Acabo
de receber um vídeo e dois pedaços com som. Remonta às idas para o Algarve
diferente. Afastado das massas. Preservado pelos amantes daquele lugar,
daquelas bandas. Com direito a praias de mar revolto e caminhos íngremes.
Gentes da terra com o sotaque fresco e pronto a soltar o verbo. O rádio do
carro solta as mais diversificadas canções. Sem incomodar ou impedir de cantar.
As casas seguidas, poucas e quase na boca do mar, de branco imaculado, com o
verde e o azul a fazer as vezes de adorno. Também pintadas de cores diversas e
garridas. Sem esquecer o amarelo que passou da cozedura ou o rosa velho, os
pequenos jardins logo à entrada ou as pedras na parede desenhadas. O verde a
manter a postura, sem mazelas graúdas. O ar que inalamos é superior e tem um jeitinho
sem igual. Os surfistas tomam as ganas das ondas que não perdem o génio. Os
lugares, pequenos e familiares, que oferecem tempo e sossego. As pequenas
mercearias que servem as necessidades da população, que matam o tempo a todos e
a cada um, inclusivamente. O jardim, cujo cenário vive de dois ou três bancos
feitos de ripas de madeira, alguns arbustos a envolver e flores com cor de
primavera. As velhotas e os velhotes numa tertúlia quase silenciosa. Dão os
bons dias, desejam uma boa tarde e só falta a noite feliz. Aí, já no resguardo
do lar. Os restaurantes primam pelos pratos da região, nunca falta o peixe
fresco. O cenário é atrevido e peculiar, convida à conversa demorada, às
partilhas de pele com pele e às indefinidas fotografias. E, claro, sem esquecer
as largas memórias que nos traz. Recebi, há escassos minutos, a certeza de que
vamos voltar. As imagens de outros dias, tremendamente bem embrulhadas, feitas
convite. Tenho saudades. Temos saudades. Tomo com elas a certeza de que há
sempre mais. Há ir e voltar. As vezes que entender. As vezes que nos receber.
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13.4.17
19.7.16
Em diferido. #51
Gente
com traquejo algarvio - A questão impõe-se, tão válida. Volta e meia
esqueço-me, volto à expressão. Por seu turno, depois de me atiçarem a
justificação, depressa me lembro que não faz sentido. Ainda assim, deixo-me
tentar. Entre amigos e, ironicamente, aqui no blogue, a discussão teve semente
e deu frutos. Gente bonita. Pessoas com pinta. Tipos arranjados e miúdas
aperaltadas. Não é ficção, é o espelho da observação. Não é coisa certa e
universal. É o entendimento da definição. No Algarve de verdade, com encantos
travessos e paixões que tiram o folgo, assisto à desconstrução. O mar não
mente, é água com tom imaginado de céu, ondula conforme indicação, a areia
brilha por força da cor fina e da luz que reflecte. Os escassos chapéus-de-sol
são coloridos, as pessoas estendidas. Outros, entre cá e lá. Poucas pessoas,
alguns turistas curiosos. Também amantes e conhecedores da quão bravia e montês
pode ser esta região. Mergulhos em água fria, ganha a excelsa vista. Lá ao
fundo, quase a perdê-los de vista, um velho casal. Desprotegidos do sol, lêem
livros pesados, tão grossos que consigo entrever. Aqui, bem mais perto, três
jovens mulheres ganham o desejado tom dourado na pele. Mexem o corpo com a
convicção de quem tem vinte e tal anos e não passa despercebida. No meio das
ondas avessas, uns quantos tipos a divertirem-se, enquanto fazem por manter-se
em equilíbrio na prancha, que o surf é ordem e lição por aqui. Fico entretido
nisto. Até voltar a calçar as minhas alpercatas e seguir caminho. Não sem antes
tirar-te uma fotografia. Algarve encantado este. E com gente bonita.
12.7.16
Aparato sumptuoso e digno.
Não
nos cabe no corpo instigado pela euforia, a experiência de chegar lá pela
primeira vez. Fogem-nos as palavras. As certas, as oportunas, as erradas e as
impensáveis. As outras, dotadas de um certo tabuísmo, também. O desdém foi
arremesso de ocasião, a propósito, em todo o percurso. As veias salientes, o
coração possante, o punho cerrado e os dentes numa tensão profunda. Os ecrãs
gigantes, as mulheres vibrantes, os homens expectantes e as crianças atentas.
