Conheço
quem se debruce, não poucas vezes, sobre as questões do amor. Uma espécie de
laboratório caseiro. Mas eficaz, garante-me. Um prédio, uma rua, uma empresa ou
um espaço dançante, tornam-se, à sua mercê, numa bolha, cujo objectivo máximo é
o estudo do amor. Parece irreal, mas é pura verdade. Conheço-a o suficiente
para me fazer crente. As suas palavras são um irrepetível esboço de uma
putativa tese. Refuto vezes sem conta, mas é na partilha que nos deixamos
ficar. Entretemo-nos horas nesse desafio opinativo e assertivo. Gosto dela, da
sua sinceridade, da coerência e, inevitavelmente, da forma despojada como
aborda este e outros temas. Baseia-se, afirma, nas suas experiências. Depois,
galga terreno com o que a sua vista alcança. Com a percepção que lhe chega. Com
os relatos que ouve. A profissão, parece-me, ajuda. É uma mulher atenta,
inteligente, astuta, cúmplice e uma excelente oradora. Recorreu a todas e a
nenhuma no momento em que decidiu que havia de conhecer o vizinho do primeiro
andar. Rapaz garboso, sem horários, com um bom carro e que aos fins-de-semana
dava valentes festas. Acabou por confidenciar que a primeira vontade foi
envolver-se numa tórrida e furtiva relação, mas que a segunda era bem mais
imperativa: Acabar com as festas do primeiro andar. Tanto quanto me lembro, a
primeira vingou com facilidade. A segunda fez-se demorada. Cá estamos nós os
dois e mais uns quantos amigos, num sítio que gostamos de repetir, entre copos
e conversas boas. Ela lembra que é uma incansável estudante das vicissitudes do
amor. E que, por isso mesmo, é uma mulher incansavelmente insatisfeita. Quando
isso mudar, chega ao fim o seu maior passatempo. Gozar a vida como se de um
romance de fim de tarde se tratasse. Garanto que gostava de ver o amor com os
moldes das novelas que a minha avó guarda lá em casa. Ou como os variadíssimos volumes
de romances que a minha mãe foi acumulando. Gostava. Mas é mentira. Não me
coube em sorte a crença de que o amor se reproduz em cada esquina. Ou num
qualquer primeiro andar da vida.
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16.5.17
20.4.17
Em diferido. #58
Tipicamente
recalcitrante - As revistas multiplicam-se cá por
casa, mas já foram mais. Há em mim um certo distanciamento, porventura, uma
certa sobranceria que me obriga, fatalmente, a ser selectivo. Guardo-as quando
me importam. Momentos há em que mudo o rumo e revisito-as. Porque procuro uma
matéria em concreto ou porque me apetece tornar a fazê-lo como se fosse a
primeira vez. Qual dom de ocasião graciosa acontece-me, não raras vezes,
surpreender-me com o conteúdo. Foi esse o caso, estava a passar os olhos por
uma revista de fotografia das boas. No entretanto, perguntava-me pelo poder da
certeza absoluta sobre a dúvida. Induzido, claro, por uma reportagem que falava
com a imagem. Não sei se uma fotografia só é arte ou, pelo menos, digna, se
falar e trocar impressões com quem olha. Distinta será quando promove a troca
de sensações, ainda que, fugindo totalmente a qualquer toque na pele. A bola de
neve instala-se no pensamento e depressa me lembro da opinião, tão irredutível,
do meu pai no que diz respeito aos ténis. Paixão minha de longa data. Inimigo
fatal, sem memória, do meu pai. Um homem adulto tem de saber calçar porque é
fundamental para se apresentar, defende ele. E continua, ninguém fica bem de
fato completo, camisa engomada, gravata de um bom tecido e botões de punho com
uns ténis nos pés. É lamentável, termina. Esgrimimos no mesmo terreno, com as
mesmas armas. A dada altura, num empate técnico, cedo a vitória. Primeiro, uns
bons sapatos. Depois os ténis. De preferência, sempre um calçado que tenha
dignidade, qualidade distintiva e personalidade. Tal e qual uma revista de
tiragem mundial, com a arte em destaque, sem se permitir melindrar desde a
paginação ao tipo de letra. Obrigado pai, mas acabo de escrever com uns ténis
calçados.
19.4.17
Espaço com todos os seus corpos e seres.
