Agora
que tenho um chapéu, lembro-me melhor. Um triz de brincadeira, mas afaga o
ânimo e a coragem de levá-lo para fora de portas. Como no fim-de-semana
passado, que passei pela terra sossegada e de encantos inesgotáveis. Durante
largos anos, houve uma palavra que me fez companhia. Não me saía da cabeça. Quantas
vezes me assaltou as ideias. Não sei bem porquê, devo tê-la ouvido algures. Era
ainda uma criança. Depois, procurei saber a definição. Li nos dicionários, nos
livros de relatos históricos. Perguntei aos que estavam à minha volta. Serviu
para dar descanso à curiosidade. Fui, ao longo do tempo, ouvindo-a aqui e ali,
sem lhe dar outra importância. Jamais esqueci a definição. Mais tarde, muito
antes de ser adulto, percebi que era palavra que ofendia. Também quase nessa
altura, percebi as questões que viviam do lado dos que se mostravam ofendidos.
A palavra não importa. Revela relevância, antes, o acto. Não tenho culpa, mas
sou agradecido pela formação que recebi e por, genuinamente, me preocupar com o
outro. Seja quem for, como for. Mesmo que me apelidem de privilegiado e acusem
de ter vivido e de viver no lado bom. Não sei o que é isso. Mas não hesito, em
nenhum instante, se acreditar. Passa o tempo, evolui a sociedade, mas mentes há
que não se mexem. O lamentável mundo actual. Se invertermos a tendência, no
caminho do progresso, tirar-lhes-ei o chapéu.
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30.6.15
15.6.15
Uma mensagem nova no meu telemóvel.
Não
têm um adjectivo, não lhe dão um nome. É uma acção e, inopinadamente, vai
ganhando latitudes várias. É pois, tão fácil ignorá-la. Não lhe dão definição.
Na outra margem, chamou-lhe moda. Não falamos de roupa, de cabides andantes e
de sapatos nas montras. Dos saldos que não interessam a ninguém, tampouco do
casaco de corte mau e das calças sem cintura. Não penso nos ténis, para não me
tentar. A ideia de que um robô é o pináculo da excelência da existência que
todos procuramos, está obsoleta. Mas nela vivemos embrenhados. Abre uma garrafa
de água, verte grande parte para o copo transparente. Nas costas, um ecrã
gigante que reúne informação. Dados e mais dados. Bebe um pouco e volta ao
discurso. Entre as palavras que não perdem com o fôlego, o orador falou na moda
de não pensar. Não fazemos, diz, propositadamente, mas fazemos a favor do jeito
tão displicente como nos demitimos da responsabilidade. Perdoe-me, em sabendo,
o uso das minhas palavras, que em me faltando a memória dos sentidos, me
parecem mais apropriadas. A moda da intuição. Faz sentido, se pensarmos como um
espelho. Funcionas ao contrário, com o intuito automatizado, num escuro que te
limpa a atenção. Até que algo ou alguém te traga de volta. A filosofia já
pensou sobre isto. A sociedade vive com isso. Um mundo inteiro não chega e
enchemo-nos sem pensar. Resta-nos acalmar. Toca o telemóvel, chegou uma
mensagem. Abro o e-mail. É curiosa a confusão. Porque o hábito ganha à acção.
Chego, então, à mensagem e conta-me uma conhecida, que já não vejo há uma série
de tempo, que disse a uma amiga dela para me seguir no Instagram. Estamos nisto. Vivemos ao contrário. Não estamos a ser
jovens, não. Estamos só a ser parvos.
8.6.15
A razão da minha avó.
