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1.2.17

Cálidos acontecimentos.

Deixei cair o meu telemóvel nas escadas de casa. Fez o percurso esperado, degrau a degrau, até ao soalho final. Deixou mazelas físicas, graves. Das irreparáveis e capazes de contusão feroz num qualquer coração dotado de sensibilidade. Não foi o caso, que sou avesso à partilha de sentimentos avulsos, a antítese de um basbaque a todo o tempo. Brinco, mas não desminto. Isto, dias antes de ser confrontado com o relato magoado de uma traição. Não a frio, que já me havia relatado a separação, bem como, a fragilidade e o olhar mais caído, que denunciaram. Estou longe de ser o que aponta o dedo, o que reclama pela verdade alheia. Cumpro-me nas minhas convicções, acções e reacções, fugindo à badalada e profundamente desleal necessidade de lembrar que não estiveste bem. Longe de defender ou promover a traição, seja em que termos e condições, afasto-me dessa tentação do facilitismo, da corrosão ainda mais vincada do outro. Prefiro opinar em última instância, apenas e só, se solicitado. Nessas alturas, recuso a mentira, mas escolho a prosa alinhavada com as palavras que aparentam ser as mais confortáveis. O olhar baixo, vindo de alguém tão próximo, a dor de magoar o outro, não me deixam indiferente. Também por conhecer o outro lado e, sem cerimónias, lhe atribuir uma genuína forma de estar, uma entrega e um sorriso que desmontam putativas dúvidas. Se me perguntares, agora e só agora, dir-te-ia que não me revejo na atitude e que, relembro, neste instante e só neste, não mimetizaria. Porque quero sempre encontrar a solução ideal. Mas não me iludo, essa não existe. Quiçá, no momento seguinte, me veja trôpego e ceda à minha verdade. Nessa alegoria às relações perfeitas, desmancham-se objectos e objectivos a cada passo. A metáfora não magoa, mas a palavra balança nessa recta que amedronta o desfecho. O subjectivo é desvalorizado e as marcas da queda são relevadas. Se te segue a culpa, não deixes que o espírito perca. Nessa definição das relações, a perfeição arde antes mesmo de existir. Um passo atrás para garantires dois adiante.

5.7.16

A um passo dos ditosos.

Estive há instantes com um amigo, quase que o apelido de conhecido. Em tempos, um amigo muito próximo, com direito às partilhas mais inusitadas. Do sexo a experimentar às relações furtivas, da música boa e meio marginal ao jogo dividido por uma rede, da burguesia que nos assentava à rivalidade campal. Mas o espelho não engana, vamos avançando e perdendo pormenores. Porventura, acumulando outros, tão dignos, ligeiramente diferentes. Foi o caso, perdemo-nos, por força do trajecto individual e pela distância no geral. Continua um tipo porreiro, pareceu-me. É no direito que se vem cumprindo. E no braço uma tatuagem enorme. Atrevida, mas calma e de gosto feliz. Invejo, se me perdoam o termo, as tatuagens bonitas que vou vendo por aí. Os tipos que não perdem a pinta, pelo contrário, agarram-na com outra fé. As raparigas que não desmaiam na hora de escolher e guardam no corpo o desenho certo. Invejo, ainda mais, a bravura e a decisão. A minha, adiada sem hora, por um receio meio tosco do arrependimento, quase injusto. No Instagram uma amiga vai lançado a deixa, passeando o corpo definido, a roupa interior que lhe eleva a confiança, as pernas torneadas, as mamas no sítio e a tatuagem que caminha por grande parte da pele. Do ventre à anca, não perdendo as coxas de vista. Ali, à minha frente, um amigo distante com a sorte de fazer o que bem entende. Exibe-a nas horas vagas, guarda-a para si no momento do expediente. É uma opção válida e sensata, que cumpre a razão e não belisca a moral. Vou pensar, atrever-me a cogitar. Enquanto oiço uma cover que merece toda a atenção. Quão fascinante é quando a obra foge-nos das mãos e vira arte na acção de alguém.

4.7.16

Imaginação com fundamento.

A hora do almoço chega e somos marionetas do tempo. A manhã levanta e somos dependentes do frenesim do mesmo. A tarde já vai longa e somos abalroados pelos maneirismos da série ininterrupta de segundos. Não ousamos sequer pensar o contrário. As excepções fascinam-me, acreditem. Toma chá, não sei se imperiosamente às cinco horas da tarde, mas lembra-me os donos da quezília do momento – os que se deixam toldar pela ideia, tão ultrapassada, da idílica sobranceria de guardar no espaço de terra rodeado por água, a obsoleta e falível verdade; contribuiu para isso, como se sabe, a idade avançada e as fábulas dos votantes - Esta jovem toma chá, traz o português limpo e escorreito na ponta da língua, tem pequenas sardas desordenadamente espalhadas pelo rosto. O cabelo claro combina com isso. E não me recordo, como é apanágio, se alguma vez trocámos impressões sobre o tempo. É portuguesa e o físico quase que a desmente. Voltamos ao chá, toma-o a que hora lhe aprouver, e traz o sorriso no rosto, os saltos altos escondidos numa mala, os rasos nos pés e a revista na mão. Lê a GQ e a VOGUE internacionais, escreve prosa bonita e poesia atrevida. Foi a menina da praia e do surf, das ondas repentinas e rebeldes. Cruza as pernas e tem tempo para pensar. Defende a confiança, a entrega e a competência. Maldiz a rotina, o comodismo, a lista de tarefas e a ficção entre pares. Atrevo-me a apelidá-la de mulher de sucesso, mas mais importante, mulher de sucessos. Como não raras vezes lhe atirei. Bem sei, não é sistema para todos, tampouco, para qualquer um. É, também não desminto, uma privilegiada, com uma bagagem que a permite ser como e quem é, sem prejuízos de maior. Mas é feliz e é a sombra reluzente de que há mais para lá da escravidão do tempo. Um livro ao adormecer, ganas ao levantar, chá ao entardecer e o sonho a insistir, faz por ti. Uma grande parte e sem espinhas.

