrei dos azulejos e da sua importância na génese nacional. Conheço quem guarde azulejos em casa. Fá-lo por convicção. Não os apanha algures, aproveita todos os que lhe chamam a atenção. Prende-se a eles, e guarda-os para si. Não os traz da rua, escolhe-os ainda na parede. Uma casa antiga, tanto quanto julgo saber, uma casa com muitos anos, de família. Daquelas grandes, que um dia inteiro não chega para contar o que e quem por lá passou. Salões antigos, janelas grandes, um jardim que tem condições para suportar uma casa daquelas. Alguns andares, alcatifas por todo o lado. Lareiras em materiais nobres. As paredes cobertas e gastas. Quadros, mesas fortes, bancos de pele e candeeiros requintados em cada divisão. Vão dar inicio às obras. Manteve, felizmente, alguns painéis. Outros, inevitavelmente, teve de pedir para retirar. Vai nascer dali, tenho a certeza, uma vida nova. Porque a pessoa que guarda os azulejos em casa, é a mesma que os defende, conhece e lhes oferece alimentação e modo de viver. Volto à criatividade num esboço. É forte e tem um lado simples, dignificando a intuição. Guia-nos para uma certa verdade singela. Para mim, é não desistir. Que, sinceramente, simpatizei com a evolução. Do meu lado é fácil. Gostei.

27.4.15

Português revolto.

Sexta-feira, vinte e quatro de Abril, tarde coberta, céu acinzentado, nuvens zangadas. Ouvem-se gritos e passos desassossegados, fazendo imaginar um grupo largo de crianças. Abordam os transeuntes, dão-lhes algo. Entram em espaços de negócio e voltam para a rua de mãos vazias. Chegam perto de nós e percebemos, estão a distribuir a simplicidade e a liberdade em pequenos papéis. Cada um, uma frase, um destino sem volta. Verdades sem contra-argumentação. No que me ofereceram, podia ler-se: “A liberdade tem de ser respeitada”. Noutros, a alusão ao actual quotidiano das massas. Ainda divertidos cravos feitos à mão. Justiça, era a palavra escolhida. Não sei, mas pelos relatos que vou ouvindo, pelo que vou lendo e, acima de tudo, pelo que vou procurando saber, a noite que antecede o dia lembrado é, sem pensar, esquecida. A emoção, a comoção, a vontade da revolução vividas na pele. Tudo deve ter ultrapassado os poemas que têm paciência ou os que matam em cada verso. Zeca Afonso cantou a intervenção política. Por mais anos que passem, o vinte e cinco de Abril será, vezes sem conta, o maior e melhor pretexto para lembrar a flor da revolução, encher as ruas e as avenidas com vontade de comemorar o que passou, mas com mais e ferozes ganas de limar o presente e ultrapassar o desgoverno, com a necessidade de alicerçar um futuro próspero, condizente com a estrutura ambiciosa e criativa de mil novecentos e setenta e quatro. Nunca esquecer a educação, a formação. Volvidos estes quarenta e um anos, é impossível não rever a democracia e não pensar no quão embrionária é no nosso país. Sossegada, por força dos inexperientes que brincam ao faz de conta. Talvez não seja como nós queremos. Mas desligar e deixar andar, não é a razão dos sentidos.

8.4.15

Em diferido. #31

A Alice da gaiola na garganta - Despertar com os pingos da chuva. A calçada portuguesa não conhece comédia ou drama. É tapete de passagem, segundo a segundo. Ainda se vestem as ruas de lojas bonitas, de negócios pujantes. De gente nova, com o empreendedorismo efectivo, as ganas nos actos. A determinação a fluir-lhes na mão, as ideias a fugir-lhes pela boca. A confiança nas pessoas. De norte a sul. Os insulares também. É o português preferido e perfeito. Menina bonita, de trejeitos desenvoltos, aperfeiçoando e enaltecendo a montra da livraria. Um cartaz ao centro chamava a atenção. Certamente, não tanto como a prodigiosa rapariga. Tchaikovsky soa. Talvez, naquele fugaz instante, seja a variação e a melhor comparação. É uma travessa sossegada. A sul situada. Os livros arrumados. A escolha musical parece despropositada. Como a tatuagem que espreita pela gola de lã grossa. Perguntou-lhe quem tem coragem. É uma gaiola civilizada. Resposta esta, tão inusitada. Com licença, que não percebemos a palavra dita. Não se cansou e o significado explicou. Uma gaiola larga, de fio fino, sem porta ou cancela, por nada nem ninguém caber nela. Regista-se, assim, a informação mais simples. Sejam bem-vindos, fiquem à vontade. Não se sugestionem por capas ou títulos. Escolham autores e temas da vossa verdade ou da mentira que querem conhecer. Eu sou a Alice. Desenhei a gaiola e ofereci-lhe a liberdade. Sugiro uma volta à sala. Hoje é um excelente dia para guardar um bom livro. Para escolhe-lo e debaixo do braço levar. Com conteúdo superior ao velho jornal que serve para o peixe fresco embrulhar.

