Mostrar mensagens com a etiqueta questões quotidianas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta questões quotidianas. Mostrar todas as mensagens

19.2.18

Qualidade vacilante.

Lá fora, enquanto atravessava a rua, cruzei-me com um autocarro quase vazio. Uma senhora, com ar pendente, esboçava movimentos com a boca. E a mão fingia garatujas no ar. Devia levar uma conversa governada de interesse com o senhor condutor. Toca o telemóvel e a dúvida absorve uns quantos. As massas a funcionar com as maçãs. Soa e somos o mesmo. Estou numa espécie de fila – um tanto desordenada, outro tanto desordeira - num lugar cansado, cujo ar está saturado, com o meu casaco comprido, aos quadrados desenhado, os óculos graduados colocados, os de sol na gola dobrada do casaco de malha grossa presos. Desliguei a chamada há instantes, a minha irmã mais nova a trazer novidades, no seu discurso sempre vestido de pressa, genuíno e de menina travessa. Entre pensamentos, reparo na senhora que está ao meu lado. Quase inerte, numa apneia que me permiti diagnosticar. O olhar, quase baço de admiração, está focado - pasme-se - nas minhas meias. Ou peúgas. Conforme a nação de cada um. Perco-me, com alguma facilidade, nas nomenclaturas. Nisto, arqueio a sobrancelha, como se fosse tipo para esse ensaio. Levo, instintiva e imediatamente, os olhos às ditas. E rio-me. De mim e para mim. Espreitam, dinâmicas e de humor comedido, entre o que trago calçado e a dobra das calças. Não são as mais atrevidas que tenho, quis contar-lhe – à senhora, claro – mas fiquei tímido. São mesmo triviais, talvez a cor lhes torne especiais. Enfim, os nossos olhares cruzaram-se. E chega, na minha direcção, vinda do fundo da neblina que são aqueles olhos, a estupefacção. Fiquei na dúvida, tratar-se-ia de vergonha por eu ter percebido o delito ou, cheia de verdades sobre a arte de bem trajar reprovou as minhas sossegadas meias. Ou peúgas. Assim levei a manhã, numa ambiguidade sem precedentes.

1.2.18

Fenómeno da absorção.

Não fui de subir aos telhados, porventura, vítima das vertigens que me assaltam, ainda os metros não são excessivos. Ou por puro aborrecimento. Ainda me fiz afoito, jogando à sorte. Pisando cadeiras, parapeitos de janela, afiançando o equilíbrio numa varanda mais robusta. Como se houvesse esperança. De arribar do solo e, num pulo, chegar a uma estrela. Nunca aconteceu. Enfim, por me ver próximo de casas que não o permitiam. Ainda que na alienação mental dos tempos de garoto. Embora, um endiabrado somente nas horas vagas. Tão singelo. Mesmo assim, não perdoei muros largos e altos. Entre arbustos. Com compinchas a amparar o pé. Corríamos sem pensar. Atrevíamo-nos na escalada desamparada. Hoje modero as ânsias. Não esqueço as traquinices. Há pouco, numa rua gira, com prédios altos e alguns recuperados, no cume do maior, estão várias janelas deitadas sobre o telhado. Numa, um gato que enfeitiça. Pela beleza exuberante e arrogância castiça. Logo volvi uns anos. Começo da idade adulta, em casa de uns amigos, onde as águas-furtadas eram ponto de encontro. Para o palreio sem censura, para o acumular das traquitanas do dia-a-dia. Dos romances dignos de apneia aos desamores de prender a circulação nas veias. Compensando todas as parvoeiras. Numa estada sempre apreciada. E víamos passar. Com toda a desatenção, com todo o vagar. Até as vertigens não ganhavam lugar. Guardo saudades. A ironia vence sempre. Mesmo que não a saibam ler. Nunca fui de subir aos telhados, na ignorância feliz de me saber lá. Agarrado às vertigens sem ocupação. E hoje não é diferente. Estou onde me permito. E, não desminto, há dias em que me limito. Mesmo que esteja com os pés em terra firme.

17.7.17

Um sumário dos costumes.