30.6.16

Confundir a espécie que prescinde.

Os estendais fascinam e chamam por todos e cada um. Lamento, mas cedo na generalização. As peças pouco importam, no meu conceito, porque é a janela em jeito de festividade de longa data que interessa e compõe as vistas. De adornos vários, com as peças a bebericarem por quem vai passando. O particular suporta o todo. Andei por aqui e além com a minha máquina fotográfica mais recente. Brinquei, passeei e guardei alguns resultados que não envergonham. Só para atalho do compromisso com a experiência. Não perdoo, no entanto, a difusão do geral, a vulgarização de temas e acções relevantes. A displicência conforme o alvo, também me incomoda. A banalização dos actos que são, em favor da democracia, pessoais e intransmissíveis – para aludir aos termos desusados – confunde. Quem os pratica, desajustados da realidade, factualidade e putativa nocividade, e quem os assiste. Os últimos, em não compreendendo, são grande parte do grupo dos inopinados lesados. E leva-se assim, numas mãos trémulas, pouco inclusivas e nada promotoras do progresso, o mundo. Os tais, que aventam sair do mesmo lugar, sofrem no imediato da escolha, antes mesmo da saída efectiva. Agudizam-se os comportamentos xenófobos, tão nefastos, perniciosos e, não se iludam, humilhantes para a nação, pátria de quem os pratica. Os discursos atirados para o ar, numa tentativa de que alguém, que não o vento, os apanhe e limpe. Há resultados, por seu turno, que jamais serão impecáveis. Por quaisquer tentativas que se sucedam, são maus resultados e que envergonham. Tanto mais, pela dimensão que têm e pela exposição da fragilidade de quem proclama firmeza e intelecto. Morre o compromisso, esquece-se a experiência. Enquanto isso, numa das ruas por onde andei, há estendais sem fim, gente que fala outra línguas, animais simpáticos e senhoras de idade avançada a cantarolar. O mundo não gira por acaso. Quem acredita é mais sabedor. Lastimo, mas cedo, uma vez mais, na generalização.

27.6.16

Em diferido. #50

Início  de citação - Ouve-se o som típico da rolha a saltar. O vinho há-de descansar. Arregaçam-se mangas de camisa. Deixam-se de fora os botões de punho. Não faltam as t-shirts simples, a ganga sempre amiga. Gosto do amor descomprometido, lixado às vezes, conforme as vontades e disforme conforme as necessidades. Gosto daquele amor que pisa as entranhas, do mesmo que repele as palavras bonitas. Gosto do amor que faz sentir, vibrar em cada toque. Mesmo que do outro lado esteja um argumento de direita ferrenha. Gosto do amor que tem sexo e do sexo que só pode ter amor. Gosto do amor que tem fim, porque gosto ainda mais do amor que tem principio e meio. Não foram, taxativamente, estas as suas palavras, mas ele permitir-me-á brincar com o vocábulo que expressa sentimento, dar-lhe volume e corpo. Este é o tipo que já calçou VANS, como se o mundo fosse aquilo. Ainda os calça, que insistimos nos ténis. Aprecio, sem desmérito, ouvi-lo dissertar sobre o amor. Partilhamos, nesta matéria como noutras, alguns pontos conexos, outros nem tanto. Somos amigos, em suma. Anda, há largos meses, a catrapiscar uma jovem senhora. Bonita, de torneados atraentes. Uma defensora acérrima da sua posição política. Para ele, uma dor de cabeça das antigas. Até ao momento em que percebeu grande parte do que falámos nessa noite e que, inopinadamente, aqui publico. Só gosta do amor porque, primeiro acontece, depois porque exige partilha. O argumento de direita que está do outro lado é, por agora, o motor disto tudo. Nunca, em tempo algum, sequer se imaginou que uma coligação tão inusitada quanto esta resultasse tão bem. O amor acontece, pelo menos, até ao fim da citação.

8.6.16

Inelutáveis circunstâncias.