10.3.15

A unidade que forma um todo.

O mundo pulsa com frequência. Por estes dias, é um mundo noutro compasso. Numa ambiguidade impessoal. Arqueja ao mesmo tempo que ganha firmeza na musculatura. Toma a forma de logração inócua. Avoca, inevitavelmente, a eterna dúvida, como qualquer contradição exposta. É transversal, agora tudo chega a todo o lado. Um ponto corta tudo, sem dó nem alma, até ao ponto final. É uma linha imaginária, por certo, oblíqua. Uma veia melindrada pela invasão inesperada. É uma tentativa de normalizar, ao invés, de padronizar. Surge como uma democracia funcional. Convida o povo a acreditar que exerce a soberania. Mas é uma questão que ganha recheio noutras áreas, tão relevantes quanto uma questão que lateja por resposta, um governo que tem toques de aristocracia. Arraçado de pináculo da linguagem impopular. No entremeio, ficam-nos as questões bem mundanas. Putativamente menos transversais. Como os quadris naturais da mulher que vive fora da cidade serem bem mais tortuosos do que a transversalidade nacional.

5.3.15

Em diferido. #29

Vistoso latejar - Querer saber do raspão que é a história de um país, o percurso de um nome, a criatividade de um cartaz a preto e branco, tão bonito como se tivesse roubado um filtro da rede social, e que permanece, tão misterioso como sensacional. Tudo isto é querer saber de nós. Vale, por demais, a vida e os dias, se nos valermos do amor alheio e das horas vazias. Fazer beicinho, escutar fado, escolher azulejos e admirá-los em cada esquina, as alcofas que são as sacolas da ida ao mercado. As hortas que crescem com tempo. Velozes os testemunhos de quem abre a porta, escancarada, para contar vivências e desmedidas convivências. Avisam-nos os velhos, avisam-se os novos. Supostos ensinamentos. Adquirem, tão lentos, a informação. Cozem-se e assam-se as batatas-doces. Os verdes vão ao lume leve. A cortiça heroína de voltas ao redor do mundo. O mar que não tem defeito e oferece a água e o conduto. Agreste esquecimento devoluto. Tudo isto é sinceridade. Tudo isto é conversa de quem passeia o corpo pela cidade.

4.2.15

Em diferido. #27

A berma de um Portugal igual - Na generalidade, que é por onde tudo vem, até ao ponto da individualidade. Há pudor, como quando subimos a rua e desviamos o olhar. É uma incerteza no contexto da mistura de vontades. Do receio de enfrentar verdades. Há pudor em cada esquina. Como quando descemos a rua e preferimos passar sem ver. Falávamos de sexo. Há pudor e uma sentença de geração. Às vezes é preferível assim. Como se escolher desculpar-se com palavras que embrulham velhas convicções, fosse a concretização. Quem cala suporta a inexistência. Não voltamos ao tema em cada conversa. É a proporção da necessidade. Alheia ou da interna trincheira. Mas elas assumem posição. Diz-se, ouve-se por aí, são elas as mais autênticas no discurso. Mais próximas da realidade. Eles enganam conforme a falta do que é imprescindível. Nisto, falar de sexo é a berma deste país. Aponta-se o dedo, passa-se sem olhar. No fim, todos, sem excepção, são aliciados. Da berma, riem-se para quem passa. Piscam o olho e ajeitam o decote generoso. Até lá voltar e gastar o que sobrou. Há sempre quem negue a verdade num tom majestoso, típico de quem não gostou.

