Lembraram-me
dos estendais. Tamanho esquecimento o meu. Típico da cidade que se lança, em
rigor da necessidade, pela fachada que deixa aventar. A rua não é larga no
desfavor do passadiço. Em não tardando, desagua num largo com nome de figura
importante. De voz buliçosa, com a traquinice na postura que segura, dizia em
tom alto, sem opróbrio, assim se desfez em bons dias: notícias fresquinhas. Ouvi há instantes na rua de um outono que
espiga à medida da desordem de um desaguisado entre o ser e o parecer das
estações do ano. Também elas se franzem, marcando espaço, nesta luta de homens
e de travessos meninos. Julgava eu, era mote de conversa, por demais, em
desuso. Tomei de ouvido, e desta vez lhe tirei as teimas. Os quiosques de rua,
tão frequentados como a jovialidade que ainda guarda o carácter alegre e a
disposição para parar, ouvir o vizinho e ler as gordas. Porque lhe faltou a
vista, ressalva. Depois da notícia, logo a conversa se traja a rigor. Pôr no
corpo de cada palavra a discussão. É sangue a preto e branco o que salta das
gordas de uma capa que promete guardar, adiante, o melhor do pior.
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30.10.14
28.10.14
Em diferido. #21
Fado
em cada linha - Confunde-se a iliteracia contextual com a procura, sem fim, de
um carimbo de qualidade e de certificação de um povo. É um fado que desvenda a
sonoridade dos arrepios da inevitável e inconsequente evolução de um ramo que
não larga o tronco enraizado numa cultura que respeita e canta desentoada temas
mais ou menos característicos e assertivos de ouvido, do tão afamado fado.
Permitir que a canção nacional toque no nosso leitor, sem que lhe apontemos
graves dissonâncias. Sem que, pelos primeiros acordes da guitarra tão
portuguesa, nos desmotivemos. É moda, contrariar essa corrente, ouvi e li
algures. Em tantos textos de opinião e em infindáveis entrevistas de nicho. Nas
outras conversas, também. Conversas de rua, de café, de amigos e de entretidos
conhecidos. Ainda, nas conversas descomprometidas em televisão, tão válidas
pelo entretenimento a que se propõem e que o espectador não nega. Antes desta
vaga, houve dedicação, amor e paixão. Formigas na voz, no peito e no corpo que
desgrenhava veias como se fossem cabelos soltos. Foi a verdade que ajudou a
cimentar uma canção com poemas de palavras vivaças e abatidas. As últimas, bem
mais conhecidas e usadas. Ouvir a versão de Ana Moura do tema “A Case of You”, onde a artista não foge,
mas experimenta, enquanto alguém esconde o rosto e parte de um corpo desnudado num
lençol branco, é sensualidade nacional. A excepção não remata o todo. Depois,
seguem-se as restantes faixas de “Desfado”. É um deleite para a irrequieta
reformulação da arte. Voluptuoso fado. Canção nacional.
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23.10.14
Nomes ao vento.
A
vida, se não induzida pelo espicaçar de gostar de observar, não foge da rotina.
De fotografar o ambiente que tem raça. A fotografia que não vai de encontro com
a comodidade de viver naquele número, naquela porta e rua concretas. Desviar um
segundo da monotonia, conhecer o passeio de outras bandas. As costas quase nuas
daquele corpo sobem e descem a rua com o prazer de quem escolheu na noite
anterior. A farpela, o trajecto repetido, a ausência de vergonha, a vontade de ser
e permanecer como é. Não é rapariga de evitar, temendo que nunca resulte. Que
fuja do certo. Faz a cara da moda, mudou as pontas do cabelo longo. É discreta
na conversa. Não quer saber de vós. De nós, se mesmo visita, me juntar ao
camarote. Não chama a atenção para o relato da vida que nunca será igual, como
o trajecto que volta e repete. Do chão nasce o seu estilo que tem ginga. As
costas um tanto despidas daquele corpo descem e sobem a rua. Parece-me, do que
nos deixa ver, com a verdade e consolo de quem jamais se importa com os ruídos
das muitas vozes que se juntam à esquina. É, também disto, que se fazem os
lugares típicos. Tão castiços. O bairro ali tão perto. Não lhe conheço o nome. Todavia,
quem me acompanhava chamou-lhe Carmo.