O
meu telemóvel marca a pausa para o almoço. Depois, a sala cheia e as mesas tipicamente
dispersas. Pessoas e pessoas. Lugares ocupados. Ainda outros por ocupar. O meu
telemóvel marca a hora. Chegamos, eu e ela. Ficamos numa das mesas próximas da
janela grande porque, garante ela, a luz chega e não precisamos de falsificar
nada. Ri-me. Ela continuou, segura nas suas verdades de ocasião, terminando
convicta de que qualquer arquitecto lhe daria razão. Voltei a rir-me. E dei-lhe
pontuação. A luz natural faz toda a diferença. Logo aqui, num espaço montado
com materiais tão escuros. Nisto, chegou ele. Vem de cabelo rapado e blusa às
riscas. Nunca deixou de ser miúdo. E ainda bem. Falta o quarto elemento. A
conversa não tem fim. Ele conta que viu um tipo a correr junto ao rio enfiado
num biquíni. Não viu nada, que as interpretações dele ficam sempre à margem, o
suficiente para lhe conhecermos as entrelinhas. Mas rimos, de resto, como
sempre fazemos quando estamos juntos. Chega, então, o quarto elemento. Atrasada
como é regra. De óculos escuros e cabelo desarrumado, cumprimenta-nos enquanto
lamenta o atraso e deseja uma cidade com menos carros. Que a culpa é sempre do
trânsito. A arquitectura aparece, de novo, na conversa. Elas acham que as
escadas estão perfeitamente entrosadas no espaço. E a janela grande faz toda a
diferença. Lembram-nos para não esquecermos. Senão, imagina, era pior do que
estar horas sem fim à espera do metro. Escuro, escuro. Rimo-nos da comparação
delas. Diz-me a amiga atrasada que nos rimos porque não andamos frequentemente
de metro. É verdade. Não ando. Por questões geograficamente justificáveis. Mas
reconheço-lhe todo o mérito. Nem tens ar para isso, brincou. Deve ser verdade.
Numa das últimas vezes em que andei de metro, depois de um homem nos pedir, de
forma pouco cordial, uns trocos e de lhe ter negado, virou-se para mim e, irónico,
rematou: Tens mesmo ar de quem não tem nenhum. Já dizia a minha avó: Sê o que
quiseres, mas sê como aprendeste.
4.6.15
(Silêncio) O que é não desaparece.
Depois
de uma longa e animada conversa desligaste a chamada, sem necessidade de puxar
pelo poder de argumentação. Tampouco de voltar à matemática feliz. Nunca gostei
particularmente de matemática. Ou, para ser fiel, simpatizei durante longos
anos com esta disciplina, sem qualquer desmérito, que as notas falavam por si.
Até ao momento em que me desliguei e decidi assumir que antes de paixão, era
dedicação. Isto, para me lembrar que sei mais do que o sustento obriga. Números
e outras matérias provenientes à parte, assim que desligamos a chamada, voltei
ao hotel. Àquele hotel, enquanto esperava por ti. Tomo muita atenção, quando
não estou envolvido noutros pensamentos, nas entradas dos hotéis. É um espaço
de gente díspar. É disparate, dir-me-ás. Mas é verdade. Gosto de observar, de
ver passar, como bem sabes. Oiço, furtivamente, uma mulher lamentar o silêncio.
Tem a maçã ao lado, vestida de dourado. No mesmo banco, uma mala com as
iniciais de uma referência do mundo da moda. A alta-costura também ali tão
próxima. Mexe no cabelo comprido e solto, e gesticula com vagar. Deixei de
escutar aqui. Prefiro observar a ser bisbilhoteiro. Vocação que admito não me
servir. Era bonita, tinha um ar arranjado. O homem que a acompanhava olhava-a
em silêncio. É, precisamente pelo silêncio, que tudo isto me prendeu a atenção.
Prezo, não raras vezes, a interrupção da comunicação. Tenho o maior respeito
por quem fá-lo sem remorsos. Sem cobrar. Aprecio ao mesmo nível, a partilha. A
conversa que nunca tem fim. Encontrar alguém que, para além de partilhar a
vida, a rotina, a intimidade, o corpo, os gostos e os desgostos e ainda o
silêncio é, por demais, difícil. Chegar ao momento em que o silêncio não é
constrangedor numa relação, é um alcançar um patamar de excelência. Não preciso
de te ouvir para te entender. E isso eu sei.