Acordei
cedo, sem recorrer ao despertador, ainda que o mencionado esteja sempre
disposto para qualquer eventualidade. De resto, como acontece com clara
repetição. Fi-lo na minha cama, larga o suficiente para me esticar e guardar
espaço. Com a luz subtil do televisor esguio a fingir incomodar. O telemóvel
com acumuladas mensagens. A janela bem cerrada, a cortina fina a guardá-la. Com
escassas peças de roupa adormecidas sobre uma cadeira bonita. Sob o silêncio
dos dias, da rua sempre calma, de um país que ainda dorme com a devida
quietação. Mas é uma espécie de ilusão matinal. Depois levanto-me, percorro o
mesmo silêncio, e as verdades jorram pelos ecrãs afora. O mundo corre doente,
numa patologia encriptada, mal pensada. Imagino-o num cinza e branco, mais pesado
de negro, enfiado em dois comboios compridos. Onde os caminhos não se tocam. Um
para lá, outro para cá. Repete-se este movimento sem que saia do mesmo poiso.
Com ares de boomerang, mais uma das entretenhas do Instagram. Com a pesada excepção, é que este último pesca likes e não fica imortalizado na carne,
nas vísceras ou na vida de alguém. Discute-se, a plenos pulmões, a parentalidade
da senhora das bombas. Uns gritam mãe, do outro lado explicam porque são o pai.
A seguir testam-se mísseis e lembram-se as nucleares que guardam na manga. Morrem
pessoas – seres humanos – todos os dias à mercê de uma guerra que não compram. De
uma tentativa de fuga que não vê a luz do dia. Cospem-se perniciosos discursos
sobre os nossos e os outros. E, pasmados, sabemos da existência de um campo de concentração
para homossexuais na Chechénia. Não me engano se lembrar que estamos em Abril
de dois mil e dezassete. Espantam-me os olhos fechados, as conversas desconexas
e, por vezes, odiosas, que venho assistindo por cá. O mundo gira lá longe, mas
não nos esqueçamos, jamais, que vamos embalados na carruagem que mais parece um
balancé. Que soluço este, minha gente.
26.11.15
Em diferido. #42
Encher de letras o entusiasmo - Parcimónia
silvestre, num travo doce. Amarga surpresa, travessura agreste. Tem nome com
cheiro, se quiser pensar. Tem o tom de voz equilibrado, se quiser ouvir. Tem o
toque certo na pele, se quiser sentir. Tem aromas sem fim. Tem olhar atento.
Joga com as metáforas, compara com a simplicidade da insanidade. Rima e, em
tempo algum, havemos de ter outra certeza. Destrói o conceito, insiste na
reacção. Fala com a boca, mas quem pensa é o coração. Tem fuga nas entrelinhas,
mas escreve fortaleza com os olhos. Fala fluentemente, opina com densidade.
Eloquente diária, o pensamento da idade. Não tem definição, não sei se é amor
ou paixão. Tinha eu, num passado tão presente, a certeza de que rimar com
frequência ou particularizar feitios era sinal de paixão de arromba ou de
flagrante demência. Questiono-me sobre a intimidade da desfocada definição.
Olho para ela e escrevo sem pensar. Ambiciono uma qualquer dança nesta troca.
Em tempos, rir-me-ia da banalidade e franqueza das palavras. Havia de
poupa-las, para não estragar. Não brinques com a entrega alheia. Homem bom
recebe o dobro. Havia de segreda-las para não gastar. Olho para ela e escrevo
sem as ideias ordenar. Escreve, jovem rapaz. Olha para ela e guarda a paz. Não
é fácil amar ou apaixonar sem a razão sofrer e melindrar.
5.10.15
Um banco de madeira que é de excelente casta.
Não
me lembro do meu avô temer a chuva, miudinha ou grossa, de deixar para amanhã o
que podia fazer, sem prejuízo, naquele instante. Lembro-me, antes, dele
sentado, com as suas calças de tecido perfeitamente engomadas, os seus sapatos
engraxados com maestria, as camisas impecáveis, as peúgas no tom certo. Até o
chapéu, enquanto a idade o permitia gozar da vontade de escolher. Mentiria se
dissesse que ontem me sentei com o meu avô a ver as ideias a passar, a verbalizar
parte delas. Que nos sentámos naquele banco de madeira castiço, já gasto do
tempo. O tempo gasta, quando nasces inocente, igualmente quando nasces azedo,
estragado. O banco que me habituei a ver sempre no mesmo lugar. Junto à porta
dos fundos, com uma vista altamente privilegiada para as flores tão bem
cuidadas da minha avó. De cores sem fim, das tradicionais aos feitios
estrambólicos, assumidamente amor e dedicação plantados. Sentados, quase não
conseguimos ver dos muros para fora, do portão para a rua. O banco que só não
era pequeno porque o amor acrescenta. Ontem, ali sentados, se não fosse
mentira, a pensar no todo. A permitir asas à imaginação, como noutros tempos,
de petiz perguntador. Não foi, certamente, nesse banco de jardim que conheci a
orientação política do meu avô. Militante de um partido, soube na mesma altura,
num qualquer jantar de família reunida, militante activo e prestativo de uma
força política. Não percebi nada, avento desde logo. Precoce a boa nova,
esqueci-me de perguntar mais. Partilhava o entusiasmo com um cunhado e outros
tantos desta família. Lembro-me dos jornais e papéis sem fim, alusões
inesgotáveis às designações, crenças e questões tão características daquele
partido. Lamento, nunca lhe ter perguntado mais, naqueles momentos a pensar e a
conversar sem fim, sobre a sua posição. Nunca foi indiferença, infelizmente foi
a imaturidade forçada pela tenra idade até à sua morte. Guardo-lhe questões que
serviriam, irrevogavelmente, os nossos momentos sentados naquele banco. Entre
outros assuntos, teria o maior gosto em atiçá-lo, usando a eloquência que ambos
admiramos, explicando porque nunca partilhei com ele a intenção, tampouco, o
voto. A abstenção corrói, o voto inconsciente destrói. Quando não resulta,
entre os escombros, voltamos ao lugar certo, mesmo que demore. Mentiria se
dissesse que ontem partilhei com o meu avô aquele banco. Só não o faço porque,
ideologias políticas à parte, partilhamos a óbvia e civilizada vontade de votar
e de, claro, opinar.