As bandeiras nacionais nos lugares mais comuns, nos mais inusitados e nos
corpos aturdidos. Os movimentos impacientes, as mãos levadas ao rosto. As
lágrimas tomando muitos de assalto. Os gritos de dor sossegada e de felicidade
estampada. O Hino Nacional na ponta da língua, o tempo de antena que merece. Um
soluço de apneia. No relvado a questão. O plantel na discussão, no esquema da
emoção, fazendo frente a quem joga e atenta contra todos e cada ponto. Grita-se
por Portugal. Da bancada diante da prova até ao café cheio no país natal e à praça
da cidade atulhada. Casais suportando as mãos, grupos de amigos fortemente
unidos, velhos e novos no mesmo trajecto. Não se negue, é futebol. É o desporto
das massas e corrompe grande parte das antipatias. É o pretexto para assomar
junto ao outro. Putativo desconhecido. Trocar ideias e vociferar asneiras.
Agradecer, por fim, a cada um dos valentes. Viver e comemorar. Fá-lo como
melhor te assenta. São emoções. Fortes e quase umbilicais. Por isso, há
instantes, na despedida de alguém especial, pedi-lhe que regressasse bem a
França e que os encontrasse ainda ressabiados. Pois, bem sabemos, o título já
chegou. E é nosso. Do Portugal dos desdenhados. Saudações!
7.7.16
Relação de intensidade.
O
calor traz gente. A nossa e a outra. Rumas a sul na expectativa repetida de
encontrares o mar no mesmo lugar, as ondas que vão e trazem, o sol no tempero
certo, os petiscos favoritos, os cheiros da época, a fruta vendida na berma, os
sotaques variados e ricos, os corpos com a devida cor, o pôr-do-sol na
cobertura, cujo nome chega-nos noutra língua. O humor condensa atrevimento,
alguma corrosão até, que aprecio. A bebida partilhada com o grupo certo. Os
amigos que regressam, as conversas que não perdoamos. Parte dos amigos de
sempre, outros que chegam por favor das relações. Os mesmos amigos das idas
para o Algarve diferente. Onde, afoitos, partíamos no desassossego da noite,
rumo à praia e não deixávamos à margem as boas e dinâmicas tertúlias. A casa
listada de amarelo e a outra de verde seco no cimo, o abismo sobre as ondas
revoltas. A aragem temperada, a areia húmida, as pranchas no mar. Um livro ou
outro. A piscina lotada. Paixões desmedidas. E rir sem parar. Inventávamos um
futuro, escolhíamos partes avulsas. Grande parte, na terça-feira passada, por
nós lembradas e relatadas com o devido entusiasmo. Ironicamente, numa qualquer
cobertura do verão algarvio, o outro, o mais comercial. Com uma piscina
discreta, porém, atractiva. De copo na mão, fervilharam centenas de relatos. E,
com maior ou menor prejuízos, colocámos as cartas na mesa. O futuro reservado é,
noutra escala, melhor do que havíamos imaginado. Ou, pelo menos, mais
diversificado. Coisas há, contudo, que não mudam. A praia mais sossegada, os
copos bem servidos, a visita ao melhor café da região e o jantar da praxe no
restaurante da nossa estória. E eu chego à praia, não poucas vezes, de paez e chapéu. O calor tem as devidas
oferendas. As nossas e as dos outros. E Portugal na grande final.
18.11.15
À espera do tom.
Não
se pede silêncio. Apagam-se as luzes. Fica o passado ali, o presente a crescer.
O futuro que há-de vir, a certeza que se nega. Bate o pé sobre a carpete de
desenhos pequenos. A particularidade aos seus pés. As galochas que não escondem
a marca da moda. Bate o pé, espera a afinação. Bate o pé, começa o som atrás de
si. Bate uma e outra vez. O pé calçado, não tem descanso. A perna balança. Os
ombros dançam simpáticos. A um ritmo nada monótono. Soam, atrás, os acordes
esperados. Senta-se, enquanto a saia junta as pernas. Sabe que dali só o
melhor. Canta com as palavras certas, a goela solta. Pega no microfone com a
cara de quem sente. Sente a canção, ri de olhos fechados. Franze o olhar.