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8.10.14
Lá diz o rifão.
Brincam,
vaidosos. Vil comando que não conduz a sabedoria de gerir um número de plurais
pessoas. É um jogo pernicioso. Tão torpe que não há justificação que combata um
discurso ardiloso. No mesmo toque, negligente o suficiente para moldar e ferir
vidas que não têm voto, senão na hora das massas se sentirem na obrigação de
lhes fugir, o mais rápido que lhes saia do pêlo. Disso, ensaio e experiência,
sobra-lhes. Um país que deixou de ser um convicto e sensato gestor, para tomar
as rédeas de um irrisório perfil. Por estes dias, velhacos, voltam a dar e a
tirar. A moda de que quem faz por bem, semeia o bem, é de sobremaneira ultrapassada
nestas mesmas vozes. Velhacos. Não sou professor, mas conheço a dança de quem segue
um sonho. Hoje decide-se. Amanhã regride-se. Entre o ontem e o hoje, mudam-se
vidas, moradas, relações. Mantêm-se, porventura, as convicções. É a sorte deste
trapaceiro modelo, que vive e sobrevive à conta de um povo melindrado e, ainda
assim, convicto das suas ambições e obrigações. Não fosse a realidade dos factos
anteriores, restar-nos-ia o conforto de um ditado, quem dá e tira vai para o
inferno.
6.10.14
Conversa com sono.
Escrevo
sem conhecimento efectivo, embora, conheça um ou outro que vive de fazer rir.
Sem a causa que me permite debitar palavras mil sobre a capacidade de supor
conhecimento. É um caminho bravio, porventura, um misto de velocidade
incoerente. Ouvi, depois de um espectáculo, há uns tempos, um homem falar dos
operários do riso. Não me lembro das palavras ditas, senão da ideia que delas
me ficou. Uso, portanto, daqui em diante, as minhas palavras para encarrilar a
deturpada definição. A comédia tem contornos de quem faz beicinho. É um pedaço
de mau caminho. Perde-se nela e com ela, com tamanha facilidade, a cabeça. É
como uma dor que obriga a fazer o tal beicinho. Dizia o mesmo homem, que
comediante não é actor, tampouco, um actor seguro. Não rouba outra luz, apenas
o riso à vela. E, permiti-me pensar, o tempo repete-se. E discordar, o
fatalismo e cegueira de flexibilidade não gostam de plurais valências. Como um
qualquer adágio que dura e perdura num infinito que nunca chega ao fim.
1.10.14
Em diferido. #19
Canta-me
um modinha - Destemido, português e de língua afiada, detentor de estórias sem
fim. Na voz que não descola da língua mãe, soa um discurso que nunca termina e
é tão buliçoso. É uma ocupação que preenche a distracção de perder o tempo.
Repito-me e é certo, tão leal à minha verdade. Nunca, em tempo algum, me canso
de ouvir outros tempos. A minha curiosidade, rasgada e atiçada pela
impossibilidade de ter vivido, pede-me atenção. E dou-lha, de boa vontade.
Ceder à tentação de ganhar tempo, num ainda sossegado lugar, onde a paciência
só discute com a quietação, é um privilégio. Tal como, partilhar a mesa com um
casal septuagenário, de cantigas na voz, letras na cabeça, sabidas de cor e
salteado, humor apurado e sensibilidade de quem conhece a sua terra. Depois
sabem o que passa na televisão, mas não conhecem, fazem a ressalva. Esse
aparelho que, um pouco de vezes, lhes tira a capacidade de tolerar. Porventura,
agora recuando, é a única que se atreve a entrar na luta entre a paciência e a
quietação. E continuam a contar e a dizer de memórias. Os nomes das gentes de
então, tão limpidamente lembrados como a refeição do dia anterior.