28.5.15
Atenção ao sabor do vento.
Anda
meio mundo enganado. Por isso, lê muito, escreve o suficiente, ouve o possível
e guarda. Guarda na memória, num livro cuja leitura seja entusiasmante, num
bloco de cabeceira. Onde for, mas fá-lo. Acima de tudo, devo garantir, fá-lo
por ti e para ti. Porque anda meio mundo enganado. E não querem saber. Anda a
outra metade na corda tão bamba. Anda metade deste mundo iludido. Julgam,
imagina tu, que são o epicentro. Que o mundo, esta escala desregulada, gira e
gira, mas sempre à sua volta. Pois. O tempo passa e a carreira nunca espera. As
notícias acontecem e não aguardam por uma qualquer decisão ou aval alheio. À
janela, entre as cortinas apartadas, aquela velha senhora vê o tal mundo passar
e, como deves supor, não vai só em ti reparar. Quase que adivinho que é
promessa. Ficar de braços encostados, cabelo arranjado, olhar triste. Promessa
ou procura de ilusões. Contrariedade mundana. Anda meio mundo ludibriado. A
outra metade procura, precisamente, a ilusão. Nem damos por isso. Nestas
voltinhas, nestes pruridos. Aqui sentado, privilegiado como sempre me disseste
que sou, fico a vê-los passar. Há jornais na mão, pernas cruzadas, chapéus com
fitas a condizer. Bancos de jardim acompanhados. Crianças com sorrisos na cara.
O pequeno rapaz de carro na mão chora enquanto o levam pelo braço. Estrangeiros
de máquina em riste. Fatos elegantes passeiam por aqui. Malas, sacolas e sacos
de todas as cores. Gente para cima, gente para baixo. À espera que o dia chegue
ao fim. É só alguém não se esquecer.
27.5.15
Peça de duas rodas à janela.
Não
me perguntem onde tenho a cabeça. Que tenho-a em muitos lugares. E, para não
mentir, teria de recorrer a citações de um livro de um dos grandes, dos autores
nacionais que escreveram com pedaços de coisas quebradas. E dividia, sem defeito,
a autoria. “Livro do Desassossego”. Não me lembro da última vez em que peguei
numa bicicleta. Literalmente. Admiro-as e quero aquela. Idealizei-a primeiro,
depois fui encontrando bocados dessa ideia numa ou noutra com que me fui
cruzando. O todo está perfeitamente construído na faculdade do meu pensamento. Vejo-as
em revistas bonitas, em quadros de arte maior, em cartazes que me fazem parar e
em fotografias que me fazem sossegar. Perco-me, se não for um exagero da
definição, em lugares online que
mostram a mesma bicicleta em lugares diferentes, correndo o mundo. Outras, em
que o mesmo sítio vê passarem as mais diversas e desconexas. Um certo dia, algures
na adolescência acabada de começar, num passeio a três, eu e mais dois amigos,
num terreno tão maninho, caí sem definição. Uma descida mal calculada. O resto
já se sabe. Mas não foi nesse tempo que desisti. Hoje repito instantes. Paro,
se achar apropriado, para fotografar uma bicicleta. E espero, sem pressa, pelo
dia em que ela vai chegar. A sala da minha casa pode ser o horizonte. E, sem
prejuízo, deixá-la lá ficar.
14.5.15
Sonho ou outro termo qualquer.