No mesmo dia em que vi um festejo à janela, falaram-me sobre casamentos. Parece desconexo, coisa pouca. Mas não é. Trago a mochila – por demais elogiada - sobre as costas, lá dentro um tudo de coisas. Profissionais, pessoais. Ainda uma dor rasa aqui e uma pontada ali. A idade come-nos a ideia de infinidade. Vão rir-se de mim se verbalizar isto. Com a minha idade, numa versão avô sabichão e fatigado. Ouvir deve ser bem mais tedioso do que arquitectado nesta cabeça. Larguei-me na insanidade de não estar contactável. Perguntam-me o século em que habito. Respondo com palavras e pontuo com um sorriso. É sentido, não é mentira. É um desgoverno como qualquer outro. Praguejam as mais variadas razões para inverter a questão. E, assumo, sequer ouvi uma. Retive nenhuma. Mas gosto de livros, se possível de lê-los. Gosto de escrever, se possível à mão. Gosto de ouvir, se possível os que me acrescentam. Nesta balança improvisada, deixo à consideração o movimento das decisões. Mas volto, aqui sentado, ao sábado passado. Lá atrás, naquela rua que acompanhou o meu passo, estavam duas pessoas numa varanda bonita. Um prédio relho, nada descuidado, todo tratado. As paredes de um rosa imaculado, as portas e portadas largas e num verde cuidado. O mesmo tom dos ferros que resguardam as varandas curtas. Numa delas estavam flores, flores pequenas e pendulares. Atrás, um casal que ria em sintonia. Ele cerrava os olhos, ela puxava a cabeça para trás e levantava um braço que desaguava numa mão que carregava um ramo. Sobre a calçada, de cabeças levadas à janela, estavam pessoas. Um pequeno grupo. Aplaudiam e lançavam pétalas ao ar e pequenos papéis num prata brilhante. A sério, aconteceu. E pareciam felizes. A rua aguardou as comemorações. Ninguém avançou o passo ou recuou a posição. Ainda me dizem que os casamentos não são deste tempo. Não sei se acredito. Ela passeava um longo e branco vestido. Ele um fraque negro. Os convivas trajavam bonitas peças. As flores por todo o lado. Nem as pétalas faltaram. Não sei se acredito. Mas corrobora a minha versão. Os tempos são como as modas. Reciclam-se e cada um serve o que lhe aprouver. Felicidades.

31.5.17

Singular.

Desde petiz que sei que sou um privilegiado. Porque o sinto, porque o entendo, porque o vivo, porque mo dizem. Os meus, em tempo algum, o fizeram em jeito de atestado passado. Ou por meio de longos discursos. Antes em conversas trivialmente assertivas. Ou em acções dignas e saborosas. Às vezes menos, mais agrestes e azedas. Como tudo aquilo que se prende com a vida. No fundo, funcionou assim e ainda traz esses jeitos. Um barómetro inexistente fisicamente, mas profundamente presente. Porventura, todos a moldar a minha posição sobre algumas posturas. Não me apelido de intransigente, mas habito lá perto um par de vezes. Não respondo sempre – raramente - com a mesma pronúncia, mas guardo cautela perante alguns “delitos” (com as devidas comas; nada de superior) que me dirigem. Comigo não funciona o falso testemunho, a mão leve ou a boca fraca. Em que circunstância e sob que justificação for. Só porque embeleza o quadro ou varre para debaixo do tapete a sujidade dos actos. Não tolero, pese embora, algumas vezes me finja super blasé. Funciona, não desminto. E devolvem-me sorrisos, nada bonitos, mas bem ardilosos. E os dias seguem. Como deve e tem de ser. Desde puto que sou conhecedor daquilo que me envolve. Desde logo, na minha família, na minha casa, nos meus amigos, até nos conhecidos. Essa avaliação não guarda números. Sentes, mesmo que enquanto o vivas não saibas. Acumulas até chegar o entendimento. Nesta medida, cabem ainda alguns bens materiais, que não sendo fundamentais, contribuem para o bem-estar, para a vida mais leve e despreocupada. Ser-se privilegiado não é uma definição, é uma condição. E, mesmo assim, parece-me que os parâmetros mudam consoante o proprietário – perdoem-me a expressão, mas nada é eterno. Ser é tão diferente de parecer. E eu, em nada diferente, sou muitas coisas que não deixo parecer e pareço outras tantas que não deixo acontecer. A dada altura reduz-se a importância a zero. Ao vazio. Que é como deve estar. Sequer me belisca que me vejam altivo e arrogante, quando não pretendo outra verdade. Sequer me atenta que me vejam de piada fácil, riso repetido ou discurso menos moderado, quando é essa a minha sinceridade. Ainda que me chamem privilegiado quando olham de fora, sem autoridade, a olho nu, pelo que ofereço no correr dos dias. Desde petiz que sei que sou um privilegiado. Porque o sinto, porque o entendo, porque o vivo, porque mo dizem. Mas em instante algum recorro ao dinheiro quando penso nisso. A inteligência dos afectos suplanta tudo. E não está à venda. Ou nasces com ela ou encontra-la numa esquina mais adiante. Caso contrário, é um jogo perdido. Saiu-me a sorte maior, sou um privilegiado desde o primeiro minuto.

23.5.17

Moderação dos dias.

