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27.4.15

Português revolto.

Sexta-feira, vinte e quatro de Abril, tarde coberta, céu acinzentado, nuvens zangadas. Ouvem-se gritos e passos desassossegados, fazendo imaginar um grupo largo de crianças. Abordam os transeuntes, dão-lhes algo. Entram em espaços de negócio e voltam para a rua de mãos vazias. Chegam perto de nós e percebemos, estão a distribuir a simplicidade e a liberdade em pequenos papéis. Cada um, uma frase, um destino sem volta. Verdades sem contra-argumentação. No que me ofereceram, podia ler-se: “A liberdade tem de ser respeitada”. Noutros, a alusão ao actual quotidiano das massas. Ainda divertidos cravos feitos à mão. Justiça, era a palavra escolhida. Não sei, mas pelos relatos que vou ouvindo, pelo que vou lendo e, acima de tudo, pelo que vou procurando saber, a noite que antecede o dia lembrado é, sem pensar, esquecida. A emoção, a comoção, a vontade da revolução vividas na pele. Tudo deve ter ultrapassado os poemas que têm paciência ou os que matam em cada verso. Zeca Afonso cantou a intervenção política. Por mais anos que passem, o vinte e cinco de Abril será, vezes sem conta, o maior e melhor pretexto para lembrar a flor da revolução, encher as ruas e as avenidas com vontade de comemorar o que passou, mas com mais e ferozes ganas de limar o presente e ultrapassar o desgoverno, com a necessidade de alicerçar um futuro próspero, condizente com a estrutura ambiciosa e criativa de mil novecentos e setenta e quatro. Nunca esquecer a educação, a formação. Volvidos estes quarenta e um anos, é impossível não rever a democracia e não pensar no quão embrionária é no nosso país. Sossegada, por força dos inexperientes que brincam ao faz de conta. Talvez não seja como nós queremos. Mas desligar e deixar andar, não é a razão dos sentidos.

8.4.15

Em diferido. #31

A Alice da gaiola na garganta - Despertar com os pingos da chuva. A calçada portuguesa não conhece comédia ou drama. É tapete de passagem, segundo a segundo. Ainda se vestem as ruas de lojas bonitas, de negócios pujantes. De gente nova, com o empreendedorismo efectivo, as ganas nos actos. A determinação a fluir-lhes na mão, as ideias a fugir-lhes pela boca. A confiança nas pessoas. De norte a sul. Os insulares também. É o português preferido e perfeito. Menina bonita, de trejeitos desenvoltos, aperfeiçoando e enaltecendo a montra da livraria. Um cartaz ao centro chamava a atenção. Certamente, não tanto como a prodigiosa rapariga. Tchaikovsky soa. Talvez, naquele fugaz instante, seja a variação e a melhor comparação. É uma travessa sossegada. A sul situada. Os livros arrumados. A escolha musical parece despropositada. Como a tatuagem que espreita pela gola de lã grossa. Perguntou-lhe quem tem coragem. É uma gaiola civilizada. Resposta esta, tão inusitada. Com licença, que não percebemos a palavra dita. Não se cansou e o significado explicou. Uma gaiola larga, de fio fino, sem porta ou cancela, por nada nem ninguém caber nela. Regista-se, assim, a informação mais simples. Sejam bem-vindos, fiquem à vontade. Não se sugestionem por capas ou títulos. Escolham autores e temas da vossa verdade ou da mentira que querem conhecer. Eu sou a Alice. Desenhei a gaiola e ofereci-lhe a liberdade. Sugiro uma volta à sala. Hoje é um excelente dia para guardar um bom livro. Para escolhe-lo e debaixo do braço levar. Com conteúdo superior ao velho jornal que serve para o peixe fresco embrulhar.

5.3.15

Em diferido. #29

Vistoso latejar - Querer saber do raspão que é a história de um país, o percurso de um nome, a criatividade de um cartaz a preto e branco, tão bonito como se tivesse roubado um filtro da rede social, e que permanece, tão misterioso como sensacional. Tudo isto é querer saber de nós. Vale, por demais, a vida e os dias, se nos valermos do amor alheio e das horas vazias. Fazer beicinho, escutar fado, escolher azulejos e admirá-los em cada esquina, as alcofas que são as sacolas da ida ao mercado. As hortas que crescem com tempo. Velozes os testemunhos de quem abre a porta, escancarada, para contar vivências e desmedidas convivências. Avisam-nos os velhos, avisam-se os novos. Supostos ensinamentos. Adquirem, tão lentos, a informação. Cozem-se e assam-se as batatas-doces. Os verdes vão ao lume leve. A cortiça heroína de voltas ao redor do mundo. O mar que não tem defeito e oferece a água e o conduto. Agreste esquecimento devoluto. Tudo isto é sinceridade. Tudo isto é conversa de quem passeia o corpo pela cidade.