Oiço, de quando em vez, música clássica. Ainda é costume neste admirável mundo novo? É uma questão que me assalta. Poucas vezes, é certo, mas fica na estória do que vou cuidando no pensamento. Para minha defesa – como se o crime fosse meu – sou um ouvinte que pende para o ecléctico. Termo que aprecio, muitas vezes mitigado pela desonra com que alguns o aproveitam para salvar o segredo de que a música segue os tempos de cada um pejado de guilty pleasures. Também os guardo. E vou, enquanto apreciador musical, do mais erudito à poesia popular – com as devidas ressalvas. Na prática, a música avança pelas nossas vidas, mais ou menos, à revelia. Marcando desde o sorriso maroto ao tempo perdido. Mudar deve ser das situações mais avessas à comunhão do espírito, corpo e sociedade. Tão tramada que, ou arrepias caminho sem grande pausa para pensar ou recuas com toda a bagagem de questões e medos que foste alvitrando até ao ponto. Isso ou é feitio do tipo avançar sucessivamente na procura do que é suficiente para ele. Estagnar, por arrependimento do que sequer sabemos que vinha a acontecer é amplamente desleal. Para quem comete, claro. Em tese, um amigo pondera manumitir o presente para colher frutos mais adiante. Faz todo o sentido. Quem sabe, o paraíso não mora por lá. Desta feita, conversar é bom, mas escutar é melhor ainda. A decisão é unilateral. E a música clássica não é desajeitada e não perdeu a força no passado. Inventa o que quiseres, mas mudar é querer certezas e crer no vazio. Rasga o peito e faz o que o instinto te ditar. Que os ditados servem para isso. Tentar, errar e o conhecimento guardar.

6.6.16

Vai indo, como a chama quer.

A vida roda, os pombos não perdoam. A cidade está num filme de publicidade. Mais à frente, no jardim de nome bonito, passou um cão pela trela, soltava uns latidos baixos e avançava nuns pequenos saltos. Era branco e castanho, a fita encarnada e as orelhas pregadas ao alto, assumindo um modo de viver muito próprio. Quem o levava, sorria e dizia bom dia. Debaixo do braço, o jornal matinal. Aqui, na esplanada de primavera, enquanto o café espera, é dona da mesa o jornal do dia e a leitura em continuada actualização é a única razão da pausa e do intelecto a questionar a acção. O jornal tem cheiro e mancha as mãos. Tem no negro a palavra escrita, noutro tom as chamadas de atenção, um ou outro pormenor. A notícia contou-me alguém, não é morrer na teoria. O quê, onde, quando. É, sempre que esteja alinhada a razão, a subjectividade porque não és objecto. A trincada verdade de mãos entrelaçadas com as palavras exactas e sem excessos. Enfim, o jornalismo é um crédito que, entre ameaças tentadoras e reflectidas, vai sobrevivendo. O descrédito não assaltou ninguém por acaso, de rompe sem quaisquer justificações. As pessoas, as entidades, as empresas. Todas, num rol de dúvidas perpetradas pelo punho de uns tantos. A nação e a sua soberania ameaçadas em plena claridade. As vozes que se atropelam e a descarga de culpa que parece infringir a inteligência do povo. Esqueçamos, por ora, a vergonha. E lembro-me do jornal diário, sempre em casa. E de como um fato escuro, uma gravata no mesmo tom e uns sapatos limpos combinam com umas meias pintalgadas, qual dislexia efervescente da cor e um discurso de esquerda. Assumidamente defensor da ideologia e, sem despromoção para o que acredita, veementemente simpatizante da vida como ela é. Não confundir ideologia com religião. Não esquecer que a última pode tomar definições díspares, conforme a cabeça que a entende. E, no fim, o que conta é a informação. Tenhamos as mãos tingidas ou não.

25.5.16

Intricado destino.

Nas mãos temos o mundo e sequer pensamos. Evitamos o pensamento, que miséria tão grande. A distância do outro parece mentira e que ninguém avente desmentir. Na hora da conversação substituímos os lábios sapientes, quiçá atraentes, pelos dedos amestrados, quem sabe irritados. Letras garrafais acenaram, faz tempo, a questão do mundo enviesado. Hoje esperam-lhes parcas linhas num tamanho de letra ridículo. Talvez fotografias repetidas. Afoitos há, que se fazem ao caminho íngreme e despojado e atendem à inspiração. Guardar numa gaiola a exposição da natura, da liberdade. Invertem-se as definições. Entram as contradições. Somente, se a interpretação dos factos ficar pela rama. Homem ao mar, gritavam dantes. Bordo fora, pelas águas tomadas pelo terror do frio adentro. Hoje é razão de ajuntamentos que vociferam impropérios. Como qualquer acto de exprobração, resume-se à ignominiosa sensação. É gente de fraco espírito, por só dos deles querer salvação. Na mesa do café, com a segurança e a liberdade trazidas debaixo do braço, tudo é palavreado fácil e egoísmo na razão. Quem chega de lá e pisa chão, leva os braços ao coração. Pede ajuda e salvação. Que a morte fora certa e o destino tem ramo de ficção. Ide, ide. O adágio repete-se e não engana, a esperança é sempre a última a partir.

24.3.16

Reunião de gente boa.