23.9.15
Como disse?
Século
XXI, chega o Outono no ano dois mil e quinze. Sentadas tomam umas águas,
sossegam os óculos de sol na mesa. Em copos altos, brilhantes. De cabelos
armados, cores simpáticas, bem ao jeito da verdadeira e recatada senhora da
sociedade. Dentes brancos e direitos, batom cor de sangue, figurino a condizer.
Saltos altos e malas no tom. Ouro e fantasia em amena convivência. Depois da
morte, assunto de largos momentos, chega a depressão da sociedade global.
Cruzam-se, imagine-se, raças, credos e outros fundamentos. A medo, esta amiga
de longa data da minha mãe, conta que a filha vem mantendo uma relação com um
rapaz. Silêncio. Um rapaz preto. Ouço um suspiro. Voltou a voz baixa e a
ressalva que imperava: um rapaz preto, mas nada de especial, assim clarinho.
Uma simpatia de moço. Limpa, cozinha e tem um sem fim de talentos. Mas é preto,
o malandro. Esperando pelo fim do discurso, a minha mãe pergunta: - Estão
felizes? - Claro, só não aguento ter de partilhar a televisão no horário da
novela dos pretos. Peço-lhe, encarecidamente, que mude de sala. – A minha mãe
ofereceu uma gargalhada das típicas e termina: - Que o rapaz a trate como ela
merece, que sejam felizes. Longe de tornar a prosa anterior e a seguinte num
estilo armado de ferro e ausente de ternura dos pés à cabeça. Da que me vem de
dentro, fugindo assim a atenção do que possa, eventualmente, parecer. Mas
apontando o dedo à miséria emocional e intelectual do outro. Não faz sentido,
por força da verdade de cada um. Encontrei uma explicação para os encontros com
esta conhecida serem propositadamente ausentes, demorados no tempo. É um
absurdo que não se cultive a multiculturalidade. Certamente, tornei-me num
homem com as características que me são intrínsecas e com uma outra parte,
fruto dos estímulos e das circunstâncias. O preto, por exemplo, figura no topo
das minhas cores favoritas. Mas não se esquece aí. À mesa, sentam-se bons
amigos pretos. E, vamos lá perceber, temos conversas altamente cativadoras e
reveladoras de inteligência. E, tal como eu, apreciam uma boa pausa para a
ironia e respeitam a fraqueza alheia.
1.9.15
Em diferido. #39
Sublevação
das gentes - Na sala por onde passei tantas vezes e que me lembro de olhar para
ele, passar os olhos e só guardar a moldura de um dourado gasto. Agora que vejo
bem ou, escolhendo melhor as palavras, agora que presto atenção ao quadro que
sempre esteve naquela sala, vejo nele uma recordação que alguns dizem longe e
sem armas para prevalecer numa sociedade em que os mundos confluem e nunca
beliscam. Nesta sociedade. Na falada sociedade do minuto. Contam tudo ao
pormenor. Sabe-se tudo a cada instante. É uma discussão que desconhece lugar. É
uma aventura de linguagem e comportamento. Fala-se da ditadura efectiva e da
liberdade condicionada com a mesma intensidade. Comparam-se termos e valores
desprovidos de ligação. Salvando a verdade, este quadro recusa qualquer
valorização de um regime ditatorial, antes de um povo que sobrevive sob a
barbárie de um nome. Mas é de um tempo que fugir nem sequer era solução.