4.2.15

Em diferido. #27

A berma de um Portugal igual - Na generalidade, que é por onde tudo vem, até ao ponto da individualidade. Há pudor, como quando subimos a rua e desviamos o olhar. É uma incerteza no contexto da mistura de vontades. Do receio de enfrentar verdades. Há pudor em cada esquina. Como quando descemos a rua e preferimos passar sem ver. Falávamos de sexo. Há pudor e uma sentença de geração. Às vezes é preferível assim. Como se escolher desculpar-se com palavras que embrulham velhas convicções, fosse a concretização. Quem cala suporta a inexistência. Não voltamos ao tema em cada conversa. É a proporção da necessidade. Alheia ou da interna trincheira. Mas elas assumem posição. Diz-se, ouve-se por aí, são elas as mais autênticas no discurso. Mais próximas da realidade. Eles enganam conforme a falta do que é imprescindível. Nisto, falar de sexo é a berma deste país. Aponta-se o dedo, passa-se sem olhar. No fim, todos, sem excepção, são aliciados. Da berma, riem-se para quem passa. Piscam o olho e ajeitam o decote generoso. Até lá voltar e gastar o que sobrou. Há sempre quem negue a verdade num tom majestoso, típico de quem não gostou.

15.1.15

A Alice da gaiola na garganta.

Despertar com os pingos da chuva. A calçada portuguesa não conhece comédia ou drama. É tapete de passagem, segundo a segundo. Ainda se vestem as ruas de lojas bonitas, de negócios pujantes. De gente nova, com o empreendedorismo efectivo, as ganas nos actos. A determinação a fluir-lhes na mão, as ideias a fugir-lhes pela boca. A confiança nas pessoas. De norte a sul. Os insulares também. É o português preferido e perfeito. Menina bonita, de trejeitos desenvoltos, aperfeiçoando e enaltecendo a montra da livraria. Um cartaz ao centro chamava a atenção. Certamente, não tanto como a prodigiosa rapariga. Tchaikovsky soa. Talvez, naquele fugaz instante, seja a variação e a melhor comparação. É uma travessa sossegada. A sul situada. Os livros arrumados. A escolha musical parece despropositada. Como a tatuagem que espreita pela gola de lã grossa. Perguntou-lhe quem tem coragem. É uma gaiola civilizada. Resposta esta, tão inusitada. Com licença, que não percebemos a palavra dita. Não se cansou e o significado explicou. Uma gaiola larga, de fio fino, sem porta ou cancela, por nada nem ninguém caber nela. Regista-se, assim, a informação mais simples. Sejam bem-vindos, fiquem à vontade. Não se sugestionem por capas ou títulos. Escolham autores e temas da vossa verdade ou da mentira que querem conhecer. Eu sou a Alice. Desenhei a gaiola e ofereci-lhe a liberdade. Sugiro uma volta à sala. Hoje é um excelente dia para guardar um bom livro. Para escolhe-lo e debaixo do braço levar. Com conteúdo superior ao velho jornal que serve para o peixe fresco embrulhar.

9.12.14

A berma de um Portugal igual.

Na generalidade, que é por onde tudo vem, até ao ponto da individualidade. Há pudor, como quando subimos a rua e desviamos o olhar. É uma incerteza no contexto da mistura de vontades. Do receio de enfrentar verdades. Há pudor em cada esquina. Como quando descemos a rua e preferimos passar sem ver. Falávamos de sexo. Há pudor e uma sentença de geração. Às vezes é preferível assim. Como se escolher desculpar-se com palavras que embrulham velhas convicções, fosse a concretização. Quem cala suporta a inexistência. Não voltamos ao tema em cada conversa. É a proporção da necessidade. Alheia ou da interna trincheira. Mas elas assumem posição. Diz-se, ouve-se por aí, são elas as mais autênticas no discurso. Mais próximas da realidade. Eles enganam conforme a falta do que é imprescindível. Nisto, falar de sexo é a berma deste país. Aponta-se o dedo, passa-se sem olhar. No fim, todos, sem excepção, são aliciados. Da berma, riem-se para quem passa. Piscam o olho e ajeitam o decote generoso. Até lá voltar e gastar o que sobrou. Há sempre quem negue a verdade num tom majestoso, típico de quem não gostou.