Imagino Mozart a irromper, numa sinfonia completa. Entre vinhas vistosas e verdejantes. O soalho é terra de verdade, pisada pelos senhores sabedores e pelos analfabetos da situação. Corredores e mais corredores, tantos sem fim. Imagino galerias, que por ser lerdo, permito-me inventar e largar na mais profunda errata. As folhas têm toque de rainha abismada. E os cachos são límpidos e certos. O ambiente compõe-se, assim, ao jeito de uma sequela da sétima arte. Devolvemos a passada e é acontecimento de verdade. O horizonte é infinito e perdemos a herdade de vista. De costas para a quinta, imaginamos o norte, que os olhos já não alcançam a arquitectura esbranquiçada adornada com a pedra escura. Vamos ao jeito da vontade e da curiosidade. Conhecer e, se possível, aprender. Lá em cima, logo à chegada, um copo servido com o vinho que ganha fama de qualidade. O mote para aguçar a necessidade de saber mais. A convite de uma amiga, agora senhora erudita da vinicultura, lá fomos à descoberta. Lamento, sempre que o vinho partilha a atenção da refeição, não saber mais sobre os processos empregues na sua feitura, assim como, na evolução que o desenvolvimento da qualidade vem sofrendo. Foram, com certeza, umas horas de excelsa convivência e aprendizagem. A suficiente, espero, para não me perder numa próxima. A mesma amiga, cicerone de serviço, impecável na sua posição, foi-nos falando da actualidade. Desmente os rumores, não admite casamento. Largou tudo na cidade, o noivo, a apatia e a infelicidade. Pensar que esta jovem mulher fora, em tempos, vítima de uma relação absolutamente nefasta. Embora, recusasse o semblante lutuoso, foi, a dada altura, perceptível o mal que vinha causando. Física e, por demais, psicologicamente. Agora, brindámos ao sucesso, à vinha rainha e ao amor-próprio. De copos bem servidos, ao alto, rimos de muito. Neste instante, oiço Mozart e não me engano. A música de grau elevado favorece o guião. A ti, ao vinho bom e ao amor que é libertador. Cheers!

23.3.16

Nunca mais é verão.

Literal e metaforicamente. Na rua, no meio da calçada nacional, de chapéu-de-chuva em repouso, felicidade da chuva fugida. O dia nascido cinza, um tanto desgastado. Na rua, sobre a calçada já um nada molhada, o petiz reguila pergunta ao adulto que lhe dá a mão se beijar é bom. Diz-lhe o graúdo que é coisa boa se acontecer com verdade. No mesmo passeio, o pequeno insiste nas questões e pergunta por que razão o mundo gira sem parar e ele não sai do mesmo lugar. Diz-lhe o graúdo que é a ciência a desmentir a razão. E quem ganha, atiçou. O coração, devolveu-lhe. E a televisão, só mostra a realidade ou vive do faz de conta? Avançou o adulto sério um redondo não sei. É a realidade se acontecer ali. É faz de conta se for maior do que isso. Dispõe, o petiz, em pregas bem miúdas o seu olho. Vestindo de dúvida o rosto. Se forem os bons a vencer é verdade ou mentira? É, se quiseres, a tua imaginação a comandar e o teu coração a dizer-te. Eu só gosto dos bons. Dos maus, só se ficarem presos para sempre. E depois, os bons vão guardando tudo numa caixa grande. Um cubo com bons a brincar à volta e maus a dormir lá dentro. Nisto, já o céu tomou o tom azul tão característico, salpicado por nuvens vivas. Vêm, também, rasgos de luz. O sol tem luz e nos teus olhos se reflecte. Ontem foram lágrimas sem fim, questões que a razão repudia e a que ciência não justifica. O mundo girou tal e qual como nos outros dias. Vazios de alento ou carregados de beijos trazidos de mais além. Parar, pensar e lembrar. Que o passado, porventura, também tem culpa de um presente desavindo. Sossegar, quando possível, reflectir e agir. Porque o verão teima sempre em demorar. E, a juntar expectativas todos os anos, dava para garantir verão sem vento por longos meses. Do nada, vem a fatalidade e esmorecem as esperanças baseadas na probabilidade. Que desilusão. Nunca mais é, literal e metaforicamente, verão. Fora da caixa, a viver o bom tempo. E a viver os dias sem a pressão do medo. Tal e qual um petiz perguntador.

29.2.16

Os tempos da dama.