Semeia o ambiente ideal. Os ombros não mentem, vão para lá, voltam para cá. Os
cabelos livres acompanham. Levanta-se, salta levemente. Canta sem impaciência. Repete
esta fisicalidade com outras notas, só devemos agradecer. No instante, nada
falta. A jovem mulher que canta como senhora de outros tempos. Que calça como
menina de brincadeira à chuva. Que sente a canção que é da gente, como se
tivesse nascido numa espécie de rua assim. Perde-se a sombra, voltam as luzes.
Com a certeza de que, por aqui ficaremos, até à próxima contemplação.
5.10.15
Um banco de madeira que é de excelente casta.
Não
me lembro do meu avô temer a chuva, miudinha ou grossa, de deixar para amanhã o
que podia fazer, sem prejuízo, naquele instante. Lembro-me, antes, dele
sentado, com as suas calças de tecido perfeitamente engomadas, os seus sapatos
engraxados com maestria, as camisas impecáveis, as peúgas no tom certo. Até o
chapéu, enquanto a idade o permitia gozar da vontade de escolher. Mentiria se
dissesse que ontem me sentei com o meu avô a ver as ideias a passar, a verbalizar
parte delas. Que nos sentámos naquele banco de madeira castiço, já gasto do
tempo. O tempo gasta, quando nasces inocente, igualmente quando nasces azedo,
estragado. O banco que me habituei a ver sempre no mesmo lugar. Junto à porta
dos fundos, com uma vista altamente privilegiada para as flores tão bem
cuidadas da minha avó. De cores sem fim, das tradicionais aos feitios
estrambólicos, assumidamente amor e dedicação plantados. Sentados, quase não
conseguimos ver dos muros para fora, do portão para a rua. O banco que só não
era pequeno porque o amor acrescenta. Ontem, ali sentados, se não fosse
mentira, a pensar no todo. A permitir asas à imaginação, como noutros tempos,
de petiz perguntador. Não foi, certamente, nesse banco de jardim que conheci a
orientação política do meu avô. Militante de um partido, soube na mesma altura,
num qualquer jantar de família reunida, militante activo e prestativo de uma
força política. Não percebi nada, avento desde logo. Precoce a boa nova,
esqueci-me de perguntar mais. Partilhava o entusiasmo com um cunhado e outros
tantos desta família. Lembro-me dos jornais e papéis sem fim, alusões
inesgotáveis às designações, crenças e questões tão características daquele
partido. Lamento, nunca lhe ter perguntado mais, naqueles momentos a pensar e a
conversar sem fim, sobre a sua posição. Nunca foi indiferença, infelizmente foi
a imaturidade forçada pela tenra idade até à sua morte. Guardo-lhe questões que
serviriam, irrevogavelmente, os nossos momentos sentados naquele banco. Entre
outros assuntos, teria o maior gosto em atiçá-lo, usando a eloquência que ambos
admiramos, explicando porque nunca partilhei com ele a intenção, tampouco, o
voto. A abstenção corrói, o voto inconsciente destrói. Quando não resulta,
entre os escombros, voltamos ao lugar certo, mesmo que demore. Mentiria se
dissesse que ontem partilhei com o meu avô aquele banco. Só não o faço porque,
ideologias políticas à parte, partilhamos a óbvia e civilizada vontade de votar
e de, claro, opinar.
22.9.15
Intelecto e cultura numa cabana junto à berma.
Ao
sabor de um cigarro e depois outro, vamos conversando sobre a banalização da
cultura. Atrás de nós um quadro gigante que faz lembrar a conhecida obra que
evoca uma tão falada guerra civil. Este não é, em tempo algum, uma tentativa de
copiar o original, sou só eu a cuidar pouco da imaginação. Continuam os
cigarros malignos e a conversa sobre a negligência. Do fracasso da atribuição
dos números e da ausente e persistente necessidade de apelidá-la de parente
pobre. Neste governo como noutros. Um deles ri-se porque conheceu um cantor
pimba no ginásio e são, desde algum tempo a esta parte, felizes companheiros de
actividades que dizem respeito ao domínio do exercício em aparelhos. Entretém-se
o mundo com os domingos agitados e abaixo de populares que as televisões
nacionais insistem em emitir. Sempre e em simultâneo. Em nome e defesa do entretenimento
que alavanca o espírito fatigado do comum cidadão. Apela-se à chamada de
acrescentado valor e rir é muito bonito. Entre o cantor que repete largos
minutos a mesma frase com três palavras e a intérprete que aposta forte no playback e na selfie em movimento. No fundo, sustenta-se a cultura do processo
que vive da gravação preparada atempadamente. E, para ressalva do intelecto,
não me limito às cantorias despidas. Já não chega o amor e uma cabana.