2.12.14

Vistoso latejar.

Querer saber do raspão que é a história de um país, o percurso de um nome, a criatividade de um cartaz a preto e branco, tão bonito como se tivesse roubado um filtro da rede social, e que permanece, tão misterioso como sensacional. Tudo isto é querer saber de nós. Vale, por demais, a vida e os dias, se nos valermos do amor alheio e das horas vazias. Fazer beicinho, escutar fado, escolher azulejos e admirá-los em cada esquina, as alcofas que são as sacolas da ida ao mercado. As hortas que crescem com tempo. Velozes os testemunhos de quem abre a porta, escancarada, para contar vivências e desmedidas convivências. Avisam-nos os velhos, avisam-se os novos. Supostos ensinamentos. Adquirem a informação tão lentos. Cozem-se e assam-se as batatas-doces. Os verdes vão ao lume leve. A cortiça heroína de voltas ao redor do mundo. O mar que não tem defeito e oferece a água e o conduto. Agreste esquecimento devoluto. Tudo isto é sinceridade. Tudo isto é conversa de quem passeia o corpo pela cidade.

29.10.14

Supõe-se real.

A ditadura dos mitos que roubam margem à realidade e das verdades em gomos impõe-se. É a actualidade a pedir atenção. Importa prestar-lhe ouvidos. Ser-se, por instantes, todo ouvidos. É o ADN da insolvência que não suporta, de todo, a procura de informação. Dissolve-se, certamente, na máxima provocação de ter chegado ao patamar que brilha e condiz com a perfeição. Arrisca-se chegar ao absurdo de arremessar, em praça pública, o desleixo que é fugir da corrente. Desse trilho tão estreito e longe de concretas e absolutas verdades. Os fundamentalismos deram as mãos à sobranceria que menospreza. De sobremaneira, falta-nos, à sociedade do minuto e à mesma sociedade do número um, pisar a realidade e nela permanecer. A individualidade esgotou-se algures. Alhear-se é mais fácil do que discutir e entender. Fazer evoluir, acontecer. Por ora, comem-se os mitos e arredam-se os gomos. Não é, se ficarmos pela generalidade, permitido experimentar novas condições. Ou velhas questões.

28.10.14

Em diferido. #21

Fado em cada linha - Confunde-se a iliteracia contextual com a procura, sem fim, de um carimbo de qualidade e de certificação de um povo. É um fado que desvenda a sonoridade dos arrepios da inevitável e inconsequente evolução de um ramo que não larga o tronco enraizado numa cultura que respeita e canta desentoada temas mais ou menos característicos e assertivos de ouvido, do tão afamado fado. Permitir que a canção nacional toque no nosso leitor, sem que lhe apontemos graves dissonâncias. Sem que, pelos primeiros acordes da guitarra tão portuguesa, nos desmotivemos. É moda, contrariar essa corrente, ouvi e li algures. Em tantos textos de opinião e em infindáveis entrevistas de nicho. Nas outras conversas, também. Conversas de rua, de café, de amigos e de entretidos conhecidos. Ainda, nas conversas descomprometidas em televisão, tão válidas pelo entretenimento a que se propõem e que o espectador não nega. Antes desta vaga, houve dedicação, amor e paixão. Formigas na voz, no peito e no corpo que desgrenhava veias como se fossem cabelos soltos. Foi a verdade que ajudou a cimentar uma canção com poemas de palavras vivaças e abatidas. As últimas, bem mais conhecidas e usadas. Ouvir a versão de Ana Moura do tema “A Case of You”, onde a artista não foge, mas experimenta, enquanto alguém esconde o rosto e parte de um corpo desnudado num lençol branco, é sensualidade nacional. A excepção não remata o todo. Depois, seguem-se as restantes faixas de “Desfado”. É um deleite para a irrequieta reformulação da arte. Voluptuoso fado. Canção nacional.

2.10.14

Irreflexão sobre a prudência.