Sento-me de fronte para o computador portátil, na cabeça traço um sem fim de ideias. Elaboro-as de um jeito precoce, ainda sem tempo para as desenhar no papel. Ameaço-me com a certeza de que muitas não vão avante. Ficam na intimidade dos meus desmazelados pensamentos. E, sem prejuízo, não me constrange, nem tira a liberdade. Hei-de arranjar espaço. O disco externo morreu, parece não fazer sentido. Mas cabe nele toda a cumplicidade. Nele, uma vida engolida. Perto do esquecimento. Tomo notas para me lembrar que os dias vão mudar. Lixei um dedo com uma inócua - contudo potente arma - folha branca. Lancei um palavrão ao ar. Faço uma pausa. Descarrego um café. Não lhe coloco açúcar e deixo-o temperar com um curto descanso. Assomo-me à janela. Tudo como dantes. Nesta travessa há descanso. Na rua seguinte, avançam carros sem cessar. Volto ao computador, a regra mantém-se. Tudo como dantes. Sigo entre e-mails antigos, a recuperar pendências. Ligo uma vez mais o som, para fazer companhia. No telemóvel um dos grupos pergunta para quando uma conversa pelo Skype. A verdade é que venho procrastinando, à espera de dias mais propensos. Que não chegam. Com promessas de que é sempre amanhã, no máximo depois. Afastando-me dos copos de vinho que não partilhámos, da prosa que deixámos pendente. Dos rumores que não chegam a verdades contadas. Chega mais uma cobrança e não me sinto confiante com o termo. Não me obrigam, não me maniatam nem constrangem. É a saudade da distância a tomar as rédeas. E tristes os dias em que o inverso se torne na norma. Tenho de tentar salvar os documentos putativamente perdidos no disco externo. Há sempre quem nos acorde. E não merece senão gratidão.

17.5.17

Concussão deste tempo.

Cheguei antes da hora, como faço por ser regra. Recebem-me com um sorriso simpático, um discurso bonito e uma simpatia que parece escassear. Encaminham-me para a sala de espera. Nesta unidade de saúde os horários parecem feitos para serem cumpridos. As marcações servem o propósito. Dou as boas tardes a quem já está sentado, à espera de ouvir o nome e o sobrenome. Devolvem-me a saudação e acho interessante. Já sentado, fiz-me esquecido do telemóvel e não lhe peguei uma só vez. O silêncio é cortado, a espaços, pelas pessoas que vêm chegando e que dão as boas tardes. Pasmo-me e não devia ser preciso. Ainda se cumprimentam as pessoas que estão e as que ficam. É tão bom. Volta, sempre a seguir, o silêncio profundo. Só se ouve o som do ar condicionado, tal a ausência de barulho; sequer um burburinho. Fisgo o relógio, ainda faltam uns rasos minutos para ser chamado. Olho à minha volta, tudo de cabeça baixa. A namorar com o telemóvel. Só se mexem as mãos, até os olhos parecem num mergulho sem regresso. Imitam bonecos autómatos, quase inconscientes, longe da reflexão das vontades. O pior é que sou um deles. Não sempre, mas algumas vezes. É fácil afundarmo-nos nesse despropositado e faminto dissipador de tempo. A ver tudo e coisa nenhuma. Ali, à disposição, segue o mundo fabricado. Por nós, pelos outros. As frases feitas, cuja minha tolerância às ditas é nula. O regresso do calor, o primeiro dia de praia do ano, o primeiro banho de mar, as bebidas coloridas, os corpos reflectidos num qualquer espelho de um qualquer ginásio. Os pequenos-almoços, o lanche da manhã, o almoço à hora certa e o fora de horas também. O lanche número um da tarde e o segundo. O jantar, as entradas e a ceia. O cão, os gatos e os pombos na cidade. A melhor amiga e o amigo que deixa saudades. Viagens dentro e fora de portas. O mundo cabe ali. E não lhe negamos atenção. Somos uma amostra de fabricadores de vidas cortadas. Vivemo-las mais ou menos daquele jeito, cortámo-las à medida de uma rede social, pregamos-lhe um filtro em cima, com as definições certas, redigimos uma legenda profundamente anedótica, inundamo-la de cardinais colados a palavras-chave e finalizamos clicando no ‘publicar’. Boas leituras e bonitas imagens, é o que desejo.

2.5.17

Reduzir a vapor.

Não me incomoda. Nem um pouco. Que as ruas se vistam do que os transeuntes lhes queiram adornar. A servir propósitos vários. Os que me fazem sentido e os outros. Cartazes largos e letras garrafais. Frases que ganham terreno no ouvido. Braços levados ao ar. Mãos feitas em punho ou pensadas como finas penas. Corredores de gente. Vozes sintonizadas. Uníssonos variados. Faixas largas e letras encarnadas. A cor da pele num convívio que havia de ser replicado. A convicção a juntar e a servir a comunhão. A pensar a sociedade e a levá-la à evolução. A firmeza nos passos. A certeza de que agir é, sem sombra de dúvidas, melhor do que fingir. Tudo isto, claro, encabeçado pela cidadania consciente. Usar as ruas, sem recorrer a artifícios, para marcar uma posição. Não me incomoda. Só me castigo por não me ver envolvido numa ou noutra cuja causa apoiei com firmeza. E volto a teimar com a mesma certeza. Hei-de fazer tombar o rosto de um ou outro familiar. Com esses desisti, algures, de fazer da prosa uma demora. Demarco-me da opinião e travo antes de o baralho desmoronar. Contudo, vezes há em que me esqueço e entro numa guerreia oral – com as devias cordialidades - que não tem montante nem jusante. Incorro num esboço da minha fácies, mais fechada e assumidamente zangada, quando a intolerância chega de tipos – homens e mulheres – com idade para saber distinguir. Pessoas com a minha idade ou menos, donos de um ruído interno que lhes consome o discernimento. E, consequentemente, que mutilam a realidade do outro. Lamento a política perdida. E as mentes cujos donos parecem acéfalos. Não me incomoda, senão a volatilidade de uns e a carência emocional de outros. À rua o que é do povo.