Paolo
Conte canta ao ouvido, enquanto as escadas de sempre são o elevador que prefiro
não subir. Estou a rir-me desde manhã, como se fosse possível. Mas mantenho um
sorriso na cara e não é mais do que o meu instinto e o meu intelecto, se
capacitados para funcionar em simultâneo e em convergência, a dar-me sinais. A
falar comigo. A conversar e a partilhar opiniões. Há um tempo, não tão distante
quanto isso, perguntaram-me, num tom mais afirmativo do que questionador, se eu
sonhava alto. Devo ter respondido qualquer coisa que já não me lembro. Mas
sonho. Vou sonhando e em diferentes escalas. Sempre, e isso é essencial, de
acordo com as minhas convicções. Sonho ser capaz de realizar sonhos. Criá-los
de raiz, numa folha em branco ou num qualquer lugar onde a minha verdade e
disponibilidade sejam precisas. Sonho, se não abusar nos metros em que me
coloco, escrever sobre a fantasia, as ideias que permanecem guardadas neste
espírito. Com o intuito nada banal, mas pouco modesto, de fomentar o sonho no
outro. Talvez, influência de um ou outro enredo bem escrito. Como no tempo em
que as novelas eram lidas com gosto. Já nem lhes dão esse nome. A minha irmã
mais velha guarda algumas, muitas sem saber. Na verdade, o gosto dela pelos
livros encerra-se na vontade de os comprar e de os saber ali, em querendo
lê-los. E, em não me esquecendo, volto à sua espécie de biblioteca. De
preferência, sozinho. Continua a soar Paolo Conte ao ouvido e na secretária,
entre outras entretenhas, uma novela das antigas.
23.4.15
A causa do fundamento.
Saiu-lhe
um palavrão sem pensar. O modo de viver que decorre do nascimento até ao ponto
final é digno daquela palavra. Qualquer dia ensandeço, viro costas e vou-me
embora, compro uma quinta que me faça perder o horizonte. Deixo-me ficar lá,
hei-de gozar o triplo. Dizia ele e não deixa de ser verdade. As opções existem,
falta a coragem, a insensatez e o desapego aos nossos. Lembrei-me desta
conversa enquanto ouvia música. Um som dos anos oitenta, se não me engano, de
mil novecentos e oitenta e dois. Está sol lá fora, falam-se dos altos níveis
dos raios UV, antecipando cuidados. Nas ruas há gente a viver as temperaturas
mais secas. Há chinelos no pé, t-shirt no lombo, calções sem condizer. Vestidos
fluídos às cores. Flores e riscas por todo o lado. Chapéus com fitas à volta
que ganham nomes tão técnicos que nos fazem parecer descerebrados. Também
importa, mas não interessa nada. Assusta-me a banalidade com que se abordam
certos temas. A facilidade em tomar a vida do outro pelo nosso olhar. O nosso
prisma, as nossas vivências vão, inevitavelmente, talhar as nossas opiniões.
Ficam inquinadas e, para sermos justos, não traz benefícios. Como a exposição,
tempo sem conta, ao sol. Sem protecção e sem juízo. A última é uma
característica deste homem, do mesmo que ameaça mudar de vida. É mais velho que
eu, habituei-me a escutar-lhe as estórias e a sabedoria. Talvez, seja essa a
procura de todos os dias. Uma das maiores, se quisermos. Pior do que não saber
onde estamos, é não saber quem somos. Não acredita em Deus, mas sabe que quando
lhe chegar perto, será, por demais, bem recebido.
6.4.15
Diz-me quem és. Dir-te-ei quem sou.
A
ardósia não engana. Uma vez escrito, ainda que, generosamente apagado logo de
seguida, ficam as marcas do giz dançando, aos solavancos, por ela. Tomem
cuidado com as notas de rodapé. Há propostas que, a seu tempo, quando
descobertas, podem tornar-se lei. Preocupem-se, pelo menos, em mostrar uma
caligrafia alinhada. O resto, sempre o resto, servir-nos-á de quadro. À entrada
ou à saída, conforme a posição. Ali, à espera da mensagem arranjada. Entra. Ou
volta sempre.
24.3.15
A completar.