Se a memória não me falha, sempre que oiço alguém responder que é ecléctico, seja qual for a faculdade ou preferência a que se refira, que vejo um sorriso esboçado, em alguns casos, uma gargalhada. Talvez, porque as massas abusam de uma certa necessidade de jogar com uma bengala que está sempre presente. O eclectismo, na boca de alguns, não tem génio. Por seu turno, poder-se-á pensar, até aventar, que tem génio que não dorme bem. Um génio ruim que consome a razão a tudo quanto espreite ao seu redor. É uma natureza quase maltratada. Brinca-se com a palavra, porque sobre ela nunca se pensa com a efectiva necessidade que propõe. Encrava uma qualquer necessidade de puxar de um cliché. Tão blasé que perde explicação. É uma sorte reinventada viver na incerteza de que não há certezas, também quando eclécticos, senão dedicar verdade à palavra alheia. É uma saudade de procurar outros vocábulos.

1.10.14

Em diferido. #19

Canta-me um modinha - Destemido, português e de língua afiada, detentor de estórias sem fim. Na voz que não descola da língua mãe, soa um discurso que nunca termina e é tão buliçoso. É uma ocupação que preenche a distracção de perder o tempo. Repito-me e é certo, tão leal à minha verdade. Nunca, em tempo algum, me canso de ouvir outros tempos. A minha curiosidade, rasgada e atiçada pela impossibilidade de ter vivido, pede-me atenção. E dou-lha, de boa vontade. Ceder à tentação de ganhar tempo, num ainda sossegado lugar, onde a paciência só discute com a quietação, é um privilégio. Tal como, partilhar a mesa com um casal septuagenário, de cantigas na voz, letras na cabeça, sabidas de cor e salteado, humor apurado e sensibilidade de quem conhece a sua terra. Depois sabem o que passa na televisão, mas não conhecem, fazem a ressalva. Esse aparelho que, um pouco de vezes, lhes tira a capacidade de tolerar. Porventura, agora recuando, é a única que se atreve a entrar na luta entre a paciência e a quietação. E continuam a contar e a dizer de memórias. Os nomes das gentes de então, tão limpidamente lembrados como a refeição do dia anterior. Perguntei-lhes das canções. Ele, afoito, cantava com calor no peito. Ela, tímida, foi cantarolando de mão dada com a vergonha. Corpo pequeno, genica nas carnes. Numa pausa, voltaram à conversa. E responderam-me, primeiro que não tinham sequer um rádio, depois, que fora entre a feira da aldeia onde, tão aprumados, iam conviver. Era lá que, entre namoricos, ouviam as músicas da época. Ela, levando a mão à testa, perguntou-se como nunca se havia esquecido de tanta letra junta. Ele, lançou um novo trecho. Mais tarde, uma vizinha de então, teve uma grafonola. Ela perguntou-me se sabia o que era. Sim, sorri-lhe. Ele voltou às cantigas e ela de mão leve, pediu-lhe que parasse. Já chegava de festival. E remato lembrando-me que, o único rádio que teve naquele tempo, por receios tão característicos daquela época, devolveu. Casal cantadeiro mais cheio de torneados encantos. E riram-se, felizes por partilhar.

21.8.14

A aldeia veste-se de festivo fato.

Há festa na aldeia. É filme e de inspiração certeira. Fora da grande tela, é aldeia de um Portugal que se escuta no fado, que se lê nas demoradas palavras de Eça de Queiroz e nas linhas estreitas e desformes de Fernando Pessoa. Relíquia de um jogo de palavreado. Que se mostra esquecido, assim de quando em vez. Tinha graça na moça. A que leva saia rodada à festa. Dela ouvir-se um bizarro discurso cantarolado, ouvindo, ao fundo, uma guitarra. Há festa. Na aldeia que vive no verão, apaga no sossego das restantes estações. É dormitório. Voltamos à festa. Palco ao centro. Artes e sabores são o mote. Soa, desde cedo, o popular dos tocadores. Uma voz arranhada e esforçada mede-se com o acordeão que carrega nos braços. É cor espalhada nos enfeites que fazem tecto. Ainda há rigor na farpela dos que lhe pertencem, à aldeia e à romaria. Ainda há novos e velhos. Grupos que naufragam por águas diferentes. Mas partilham o murmúrio dos dias. É regresso. Um ano de ausência, numa festa, a presença. É a lei do distante. Do ausente.

6.8.14

A minha pátria num muro exterior.

