Chegou
bonita, requintada, com sabor a curiosidade e adornada com a certeza de que o
conteúdo, em tudo, suplantava o embrulho. Ainda assim, a elegância, tal como me
lembro dela, está, em tudo, desenhada. Chegou esta manhã. Há instantes, numa
pausa, a minha irmã mais velha deu-ma para ler. Não nega o remetente, pensei. É
uma amiga da minha irmã de longa data, tanto que perdi a conta. Eu, na altura
um petiz, julgando-me cheio de prosa e piada naturais, conheci-a. E, sem razão,
entendemo-nos muito bem. A simpatia e maturidade fazem o feitio reluzir. Ela
fê-lo na medida. Lembro-me, numa das vezes, de ficarmos presos numa conversa
sem fim, numa qualquer discoteca lisboeta. De lá até hoje, fomo-nos cruzando
raras vezes. A minha irmã e ela mais, mas não tantas quantas as desejadas. A distância
rouba-nos demasiado, mesmo quando parece ridículo. Nasceu, algures nesta
ausência e tempo corrido, a troca de cartas entre ambas. Em todas, uma
referência a mim e um beijo enviado. Obviamente, peço que a minha irmã lhe faça
chegar as minhas intenções. Esboço, enquanto leio, um sorriso, porque, afinal,
ainda se escreve na língua materna e num português imaculado. Numa folha lisa e
com caneta. Embrulhada num sobrescrito. As memórias assaltam-nos, o presente é
contado e o futuro é imaginado. Agradeço sempre à minha irmã pela partilha. À
amiga também. Numa carta, chegam palavras repletas de simbolismo, que servem
aquilo que nos faz bem e desenham, no mesmo patamar, aquilo que nos incomoda.
Li felicidade na mudança e uma certa mágoa de um presente que lhe deu vida. Um
beijo e a inegável vontade de voltar a cruzar-me contigo, numa prosa e piada
igualmente naturais, com uma pitada de maturidade. E que me perdoes a afoiteza
de outrora e de hoje.
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30.3.16
3.6.15
Em diferido. #35
Manhã
bonita - Da porta grande para dentro. Sol de inverno e frio sem qualificação. Convidaram-me
a sentar. Ali mesmo ao lado, numa cadeira sem grandes dotes decorativos.
Sorriram-me com leveza e alegria. Leram-me excertos de um livro bom. Voz
melodiosa e veloz na esperteza com que se coloca. Ouvi prosa bonita e poesia
verdadeira. Parece feita de propósito para quem a ouve ou lê. Seguraram-me a
atenção sem sacrifício, iluminaram uma sala com as palavras e os conceitos.
Manhã bonita, sem defeito. Mulher sábia que escolhe cada letra. Desenha as
palavras com as mãos no papel branco. Escolhe cada tom. Cada tonalidade. Estão
todos ali, junto dela. Hoje, quando o dia chegar ao fim, lembrar-nos-emos de
cada instante. Nenhum repetido. Ninguém cansado. Alimentamos os sentidos. Cada
um. Mesmo depois da porta grande para fora. Só me resta agradecer. E voltar a
ler.
12.2.15
Manhã bonita.
Da
porta grande para dentro. Sol de inverno e frio sem qualificação. Convidaram-me
a sentar. Ali mesmo ao lado, numa cadeira sem grandes dotes decorativos.
Sorriram-me com leveza e alegria. Leram-me excertos de um livro bom. Voz
melodiosa e veloz na esperteza com que se coloca. Ouvi prosa bonita e poesia
verdadeira. Parece feita de propósito para quem a ouve ou lê. Seguraram-me a
atenção sem sacrifício, iluminaram uma sala com as palavras e os conceitos.
Manhã bonita, sem defeito. Mulher sábia que escolhe cada letra. Desenha as
palavras com as mãos no papel branco. Escolhe cada tom. Cada tonalidade. Estão
todos ali, junto dela. Hoje, quando o dia chegar ao fim, lembrar-nos-emos de
cada instante. Nenhum repetido. Ninguém cansado. Alimentamos os sentidos. Cada
um. Mesmo depois da porta grande para fora. Só me resta agradecer. E voltar a
ler.
21.7.14
Dialecto temperado e prosa retalhada.
Dizem-nos,
a conjuntura social e os clichés, que já não se escrevem cartas, seja por que
motivo for. Guardou-se, algures, o hábito de escrever em papel, de caneta em
punho, as palavras que, verdadeiras ou não, passavam mensagens. Impediam, porventura,
que se deixasse para depois. Fazendo a ressalva, claro, do período entre o
envio e a recepção. Enfim, questões sociais à parte, aproveito o escrito
fechado e a data de hoje, tão importante, para deixar correr prosa. O léxico,
daqui em diante, pode confundir-se e parecer vulgar, mas é sentido e ajeitado
pela vasta gama de sensações. Longe vai o tempo em que nos conhecemos. Lamento,
sempre, o facto de a minha memória ser afoita e, por isso, fugir-me amiúde. Não
encontro precisão em tudo o que ficou para trás. As datas preferem oferecer-lhe
companhia, à memória, e, assim sendo, deixam-me longe de chegar às ocasiões.
Algumas, por certo. Gabo-te, inevitavelmente, o teu jeito seguro de opinar
sobre tudo, de arriscar numa vida diferente, de seguir por caminhos distantes
do óbvio. Gabo-te, igualmente, o sentido de humor timbrado e apurado, a ousadia
que imprimes na série de palavras que deixas fugir faladas. São características
que imortalizam a imagem que todos, sem excepção, guardam de ti. São pedaços do
que, enfim, todos encontram em ti. Tens essa particularidade, um tanto extravagante,
que fortalece os laços. Acho graça. Fica-te tão bem, que ficarias a perder se
os deixasses, sossegados, no lugar devido. Seja qual for o valor que somemos,
importa o vagar como voltas e conduzes a tua vida. Este jogo é, como sabemos,
uma sombra disso. Não te canso mais com o meu discurso dotado de sensibilidade,
nem desgasto as tuas dioptrias. Até já!
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