Fecha
os olhos, compreende enquanto escutas e sentes, aquilo que te chega e se
propaga corpo acima, corpo abaixo. Enquanto leve, sem maneiras e funcionalismos
do pensamento, ela leva as mãos ao cabelo arrumado. Contudo, cabelo da moda,
mesmo arrumado, denuncia uma flagrante e nada inocente desarrumação. Enquanto ela
veste o seu casaco com quadradinhos sem fim. Enquanto se perde num passeio ao
ar livre, sobre as suas botas rasas. Enquanto permite que partilhes a cama com
ela mais do que uma noite. Ainda que, todas as noites inteiras sejam tão pouco.
Enquanto ela se preocupa em dar-te a conhecer o melhor que já lhe passou. Sabendo
que uma relação inteira proporciona, por demais, pouco tempo para dispensar uma
mostra da prosa e poesia que lemos, das peças sobre as tábuas de um teatro e da
arte em geral que se multiplica pelo cinema, museus ou na rua de um país. Tudo
o que adquirimos, aprendemos, vimos, vivemos e intuímos juntos. Tudo isto é o
amor a propagar. Mesmo sem palpitarmos. Perdemos um tanto, se olharmos para o
lado. Perdemos a faculdade do amor, se não sentirmos o verdadeiro. O entusiasmo
de ontem.
10.3.15
A unidade que forma um todo.
O
mundo pulsa com frequência. Por estes dias, é um mundo noutro compasso. Numa
ambiguidade impessoal. Arqueja ao mesmo tempo que ganha firmeza na musculatura.
Toma a forma de logração inócua. Avoca, inevitavelmente, a eterna dúvida, como
qualquer contradição exposta. É transversal, agora tudo chega a todo o lado. Um
ponto corta tudo, sem dó nem alma, até ao ponto final. É uma linha imaginária,
por certo, oblíqua. Uma veia melindrada pela invasão inesperada. É uma
tentativa de normalizar, ao invés, de padronizar. Surge como uma democracia
funcional. Convida o povo a acreditar que exerce a soberania. Mas é uma questão
que ganha recheio noutras áreas, tão relevantes quanto uma questão que lateja
por resposta, um governo que tem toques de aristocracia. Arraçado de pináculo
da linguagem impopular. No entremeio, ficam-nos as questões bem mundanas.
Putativamente menos transversais. Como os quadris naturais da mulher que vive
fora da cidade serem bem mais tortuosos do que a transversalidade nacional.
3.3.15
Desalentam-se os dias.
Os
dias já não se esgotam da mesma forma e compasso. Alguma vez os príncipes
haviam de ficar nos livros e os cavalos num bonito e verdejante pasto. Os
puzzles já não se guardam em caixas perdidas, os carros ganham nomes de coisas,
o inverno tem caprichos de petiz desavindo, os casacos de cabedal já vão ao jazz e o sushi é a linha da frente das
opções gastronómicas do cosmopolita informado. Aquela cantora nacional que o
mundo apelidava de pimba e, cujo tamanho do silicone, diziam ser inversamente proporcional
ao talento das canções é, agora, a diva terrestre. E, felizmente, ficam as
marionetas, que vivem felizes e contentes entre as linhas do domador e a
alegria de quem as vê com vida. Gritaram por mim. Chamaram-me para a varanda do
primeiro andar. Vem cá, anda ver. Sucumbi. Douta ignorância. Fotografei as nuvens.
Ironia do sarcasmo, fotografei as nuvens no céu. Voltei a vergar. Postei no
instante. Terminam, num remate sorridente – As coisas simples da vida são boas.
– Ainda vão amolecer e deturpar as minhas teorias da origem.
26.2.15
Ainda sem data para arrancar.
As
borboletas no estômago já não fazem sentido. Ou outro bicho bamboleante
qualquer. Ou noutra zona tão ou mais digna para receber a ansiedade. Estúpido é
como me sinto enquanto escrevo estas palavras. Ouvi-las é bom, mas sinto o
contrário. É o tempo da contradição. Quem espera, desespera e é tão certo.