Literalmente ou no domínio do fantástico. É pouco. Antes, construírem-se torres
tão altas. Como se fossem caixas com desenhos bonitos. Umas sobre as outras.
Suspensos nesta apneia inopinada e ininterrupta, perde-se o essencial. E esse,
contam-nos as avós, não está à mercê de um tipo que, por nomeação, faz de conta
que cuida dos interesses da cultura de um país. Cuidar não é sinónimo de matar.
Há espaço e tempo. Para os domingos à tarde embalados em cantigas daquele
género e de chamadas curtas. Para as torres de caixas empilhadas. Para atentar
o intelecto. Até, vamos lá ver, que caiam, uma a uma, as caixas amontoadas.
Ganhe-se, logo a seguir, a coragem necessária para juntá-las com coerência,
realidade e competência.
9.7.15
Gente com traquejo algarvio.
A
questão impõe-se, tão válida. Volta e meia esqueço-me, volto à expressão. Por
seu turno, depois de me atiçarem a justificação, depressa me lembro que não faz
sentido. Ainda assim, deixo-me tentar. Entre amigos e, ironicamente, aqui no
blogue, a discussão teve semente e deu frutos. Gente bonita. Pessoas com pinta.
Tipos arranjados e miúdas aperaltadas. Não é ficção, é o espelho da observação.
Não é coisa certa e universal. É o entendimento da definição. No Algarve de
verdade, com encantos travessos e paixões que tiram o folgo, assisto à
desconstrução. O mar não mente, é água com tom imaginado de céu, ondula
conforme indicação, a areia brilha por força da cor fina e da luz que reflecte.
Os escassos chapéus-de-sol são coloridos, as pessoas estendidas. Outros, entre
cá e lá. Poucas pessoas, alguns turistas curiosos. Também amantes e
conhecedores da quão bravia e montês pode ser esta região. Mergulhos em água
fria, ganha a excelsa vista. Lá ao fundo, quase a perdê-los de vista, um velho
casal. Desprotegidos do sol, lêem livros pesados, tão grossos que consigo
entrever. Aqui, bem mais perto, três jovens mulheres ganham o desejado tom
dourado na pele. Mexem o corpo com a convicção de quem tem vinte e tal anos e
não passa despercebida. No meio das ondas avessas, uns quantos tipos a
divertirem-se, enquanto fazem por manter-se em equilíbrio na prancha, que o surf é ordem e lição por aqui. Fico
entretido nisto. Até voltar a calçar as minhas alpercatas e seguir caminho. Não
sem antes tirar-te uma fotografia. Algarve encantado este. E com gente bonita.
2.7.15
Em diferido. #37
A
unidade que forma um todo - O mundo pulsa com frequência. Por estes dias, é um
mundo noutro compasso. Numa ambiguidade impessoal. Arqueja ao mesmo tempo que
ganha firmeza na musculatura. Toma a forma de logração inócua. Avoca, inevitavelmente,
a eterna dúvida, como qualquer contradição exposta. É transversal, agora tudo
chega a todo o lado. Um ponto corta tudo, sem dó nem alma, até ao ponto final.
É uma linha imaginária, por certo, oblíqua. Uma veia melindrada pela invasão
inesperada. É uma tentativa de normalizar, ao invés, de padronizar. Surge como
uma democracia funcional. Convida o povo a acreditar que exerce a soberania.
Mas é uma questão que ganha recheio noutras áreas, tão relevantes quanto uma
questão que lateja por resposta, um governo que tem toques de aristocracia.
Arraçado de pináculo da linguagem impopular. No entremeio, ficam-nos as
questões bem mundanas. Putativamente menos transversais. Como os quadris
naturais da mulher que vive fora da cidade serem bem mais tortuosos do que a
transversalidade nacional.