Acusam-me, alguns desmemoriados, quando opino sobre o quanto este país ganhou
depois da revolução, de desconhecer a vida de então. Argumento e respondem-me
frases feitas. Um discurso com tão pouco volume, como acreditar que algumas
décadas depois, tudo mudou.
2.7.15
Em diferido. #37
A
unidade que forma um todo - O mundo pulsa com frequência. Por estes dias, é um
mundo noutro compasso. Numa ambiguidade impessoal. Arqueja ao mesmo tempo que
ganha firmeza na musculatura. Toma a forma de logração inócua. Avoca, inevitavelmente,
a eterna dúvida, como qualquer contradição exposta. É transversal, agora tudo
chega a todo o lado. Um ponto corta tudo, sem dó nem alma, até ao ponto final.
É uma linha imaginária, por certo, oblíqua. Uma veia melindrada pela invasão
inesperada. É uma tentativa de normalizar, ao invés, de padronizar. Surge como
uma democracia funcional. Convida o povo a acreditar que exerce a soberania.
Mas é uma questão que ganha recheio noutras áreas, tão relevantes quanto uma
questão que lateja por resposta, um governo que tem toques de aristocracia.
Arraçado de pináculo da linguagem impopular. No entremeio, ficam-nos as
questões bem mundanas. Putativamente menos transversais. Como os quadris
naturais da mulher que vive fora da cidade serem bem mais tortuosos do que a
transversalidade nacional.
18.6.15
Sustento das emoções que se reinventam.
Cheguei
da praia. Há coisa reduzida de tempo. A areia no lugar, o mar a ondular. Corpos
ao sol, crianças a brincar. Lembrei-me de ti, dessa vontade quase insensata de
adiar as férias. De voltar depois. Porque o corpo ganha hábitos, a mente
perde-se no prazer que imagina. Faz sentido, não fossem as saudades enormes. À
distância, mantemos a conversa, às vezes cara-a-cara, numa ironia profunda.
Como se um vídeo oferecesse humanidade. Outras vezes, numa escrita desenvolta. Desta
vez, optamos pela última. Escrevemos, escrevemos muito. E não há adágio que me
salve. Que me demoro na prosa. Salvo raras excepções, demoro-me com os que me
importam. Devolvem-me o mesmo. É assim. Por mais que nos canse, este intervalo
entre dois pontos da geografia, é a única opção. Os amigos, homens e mulheres
genuínos. Que abrevio caminho garantindo que, em pausa da modéstia, me dou com
tipos bons. Gente boa. Esses amigos foram para lá, mas continuamos cá. Depois
da prosa demorada, é que te perguntei por outras coisas. Primeiro o amor.
Voltámos sempre ao mesmo. As emoções, as reacções físicas, a ambição de chegar
ao outro. A faculdade de discernir que se perde. Questiona-se se o amor é
paixão. Se a paixão é o amor a escovar os sentimentos. Vai à aventura. Talvez
já saibas. Daqui a uns tempos, já saberás responder. Perguntar-te-ei antes que
tudo se é amor.
25.5.15
Narração dos acontecimentos.
Podia
contar-te uma história. Dizer-te que o sexo é sempre um compromisso e que
amanhã será a realização de todas as convicções e ilusões de hoje. Pedir-te que
acredites como se tivesse esse direito. Porque é o amor, sempre o amor. Ou a
necessidade física a ir contra a questão fundamental, a lealdade. Estava a
pensar nisto, depois de me cruzar com ele. Conheci-o através de uma amiga muito
próxima. Foi-me apresentado já como seu namorado, embora, tenha ouvido algumas
coisas sobre ele antes de o conhecer. Na boca dela, querida amiga, era um tipo
alto, bonito e inteligente. Era formado em medicina e era de boas famílias. Era
calado, mas tinha sempre a palavra certa. Imaginei uma capa de revista e
nessas, reza a história, há muito pouco conteúdo real por onde apalpar. Mas
acabámos por marcar um jantar de amigos. Não foi difícil identificá-lo, pois
entrou com ela e as informações anteriores pareciam estar correctas. Boa amiga
esta, verdade seja assinalada, sempre foi bastante pragmática. O homem de todas
as relações, aventa ela e eu não digo que não. Confirmou-se, então, a timidez.
Ainda assim, e sem darmos por isso, foi fazendo cada vez mais parte do grupo.
Até ao momento em que numa das vezes em que ele ia tocar para nós, serão
garantidamente longo, e ela chegou sozinha. Chegou ao fim, o espectáculo de
cordas e o namoro. Estive com ele depois disso um punhado de vezes. Soube fazer
as coisas e, ficou-se somente, pelo lamento do fim da relação. A boa amiga
tomou outro rumo, porque sexo é incompatível com a necessidade de sinceridade
que uma relação exige. Estamos num bom caminho, estamos a conseguir ser fieis a
nós. Com a verdade me enganas. Não obstante, podia contar-te uma história.