Semana de expectativas. De respostas que tardam. E, em sorte, respostas que
mudam vidas. Ainda assim, tenho cautela quando me falam em vidas alterar. Não acredito
logo. Nem a seguir. Volto à teoria das borboletas em desuso e em como aquelas
palavras me encheram a cabeça. Quando as ouvi, há dias, da boca de uma pessoa
que admiro e tem gana no trabalho que faz e na vida que escolheu. A ansiedade não
consome sem medo. Antes, com medida e peso. Como na aldeia, de medidas certas,
o feijão seco do vizinho e o grão da dona Ermelinda Sarapintada. Ouvi, também
há uns dias, um senhor de mãos gastas a falar-me da Sarapintada. Vendedora de
aldeia. Carregava sempre os pesos e as medidas. Valente de balança às costas. E
volto à conversa anterior. Dizia-me, com segurança nas palavras e convicção nos
sentimentos, que não se lembra da ansiedade no corpo. Talvez, nunca tenha
conhecido as borboletas interiores. Mas tem receios. Sabe, contudo,
amedrontá-los. Vive bem com isso. E, pensando bem, não escolheria as borboletas.
Toldado pelas formas tão bem definidas, ficar-me-ia por uma volta na Vespa da cor do chocolate.
24.2.15
À terça sobre a segunda alheia.
As
segundas têm um espírito próprio. Podemos falar de novas oportunidades ou da
infelicidade de retomar a imbecil matemática dos dias carregados de monotonia e
de trabalhos inóspitos e colegas de má rês. As segundas são um falsificado amuse bouche. Amam-se ou odeiam-se.
Lembro-me, desde sempre, de ouvir quem lhes desejasse a morte e, ao mesmo
tempo, quem lhes dotava dos maiores elogios. Como se fosse uma pessoa. O senhor
simpático da mercearia, a tia que ninguém atura ou a amiga lá de casa que se
esquece de vocábulos como privacidade ou não usa relógio, embora, forçadamente,
fale com a dicção tão afectada que nos obrigue a uma tradução em tempo real. A
volatilidade dos termos e da crença de cada um, começa cedo. Logo nos
primórdios do entendimento, ainda que, nessa altura, voem apenas as palavras.
Bem mais do que a verdade e a compreensão. Ontem, segunda-feira, leram-me o
horóscopo da semana. Semana amena, dias bons. Saúde em perfeito equilíbrio.
Trabalho numa fase favorável e do amor reza que do passado não vive um nativo.
No meio disto, há sempre a frase feita e a palavra universal e que, alheados,
nos faz algum sentido. Agora mesmo, enquanto escuto alguns temas da Brenda Boykin, pensava como saltar numa
rua qualquer, com um ou mais balões coloridos na mão, fosse bem mais credível
do que a leitura que me fizeram a atrasado. Bafejado pela sorte, quem sabe,
chegar-me-á um presente do ainda futuro, e faço o pleno. Canta a Brenda Boykin e não engana, “Love is
in Town”.
16.2.15
Casamento para tirar proveito.
Como
em tudo na vida, a verdade existe sempre, mas não deixa de vestir-se de uma
máscara, tantas vezes, bem mais ardilosa e rebuscada do que o mote, a verdade.