A chuva vem dando tréguas, o céu já está limpo, o azul bonito, o convite certo. O burburinho vai tomando conta da sala. Lá fora, uma avenida composta pelo tom e ambiente característicos da época. A dama vem de saltos, pernas esguias e pouco vestidas. Uma saia curta, acima dos joelhos. Não sei como é que os entendidos lhe chamam, a mim parece-me uma roda com vida. Um casaco comprido lembra que o frio ainda ataca. Uma mala colorida na mão. Pequena, pouco importante na dimensão, o oposto na selecção, fui ouvindo. Uns óculos escuros, diva na passadeira. O cabelo vem preso, alinhado e alinhavado com a temática. Os quiosques ao fundo, uma fotografia com qualidade. Um tipo com aspecto rústico brinca com o fumo. Com o cigarro. Ora entre os lábios, ora caído numa mão fria. Depois, exala e o calor ganha forma. Andou nisto, de máquina fotográfica ao peito, até à aguardada chegada. A dama continua os passos, trocando as pernas, como só elas são capazes de elaborar. Logo depois do fotografo brincalhão e de barba grossa, estão outros. Mais novos, exasperados. Ansiosos pelo retrato perfeito. Apressam-se a chegar-lhe perto. Ela, dama sobejamente conhecida e sabedora do ritual, sorri suavemente. A avenida não chega. Enche-se de qualquer coisa que não se vê. Sente-se, acredite. Neste frenesim, três velhas e carismáticas senhoras, deixam-se ficar num banco, meio apáticas, um tanto atentas. O olhar de todas cai sobre a dama, diva de um país curto. Guardando-a mesmo à sua frente, as velhas senhoras apontam e sorriem. Levam as mãos à boca. Gritam pelo nome e do estado quase inerte avançam para o frenético movimento. Pedem beijos, abraços fortes. A dama devolve-lhes tudo. E embarcam numa troca de afectos de rua. O objectivo é cumprido. Sem pressa, vai até à entrada. Luzes e mais luzes. Afoitas, capazes de embebedar um desprevenido. E lembro-me, neste caso de um documentário. Um relato acerca da trivialidade da vivência de uma excelsa figura. No tempo, uma diva celeste, nada ligeira. No final, tivemos o presente de conhecer a certeza de que o que parece, não é senão a realidade atrofiada. Acordei deste pensamento, com a euforia. Finalmente, ei-la. Chegou. O burburinho adensou-se e ganhou novo corpo. A dama acena com a mão direita. Agradece a companhia. Toma a sala com um discurso eloquente. E, já no fim, garante, não dá tudo. Tem medo de não levar nada, de não voltar com a intimidade no lugar. E tem razão. Acontece-lhe, tal como, aos jovens fotógrafos que a aguardavam ou às velhas senhoras que, levadas pela surpresa, não foram capazes de suspender a acção. Tudo, por tudo. Pela primeira vontade. Pela certeza de que dar é bom. Pela convicção de que levar algo ou alguém para casa é ainda melhor. Como um cigarro que chegou ao fim. Ou como envergar um blazer axadrezado em tons de inverno, uma gravata verde seco e um lenço divertido na lapela.

8.2.16

Um presente frio de inverno.

Enfim, cheguei. Trazia um presente entre as mãos. O frio obrigava-me a desvalorizar outras questões. Um casaco quente faz milagres, quando o conforto está longe. Tão distante que preferes não lembrar. Pior, quando o encontro é frequente, e o frio acontece. Um cachecol apropriado está no mesmo nível. Cheguei, portanto. À hora marcada. Sem exageros. Nem para diante, nem para trás. A educação faz milagres e não conheço alma na minha família, que não o defenda. São ferozes no defendimento da relevância da educação, pois claro, mas não se poupam na defesa da importância de saber receber e, melhor, de saber ser-se recebido. Numa mão, o presente. Esperei uns instantes, os necessários para que me viessem abrir a porta. E depois, receber. Conheci-a, ainda petiz. Tão imberbe que a memória, se pouco induzida, perde força. Conhecemo-nos cedo. A irmã dela também. Por força dos nossos pais, casais amigos. Sorri, entre a porta e a entrada do espaço. De presente na mão. Devolveu-me o olhar e, num passo apressado, chegou-se a mim. Um beijo feliz e as felicitações simpáticas. Comigo, as minhas irmãs. Fomos amigos de infância, até que a ausência foi forçada. A distância física venceu. Foi célere a apresentar-me o namorado. Um tipo que pendia para o absurdo, vim a aperceber-me. A irmã dela, sempre simpática, bem vestida. Tudo isto, ela é capaz de misturar com um ar meio snobe. E, se me recordo, é uma inspiração para a aniversariante. A irmã ofereceu-se para me trazer uma bebida, falámos uns largos minutos, todos monopolizados por ela. Gabou-me a farpela e o bom aspecto. Sê simpático, pensei. E, sem esforço, devolvi-lhe. Jantámos numa mesa comprida, cheia de gente. Muita conversa, muitos copos a pedir saúde e felicidade. Fiz por sair no momento certo. Nessa altura, intersectado pela irmã da aniversariante. Um convite para seguir para outro lugar e dançar até ao sol raiar. Recusei, forçosamente. Trocámos um beijo, e voltou a salientar o meu bom aspecto. Agora, sem presente entre as mãos, sorri e prometi que íamos ter tantas oportunidades para tomar algo e dançar sem fim. Abrem-me a porta e, com as minhas irmãs, seguimos para o nosso destino. O frio aborrece. A noite é estreita. Afunila situações e junta pessoas. No compromisso, se pensares, não há espaço para soluções de circunstância. Mesmo que lá fora esteja frio. Mesmo que lá longe estejas tu.

29.12.15

Assaltos de fim de ano.