18.4.17

Inferências matinais.

Acabei por pousar o livro de páginas generosas sobre o que havia de chamar de mesa de apoio. Estava, há tempo demais, à espera de um dia. De uma pausa conveniente, de um lugar perfeito. Agora tem um candeeiro aperaltado, de design arranjado, uma vela com a marca estampada e um arranjo florar todo primaveril, por companhia. Penitencio-me – menos do que seria necessário – por não devolver a atenção de outros tempos à leitura. Atropelo-me, à margem de outros termos, na hora de fazer escolhas. Surgem opções e razões. Entram numa luta inglória. Fico feito coisa nenhuma perante o resultado. Não sei outro facto senão que sou eu o único e real culpado. Não ofendi a decoração pensada, mas adulterei a função do livro. Noutro tempo, ainda pequeno e sagaz, inventava formas de assaltar a estante da casa dos meus avós maternos. Vi-a imponente, carregada de enfeites. Os livros tinham lugar de honra, nas prateleiras cimeiras. Depois de várias e vãs tentativas, o sofá de orelhas pareceu-me a escada necessária. Queria ler e, mais do que isso, queria conhecer outros e diferentes enredos, outras palavras e autores. Por sabê-los longe da minha idade, larguei na procura de lá chegar. Tinham um sem fim de prosa e poesia. Li novelas de autores nacionais e internacionais. Dicionários de filosofia e botânica. Um livro bem discreto com bonita poesia erótica, cujo nome da autora ainda hoje não consigo recordar. Certamente, li fora de tempo, antes de ter o discernimento necessário. Hoje corro sei lá para onde, deixando ficar partes fundamentais da engrenagem. Falta-me a agudeza de espírito e a finura do corpo para voltar à fonte do raciocínio.

3.4.17

Excelso desenvolvimento sobre um ponto “doutrinário”.

A primavera a dar o ar da sua graça, a favorecer, finalmente, os maldizentes da estação molhada – onde, uma ou outra vez me vejo incluído – a levar as gentes à beirinha das águas ainda frias. Os calções de banho com as listas certas, o bronze comprado, os biquínis da marca que há-de badalar lá mais para a frente. Ao convívio dos castelos de areia. Os pequenos numa felicidade sem tamanho. Os passadiços, as marinas e as esplanadas vestem-se a rigor. Os óculos de sol são novos. As mangas encolheram, as pernas já espreitam a cor dos dias. Encontro alguma pressa nas vestes. Os gelados artesanais e dignos de fotografias para o Instagram a fazerem os primeiros estragos primaveris na dieta alheia. Mas a ganhar gostos porque as legendas são um chorrilho de #HASHTAGSSEMNOÇÃOEMUITAREACÇÃO. Cumpre-se o dia nessa função. Ouvem-se os passarinhos, fisga-se a ideia do romance de algibeira e crescem briosas as flores da época. Fosse capaz de sucumbir à heresia dos amores eternos e era ver-me deitado sobre a flora de um qualquer jardim abastado da cidade. Ou num pedante socalco das imediações. De mãos entrelaçadas com a figura feminina que havia de segurar-me – entre juras de amor constantes, actos a justificar o dito e paixão sem fim (que todos sabemos que é visita de todo o tempo) – até ao último dos meus dias. Ainda com os olhos divididos entre a profunda beleza da jovem e o céu azul sarapintado de um branco fofo. Ainda com tempo para fisgar com o olhar as espécies que viajam airosas pelos ares. Respirando fundo e sentido o pólen invadir as narinas, numa gritante e dura guerra de um inimigo que, bem sabemos, logo depois, gritará dono de todos os decibéis, que restar-nos-ão apenas umas valentes alergias. Terminando, apenas, lamentando a minha falta de jeito por, em momento algum, ter levado outras pessoas relevantes a ver borboletas coloridas e bamboleantes, assim como, não ter colhido as mais frágeis mas simbólicas flores de um qualquer canteiro. Respiro fundo. Mas com cautela. Temo o regresso da hipersensibilidade.

29.3.17

Pendência que carece de uma valente troca de ideias.