E não é diferente num bar de Portugal que imita os pubs antigos. Os verdadeiros, os britânicos. Com o comércio de
bebidas alcoólicas sem fim. Encontramo-nos lá. Fui com companhia. Estavam,
entre outros tantos, duas pessoas no balcão, que nos esperavam, como haviam
passado a indicação. Duas mulheres portuguesas, no espírito da comunidade
estrangeira que dinamizava o espaço. Que barafunda pegada. Uma confusão
desmedida. Menina liberal de escola interna, de faculdade livre e educação
apertada. Solteira por convicção na rua. Solteira por falta de oferta real, no
conforto da intimidade. Conta sem maldade. Com um copo na mão, depois outro. É
amor num dia, é carnaval no outro. Era a vida dois dias, o carnaval três. Má
sorte, lembrava ela enquanto se lamentava, pois estragaram-lhe o ano com a
união das datas. É mais fácil investir na ilusão. Soltou um foda-se e seguiu – Logo hoje que a minha mãe me lembrou que uma
mulher e jornalista nunca anda mal-amanhada e desprevenida. Caso-me com um
secador de cabelo e uma máscara para as pontas. - Vai presa por bigamia.
11.2.15
Indivíduo pouco entendido.
Há
quem vista uma blusa de lã grossa, calce umas botas grossas e não se esqueça de
umas peúgas quentes. Quem coloque, ainda, um cachecol forte, um casaco
protector e elegante e, se for homem de coragem, termina com um bonito chapéu
de qualidade. Do jeito dos que se viam nas lojas antigas no centro da cidade.
Ainda as temos, míseras lembranças. Uma aqui, outra ali. Chapéus, uma paixão
por viver. Depois, porque parece que a chuva só molha os tolos, há quem vista
uma blusa de riscas para enganar o tempo e a água que não dá descanso. Riscas
azuis e brancas. Ou pretas e brancas. Já não me lembro. Tácticas de um jogo ingrato.
Que pouco importam. Ou nada. Não me queixo das técnicas alheias. Mas volto
sempre ao princípio. Um chapéu de bonito corte e tecido forte.
10.2.15
Das nuvens altivas, cai com destino.
Que
lamento, ouve-se de voz em voz. Que desgraça, este pé de água tão forte. Que
incerteza de escolher a roupa e a rua para seguir o caminho. Anda meio mundo
mais triste, com a saudade de um sol que é feliz. Chove como manda a lei. E
como pedem os que dela precisam. Os mais antigos pedem as águas com a fartura
da necessidade. Que preciosa a pinga que chega no momento certo. Cresce fresca
e viçosa, verdura gaiata e marafada. A chuva dá-lhe ganas de vencer. Os mais
velhos gostam da arrelia da chuva a desorientar as gentes que praguejam.
Gostam, outro tanto, por certo o tanto vencedor, de vê-la cair com tento, lavar
as terras com esperança e fazer, com tempo, crescer com a alegria do sustento.
Por isso, pedem que Deus lhes perdoe, se algum dia ouvirem um desnaturado pedir
que cesse. Vale a televisão que mostra as vidas arranjadinhas, as praias
bonitas, as roupas de alta-costura, o sol do paraíso. Ou, por seu turno,
inverteram-se os lugares da pirâmide. Contra mim falo. Escrevo. Que lamentar a
chuva que não dá tréguas, enquanto tomo café, pode ser uma perfeita pausa da
leitura repetidamente desarranjada.
4.2.15
Em diferido. #27
A
berma de um Portugal igual - Na generalidade, que é por onde tudo vem, até ao
ponto da individualidade. Há pudor, como quando subimos a rua e desviamos o
olhar. É uma incerteza no contexto da mistura de vontades. Do receio de
enfrentar verdades. Há pudor em cada esquina. Como quando descemos a rua e
preferimos passar sem ver. Falávamos de sexo. Há pudor e uma sentença de
geração. Às vezes é preferível assim. Como se escolher desculpar-se com
palavras que embrulham velhas convicções, fosse a concretização. Quem cala
suporta a inexistência. Não voltamos ao tema em cada conversa. É a proporção da
necessidade. Alheia ou da interna trincheira. Mas elas assumem posição. Diz-se,
ouve-se por aí, são elas as mais autênticas no discurso. Mais próximas da
realidade. Eles enganam conforme a falta do que é imprescindível. Nisto, falar
de sexo é a berma deste país. Aponta-se o dedo, passa-se sem olhar. No fim, todos,
sem excepção, são aliciados. Da berma, riem-se para quem passa. Piscam o olho e
ajeitam o decote generoso. Até lá voltar e gastar o que sobrou. Há sempre quem
negue a verdade num tom majestoso, típico de quem não gostou.