11.6.15
Em diferido. #36
Há
festa Portuguesa (Um e outro ano) - Há cores por cima de cada cabeça, a fazer
de conta um arco-íris. Há verdes fitas, amarelas, vermelhas, azuladas e brancas
até. O bailarico começa lá em cima, onde se bamboleiam as iluminadas faixas
lisas com cores fortes. Esticam-se de um prédio ao outro. Deslizam entre e
sobre os arames estrategicamente colocados. Açambarcam ruas, átrios, pracetas e
becos. Unem janelas e vizinhos. Daquela ponta, onde a janela sossega
escancarada, até ao outro lado, de varanda decorada, de manjericos pousados. Das
afamadas coloridas fitas, caem adornos vários. É alusão ao santo, à folia, à
comemoração. É festa que une população. Pedem-se casamentos felizes e relações
abençoadas. Começam namoros, arrancam casórios. Em cada ruela a surpresa.
Montam-se arraiais em cada esquina. Enquanto se faz caminho passa-se a mão
pelos manjericos vários, cheiram-se as sardinhas no fogo, ouve-se o vinho a
escorrer para cada copo. Lisboa leva atenção. Da terra ou visita, se fazem os
convivas. À noite, as marchas pisam solo requintado, deslizam avenida fora.
Aplausos e vencedores. É noite de animação sem fim. É um festejo popular,
rompendo país fora. É um vai e vem que deixa saudade. Até ao novo ano, até à
festa democrática.
12.5.15
Mulher que se foi libertando das pressões burguesas.
A
vida é bela, rapaz. Volto a lembrar-me de um dos filmes que mais gostei, pelas
tantas razões que hei-de sempre lembrar. Que, por ora, nada importam. Passei,
entre outras coisas, o gosto pelo filme à minha irmã mais nova. Lembram-se as
gerações de que viver em harmonia nem sempre é fácil. Arrumam-se os livros de
história, esquecem-se as tradições regionais, afastam-se os mais velhos, destroem-se
as praias porque ganharam títulos, compilam-se em discos externos as
fotografias, consome-se até à exaustão a música comercial. Nunca mais voltámos
a eles. A facilidade e a rapidez comandam ao nível da ambição. A vida é bela. É
nome de filme, volto a lembrar e é uma espécie de sonho, uma utopia que tem
jeito de petiz travesso. Como aquela sala, outrora cheia de gente ansiosa pela
orquestra imaculada, bem comandada e pela voz que viria depois. Os camarotes,
reis da vista privilegiada. Agora, vazia e com uma acústica excepcional, esta
sala é espaço de conversa. Logo à noite, apresentar-se-ão películas datadas.
Neste instante, a sala está despida de gente ansiosa e do burburinho que
especula sobre o que está a estrear. Agora, senta-se e somos todos ouvidos.
Estes quase noventa anos são a prova viva, guardada e pronta para passar para
uma prosa valente e inquietante, um Portugal de outros. O dela, por certo.
Estes quase noventa anos lamentam a sala vazia, nunca de público, mas de obras,
de óperas, da arte que merece ter tábuas para pisar. Tem um humor particular,
sorri com o rosto todo, mostra legitimidade e coerência no discurso e, ainda
mais, nos lamentos. Os brincos grandes fazem a moldura. As mãos marcadas
brincam com o fio que pende sobre o peito. Não pede mais oportunidades, porque
já não interessa. Aproveitou todas as que lhe fizeram parar e suspirar. Hoje,
pede a dignidade e a classe que a permita, nunca quando lhe apetecer, mas
sempre que surgir um cartaz à porta, para sair de casa, bem vestida, disponível
para passar um bom bocado. E, no final, aplaudir. Se preciso, de pé. Palmas.
29.4.15
Imaginar qualquer coisa de novo.
Mostraram-me
um esboço de um trabalho criativo, para que eu opinasse. O que quer que eu
diga, vale o que vale. Não vou para além da minha sensibilidade e da forma como
reajo perante aquilo que me apresentam. Vejo e espero uma reacção. Ou gosto e
digo, ou não gosto e digo. Certamente, em sendo a segundo opção, procuro escolher
com outra maturidade a justificação. Se quisermos, é uma simplicidade inquinada,
mas mais polida. Sem qualquer desprimor para o autor. Que a subjectividade não
se ausenta. Sempre válida. Neste projecto em concreto, ainda mal o tinha visto
e logo me lembrei dos azulejos e da sua importância na génese nacional. Conheço
quem guarde azulejos em casa. Fá-lo por convicção. Não os apanha algures,
aproveita todos os que lhe chamam a atenção. Prende-se a eles, e guarda-os para
si. Não os traz da rua, escolhe-os ainda na parede. Uma casa antiga, tanto
quanto julgo saber, uma casa com muitos anos, de família. Daquelas grandes, que
um dia inteiro não chega para contar o que e quem por lá passou. Salões antigos,
janelas grandes, um jardim que tem condições para suportar uma casa daquelas.