Enche-se a boca para dela saírem impropérios vários. Dos que não interessam. A ninguém, a nada. Invadem o outro num discurso pernicioso, avançando num abalroar da essência do que e de quem está do outro lado. Da liberdade. Do apregoar tão fácil, do aplicar tão difícil. Absurdo no seu máximo conforto. Espaço privilegiado mal aproveitado. O ritmo do peito não desafina. Há coragem ignorante, senhoras e senhores. É disto que tenho medo. Vê-los, numa posição que teimam favorável, num atentado persistente à condição humana. Questiono como se sentirão depois da barbárie. Penso nisto, logo depois de um vídeo que me fizeram chegar. Onde um jovem casal relata a sua experiência. Lutam contra o prejuízo, sem temerem qualquer juízo. E só assim faz sentido. Colocam-se na sua pele, na do outro e resulta num conjunto de palavras tão certeiro. O preconceito no epicentro das tábuas. Mas posso e devo lembrar-me disto sempre que alguém próximo, tão próximo como um amigo, ou um transeunte aleatório, passa por mim. A educação para a cidadania – real e efectiva; não a ficcionada do costume – faz toda a diferença. Plantar no primeiro minuto para esperar frutíferos comportamentos mais tarde. Não me interessa senão a formação do cidadão. O conforto de viver a intimidade. Um tipo não pode exercer sobre ninguém a sua verdade. Somos ricos dentro da diversidade. Agradeço a bênção que tive nos valores que me passaram, na família que me instruiu e nos amigos que me calharam em sorte. Não é mentira se lembrar que, à minha volta, também proliferam os sabedores bacocos de toda a hora. Os imperadores do preconceito – na família e nos contactos mais alargados, porque aos meus amigos, e de outra forma não poderia ser, não lhes reconheço a intolerância. E alinho numa discussão – saudável e capaz – até ao limite do razoável. Desligo, quando o burgesso sobrepõe-se ao bom senso. É importante lembrar que o preconceito não está erradicado e somos todos, a qualquer instante, putativas vítimas. Bem-haja aos que vivem ao invés de molestarem a vida alheia.

23.3.17

Adágio susceptível de discussão.

Finalmente, a carta nas minhas mãos. Já lá vão uns dias, sob um céu carregado, ameaçando com chuva para qualquer instante. Deixei o carro longe, vim pelas ruas da cidade. A calçada húmida. Um cão anda do avesso, parece à descoberta. Logo depois, o dono chama-o. Traz um lenço enrolado na cabeça e isso dá-lhe estilo. Espreitam umas madeixas de cabelo bem enroladas. As calças largas, com riscas desenhadas. Fuma e parece bem, ameno no passeio, capaz nos corredores da vida. Gabo sempre a verdade e o atrevimento de dar-lhe espaço. Prefiro-a à expectativa. Fez-me lembrar um tipo que conheci lá atrás. Era genuíno, testava os outros e refugiava-se nas drogas. Tanto, que vezes havia em que não sentia nada fisicamente, mesmo que o tentássemos esmurrar. Mas isso é garrulice para outras núpcias. Nas minhas mãos, por fim, a carta. Longas linhas de um recheio que já conhecia, uma tabela que justificava o resto. A internet aproximou-nos de tudo, chega sempre no imediato. A carta é a burocracia a fazer das suas, a formalidade dos actos. Guardei-a no bolso interior do trench coat. Disse-me a minha irmã o nome do dito e, por isso, não desminto. Tenho em espera umas ganas valentes. Que me vêm atiçando. Provocando no sentido da mudança. De promover a novidade. De afastar o repetido. A carta não mais foi do que a prova disso. Decisões, decisões e mais decisões. Hei-de tomar rumo. A ver vamos se o certo. Recusar hoje pode trazer frutos amanhã. Aceitar agora pode carregar maleitas no futuro. Absorto, insensível às solicitações, não garante soluções. Estejamos aperaltados e perfumados ou na simplicidade da rotina. Há espaço para ambas. E a verdade gosta disso. A expectativa dá-lhe honras de presidente.

15.3.17

Uma canção feita de razão.

Vinha de óculos escuros - uma oferta que vem de outros cenários, que me deixou feliz e que são, por estes dias, os meus preferidos - a rir-me para o miúdo que, passos à minha frente, exercitava a garganta, numa cantoria sem fim. Desconheço a autoria, mas deve ser um dos sucessos da actualidade infantil. Ao colo da que imagino ser a mãe, trauteava, ora com onomatopeias, ora com frases feitas. Os caracóis cheios de graça, num balanço certeiro com a passada da mãe. Segurava, firme e com confiança, um pequeno cavalo preso por um fio. Não guardemos dúvidas, os putos são o mais importante e interessante da sociedade. Logo, capazes de absorver o melhor que tenhamos para lhes dar. E o melhor, esperamos, é a sabedoria emocional que transformar-se-á nas ferramentas para que, um dia adulto, exercite os seus deveres e direitos com a harmonia necessária. Com o respeito que tanto falta. Pecamos sempre que ignoramos a responsabilidade que temos na educação e formação de um miúdo. Na atenção que lhe devemos. Não é preciso ter o nosso sangue, basta ser coabitante neste espaço que se quer socialmente saudável. Lastimo sempre que encontro pessoas que, num desgoverno de relação, avançam para a gravidez como o reduto da salvação. Ganhem juízo, apetece-me pedir-lhes. Uma amiga de longa data, hoje mais conhecida do que dona de outro estatuto, por força da distância física e do afastamento que a relação forçou de tudo e todos, está grávida. Esboça um sorriso e guarda o verbo animado na ponta da língua. Mas todos temem. A família agasta-se, os olhos estão pesados. Dir-se-ia que está num esforço suplementar para não deixar de tentar. É transversal. Dos elementos do topo à franja da base. E, restou-me, desejar-lhe o melhor e lembrar que estamos todos no lugar de sempre. Que seja a melhor das viagens.

