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30.3.16

Ainda se dirigem escritos fechados.

Chegou bonita, requintada, com sabor a curiosidade e adornada com a certeza de que o conteúdo, em tudo, suplantava o embrulho. Ainda assim, a elegância, tal como me lembro dela, está, em tudo, desenhada. Chegou esta manhã. Há instantes, numa pausa, a minha irmã mais velha deu-ma para ler. Não nega o remetente, pensei. É uma amiga da minha irmã de longa data, tanto que perdi a conta. Eu, na altura um petiz, julgando-me cheio de prosa e piada naturais, conheci-a. E, sem razão, entendemo-nos muito bem. A simpatia e maturidade fazem o feitio reluzir. Ela fê-lo na medida. Lembro-me, numa das vezes, de ficarmos presos numa conversa sem fim, numa qualquer discoteca lisboeta. De lá até hoje, fomo-nos cruzando raras vezes. A minha irmã e ela mais, mas não tantas quantas as desejadas. A distância rouba-nos demasiado, mesmo quando parece ridículo. Nasceu, algures nesta ausência e tempo corrido, a troca de cartas entre ambas. Em todas, uma referência a mim e um beijo enviado. Obviamente, peço que a minha irmã lhe faça chegar as minhas intenções. Esboço, enquanto leio, um sorriso, porque, afinal, ainda se escreve na língua materna e num português imaculado. Numa folha lisa e com caneta. Embrulhada num sobrescrito. As memórias assaltam-nos, o presente é contado e o futuro é imaginado. Agradeço sempre à minha irmã pela partilha. À amiga também. Numa carta, chegam palavras repletas de simbolismo, que servem aquilo que nos faz bem e desenham, no mesmo patamar, aquilo que nos incomoda. Li felicidade na mudança e uma certa mágoa de um presente que lhe deu vida. Um beijo e a inegável vontade de voltar a cruzar-me contigo, numa prosa e piada igualmente naturais, com uma pitada de maturidade. E que me perdoes a afoiteza de outrora e de hoje.

3.6.15

Em diferido. #35

Manhã bonita - Da porta grande para dentro. Sol de inverno e frio sem qualificação. Convidaram-me a sentar. Ali mesmo ao lado, numa cadeira sem grandes dotes decorativos. Sorriram-me com leveza e alegria. Leram-me excertos de um livro bom. Voz melodiosa e veloz na esperteza com que se coloca. Ouvi prosa bonita e poesia verdadeira. Parece feita de propósito para quem a ouve ou lê. Seguraram-me a atenção sem sacrifício, iluminaram uma sala com as palavras e os conceitos. Manhã bonita, sem defeito. Mulher sábia que escolhe cada letra. Desenha as palavras com as mãos no papel branco. Escolhe cada tom. Cada tonalidade. Estão todos ali, junto dela. Hoje, quando o dia chegar ao fim, lembrar-nos-emos de cada instante. Nenhum repetido. Ninguém cansado. Alimentamos os sentidos. Cada um. Mesmo depois da porta grande para fora. Só me resta agradecer. E voltar a ler.

12.2.15

Manhã bonita.

Da porta grande para dentro. Sol de inverno e frio sem qualificação. Convidaram-me a sentar. Ali mesmo ao lado, numa cadeira sem grandes dotes decorativos. Sorriram-me com leveza e alegria. Leram-me excertos de um livro bom. Voz melodiosa e veloz na esperteza com que se coloca. Ouvi prosa bonita e poesia verdadeira. Parece feita de propósito para quem a ouve ou lê. Seguraram-me a atenção sem sacrifício, iluminaram uma sala com as palavras e os conceitos. Manhã bonita, sem defeito. Mulher sábia que escolhe cada letra. Desenha as palavras com as mãos no papel branco. Escolhe cada tom. Cada tonalidade. Estão todos ali, junto dela. Hoje, quando o dia chegar ao fim, lembrar-nos-emos de cada instante. Nenhum repetido. Ninguém cansado. Alimentamos os sentidos. Cada um. Mesmo depois da porta grande para fora. Só me resta agradecer. E voltar a ler.

21.7.14

Dialecto temperado e prosa retalhada.

Dizem-nos, a conjuntura social e os clichés, que já não se escrevem cartas, seja por que motivo for. Guardou-se, algures, o hábito de escrever em papel, de caneta em punho, as palavras que, verdadeiras ou não, passavam mensagens. Impediam, porventura, que se deixasse para depois. Fazendo a ressalva, claro, do período entre o envio e a recepção. Enfim, questões sociais à parte, aproveito o escrito fechado e a data de hoje, tão importante, para deixar correr prosa. O léxico, daqui em diante, pode confundir-se e parecer vulgar, mas é sentido e ajeitado pela vasta gama de sensações. Longe vai o tempo em que nos conhecemos. Lamento, sempre, o facto de a minha memória ser afoita e, por isso, fugir-me amiúde. Não encontro precisão em tudo o que ficou para trás. As datas preferem oferecer-lhe companhia, à memória, e, assim sendo, deixam-me longe de chegar às ocasiões. Algumas, por certo. Gabo-te, inevitavelmente, o teu jeito seguro de opinar sobre tudo, de arriscar numa vida diferente, de seguir por caminhos distantes do óbvio. Gabo-te, igualmente, o sentido de humor timbrado e apurado, a ousadia que imprimes na série de palavras que deixas fugir faladas. São características que imortalizam a imagem que todos, sem excepção, guardam de ti. São pedaços do que, enfim, todos encontram em ti. Tens essa particularidade, um tanto extravagante, que fortalece os laços. Acho graça. Fica-te tão bem, que ficarias a perder se os deixasses, sossegados, no lugar devido. Seja qual for o valor que somemos, importa o vagar como voltas e conduzes a tua vida. Este jogo é, como sabemos, uma sombra disso. Não te canso mais com o meu discurso dotado de sensibilidade, nem desgasto as tuas dioptrias. Até já!