21.5.15
Filosofia de madeira à janela.
A
bancada é de uma madeira praticamente imaculada. A janela na frente, ausente de
cortinas e cheia de vida do vidro aos quadradinhos para fora. O jardim é
bonito, tem verde com fartura, questões que têm resposta nos outros
apontamentos, coloridos. Do rosa tradicional ao laranja apelativo. Árvores e as
flores com estórias agarradas, umas outras tão imberbes, frágeis à vista, ainda
mais ao toque. Cá dentro, a bancada que inventa pureza tem sobre ela uma tábua,
também de madeira. Esta, tão gasta e marcada. Sem lhe conhecermos o passado,
sequer os últimos minutos, inventamos-lhe um propósito. Uma causa primeiro, por
fim o efeito. No recheio destes dois, ficou o processo. Agora os verdes
impecavelmente cortados combinam com o leito, a tábua. A faca é hábil, em
resposta às mãos que a comandam. Juntam-se outros tons, quentes e apelativos.
Outras texturas e cheiros. Ao lado, quatro copos de vinho. A garrafa meio vazia.
A seguir, a confissão. Vezes sem conta, uso e abuso deste ponto. Abro
totalmente a janela e fico a inventar. Crio motivos e razões. Justifico cada
pessoa que passa na rua junto ao portão. Já vi mulheres corujas, mães felizes,
esposas traídas e fêmeas maltratadas. Já vi homens falhados, professores sem
pensamentos, pais ausentes e machos felizes. Viver iludido é magia. Como uma
brincadeira de criança. Fazer de conta e rir disso. Descobrir as diferenças é
outro jogo. Só brinca quem quer. Depois dela terminar o desabafo, foi impossível
outra reacção. Fizemos silêncio.
19.5.15
Determinados privilégios.
Bom dia, gente de trabalho. Ouvir-se-á por esse país
afora. Como já ouvi nos lugares mais inusitados. Também, e principalmente, nos
mais humildes. Gente feliz e de palavra. A complexidade apaixonante de viver o
nascer do sol no seu perfeito esplendor. Poeta de madrugada encontra recheio e
encanto em cada pedaço e, com esforço, torna-los num verso primeiro, numa
estrofe depois. Por fim, um poema de conteúdo filosófico. Já se ouvem os
pássaros lá fora. Os New Balance nos
pés, a bateria fraca do telemóvel, uma noite mal dormida e um vento que nunca
sossega. Não há tréguas e saltei da cama. Os óculos de sol preferidos e o rádio
do carro que promete ser a companhia. Na rua, as pessoas pensam e agem em
consciência com as necessidades. Um tipo corre, uma mulher com frio passeia o
cão pequeno, aquele pai leva as crianças à escola e aquela mãe prepara mais um
dia, enquanto naquela varanda corrida, faz uma pausa para acenar para os miúdos.
Duas jovens saem do mesmo prédio e seguem caminhos diferentes depois de trocarem
um beijo. Chego ao destino, ligeiramente antes da hora marcada, e dou os bons
dias a duas ou três pessoas que estavam na entrada. Devolveram-me o silêncio
beliscado pelo vento a soprar. Gente capaz, esta. A minha avó não me deixa
mentir e sempre disse que não é de valor quem não valoriza o outro. No
corredor, e não estou a brincar, está um cartaz cuja figura central é um cão e
pode ler-se por baixo: O melhor amigo nunca falha. A minha avó sempre soube muito
e carregada de razão promoveu todas as vezes que lhe foi possível, a discussão
sobre qual era o papel do ser humano. A realidade molda o pensamento.
11.5.15
Objecto desse entusiasmo.
Depois
de um bom livro, um passeio. Sol quente, pessoas no parque. Rua com boa cara, a
companhia que importa. Conversámos sobre tantas coisas, que tivemos tempo para
discordar. Alguém aventou que eu tenho tendência para, ora defender os fracos,
os pobres e os oprimidos, ora para apontar-lhes alguns pontos negativos.
Fica-lhe bem lembrar-se de um chavão tão ridículo. Julgava eu que vivíamos em
sociedade e que haviam termos tão obsoletos. É uma questão de integração, nunca
de evasão. Aliás, não vejo estatutos, profissões, contas bancárias, nomes
compridos ou outros critérios desse instrumento de medição inventado, quando
opino. Limito-me aos actos, à posição. Argumentos válidos e sentidos, chegam
sempre a bom porto. Deu o braço a torcer. À volta, continuava a cor e o
movimento tão típicos do bom tempo. Aqueles óculos de sol são extraordinários. Quem
os usa fá-los parecer os melhores. São quase redondos, sem serem círculos
imaculados. A dona coloca-os e tira-os. Volta a fazê-lo vezes sem conta. Parte
das madeixas do cabelo comprido caem-lhe sobre as lentes. Movimenta a cabeça e
espera-se que os fios entendam que devem seguir outro rumo. Tem vinte e cinco
anos e um rosto de miúda, um ar jovem e fresco, tão característico da idade. O
cabelo é claro mas o sol mostra que não há harmonia. Solta um ou outro tom.