Guardo, algures entre o soalho e o rodapé, pinturas que esperam por um lugar. Qualquer um. O relógio guarda horas obscenas. Deixei-me ficar pela noite, ao invés, de esquecer. De fazer por adormecer. Faz-nos assim o tempo com tempo, o ritmo diferente. A rotina que foge, os hábitos da gente. O relógio não deu sossego, mas a obscenidade ficou. A minha irmã mais nova gaba-me a blusa que trago. Um sincero elogio logo cedo. No fim do ano, convidam-se os balanços para a mesa. Como se a transição fosse imediata, como se mudar fosse simples, brando. Sugerem-se novos ritmos, outras acções, perspectivas obliquamente diferentes. Na rua, as pessoas carregam, sem alma, sacos. Tantos sacos. Algumas vezes, fui um deles. A minha irmã mais nova procura a compra pretendida. Ri-se, e encontra. Outras vezes, sou um dos outros. Dos que se cansam do consumo, dos que viram a cara à aventesma e, sem espírito, passeiam na mesma. Nunca fui de guardar promessas, de escrever novas regras. Prefiro a organização das coisas, as ideias no lugar certo. Talvez, não desminto, me falte o talento para a previsão. Fica-me a vontade de pensar, fazer e, só depois, ver. Não sei se me repito, mas guardo, ali mesmo, sobre o soalho confortável e o rodapé trabalhado, uma série de pinturas bonitas. De tanto passarem de lá para cá, ali têm vivido. Precisam de um lugar. Vem aí o novo ano, não sei onde as colocar. Nisto, ainda me lembro da definição da astronomia. Caso perca a vontade, tenho outro ano, o mesmo tempo, para as pinturas pendurar. Ou guardar. E, assim, os meus sossegar.

14.12.15

A primeira letra.

Sentado algures, oiço-te e vejo-te como se estivesses à minha frente. O tempo não chega, aniquilo por completo o tempo, nunca a qualidade, para as relações que vivem definidas pela distância. Procurares-me com a desculpa inusitada de que queres relatar-me toda a tua experiência nas últimas férias no Dubai. É estranho. A conversa demorou-se e, em pouco tempo, contaste-me o que achaste importante, tudo menos as tuas férias. Depois de desligar, a memória que me falha vezes sem conta, levou-me à nossa última estada fora de portas. Das nossas portas. Aconchego os meus óculos graduados de ocasião e, longe, dou a falsa sensação de estar presente. Chama-me, recorrendo à primeira letra do meu nome. Nesse instante, nada. Não tinha espaço no pensamento, senão para o piano de cauda. A vontade quase sôfrega de querer guardá-lo ali, perpetuá-lo nas nossas vidas. Imaginar que é a maior descendência de umas mãos que, em tempo algum, negaram o talento e a arte de se sentar, sentir e partir nesse trote de matizadas teclas. Chama-me, outra vez, usando a primeira letra do meu nome. Então, respondi. E menti. Nessa tarde, já o escuro ganhava, disse-lhe que acreditava nos romances. Nos de encantar. Que acreditava nos beijos trocados sobre a areia molhada, com cheiro a água salgada, sob o pôr-do-sol que tem tons alaranjados e corta a respiração. Nessa tarde, longe de casa, partilhámos a varanda de outros, passámos a mão pelo gato, companhia de soslaio. Tomámos algo e ela, com a cara mais equivocada, confidenciou-me que lhe magoava a boca exagerada. Os lábios grossos, carnudos rosados. Nessa tarde, depois de pousar o copo de vinha na mesa baixa, fintei-lhe o olhar, roubei-lhe a confissão perfeita. Nesse hiato, não menti. Garanti que não era defeito, era perfeito. A letra inicial do meu nome fugiu-lhe da boca e daí vieram outras. Parcas, cheias. Um beijo muito bem editado com os meus melhores cumprimentos. Para reservar voos que o meu nome é este. Não acredito nos romances de encantar, talvez no primeiro beijo ao luar. Gosto de ti assim, a partir de agora, o que se passa com o meu nome é o que se passa com o meu coração. Uma letra para começar o que pode num grande amor tornar-se. Foi o nosso momento. O piano de cauda em falta esteve na imaginação. Inventei uma melodia qualquer. Guardei a verdade para ti. Fomos felizes assim. Um dia a boca perdeu o sentido, a primeira letra o som ouvido. Guardámos uma espécie de romance nas entrelinhas. Um livro de revisões e de recordações para a vida. Rimos juntos. Avançámos a solo. No outro dia, quando me procuraste e lembravas que o teu coração perdeu o objecto, não tive pena. Só respeito. Gostei de ti, nunca menti. Volvidos anos, gosto de ti. Reinterpretados sentimentos. A boca continua feliz, as dúvidas perdeste. Liga-me hoje. Sempre. Das relações, guardo o melhor. Uma boca invejável, uma alma magistral. Um beijo, um copo de vinho e a certeza de que o teu coração é forte, vai ganhar uma vida nova e estável. Um príncipe sem título, crianças para a tua corte. Terminas como começaste, com a letra que abre o meu nome. E amigos para sempre.

12.10.15

Apogeu figurado.