14.3.17

Fadário que levou sumiço.

Pareço atarefado, mas é só o compromisso de não ceder ao enfado. Procuro, com os olhos, a chave. De outra forma não poderia ser, descansa no lugar de todos os dias. Desligo, num gesto automático, a luz da divisão. Espreito pela janela e espero que não chova. Pouso o tablet e agarro no relógio. Acomodo o cabelo e visto o casaco. O telemóvel numa mão, a tocar sem sossego, o número que prefiro ignorar. Volto lá mais tarde. Com a gestão exímia dos tempos. Na outra mão, alguns subscritos. Nunca são suficientes, tantos os que sabem o seu destino. Foi o mote, uma carta aguarda que a levante numa estação de correios. Adio, por falta de convicção. Venho, entre escassos passos e exacerbados actos, perdendo a convicção. É outra versão. De mim e das minhas expectativas. Porventura, noutra época bem mais empoladas, inocentes, felizes e garantidas. Hoje, mais realistas, assentes na certeza, funcionais e nada ficcionadas. Não esqueço a professora de Ciências que me gabava o cálculo certeiro e o raciocínio apurado. Vaticinou-me o destino. Lamento, cara professora, saiu furado. Entrei no comboio ao lado. Arrisco sempre na combustão improvável. Demora a acontecer. Mas não é longe para a sorte grande. A outra já tenho e é com ganas que guardo.

9.3.17

Medição feita por um instrumento.

Viro à esquerda por preferir andar do avesso. Hei-de deixar boquiabertos os que me compõem como um tipo às direitas. Sê-lo-ei, numa base que me rege e que não descuro, mas fujo, noutros pilares, do cinzentismo, das regras que sufocam. Disseram-me, há atrasado, que sou um tipo com coluna vertebral – as metáforas são sempre uma escolha viável – mas que visto uma pele altiva. Disseram-me, outros e mais informados (não sou tendencioso, apenas factual), que sou um tipo bom – menos trabalho no que respeita à procura do léxico, o que denuncia a proximidade – e que isso se reflecte num role inesgotável de razões. Até que sou, em querendo, um comediante em potência – uma hipérbole tamanha, fora de pé, como se quer. No trajecto, uma canção feliz, que exige a alegria e o espírito em animação. Que dispõe o corpo, que o transporta para um começo de dia que augura o melhor. Vozes há, que mudam as letras. Músicas há que as enriquecem. Suplantam o original vezes sem conta. É o caso. Aproveito-me dela e magico ideias nada exequíveis e alienadas. Das que me permitem ruminar largos minutos, desaguando num valente e despenteado momento de felicidade. Serve o introdutivo para lembrar que somos todos, um e cada qual, um cabaz psíquica e emocionalmente recheado. Reagimos conforme o ambiente. Agora um jazz atencioso, a seguir um rock pesado. Um fado arranhado, noutra altura um pop raso. Entro pela porta grande, não me lembro se pela direita ou pela esquerda, sequer tenho memória de qual dos meus pés pisou o solo primeiro. Está à minha espera, o rosto ganha uma luz efusiva, respondo da mesma forma. Acena-me, numa excitação que lhe é característica. Levanta-se, abraça-me e deixamo-nos ficar. É muito bom. Sentamo-nos, um à frente do outro. Antes de qualquer coisa, perguntou-me se ainda escrevo, se ainda dedico as minhas pausas, maiores e menores, às prosas numa folha. Acenei positivamente. Quero ler-te até ao fim, retorquiu. Certamente há fundo de verdade. As leituras são sempre dos outros.

6.3.17

Compleição com carácter de asserção.

Sob a cacimba, o mar um tanto revolto lá em baixo. O passadiço enorme, transeuntes estrangeiros e esporádicos. Uns caminham para lá, outros vêm para cá. Trajados a rigor, alguns testam as temperaturas. Trazem as máquinas para memorizar, um cajado para apoiar. A terra esculpida sem obras do alheio, na ribanceira desenhado o trajecto. O verde tem viço, típico da natureza que ainda consegue fugir das maleitas. Fora, assim chegados, este o cenário que cruzámos. Demos, então, descanso ao carro. Algumas casas nas costas, poucas. Juntos, é a primeira vez que visitámos o lugar. Noutros tempos, fiz-me audaz e desci, o máximo possível, num caminho inventado. Fomos dois, ambos insanos, característica da idade desmedida. No topo, gritavam os nossos nomes e devolvíamos sorrisos largos. Fomos felizes, no fundo. Literalmente. Agora, regressado e com a melhor das companhias. Deixo-me encantar, só a observar. Não acredito em cenários perfeitos, tampouco em ocasiões obrigatórias. Dispenso o romancear das pausas. Dou preferência ao corpo a reagir. À mente a carburar. Rir, assim como, conversar e o silêncio respeitar, deve ser a maior das bênçãos. Partilhar a intimidade dessas necessidades, é ganhar conforto. Ao invés de certezas, que falecem sempre. Olhar nos olhos é ver para lá do horizonte. Encostados ao carro, depois do passeio, as primeiras pingas da manhã. A razão grita para que fujamos, o instinto pede que fiquemos. Já lá vai tempo suficiente para perder, mas a imagem mantém-se intacta. Ficámos até fugir. Só não largámos as risadas comuns, a prosa demorada e o silêncio estimado.