15.1.15

A Alice da gaiola na garganta.

Despertar com os pingos da chuva. A calçada portuguesa não conhece comédia ou drama. É tapete de passagem, segundo a segundo. Ainda se vestem as ruas de lojas bonitas, de negócios pujantes. De gente nova, com o empreendedorismo efectivo, as ganas nos actos. A determinação a fluir-lhes na mão, as ideias a fugir-lhes pela boca. A confiança nas pessoas. De norte a sul. Os insulares também. É o português preferido e perfeito. Menina bonita, de trejeitos desenvoltos, aperfeiçoando e enaltecendo a montra da livraria. Um cartaz ao centro chamava a atenção. Certamente, não tanto como a prodigiosa rapariga. Tchaikovsky soa. Talvez, naquele fugaz instante, seja a variação e a melhor comparação. É uma travessa sossegada. A sul situada. Os livros arrumados. A escolha musical parece despropositada. Como a tatuagem que espreita pela gola de lã grossa. Perguntou-lhe quem tem coragem. É uma gaiola civilizada. Resposta esta, tão inusitada. Com licença, que não percebemos a palavra dita. Não se cansou e o significado explicou. Uma gaiola larga, de fio fino, sem porta ou cancela, por nada nem ninguém caber nela. Regista-se, assim, a informação mais simples. Sejam bem-vindos, fiquem à vontade. Não se sugestionem por capas ou títulos. Escolham autores e temas da vossa verdade ou da mentira que querem conhecer. Eu sou a Alice. Desenhei a gaiola e ofereci-lhe a liberdade. Sugiro uma volta à sala. Hoje é um excelente dia para guardar um bom livro. Para escolhe-lo e debaixo do braço levar. Com conteúdo superior ao velho jornal que serve para o peixe fresco embrulhar.

9.12.14

A berma de um Portugal igual.

Na generalidade, que é por onde tudo vem, até ao ponto da individualidade. Há pudor, como quando subimos a rua e desviamos o olhar. É uma incerteza no contexto da mistura de vontades. Do receio de enfrentar verdades. Há pudor em cada esquina. Como quando descemos a rua e preferimos passar sem ver. Falávamos de sexo. Há pudor e uma sentença de geração. Às vezes é preferível assim. Como se escolher desculpar-se com palavras que embrulham velhas convicções, fosse a concretização. Quem cala suporta a inexistência. Não voltamos ao tema em cada conversa. É a proporção da necessidade. Alheia ou da interna trincheira. Mas elas assumem posição. Diz-se, ouve-se por aí, são elas as mais autênticas no discurso. Mais próximas da realidade. Eles enganam conforme a falta do que é imprescindível. Nisto, falar de sexo é a berma deste país. Aponta-se o dedo, passa-se sem olhar. No fim, todos, sem excepção, são aliciados. Da berma, riem-se para quem passa. Piscam o olho e ajeitam o decote generoso. Até lá voltar e gastar o que sobrou. Há sempre quem negue a verdade num tom majestoso, típico de quem não gostou.

2.12.14

Vistoso latejar.

Querer saber do raspão que é a história de um país, o percurso de um nome, a criatividade de um cartaz a preto e branco, tão bonito como se tivesse roubado um filtro da rede social, e que permanece, tão misterioso como sensacional. Tudo isto é querer saber de nós. Vale, por demais, a vida e os dias, se nos valermos do amor alheio e das horas vazias. Fazer beicinho, escutar fado, escolher azulejos e admirá-los em cada esquina, as alcofas que são as sacolas da ida ao mercado. As hortas que crescem com tempo. Velozes os testemunhos de quem abre a porta, escancarada, para contar vivências e desmedidas convivências. Avisam-nos os velhos, avisam-se os novos. Supostos ensinamentos. Adquirem a informação tão lentos. Cozem-se e assam-se as batatas-doces. Os verdes vão ao lume leve. A cortiça heroína de voltas ao redor do mundo. O mar que não tem defeito e oferece a água e o conduto. Agreste esquecimento devoluto. Tudo isto é sinceridade. Tudo isto é conversa de quem passeia o corpo pela cidade.