A sala compõe-se ao nível da certeza de querer bem receber. A música presente, as luzes a passar e as velas ao centro. Na folga da comemoração, tempo há para a conversa e a devida reflexão. Os palmos, até certa idade, são grandeza. Desejas medir com a mão, uma e outra vez, até chegares ao resultado final. Os passos, daí até outro tempo, são a validade da medição. Do pequeno carro vermelho de brincar até à fachada sem fim da casa onde moras. Não pensas nisso, mas tudo é enorme. Falava com o petiz do lado e tomei-lhe a graça das palavras. Pertinentes, num português correcto e variado. Largou um lamento sentido, a música de fundo é perfeita para dormir, tão chata lhe parece, a mesa é tão comprida, o bolo é maior do que a vontade de comer que, eventualmente, todos juntos pudéssemos ter. Continuava, lembrando-me que a força da nossa animação estava a perder-se. Rimos muito, aplaudimos outro tanto, falávamos pelos cotovelos. São as horas a passar, como entende ele, petiz cansado pela agitação do dia longo. Somos uma réplica dos loucos. Foge-nos a efusiva erupção da convivência. E nem damos por isso. Amanhã acordamos, as horas teimaram em não esperar. Tudo mudou, até aquele imponente relógio ao fundo da sala. Tão menor, que parece outro. Não arrisques chegar-lhe perto e medir de novo. A desilusão nunca esquece, pior ainda, nunca falha. Guardo a saudade de acreditar que, em subindo ao cume daquela árvore, hoje perfeitamente normal, à época monstruosamente grande, ficaria tão perto do céu. Do palmo e meio ao passo de gigante está tudo. Um aplauso para isso.

6.10.15

Início de citação.

Ouve-se o som típico da rolha a saltar. O vinho há-de descansar. Arregaçam-se mangas de camisa. Deixam-se de fora os botões de punho. Não faltam as t-shirts simples, a ganga sempre amiga. Gosto do amor descomprometido, lixado às vezes, conforme as vontades e disforme conforme as necessidades. Gosto daquele amor que pisa as entranhas, do mesmo que repele as palavras bonitas. Gosto do amor que faz sentir, vibrar em cada toque. Mesmo que do outro lado esteja um argumento de direita ferrenha. Gosto do amor que tem sexo e do sexo que só pode ter amor. Gosto do amor que tem fim, porque gosto ainda mais do amor que tem principio e meio. Não foram, taxativamente, estas as suas palavras, mas ele permitir-me-á brincar com o vocábulo que expressa sentimento, dar-lhe volume e corpo. Este é o tipo que já calçou VANS, como se o mundo fosse aquilo. Ainda os calça, que insistimos nos ténis. Aprecio, sem desmérito, ouvi-lo dissertar sobre o amor. Partilhamos, nesta matéria como noutras, alguns pontos conexos, outros nem tanto. Somos amigos, em suma. Anda, há largos meses, a catrapiscar uma jovem senhora. Bonita, de torneados atraentes. Uma defensora acérrima da sua posição política. Para ele, uma dor de cabeça das antigas. Até ao momento em que percebeu grande parte do que falámos nessa noite e que, inopinadamente, aqui publico. Só gosta do amor porque, primeiro acontece, depois porque exige partilha. O argumento de direita que está do outro lado é, por agora, o motor disto tudo. Nunca, em tempo algum, sequer se imaginou que uma coligação tão inusitada quanto esta resultasse tão bem. O amor acontece, pelo menos, até ao fim da citação.

24.9.15

Expressão de despedida.

O ambiente é pesado, não fosse o descanso eterno um adeus. Sem sobressaltos que venham a seguir. Um ponto final. Sem margem para dúvidas, não raras vezes, um ponto final precoce. Antes do tempo certo. Como se o tempo tivesse essa contabilidade. O ambiente é pesado, não fosse a igreja imponente, idealmente escolhida. Os dourados sobre o branco e a pedra. O frio quase inerente. As vestes elegantes no altar. As imagens à volta. As flores em jeito de homenagem. A cerimónia fúnebre. O peso nos rostos. Da primeira fila à última. O silêncio meio atrofiado. Como se este fosse, assim sem que nos apercebamos, roubado pelo barulho de um género de brisa. A porta da igreja totalmente aberta, deixando o convite. Entra luz por todos os lados. Os tectos trabalhados ganham outra vida. Escondem-se os olhos, desde logo as emoções, atrás de uns óculos escuros. Cumprimentos de quem não vê caras, mas lembra nomes e laços familiares. A saudade, palavra recorrente. A missa, como se ia ouvindo de boca em boca, foi bonita. Os cânticos, fundamentais apontamentos. Seguram-se, aqui e ali, lenços brancos que enxugam as lágrimas teimosas. Não é fácil. E penso nisso, enquanto olho para o marido e para os descendentes na primeira fila. Não é fácil sentar naquele lugar. Como não foram fáceis os últimos dias, os meses que antecederam a morte demorada. Aquele lugar tem um peso que não tem competição. É chegado o momento que também a fez tremer ao longo de toda a cerimónia. De vestido negro, saltos altos e um rosto caído, a filha, minha prima distante, avança na leitura do discurso preparado. Não lhe conheço, senão a cara e o nome. Se noutro tempo trocámos palavras, já me esqueci. Aludiu à vida cheia da mãe, ao amor aos seus, à entrega às causas em que acreditava, sempre carregada de humanidade. Dos meses frios até chegarem ali, da doença, do cancro. Foi, ao longo de cada palavra dita, exibindo um sorriso. Não chorou. Transbordaram, contudo, as emoções. Não sei se é sempre assim, mas há emoções que passam a mensagem, mesmo que olhes fixamente para as tábuas velhas, ou para os pés que não têm sossego. Fechou-se a grande porta. O resto, já sabemos. É saudade e, como lembrou o filho no derradeiro instante, é parar hoje e ganhar balanço para amanhã.