22.1.15
Não é no sentido figurado.
Sugestões
de semana a meio. Diz o povo, corta o tempo e passa rápido. Jantar numa
quarta-feira, é comer os dias. Romper com a ansiedade de um fim que ainda
parece demorar. Sabedoria de um popular que finge ser menor. Seja num inverno
rigoroso, seja num verão de tanto calor. No frio, procuram-se as cores para
contrariar. No lusco-fusco da rua vazia. Dão o braço e caminham confiantes. Conta
a menina ao menino, veste a saia até ao joelho. Disfarça e parece um vestido.
Cidade antiga, não é Lisboa. É como a saia, do joelho para baixo, fosse este
país um corpo. Rua antiga, como a cidade despida. É noite carregada. Conta o
menino à menina, gosta do preto e branco. As tonalidades vincadas. Tão marcadas
que não esquecem as rugas. A expressão. Como no quadro que está naquele salão. Ou
nas pessoas que parecem o dobro, por se repetirem em cada espelho corrido. Lá
ao fundo, centrado. As janelas fazem parelha. Recebem no espaço composto.
Sugerem a mesa que ganha com o talento que está na parede. Sentados, ficam
marionetas autênticas. Aqueles braços que adivinham estar a gesticular,
enquanto comandam um fio que ninguém vê. Sem que te esforces muito, fazes uma
fotografia que conta a mesma história. Assume o papel e posiciona-te como se
fosses refém do comando. Fazemos de conta que ninguém vê. Agora! Disparou. Está
feito. Por uma vez, fingindo um boneco que se mexe à mercê de um cordel por
alguém gerido. Não é, por certo, no sentido figurado. Rimo-nos sem fim.
Ocupam-se os dias com muito mais do que responder. É diferente quando assumimos
as rédeas. Mesmo que, por um fio invisível, adestrados.
6.1.15
Em diferido. #25
O
comando que funciona num jardim da cidade - Ao fundo, o rio e o casario. Tudo
importa. As coincidências, entre a opinião de autores e de perfeitos anónimos
tomando-lhes as palavras e/ou os títulos, não existem. Assim seja. Seja assim,
para quem nunca teve a sensação irrefutável de vivenciar situações que,
faltando-nos o vocabulário e as emoções certas, nos parecem autênticas
coincidências. Ou serão, antes, certezas de um destino traçado, que recusamos
aceitar? As questões multiplicam-se, por força do tempo que dispensamos naquilo
que tantos apelidam de miudezas. Roubamos sem cabermos no acto. Apropriamo-nos
de emoções e certezas. Havemos, em instantes, de lhes bebericar as dúvidas. O
imperfeito que, inconstante, nos eleva na dinâmica do voluptuoso risco de
inovar, aproveitar. Mas, falava eu de coincidências. Não as sei reais, mas
também não as vejo impossíveis. Os sonhadores querem-nas por inteiro,
consequentes. Os descrentes não lhes cedem paciência. Não há rectas. Assuntos
há, em que a regra é não ter regras. Pois, bem sabemos, não é de poesia ou de
prosa que falamos. Coincidência ou não, depois de iniciar uma nova fase, um
novo projecto a ultrapassar o papel, eis que num banco de jardim, algures entre
o rio e o casario pintalgado, uma pessoa vira-se para nós e, num francês
perfeito, nos toca, em parte, no assunto que nos ocupa. No projecto que viaja
por nós, pelas nossas cabeças. Não há coincidências, ouve-se e lê-se por aí.
Há, então, certezas de que, em sintonia, nos acertam no canal.
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