Perguntei-lhes das canções. Ele, afoito, cantava com calor no peito. Ela,
tímida, foi cantarolando de mão dada com a vergonha. Corpo pequeno, genica nas
carnes. Numa pausa, voltaram à conversa. E responderam-me, primeiro que não
tinham sequer um rádio, depois, que fora entre a feira da aldeia onde, tão
aprumados, iam conviver. Era lá que, entre namoricos, ouviam as músicas da
época. Ela, levando a mão à testa, perguntou-se como nunca se havia esquecido
de tanta letra junta. Ele, lançou um novo trecho. Mais tarde, uma vizinha de
então, teve uma grafonola. Ela perguntou-me se sabia o que era. Sim, sorri-lhe.
Ele voltou às cantigas e ela de mão leve, pediu-lhe que parasse. Já chegava de
festival. E remato lembrando-me que, o único rádio que teve naquele tempo, por
receios tão característicos daquela época, devolveu. Casal cantadeiro mais
cheio de torneados encantos. E riram-se, felizes por partilhar.
24.9.14
O verde do campo.
Barafustando
com o campo. No fel do que guarda. Só se permite visitar o que sempre lhe foi
proposto quando, em trabalho, o verde do campo deixa de ser recordações e
verdades. Quando o campo não é sinónimo de distância e pobres de espírito. Quando,
o verde e o fiel retrato do campo passam a ser o cenário perfeito para a
fotografia. Metáforas. Aprecio-as.
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22.9.14
Gosto delicado de deixar nu.
Recebi
na minha caixa de e-mail um anúncio. Nele, um conjunto de imagens, que lado a
lado com outras, estão numa exposição. Lembrava-me, o mesmo amigo, no mesmo
e-mail, que as fotografias, de um fotografo recente, aconteciam numa cidade,
que não sendo capital, é movimento de cultura. Não falo, portanto, de Portugal.
Fatalmente, o nosso país prefere esconder a necessidade de viver e conhecer. Não
conhecia o recente fotografo, nem de nome. Fui procurar saber. Afinal, o
artista apelidado de recente, conta com um vasto número de exposições e imagens
premiadas. Desta feita, volto a ter a certeza de que as legendas cansam.
Valorizam-se ou perdem-se sem grandes questões. As imagens, voltou a
escrever-me o mesmo amigo, eram o espelho de cada corpo nelas representado.
Tive de concordar. E, nisto, lembrei-me de uma mulher que conheci há muitos
anos atrás. Uma professora de português que desenhava. Era desgovernada e sem
feitio para o espartilho de uma educação com cintos. Não será necessário
escrever que não tinha particular popularidade entre os da mesma classe. Mas
insisto. Soube mais tarde, desenhava corpos. Nus e, preferencialmente, corpos
nus de mulheres. No desatino do destino, conheci-lhe algumas obras, anos mais
tarde. E percebi. O gosto pelo desenho. A primazia pelo nu. A simpatia pelo nu feminino.
Ainda, o afastamento que ela cultivava de uma certa vaidade colectiva que
tomava o ambiente por onde, inevitavelmente, tinha de se movimentar. E nas
legendas, que dotada de palavra, simplificava o todo. É ver para acreditar.
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16.9.14
Toda a esfera nacional.