Alguns andares, alcatifas por todo o lado. Lareiras em materiais nobres. As
paredes cobertas e gastas. Quadros, mesas fortes, bancos de pele e candeeiros
requintados em cada divisão. Vão dar inicio às obras. Manteve, felizmente,
alguns painéis. Outros, inevitavelmente, teve de pedir para retirar. Vai nascer
dali, tenho a certeza, uma vida nova. Porque a pessoa que guarda os azulejos em
casa, é a mesma que os defende, conhece e lhes oferece alimentação e modo de
viver. Volto à criatividade num esboço. É forte e tem um lado simples, dignificando
a intuição. Guia-nos para uma certa verdade singela. Para mim, é não desistir.
Que, sinceramente, simpatizei com a evolução. Do meu lado é fácil. Gostei.
27.4.15
Português revolto.
Sexta-feira,
vinte e quatro de Abril, tarde coberta, céu acinzentado, nuvens zangadas. Ouvem-se
gritos e passos desassossegados, fazendo imaginar um grupo largo de crianças. Abordam
os transeuntes, dão-lhes algo. Entram em espaços de negócio e voltam para a rua
de mãos vazias. Chegam perto de nós e percebemos, estão a distribuir a simplicidade
e a liberdade em pequenos papéis. Cada um, uma frase, um destino sem volta.
Verdades sem contra-argumentação. No que me ofereceram, podia ler-se: “A
liberdade tem de ser respeitada”. Noutros, a alusão ao actual quotidiano das
massas. Ainda divertidos cravos feitos à mão. Justiça, era a palavra escolhida.
Não sei, mas pelos relatos que vou ouvindo, pelo que vou lendo e, acima de
tudo, pelo que vou procurando saber, a noite que antecede o dia lembrado é, sem
pensar, esquecida. A emoção, a comoção, a vontade da revolução vividas na pele.
Tudo deve ter ultrapassado os poemas que têm paciência ou os que matam em cada
verso. Zeca Afonso cantou a intervenção política. Por mais anos que passem, o
vinte e cinco de Abril será, vezes sem conta, o maior e melhor pretexto para
lembrar a flor da revolução, encher as ruas e as avenidas com vontade de
comemorar o que passou, mas com mais e ferozes ganas de limar o presente e
ultrapassar o desgoverno, com a necessidade de alicerçar um futuro próspero,
condizente com a estrutura ambiciosa e criativa de mil novecentos e setenta e
quatro. Nunca esquecer a educação, a formação. Volvidos estes quarenta e um
anos, é impossível não rever a democracia e não pensar no quão embrionária é no
nosso país. Sossegada, por força dos inexperientes que brincam ao faz de conta.
Talvez não seja como nós queremos. Mas desligar e deixar andar, não é a razão
dos sentidos.
8.4.15
Em diferido. #31
A
Alice da gaiola na garganta - Despertar com os pingos da chuva. A calçada
portuguesa não conhece comédia ou drama. É tapete de passagem, segundo a
segundo. Ainda se vestem as ruas de lojas bonitas, de negócios pujantes. De
gente nova, com o empreendedorismo efectivo, as ganas nos actos. A determinação
a fluir-lhes na mão, as ideias a fugir-lhes pela boca. A confiança nas pessoas.
De norte a sul. Os insulares também. É o português preferido e perfeito. Menina
bonita, de trejeitos desenvoltos, aperfeiçoando e enaltecendo a montra da livraria.