Conversa com genica e nunca lhe falta assunto. Cruza as pernas e senta-se no
chão. Enquanto ri e mexe no telemóvel, diz-nos que sonha com o dia em que lhe
desafiem a subir um monte íngreme. Porque gosta da palavra que é sinónimo de
difícil de subir. E não tem medo de desafios. Também os quer a dois.
Aplaudi-lhe a conversa cheia de sentido. E, totalmente de acordo, dei-lhe toda
a convicção. Acredito nesse amor enraizado e nessa trovoada que testa os
limites. Vivendo-o ou não. Tenho, também, tendência para, entre tudo o resto,
acreditar num amor em tudo semelhante ao que os intervenientes imaginam.
Aproveita o sonho, miúda dos óculos cheios de pinta.
4.5.15
Uma pequenina luz.
Sempre
que a vejo de coração nas mãos, ameaço tirar-lhe uma fotografia e guardá-la
para sempre. Podia desenhá-la, pintá-la ou escrever sobre as sensações e as
reacções. Mas a fotografia está sempre ali. Com a geração da tecnologia, o caminho
é fácil, reduz-se o pensamento e escasseiam as dúvidas. Escolhes sempre a chapa
do momento. Que o céu é azul, que o mar é salgado e que Zé canta o fado, já
todos sabemos. Que ela é intimidade e verdade num enredo singelo, é outra
viagem. Perguntaram-me e respondi como da última vez. Volto a estar de copo na
mão. Agora, sentados na avenida da nossa terra. Voltar às raízes também é
segurar o coração com outra convicção. Porventura, aqui, perdem-se os receios e
as questões de um futuro breve. Não se temem as mãos trémulas e o coração
desamparado. Porque isso não acontece sem rede, sem protecção. Alguém lançou
que tinha pena de quem não tem para onde regressar. Lamentamos a cidade que é
berço e vida. Mas volto sempre à cidade que não é minha por um qualquer
desentendimento astral. Falho na escolha do vocábulo, por não acreditar,
tamanha a dúvida. Seguiram-se outras perguntas e a todas respondi da mesma
forma. Os amigos riem juntos e são felizes. Os amigos prestam-se ao silêncio
sem peso e são felizes. Vivam na raiz ou ganhem sustento num lugar que os
adopta. Quando voltava para casa, no carro, tive a certeza de que, de coração
nas mãos ou de risada despreocupada, hei-de querer guardar esta intimidade para
sempre.
30.4.15
De Londres, com saudade.
Foi
assim que terminou a mensagem que me chegou ontem ao e-mail. Vem de lá uma
parte da saudade, que a vou tendo dispersa. Feita em pedaços, numa Europa
altiva, numa Europa romântica, num ou noutro continente. Nova Iorque tem
trejeitos e não guarda, hoje em dia, nenhuma fonte de saudade. Mas guardo-lhe
alguma curiosidade. De Londres, vem uma amizade antiga, num táxi bonito, de
saltos altos e maquilhagem irrepreensível. Enquanto, de maçã na mão, escreve
sobre a distância. Relata, sem sossegar, o que ganhou depois de se mudar.
Também perdeu e escreve sobre isso com a mesma dignidade. Misturada com a serenidade.
Embora, as palavras escritas possam enganar, porque perdem a identidade da voz
e do tom do interlocutor, vamo-nos lendo em sintonia. Há uns anos
emprestaram-me um livro. A capa era dura, tão forte e pisada pelo tempo. Não
consigo perceber se estava numa ou noutra fase. Mas não esqueci. Quem mo
emprestou fez bastante questão. Leva-o, toma-lhe as conversas quase
inexistentes e guarda o texto corrido e as descrições. As descrições, essas
sim. Moldavam, propositadamente, toda a história. Bem sei, adiei até não mais
conseguir, o dia em que trouxe o livro para casa. Leva-o, desta vez, leva-o.
Vais atentar a intelectualidade e questionar a espiritualidade. Lê com calma,
dedica-lhe tempo. Fiz como pedido. Lembro-me que no exacto momento em que
cheguei à última página, lhe devolvi uma mensagem. Citação breve, um pensamento
mais demorado. Que não é novidade, tenho tendência a ser longo na prosa. Quem
mo emprestou, a amiga brava que conversa de Londres, respondeu-me. Muitos
elogios e todos fundamentados pelo poder de argumentação. Conversamos imenso,
escrevemos ainda mais. Daqui, com saudade.