O
tempo tem espaço, corpo e difere do dia para a noite. É uma maré cheia na Praia
da Rocha, um pôr-do-sol na Manta Rota, um vendaval da Costa Norte de um outro
Portugal, a fama da Meia Praia. O tempo é das pessoas. Mesmo que nos centremos
nos minutos que escapam. Seja das Amoreiras ao Chiado. De Alfama à Graça. O
Cais do Sodré é a roupa de quem no defeito do tempo, procura as escadinhas de
espuma de uma Lisboa que pode ser o leme. E é tão castiço. Da mesma que veste, liberta
e valente, de adornos vários e dourado. O pensamento vive profundamente ligado
ao tempo a passar. Como lembrar que somos do tempo em que o comércio era,
inevitavelmente, rua. Depois, o tempo lembra que viver é coordenar vontades.
Como o Bairro Alto desenhado de gente, de lotaria em cada passo. Voltas e mais
voltas. Sabes que sentir é ter tempo. Mesmo que supere uma imponente fachada da
mais falada estação.
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9.9.14
Com toda a essência.
Em
teus braços, a convicção ganha bravura e sensatez. Aquela necessidade
semelhante à vontade de roer a angústia sob pena desta se tornar o todo. É uma
desordem das convicções. É um absurdo de quem pensa com os centímetros do
passeio lá da rua. Da rua de onde não saem, fugindo à imperiosa e real reunião
de quem se volta para a ausência de compromisso com a fatal igualdade do
figurino. Extenso, externo. Intenso, interno. Estreia o fim. Ou com o final
escancarado. Portugal tem outras opções. Tão triviais como o nome e sobrenome
não darem as mãos à irremediável elite de danças típicas de um fim de noite em
que as discussões tomam-lhes as sinapses. Portugal também vive o privilégio de
esperar encontrar de todo o gosto. De tudo em convivência. Do figurino à
desenvoltura de ideias e à criatividade no discurso. O fim-de-semana ligou a
cidade.
4.9.14
Estado do espírito.
Numa
zona de tempos remexidos, pano de fundo de uma cidade que perdeu figuras, conta
a história. Lembramos desgoverno de gente, assim se fez a tentação de marcar.
Atirar. Hoje, tem outro convite. Por estes dias, volta a ser tela. De movimento
exposto nas paredes. De pessoas que regressam ao encontro de ver passar. As
idades não têm exclusividade. Os lugares não têm obrigação de coerência. Guardam,
se quisermos, a memória da ocorrência. As cabeças seguem as imagens. Começa o
espectáculo com data marcada. Dinamizam-se as noites. No entretanto, faz-se
silêncio. A rua é palco. Mesmo que a tela não seja a arquitectura datada. Ainda
que, mesmo por ela passando, não se lhe perceba a desenvoltura e dedicação. Se
possível, é voltar atrás e ver de novo.
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21.8.14
A aldeia veste-se de festivo fato.
Há
festa na aldeia. É filme e de inspiração certeira. Fora da grande tela, é
aldeia de um Portugal que se escuta no fado, que se lê nas demoradas palavras
de Eça de Queiroz e nas linhas estreitas e desformes de Fernando Pessoa. Relíquia
de um jogo de palavreado. Que se mostra esquecido, assim de quando em vez.
Tinha graça na moça. A que leva saia rodada à festa. Dela ouvir-se um bizarro
discurso cantarolado, ouvindo, ao fundo, uma guitarra. Há festa. Na aldeia que
vive no verão, apaga no sossego das restantes estações. É dormitório. Voltamos
à festa. Palco ao centro. Artes e sabores são o mote. Soa, desde cedo, o
popular dos tocadores. Uma voz arranhada e esforçada mede-se com o acordeão que
carrega nos braços. É cor espalhada nos enfeites que fazem tecto. Ainda há
rigor na farpela dos que lhe pertencem, à aldeia e à romaria. Ainda há novos e
velhos. Grupos que naufragam por águas diferentes. Mas partilham o murmúrio dos
dias. É regresso. Um ano de ausência, numa festa, a presença. É a lei do
distante. Do ausente.
19.8.14
Algarve, posto de obrigação.
Fazer
fotografia, ou fotografias, como se alguém as fizesse, é um puro deleite.