 
Escrevi na imagem acima, a frase de um povo. Conhecida como quem não se cansa. Sabida na ponta da língua por quem não se recusa a ler e a entender. Nas entrelinhas. Nas linhas corridas, de pontuação a decorar. Num torneio arredondado de pensamentos entrelaçados com emoções e valentes composições. De ideias, entenda-se. Lamento-me sempre. A minha desajustada coerência e, se quisermos, o meu equilíbrio bambo. No epicentro da decisão, escolho não carregar uma máquina. Tão especial objecto. Uma oportunidade brava. O telemóvel não me serve, quando ganho outras ideias. Mas, neste verão à pressão, estava feita em grafítis, a expressão. A rua movimentada, pareceu-me, não prestou atenção. Qual carimbo numa parede de branco a desfazer. Letras negras. Fernando Pessoa, nacionalista de crença contemplativa, ali. Tão cru. Em bruto. A fonte escolhida para letra. Os tons sem especial atenção. Uma pátria que lhe ganha as formas. Salve-se a cultura. A língua. Ironia, a verdade desenhada numa parede portuguesa.

5.8.14

Verão matizado, impetuoso como sereno.

Veranear algures. Percorrer o encanto nacional, conhecer e fotografar o ambiente de um exterior tão desejado como a saudável condução de um país. Também o nosso, de preferência. Guardem-se os costumes, poupem-se as palavras, apavorem-se as pessoas, ridicularizem-se as acções. De umas e das outras. Toca desafinado o movimento bolsista de um antro. Um cenário que soa desacorde com uma sucessão de opções que persistem numa alinhavada separação de classes. Opiniões de outrora, recentes como o verão delicado, suportavam a solução interna, poupando o desgaste, mal-grado a dificuldade de encontrar concordância e veracidade na combinação das ideias expelidas em discurso de horário nobre. É um mistifório pegado, ausente de senso. Experimentam-se, neste canto de privilégios sem fim, um pedaço do tanto que é um rolo sem fim de expectativas e necessidades imediatas de fazer acontecer. Fazem-se ensaios. Depois perguntas. Escutam-se os mesmos. Discursos e aqueles que os lêem. Enquanto nos assaltam os primitivos acontecimentos, penso como é sereno olhá-la a passar a mão no cabelo. Há sempre melhor.

30.7.14

Canta-me uma modinha.

Destemido, português e de língua afiada, detentor de estórias sem fim. Na voz que não descola da língua mãe, soa um discurso que nunca termina e é tão buliçoso. É uma ocupação que preenche a distracção de perder o tempo. Repito-me e é certo, tão leal à minha verdade. Nunca, em tempo algum, me canso de ouvir outros tempos. A minha curiosidade, rasgada e atiçada pela impossibilidade de ter vivido, pede-me atenção. E dou-lha, de boa vontade. Ceder à tentação de ganhar tempo, num ainda sossegado lugar, onde a paciência só discute com a quietação, é um privilégio. Tal como, partilhar a mesa com um casal septuagenário, de cantigas na voz, letras na cabeça, sabidas de cor e salteado, humor apurado e sensibilidade de quem conhece a sua terra. Depois sabem o que passa na televisão, mas não conhecem, fazem a ressalva. Esse aparelho que, um pouco de vezes, lhes tira a capacidade de tolerar. Porventura, agora recuando, é a única que se atreve a entrar na luta entre a paciência e a quietação. E continuam a contar e a dizer de memórias. Os nomes das gentes de então, tão limpidamente lembrados como a refeição do dia anterior. Perguntei-lhes das canções. Ele, afoito, cantava com calor no peito. Ela, tímida, foi cantarolando de mão dada com a vergonha. Corpo pequeno, genica nas carnes. Numa pausa, voltaram à conversa. E responderam-me, primeiro que não tinham sequer um rádio, depois, que fora entre a feira da aldeia onde, tão aprumados, iam conviver. Era lá que, entre namoricos, ouviam as músicas da época. Ela, levando a mão à testa, perguntou-se como nunca se havia esquecido de tanta letra junta. Ele, lançou um novo trecho. Mais tarde, uma vizinha de então, teve uma grafonola. Ela perguntou-me se sabia o que era. Sim, sorri-lhe. Ele voltou às cantigas e ela de mão leve, pediu-lhe que parasse. Já chegava de festival. E remato lembrando-me que, o único rádio que teve naquele tempo, por receios tão característicos daquela época, devolveu. Casal cantadeiro mais cheio de torneados encantos. E riram-se, felizes por partilhar.