1.3.17

Ser humano do sexo feminino.

Chega no BMW, com o cabelo arranjado, de longe vê-se que é pintado. O sol ora espreita, ora faz gazeta. Demora a estacionar, o lugar de sempre, a teimosia também. A boca num movimento exacerbado denuncia a chamada. Acena com a mão esquerda, esboça um sorriso largo, provavelmente, num soluço da conversa. O volante gira e torna a girar. Por fim, o carro está no espaço que pretendia ocupar. Primeiro um pé num salto generoso, a seguir o outro. A sola vermelha é a assinatura. Traz o iPhone colado ao rosto, a mala com a marca visível e uns brincos extensos. O perfil alongado e chamativo. Nós, sentados na esplanada a que voltamos com frequência. Pensamentos e afirmações num reboliço. Tão somíticos no palavreado quanto possível. Chega, então, a dona do BMW. Os olhares alheios têm um só destino: a própria. Cumprimenta-nos, um a um, e faz-nos companhia. Desculpa-se pela demora, mas foi culpa da cliente e da nora. É amiga de longa data de uns, conhecida de outros. Amiga da putativa noiva, madrinha se o casório sair. É puro divertimento partilhar o espaço com ela. Animada como poucos, dinâmica, profundamente inteligente e isso reflecte-se, entre outros aspectos, no humor dilacerante. Leis é com ela, capaz de interpretar e fazer por resultar. O corriqueiro quotidiano não lhe escapa e adora fazer parte. Quando regressávamos, em jeito de balanço, lamentávamos os pré-conceitos. Desde logo por ser mulher, bonita, sofisticada. Depois, por ser a prova de que essas características são genuinamente capazes de viver em harmonia com uma vida profissional cheia, difícil e que a realiza. Certamente, há que temer um tanto deste mundo e do outro, nunca as mulheres que o são por inteiro. Sem travestir, sem medo de existir.

15.2.17

Perorar em favor do bom senso.

Não detesto dar razão ao outro. Senão quando não tem. Mudar de hábitos é a inteligência a exercer a sua função, de ti para ti, é o atrevimento de ser-se fiel a ganhar terreno. Quando assim é, promovo a cumplicidade. A troca de ideias, a conversa sem desgosto, a mente a desprender-se. Não é recente a minha vontade de mudar hábitos. Venho guardando, passo a passo, até que chegue à convergência da razão com a realização. Não aconteceu ontem a minha franca mudança no que respeita à alimentação. Fujo dos fundamentalismos, opto pela saúde e pela verdade dos meus dias. Cedo em todas as ocasiões que justificam e não perdi. Só fortaleci. Pensava nisto, enquanto subia a rua íngreme, na direcção do lugar combinado. À direita, um prédio antigo, mas renovado. Janelas enormes a rodear um dos andares. Cá em baixo, imagino gente a maldizer a imponência da rua, a desistir de lá voltar. Engano-me, acho. Da rua, vislumbro várias pessoas no que avento serem exercícios de Yoga. Isolada, uma mulher de cabelos esbranquiçados, soletrava – e ler, separada e lentamente, parece-me ser a aproximação escrita do que vi - movimentos exímios, elegantes e harmoniosos. Dava o mote, certeira, e os restantes seguiam-lhe. Também numa espécie de arte de ordenar os movimentos. Dediquei-lhes uns segundos, por ver neles, sabedoria. Continuei o meu caminho. À minha espera, alguém de sempre. Gabei o espaço escolhido, a rua buliçosa e o olhar feliz. Como sempre, de resto. Tomamos a refeição, bebemos a melhor companhia e, sem prever, falou-me da sua mais recente paixão: a meditação. Vem sortindo efeito, garante-me. Não duvido. Que já experimentei e, segundo relatos recentes dos que me rodeiam – e não são insuficientes - a contemplação mental ou, se preferirmos, o acto de meditar, está a ganhar terreno. Em muito, pela necessidade de centrar, sossegar e resguardar alguma da sanidade de que não queremos nem podemos desistir. A propósito, também uma senhora grisalha garantiu-me um dia, que as coincidências são quebradiças e, por isso, sujeitam-nos a delinquir. Não detesto dar razão ao outro, mas prefiro ligar rostos a acontecimentos. Senão quando não os encontro.  

14.2.17

Narração histórica.