Talvez, sem que perceba, me roube as palavras, as definições. As esconda antes
de colocar rigor na conclusão do que é fotografar. Repetir-me, nessa e noutras
questões. Samba na reprodução do repetido. As regras de um léxico que desvenda
coisas. Também pessoas, lugares. Um léxico que treme como a lente. Que foca ou
desfoca conforme o suporte e ligeireza de um corpo e mente sãos. Teimas, fazes
escolhas. Procuras o enquadramento. Fixas pessoas, estratégias de um gosto tão
pessoal. Como o negro e o branco. Outras, ganham na forte e infindável raça da
cor. Agora, carregas no botão. E tens uma imagem. Num cinzento que tem brilho
nos pontos certos. Um verão, num Algarve de requinte. Onde, à beira de uma
piscina ou numa praia de água gelada, duas pessoas se sentam. Ela tem uma coroa
de flores na cabeça, depois os cabelos caídos e secos do sol. Ele olha-lhe com
o mesmo entusiasmo. Há tanto movimento ao redor, que parece mentira. Fazer
fotografias ou o plural, é guardar e isolar. Guardar e resguardar. Precisamente
para abrigar estes e outros momentos de futuros danos.
18.8.14
Ensaio sobre a noção de lugar.
Começo,
por vez, por guardar a merecida ressalva. Não gosto de generalizações e, em
tempos, disse-lhe, tão petiz – não importa mesmo a quem – em resposta àquela
voz arrepiada, que são perigosas. As generalizações, tão vizinhas da
vulgarização. Porventura, tê-lo-ei ouvido ou lido num dos sem número livros que
guardámos lá em casa. Há desassossego por cada canto. Há pressa de quem não
espera em cada divisão, em cada estrada e em cada localidade. Há sol a brincar,
ninguém quer desperdiçar. A elegância foge dos pés. O requinte perde-se na
formulação conseguida naquele minuto, no exacto e impertinente segundo em que a
voz ganha fervor, desajuste que não combina com a simplicidade de viver o
descanso. A tendência de olhar para o calçado de alguém num rasgado primeiro
momento é um impulso como outro. Por esta altura, talvez se faça como resposta
uma valente e impetuosa alegoria. Levantam-se falsos testemunhos. Por tudo, por
nada. Mesmo que se comece por baixo. Sem a aflição de chegar ao topo. Mesmo que
não passe de uma fingida jornada.
6.8.14
A minha pátria num muro exterior.
Escrevi
na imagem acima, a frase de um povo. Conhecida como quem não se cansa. Sabida
na ponta da língua por quem não se recusa a ler e a entender. Nas entrelinhas.
Nas linhas corridas, de pontuação a decorar. Num torneio arredondado de
pensamentos entrelaçados com emoções e valentes composições. De ideias, entenda-se.
Lamento-me sempre. A minha desajustada coerência e, se quisermos, o meu equilíbrio
bambo. No epicentro da decisão, escolho não carregar uma máquina. Tão especial
objecto. Uma oportunidade brava. O telemóvel não me serve, quando ganho outras
ideias. Mas, neste verão à pressão, estava feita em grafítis, a expressão. A rua movimentada, pareceu-me, não prestou
atenção. Qual carimbo numa parede de branco a desfazer. Letras negras. Fernando
Pessoa, nacionalista de crença contemplativa, ali. Tão cru. Em bruto. A fonte
escolhida para letra. Os tons sem especial atenção. Uma pátria que lhe ganha as
formas. Salve-se a cultura. A língua. Ironia, a verdade desenhada numa parede
portuguesa.
5.8.14
Verão matizado, impetuoso como sereno.