28.4.15
Em diferido. #33
Tipicamente
recalcitrante - As revistas multiplicam-se cá por casa, mas já foram mais. Há
em mim um certo distanciamento, porventura, uma certa sobranceria que me
obriga, fatalmente, a ser selectivo. Guardo-as quando me importam. Momentos há
em que mudo o rumo e revisito-as. Porque procuro uma matéria em concreto ou
porque me apetece tornar a fazê-lo como se fosse a primeira vez. Qual dom de
ocasião graciosa acontece-me, não raras vezes, surpreender-me com o conteúdo. Foi
esse o caso, estava a passar os olhos por uma revista de fotografia das boas.
No entretanto, perguntava-me pelo poder da certeza absoluta sobre a dúvida.
Induzido, claro, por uma reportagem que falava com a imagem. Não sei se uma
fotografia só é arte ou, pelo menos, digna, se falar e trocar impressões com
quem olha. Distinta será quando promove a troca de sensações, ainda que,
fugindo totalmente a qualquer toque na pele. A bola de neve instala-se no
pensamento e depressa me lembro da opinião, tão irredutível, do meu pai no que
diz respeito aos ténis. Paixão minha de longa data. Inimigo fatal, sem memória,
do meu pai. Um homem adulto tem de saber calçar porque é fundamental para se
apresentar, defende ele. E continua, ninguém fica bem de fato completo, camisa
engomada, gravata de um bom tecido e botões de punho com uns ténis nos pés. É
lamentável, termina. Esgrimimos no mesmo terreno, com as mesmas armas. A dada
altura, num empate técnico, cedo a vitória. Primeiro, uns bons sapatos. Depois
os ténis. De preferência, sempre um calçado que tenha dignidade, qualidade
distintiva e personalidade. Tal e qual uma revista de tiragem mundial, com a
arte em destaque, sem se permitir melindrar desde a paginação ao tipo de letra.
Obrigado pai, mas acabo de escrever com uns ténis calçados.
23.4.15
A causa do fundamento.
Saiu-lhe
um palavrão sem pensar. O modo de viver que decorre do nascimento até ao ponto
final é digno daquela palavra. Qualquer dia ensandeço, viro costas e vou-me
embora, compro uma quinta que me faça perder o horizonte. Deixo-me ficar lá,
hei-de gozar o triplo. Dizia ele e não deixa de ser verdade. As opções existem,
falta a coragem, a insensatez e o desapego aos nossos. Lembrei-me desta
conversa enquanto ouvia música. Um som dos anos oitenta, se não me engano, de
mil novecentos e oitenta e dois. Está sol lá fora, falam-se dos altos níveis
dos raios UV, antecipando cuidados. Nas ruas há gente a viver as temperaturas
mais secas. Há chinelos no pé, t-shirt no lombo, calções sem condizer. Vestidos
fluídos às cores. Flores e riscas por todo o lado. Chapéus com fitas à volta
que ganham nomes tão técnicos que nos fazem parecer descerebrados. Também
importa, mas não interessa nada. Assusta-me a banalidade com que se abordam
certos temas. A facilidade em tomar a vida do outro pelo nosso olhar. O nosso
prisma, as nossas vivências vão, inevitavelmente, talhar as nossas opiniões.
Ficam inquinadas e, para sermos justos, não traz benefícios. Como a exposição,
tempo sem conta, ao sol. Sem protecção e sem juízo. A última é uma
característica deste homem, do mesmo que ameaça mudar de vida. É mais velho que
eu, habituei-me a escutar-lhe as estórias e a sabedoria. Talvez, seja essa a
procura de todos os dias. Uma das maiores, se quisermos. Pior do que não saber
onde estamos, é não saber quem somos. Não acredita em Deus, mas sabe que quando
lhe chegar perto, será, por demais, bem recebido.
15.4.15
Em diferido. #32
A
aprendiza de coisa nenhuma - Não é mentira, ai não, não é. Conta-se um conto,
acrescenta-se um ponto. Voltas e voltas dadas ao redor da verdade escrita e da
língua portuguesa a sentir, de boca em boca. Como no tempo das Marias de nome,
hoje vale mais o acrescento do ponto, do que o próprio do conto. Fica triste, a
verdade escondida. Aldeias pequenas, gente grande. Ou o inverso, mas é timidez
no ardor de preferir não dizer. Ainda me lembro de se ouvir falar da Rita.