Um cartaz ao centro chamava a atenção. Certamente, não tanto como a prodigiosa
rapariga. Tchaikovsky soa. Talvez, naquele fugaz instante, seja a variação e a
melhor comparação. É uma travessa sossegada. A sul situada. Os livros
arrumados. A escolha musical parece despropositada. Como a tatuagem que
espreita pela gola de lã grossa. Perguntou-lhe quem tem coragem. É uma gaiola
civilizada. Resposta esta, tão inusitada. Com licença, que não percebemos a
palavra dita. Não se cansou e o significado explicou. Uma gaiola larga, de fio
fino, sem porta ou cancela, por nada nem ninguém caber nela. Regista-se, assim,
a informação mais simples. Sejam bem-vindos, fiquem à vontade. Não se
sugestionem por capas ou títulos. Escolham autores e temas da vossa verdade ou
da mentira que querem conhecer. Eu sou a Alice. Desenhei a gaiola e ofereci-lhe
a liberdade. Sugiro uma volta à sala. Hoje é um excelente dia para guardar um
bom livro. Para escolhe-lo e debaixo do braço levar. Com conteúdo superior ao
velho jornal que serve para o peixe fresco embrulhar.
10.3.15
A unidade que forma um todo.
O
mundo pulsa com frequência. Por estes dias, é um mundo noutro compasso. Numa
ambiguidade impessoal. Arqueja ao mesmo tempo que ganha firmeza na musculatura.
Toma a forma de logração inócua. Avoca, inevitavelmente, a eterna dúvida, como
qualquer contradição exposta. É transversal, agora tudo chega a todo o lado. Um
ponto corta tudo, sem dó nem alma, até ao ponto final. É uma linha imaginária,
por certo, oblíqua. Uma veia melindrada pela invasão inesperada. É uma
tentativa de normalizar, ao invés, de padronizar. Surge como uma democracia
funcional. Convida o povo a acreditar que exerce a soberania. Mas é uma questão
que ganha recheio noutras áreas, tão relevantes quanto uma questão que lateja
por resposta, um governo que tem toques de aristocracia. Arraçado de pináculo
da linguagem impopular. No entremeio, ficam-nos as questões bem mundanas.
Putativamente menos transversais. Como os quadris naturais da mulher que vive
fora da cidade serem bem mais tortuosos do que a transversalidade nacional.
5.3.15
Em diferido. #29
Vistoso
latejar - Querer saber do raspão que é a história de um país, o percurso de um
nome, a criatividade de um cartaz a preto e branco, tão bonito como se tivesse
roubado um filtro da rede social, e que permanece, tão misterioso como
sensacional. Tudo isto é querer saber de nós. Vale, por demais, a vida e os
dias, se nos valermos do amor alheio e das horas vazias. Fazer beicinho,
escutar fado, escolher azulejos e admirá-los em cada esquina, as alcofas que
são as sacolas da ida ao mercado. As hortas que crescem com tempo. Velozes os
testemunhos de quem abre a porta, escancarada, para contar vivências e
desmedidas convivências. Avisam-nos os velhos, avisam-se os novos. Supostos ensinamentos.
Adquirem, tão lentos, a informação. Cozem-se e assam-se as batatas-doces. Os
verdes vão ao lume leve. A cortiça heroína de voltas ao redor do mundo. O mar
que não tem defeito e oferece a água e o conduto. Agreste esquecimento
devoluto. Tudo isto é sinceridade. Tudo isto é conversa de quem passeia o corpo
pela cidade.
4.2.15
Em diferido. #27
A
berma de um Portugal igual - Na generalidade, que é por onde tudo vem, até ao
ponto da individualidade. Há pudor, como quando subimos a rua e desviamos o
olhar. É uma incerteza no contexto da mistura de vontades. Do receio de
enfrentar verdades. Há pudor em cada esquina. Como quando descemos a rua e
preferimos passar sem ver. Falávamos de sexo. Há pudor e uma sentença de
geração. Às vezes é preferível assim. Como se escolher desculpar-se com
palavras que embrulham velhas convicções, fosse a concretização. Quem cala
suporta a inexistência. Não voltamos ao tema em cada conversa. É a proporção da
necessidade. Alheia ou da interna trincheira. Mas elas assumem posição. Diz-se,
ouve-se por aí, são elas as mais autênticas no discurso. Mais próximas da
realidade. Eles enganam conforme a falta do que é imprescindível. Nisto, falar
de sexo é a berma deste país. Aponta-se o dedo, passa-se sem olhar. No fim, todos,
sem excepção, são aliciados. Da berma, riem-se para quem passa. Piscam o olho e
ajeitam o decote generoso. Até lá voltar e gastar o que sobrou. Há sempre quem
negue a verdade num tom majestoso, típico de quem não gostou.