Veranear
algures. Percorrer o encanto nacional, conhecer e fotografar o ambiente de um
exterior tão desejado como a saudável condução de um país. Também o nosso, de
preferência. Guardem-se os costumes, poupem-se as palavras, apavorem-se as pessoas,
ridicularizem-se as acções. De umas e das outras. Toca desafinado o movimento
bolsista de um antro. Um cenário que soa desacorde com uma sucessão de opções
que persistem numa alinhavada separação de classes. Opiniões de outrora,
recentes como o verão delicado, suportavam a solução interna, poupando o
desgaste, mal-grado a dificuldade de encontrar concordância e veracidade na
combinação das ideias expelidas em discurso de horário nobre. É um mistifório
pegado, ausente de senso. Experimentam-se, neste canto de privilégios sem fim,
um pedaço do tanto que é um rolo sem fim de expectativas e necessidades
imediatas de fazer acontecer. Fazem-se ensaios. Depois perguntas. Escutam-se os
mesmos. Discursos e aqueles que os lêem. Enquanto nos assaltam os primitivos
acontecimentos, penso como é sereno olhá-la a passar a mão no cabelo. Há sempre
melhor.
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verão
30.7.14
Canta-me uma modinha.
Destemido,
português e de língua afiada, detentor de estórias sem fim. Na voz que não
descola da língua mãe, soa um discurso que nunca termina e é tão buliçoso. É
uma ocupação que preenche a distracção de perder o tempo. Repito-me e é certo,
tão leal à minha verdade. Nunca, em tempo algum, me canso de ouvir outros
tempos. A minha curiosidade, rasgada e atiçada pela impossibilidade de ter
vivido, pede-me atenção. E dou-lha, de boa vontade. Ceder à tentação de ganhar
tempo, num ainda sossegado lugar, onde a paciência só discute com a quietação,
é um privilégio. Tal como, partilhar a mesa com um casal septuagenário, de
cantigas na voz, letras na cabeça, sabidas de cor e salteado, humor apurado e
sensibilidade de quem conhece a sua terra. Depois sabem o que passa na
televisão, mas não conhecem, fazem a ressalva. Esse aparelho que, um pouco de
vezes, lhes tira a capacidade de tolerar. Porventura, agora recuando, é a única
que se atreve a entrar na luta entre a paciência e a quietação. E continuam a
contar e a dizer de memórias. Os nomes das gentes de então, tão limpidamente
lembrados como a refeição do dia anterior. Perguntei-lhes das canções. Ele,
afoito, cantava com calor no peito. Ela, tímida, foi cantarolando de mão dada
com a vergonha. Corpo pequeno, genica nas carnes. Numa pausa, voltaram à
conversa. E responderam-me, primeiro que não tinham sequer um rádio, depois,
que fora entre a feira da aldeia onde, tão aprumados, iam conviver. Era lá que,
entre namoricos, ouviam as músicas da época. Ela, levando a mão à testa,
perguntou-se como nunca se havia esquecido de tanta letra junta. Ele, lançou um
novo trecho. Mais tarde, uma vizinha de então, teve uma grafonola. Ela
perguntou-me se sabia o que era. Sim, sorri-lhe. Ele voltou às cantigas e ela
de mão leve, pediu-lhe que parasse. Já chegava de festival. E remato
lembrando-me que, o único rádio que teve naquele tempo, por receios tão
característicos daquela época, devolveu. Casal cantadeiro mais cheio de
torneados encantos. E riram-se, felizes por partilhar.
28.7.14
Fado em cada linha.
Confunde-se
a iliteracia contextual com a procura, sem fim, de um carimbo de qualidade e de
certificação de um povo. É um fado que desvenda a sonoridade dos arrepios da
inevitável e inconsequente evolução de um ramo que não larga o tronco enraizado
numa cultura que respeita e canta desentoada temas mais ou menos
característicos e assertivos de ouvido, do tão afamado fado. Permitir que a
canção nacional toque no nosso leitor, sem que lhe apontemos graves dissonâncias.
Sem que, pelos primeiros acordes da guitarra tão portuguesa, nos desmotivemos.