As letras garrafais de um jornal renomado a lembrar a necessidade de conjugar o amor e o sexo. Esqueceram outros condimentos e deixaram erros ortográficos bem latentes. Ler um romance. Ler sobre o romance alheio. Parece brincadeira de criança, lembrar que ler é jogar com as palavras e as ocasiões. Aludir às memórias mais recônditas e ao presente desnutrido. Como se do outro lado tudo funcionasse sobre um caminho de felicidade eterna. Ainda se escrevem romances e, quer-me parecer, continuam a ter saída. Mesmo que o resumo seja a tragédia. Encontrar noutros, mesmo que fictícios, o amor ou o desamor que já nos acompanha ou que nos deixou, é facilitar a concretização que a necessidade de sentir aguça. Imaginar o outro é menos pedante do que viver o eu. Tiro um café, deixo ficar. Sem mácula, à espera que arrefeça. Dispenso o açúcar, prefiro temperar com a demora. Ligam-me de uma empresa, com voz exagerada, a dar-me os bons dias, a pedir que lhes dispense minutos e responda a um questionário breve. À minha frente, alguém sorri e pisca-me o olho. Pedi que fosse célere, perdi na aposta. De volta, devolvi o sorriso. À minha frente, já de jornal entre as mãos, dizem-me que o amor finge ser tão frágil de abordar que o preferem ao sexo. Desenganem-se as almas iludidas. O amor pesa e não é para menos. Apostam nele por sugerir dispensar tantas armas. Perde o sexo, que não entra na corrida. Tenho dificuldades em aceitar as generalizações, as opiniões superficiais. Há que oferecer tempo ao tempo. Não sei quem ganha, mas fica sempre o sexo como o perdedor precoce. Por fim, entre a prosa matinal susceptível de dissensão, tomo o café temperado.

13.2.17

Ventilar numa segunda-feira qualquer.

Aventar impugnar sobre política é insano. Tão utópico, quanto estimulante. Por força desta incoerência, um destino que não guarda facilidade no trato e na reacção. Mesmo que reduzas o debate à tua sala de estar, ao café de sempre ou ao restaurante que te faz voltar. Ainda que o teu interlocutor seja alguém com quem privas amiúde, a quem ofereces tempo sem peso, por quem nutres fortes e inesgotáveis sentimentos. Noutra escala, muda o terreno, a bancada de espectadores e, se não te perderes, a cabal convicção das palavras. À frente, outros fazedores de opinião - de quem desconheces a rotina, a herança dos afectos, as escolhas que fazem fora deste ambiente - capazes de zelar pelo que acreditam com todas as armas. Se, ao invés de um deles, estiveres na assistência, vais conhecendo vocabulário que se repete, discussões antigas, confrontos que não acrescentam e, lamentavelmente, não poucas vezes, o afastamento do essencial, da troca que importa. Aventar impugnar sobre política é ímprobo, mas tão fundamental. Num mundo vestido às avessas, destemido na discrepância de valores, fraco na condução das potências e desigual como jamais quisemos. Isto lembra-me alguém. Uma mulher tão politizada quanto humana, que não se coíbe de apelidar a política, generalizando, obviamente, como reduto de uma sociedade derribada. Levanto questões, mas não deixo de ter um prazer imenso em ouvi-la. Vê-la de pernas justapostas, mãos incapazes de sossegar e de discurso bonito na ponta da língua. Assim parece fácil. Assim sou capaz de acreditar.

7.2.17

Escassa produção de razões sobre “eruditos” compostos.

O soalho de madeira antiga não deixa margem para putativas verdades, vem gente. Denunciada a chegada e depois do bom dia habitual, reparo que traz uma revista debaixo do braço. Uma conhecida, cuja temática interessa, maioritariamente, aos homens. Já não compro revistas como dantes. Algum desinteresse, uma ou outra falha nos conteúdos, a coerência deixou-se corromper e os artigos falham na ordem. Salvo raras excepções. Restou-me uma desabituação que perde razão e não convida a fundamentação. Já não sei o nome da revista que li há uns meses. Dissertavam, alguns conhecedores, sobre a moda. A democratização e a exaltação. Confundem-se e divergem, como se não soubéssemos. A moda de rua ainda tem trejeitos que interessam e, sem desprimor, atestam e desafiam a moda de passarela. As cores são pontos de honra a cada estação a começar. Os tecidos e os cortes, as medidas e os corpos não perdem importância. Escrevo sem conhecimento de causa, pois a moda na minha existência não ultrapassa o que visto. O que me parece bem fica, o que não me atrai vai. Simples quanto isso. Arrepio caminho, escassas vezes, numa ou noutra peça que diriam os puritanos, é extravagante. Um assunto que não esmorece, porque como já ouvimos um sem número de vezes, a moda é cíclica. Não me acanho, mas não sou corajoso no instante em que me perguntam a opinião. Ou reconheço harmonia ou não vejo qualidades no que respeita à conjugação. Contudo, aceito de bom grado – e prefiro - uma companhia que opta pela verdade do que lhe assenta. Longe de ser um tipo cuja indumentária é um exemplo, prefiro assim. Embora, não poucas vezes, se me dirijam elogios que agradeço. Nisto como noutra temática, não importa a carapaça. Um dia sentas-te e ressaltam umas meias divertidas. Nunca se sabe. Que ganhe o melhor. De ti e para ti.