28.7.14

Fado em cada linha.

Confunde-se a iliteracia contextual com a procura, sem fim, de um carimbo de qualidade e de certificação de um povo. É um fado que desvenda a sonoridade dos arrepios da inevitável e inconsequente evolução de um ramo que não larga o tronco enraizado numa cultura que respeita e canta desentoada temas mais ou menos característicos e assertivos de ouvido, do tão afamado fado. Permitir que a canção nacional toque no nosso leitor, sem que lhe apontemos graves dissonâncias. Sem que, pelos primeiros acordes da guitarra tão portuguesa, nos desmotivemos. É moda, contrariar essa corrente, ouvi e li algures. Em tantos textos de opinião e em infindáveis entrevistas de nicho. Nas outras conversas, também. Conversas de rua, de café, de amigos e de entretidos conhecidos. Ainda, nas conversas descomprometidas em televisão, tão válidas pelo entretenimento a que se propõem e que o espectador não nega. Antes desta vaga, houve dedicação, amor e paixão. Formigas na voz, no peito e no corpo que desgrenhava veias como se fossem cabelos soltos. Foi a verdade que ajudou a cimentar uma canção com poemas de palavras vivaças e abatidas. As últimas, bem mais conhecidas e usadas. Ouvir a versão de Ana Moura do tema “A Case of You”, onde a artista não foge, mas experimenta, enquanto alguém esconde o rosto e parte de um corpo desnudado num lençol branco, é sensualidade nacional. A excepção não remata o todo. Depois, seguem-se as restantes faixas de “Desfado”. É um deleite para a irrequieta reformulação da arte. Voluptuoso fado. Canção nacional.

23.6.14

Selecção de um país em competição.

Portugal foi, durante algumas horas, uma bandeira desenhada, a esvoaçar pela força dos braços de alguém. Foi reunião numa praça a céu aberto, num bar de típicos petiscos, na casa do amigo que recebe sempre bem, ainda, na rua que até agora lembra a azáfama dos Santos Populares, que cheira a sardinhas assadas, que tem vendedores ambulantes e que esconde, atrás das janelas e portas tão características, vidas. Porventura, vidas que, durante as mesmas horas, solitárias ou não, viveram a esperança de Portugal, país em competição. Ouvem-se, a arrepio dos ecrãs gigantes, das televisões datadas ou dos ecrãs de nova geração, vozes que não se cansam, gemidos e figuras a reagirem à ginástica do desassossego de um jogo. Abrem excepção no aproximar da baliza. Em que o silêncio quase que toma corpo. Ouve-se, logo depois, um esgar de decepção. No entremeio da dedicação, houve momentos de explosão. Os dois golos da comemoração. Enganou-se a alma até ao instante final. Apitou e sustentou-se um empate. Agora, relaxa-se o corpo. A boca entreaberta fecha-se. A mão que tapa os lábios deixa-se cair. Os braços cruzam-se por não lhes saber posição. Os olhos fecham-se demoradamente. As bandeiras perdem a dança na medida das forças daqueles braços. Respira-se fundo. De corpo pesado, seguem a sua vida. Portugal foi, pelas mãos da competição, união de pessoas e sensações. Guardas, a seguir, a camisola alusiva ou o todo da classe de adereços. Até ao próximo jogo. Para remate final, não lhes despendi demasiadas expectativas. É um Mundial, fomos apurados. Desapropriaram-se, contudo, da acção e reacção. Portugal fora, durante algumas horas, uma sombra. E um abanar de cabeça, de negação. Até, bem sabemos, à prova seguinte. Portugal, pais em competição.

24.4.14

Democracia. Portugal.


De lá para cá. Do vinte e cinco de Abril, do tão revolucionário ano de mil novecentos e setenta e quatro. Da Democracia em Portugal, tenra no percurso. De estrutura manca, por lhe faltar experiência e experientes. Do mesclado de intentos vários. Contudo, que nunca se castre, mesmo que se questione, o que nasceu daí. Mesmo que nos surja desfocado. Mesmo que nos vendam o percorrer da miopia ideológica. Há questões de uma vida que se espalham por aí. Porque nem tudo o que nos servem numa bandeja adornada, é elegância. E a sobranceria que se opõe, tantas vezes se sobrepõe.