É moda, contrariar essa corrente, ouvi e li algures. Em tantos textos de
opinião e em infindáveis entrevistas de nicho. Nas outras conversas, também.
Conversas de rua, de café, de amigos e de entretidos conhecidos. Ainda, nas
conversas descomprometidas em televisão, tão válidas pelo entretenimento a que
se propõem e que o espectador não nega. Antes desta vaga, houve dedicação, amor
e paixão. Formigas na voz, no peito e no corpo que desgrenhava veias como se
fossem cabelos soltos. Foi a verdade que ajudou a cimentar uma canção com
poemas de palavras vivaças e abatidas. As últimas, bem mais conhecidas e
usadas. Ouvir a versão de Ana Moura do tema “A Case of You”, onde a artista não foge, mas experimenta, enquanto
alguém esconde o rosto e parte de um corpo desnudado num lençol branco, é
sensualidade nacional. A excepção não remata o todo. Depois, seguem-se as
restantes faixas de “Desfado”. É um deleite para a irrequieta reformulação da
arte. Voluptuoso fado. Canção nacional.
24.7.14
No resto do mundo.
Aterrar
em Portugal tem outro sabor. Gabam-lhe, um sem número de vezes, a luz. E têm
razão. Outras vezes não esquecem a simpatia de quem os recebeu. A qualidade do
que é tão típico também merece elogio. Quando pisar terras lusas é regressar a
casa, dizem que não se explica. Tanto mais quando se vivem vidas fora deste
país. Quando se adoptam lugares e características, quando se permitem deixar adoptar
por gentes da terra e por definições de vida mais aprazíveis. Sabíamo-lo de
regresso, por uma semana apenas, mas sabíamo-lo por terras lusas, num regresso
de desejo e saudade. De cessar as saudades. De matá-las por força dos afectos e
vozes que o recebem. Sempre. A distância não é a maior. É longe da cultura, da
língua e das gentes. Da localidade e da hospitalidade que o formaram. É o
vestígio de um grau ou degrau que dá permissão para descobrir o mundo. O resto.
15.7.14
Em diferido. #13
A
ver a banda passar - As cidades grandes, de resto, como as pequenas, noutra
proporção, são um espelho da sensatez ou do desaire do seu povo. Aquele pedinte
apoderou-se da esplanada quase despida de gente. Debaixo daquele sol forte de
verão a antecipar datas, sem chapéu que lhe valesse. Nem por isso, despido de
roupas. O corpo que carrega pelas ruas, tantas vezes de mão estendida, é o seu hall de entrada, é a sua sala de estar,
a cozinha e o quarto. É a cadeira de cada divisão e a cama em que faz de conta
que dorme. É, também, a sua varanda e o seu jardim. Não deixa de ser o
roupeiro, a porta e as janelas. Por tudo isto, guarda em casa, na que é
possível chamar de sua casa, a roupa que lhe resta. Sob aquelas temperaturas e
a torreira do sol, vestia calças grossas, botas invernosas, casaco de ganga,
camisa de tecido felpudo, ainda um lenço caído. De mão dada com o preconceito e
a insensibilidade, fingiram convidá-lo a sair. Anuiu, cabisbaixo. Mas, como nem
toda a gente se limita a ver passar a banda, alguém que nos acompanhava,
perguntou-lhe se precisava de alguma coisa. Tenho bons amigos, felizmente. O
jovem pedinte disse que não. Ela insistiu. Fome. Só queria comida. Faltava-lhe
comida naquele corpo. Naquela casa. Longe da mediocridade, ofereceu-lhe comida
e bebida. O rapaz estava perplexo, no rosto questionava a amabilidade. Porquê,
havia de se perguntar lá dentro. Agradeceu sempre. Mais e mais. Seguimos
caminho. Ainda voltamos, para a nossa amiga lhe dar uma última coisa. Já não o
vimos. Fechou-se em casa. Na sua casa, e seguiu caminho.
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