15.1.15
A Alice da gaiola na garganta.
Despertar
com os pingos da chuva. A calçada portuguesa não conhece comédia ou drama. É
tapete de passagem, segundo a segundo. Ainda se vestem as ruas de lojas
bonitas, de negócios pujantes. De gente nova, com o empreendedorismo efectivo,
as ganas nos actos. A determinação a fluir-lhes na mão, as ideias a fugir-lhes
pela boca. A confiança nas pessoas. De norte a sul. Os insulares também. É o
português preferido e perfeito. Menina bonita, de trejeitos desenvoltos,
aperfeiçoando e enaltecendo a montra da livraria. Um cartaz ao centro chamava a
atenção. Certamente, não tanto como a prodigiosa rapariga. Tchaikovsky soa.
Talvez, naquele fugaz instante, seja a variação e a melhor comparação. É uma
travessa sossegada. A sul situada. Os livros arrumados. A escolha musical parece
despropositada. Como a tatuagem que espreita pela gola de lã grossa.
Perguntou-lhe quem tem coragem. É uma gaiola civilizada. Resposta esta, tão
inusitada. Com licença, que não percebemos a palavra dita. Não se cansou e o
significado explicou. Uma gaiola larga, de fio fino, sem porta ou cancela, por
nada nem ninguém caber nela. Regista-se, assim, a informação mais simples.
Sejam bem-vindos, fiquem à vontade. Não se sugestionem por capas ou títulos.
Escolham autores e temas da vossa verdade ou da mentira que querem conhecer. Eu
sou a Alice. Desenhei a gaiola e ofereci-lhe a liberdade. Sugiro uma volta à
sala. Hoje é um excelente dia para guardar um bom livro. Para escolhe-lo e
debaixo do braço levar. Com conteúdo superior ao velho jornal que serve para o
peixe fresco embrulhar.
9.12.14
A berma de um Portugal igual.
Na
generalidade, que é por onde tudo vem, até ao ponto da individualidade. Há
pudor, como quando subimos a rua e desviamos o olhar. É uma incerteza no
contexto da mistura de vontades. Do receio de enfrentar verdades. Há pudor em
cada esquina. Como quando descemos a rua e preferimos passar sem ver. Falávamos
de sexo. Há pudor e uma sentença de geração. Às vezes é preferível assim. Como
se escolher desculpar-se com palavras que embrulham velhas convicções, fosse a
concretização. Quem cala suporta a inexistência. Não voltamos ao tema em cada
conversa. É a proporção da necessidade. Alheia ou da interna trincheira. Mas
elas assumem posição. Diz-se, ouve-se por aí, são elas as mais autênticas no
discurso. Mais próximas da realidade. Eles enganam conforme a falta do que é
imprescindível. Nisto, falar de sexo é a berma deste país. Aponta-se o dedo,
passa-se sem olhar. No fim, todos, sem excepção, são aliciados. Da berma, riem-se
para quem passa. Piscam o olho e ajeitam o decote generoso. Até lá voltar e
gastar o que sobrou. Há sempre quem negue a verdade num tom majestoso, típico
de quem não gostou.
2.12.14
Vistoso latejar.
Querer
saber do raspão que é a história de um país, o percurso de um nome, a
criatividade de um cartaz a preto e branco, tão bonito como se tivesse roubado
um filtro da rede social, e que permanece, tão misterioso como sensacional.
Tudo isto é querer saber de nós. Vale, por demais, a vida e os dias, se nos
valermos do amor alheio e das horas vazias. Fazer beicinho, escutar fado,
escolher azulejos e admirá-los em cada esquina, as alcofas que são as sacolas da
ida ao mercado. As hortas que crescem com tempo. Velozes os testemunhos de quem
abre a porta, escancarada, para contar vivências e desmedidas convivências.
Avisam-nos os velhos, avisam-se os novos. Supostos ensinamentos. Adquirem a
informação tão lentos. Cozem-se e assam-se as batatas-doces. Os verdes vão ao
lume leve. A cortiça heroína de voltas ao redor do mundo. O mar que não tem
defeito e oferece a água e o conduto. Agreste esquecimento devoluto. Tudo isto
é sinceridade. Tudo isto é conversa de quem passeia o corpo pela cidade.
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