Daquele lugar distante. Maria Rita de nascença, que ao grito maior se lhe
despediu o primeiro nome. Rita ficaria daí em diante. A Rita, de novo nome, de
lá para cá, não se importa. Nem com o bem maior, nem com o mal menor. É-lhe
semelhante. Tem a mesma medida. Não quer saber. Quer a vida que lhe calhou,
logo depois do primeiro nome que não vingou. E subia as paredes grossas, os
muros que seguram como raízes. De saias leves, colocava os rapazes num chinelo.
Repetia a expressão de neta aprendiz. Ria alto e comia amoras silvestres.
Corria com pressa e sujava as vestes. O tempo mudou, a Rita não aguentou e
partiu. Perdeu os tiques e a conversa de quem, por vontade e educação, lhos
ensinou. Largou com a mesma pressa com que corria sobre a terra solta. E, certo
dia, voltou o nome primeiro. Maria Rita, a doutora que não desiste do combate.
É um caso concreto, desenho de um conto que não tem fim, nem perde
protagonistas. É uma correria de trocas. Triste, a verdade escondida. Cruzam-se
as medidas. Perdem-se as Marias. Quem conta um conto, por certo e, tantas vezes
sem pensar, acrescenta um ponto. Ou dois, ou três. Porventura, uns cinco como
conta numa mão.
31.3.15
Encher de letras o entusiasmo.
Parcimónia silvestre, num travo doce. Amarga
surpresa, travessura agreste. Tem nome com cheiro, se quiser pensar. Tem o tom
de voz equilibrado, se quiser ouvir. Tem o toque certo na pele, se quiser
sentir. Tem aromas sem fim. Tem olhar atento. Joga com as metáforas, compara
com a simplicidade da insanidade. Rima e, em tempo algum, havemos de ter outra
certeza. Destrói o conceito, insiste na reacção. Fala com a boca, mas quem
pensa é o coração. Tem fuga nas entrelinhas, mas escreve fortaleza com os
olhos. Fala fluentemente, opina com densidade. Eloquente diária, o pensamento
da idade. Não tem definição, não sei se é amor ou paixão. Tinha eu, num passado
tão presente, a certeza de que rimar com frequência ou particularizar feitios
era sinal de paixão de arromba ou de flagrante demência. Questiono-me sobre a
intimidade da desfocada definição. Olho para ela e escrevo sem pensar.
Ambiciono uma qualquer dança nesta troca. Em tempos, rir-me-ia da banalidade e
franqueza das palavras. Havia de poupa-las, para não estragar. Não brinques com
a entrega alheia. Homem bom recebe o dobro. Havia de segreda-las para não
gastar. Olho para ela e escrevo sem as ideias ordenar. Escreve, jovem rapaz.
Olha para ela e guarda a paz. Não é fácil amar ou apaixonar sem a razão sofrer
e melindrar.
12.3.15
Tipicamente recalcitrante.
As
revistas multiplicam-se cá por casa, mas já foram mais. Há em mim um certo
distanciamento, porventura, uma certa sobranceria que me obriga, fatalmente, a
ser selectivo. Guardo-as quando me importam. Momentos há em que mudo o rumo e
revisito-as. Porque procuro uma matéria em concreto ou porque me apetece tornar
a fazê-lo como se fosse a primeira vez. Qual dom de ocasião graciosa acontece-me,
não raras vezes, surpreender-me com o conteúdo. Foi esse o caso, estava a
passar os olhos por uma revista de fotografia das boas. No entretanto,
perguntava-me pelo poder da certeza absoluta sobre a dúvida. Induzido, claro,
por uma reportagem que falava com a imagem. Não sei se uma fotografia só é arte
ou, pelo menos, digna, se falar e trocar impressões com quem olha. Distinta
será quando promove a troca de sensações, ainda que, fugindo totalmente a
qualquer toque na pele. A bola de neve instala-se no pensamento e depressa me
lembro da opinião, tão irredutível, do meu pai no que diz respeito aos ténis.
Paixão minha de longa data. Inimigo fatal, sem memória, do meu pai. Um homem
adulto tem de saber calçar porque é fundamental para se apresentar, defende
ele. E continua, ninguém fica bem de fato completo, camisa engomada, gravata de
um bom tecido e botões de punho com uns ténis nos pés. É lamentável, termina.
Esgrimimos no mesmo terreno, com as mesmas armas. A dada altura, num empate
técnico, cedo a vitória. Primeiro, uns bons sapatos. Depois os ténis. De
preferência, sempre um calçado que tenha dignidade, qualidade distintiva e
personalidade. Tal e qual uma revista de tiragem mundial, com a arte em destaque,
sem se permitir melindrar desde a paginação ao tipo de letra. Obrigado pai, mas
acabo de escrever com uns ténis calçados.
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