22.9.15

Intelecto e cultura numa cabana junto à berma.

Ao sabor de um cigarro e depois outro, vamos conversando sobre a banalização da cultura. Atrás de nós um quadro gigante que faz lembrar a conhecida obra que evoca uma tão falada guerra civil. Este não é, em tempo algum, uma tentativa de copiar o original, sou só eu a cuidar pouco da imaginação. Continuam os cigarros malignos e a conversa sobre a negligência. Do fracasso da atribuição dos números e da ausente e persistente necessidade de apelidá-la de parente pobre. Neste governo como noutros. Um deles ri-se porque conheceu um cantor pimba no ginásio e são, desde algum tempo a esta parte, felizes companheiros de actividades que dizem respeito ao domínio do exercício em aparelhos. Entretém-se o mundo com os domingos agitados e abaixo de populares que as televisões nacionais insistem em emitir. Sempre e em simultâneo. Em nome e defesa do entretenimento que alavanca o espírito fatigado do comum cidadão. Apela-se à chamada de acrescentado valor e rir é muito bonito. Entre o cantor que repete largos minutos a mesma frase com três palavras e a intérprete que aposta forte no playback e na selfie em movimento. No fundo, sustenta-se a cultura do processo que vive da gravação preparada atempadamente. E, para ressalva do intelecto, não me limito às cantorias despidas. Já não chega o amor e uma cabana. Literalmente ou no domínio do fantástico. É pouco. Antes, construírem-se torres tão altas. Como se fossem caixas com desenhos bonitos. Umas sobre as outras. Suspensos nesta apneia inopinada e ininterrupta, perde-se o essencial. E esse, contam-nos as avós, não está à mercê de um tipo que, por nomeação, faz de conta que cuida dos interesses da cultura de um país. Cuidar não é sinónimo de matar. Há espaço e tempo. Para os domingos à tarde embalados em cantigas daquele género e de chamadas curtas. Para as torres de caixas empilhadas. Para atentar o intelecto. Até, vamos lá ver, que caiam, uma a uma, as caixas amontoadas. Ganhe-se, logo a seguir, a coragem necessária para juntá-las com coerência, realidade e competência.

7.7.15

Aperfeiçoar até ao extremo.

As saudades de ver e conviver, ao invés, de ficar por telefonemas rápidos ou mensagens escritas, são o mote. É verão, assim chega o pretexto para marcar vontades pendentes. Nesta altura, acontece as agendas dilatarem. Aceitei o convite, avançamos numa sugestão de última hora. Grandes janelas, parece um aquário. À volta, fora as janelas, um ar tão americano que parece estranho. As cores, o chão, os móveis e os acessórios. O empregado prestável, num português compreensível. Entre a carta e o pedido, vamos conversando. Pergunta por novidades. Nenhuma, pois já as havíamos contado. Sem que lhe provocasse, diz-me que não vai casar. Nem ontem, nem nunca. Por pudor, adiei a questão seguinte. Mas desconfio que o seu feitio dedicado, a sua postura rude e a consciência no lugar certo, a afastam de relações duradouras. De, eventualmente, relações que justifiquem o casamento. Têm medo, diz-me enquanto ri. E, nessa lógica de raciocínio, é bem provável que seja verdade. Não é fácil, numa sociedade aquário, viver fora de órbita. Ser uma mulher convicta e actual, em detrimento, de parecer uma mulher normal. Quer usar saltos altos, uma LV na mão, o cabelo arranjado, lábios encarnados e uma saia ao mesmo tempo que exige sexo com prazer e solta um foda-se. Ainda, se lhe apetecer, quer calçar umas sandálias, levar uma alcofa ao ombro e uns calções daquela loja das massas, enquanto bebe um gin ao fim da tarde. Não te estragues, boa amiga. Vai levando com gosto, que não te cansas. Aquários há, que têm espécies de alto requinte.

2.7.15

Em diferido. #37

A unidade que forma um todo - O mundo pulsa com frequência. Por estes dias, é um mundo noutro compasso. Numa ambiguidade impessoal. Arqueja ao mesmo tempo que ganha firmeza na musculatura. Toma a forma de logração inócua. Avoca, inevitavelmente, a eterna dúvida, como qualquer contradição exposta. É transversal, agora tudo chega a todo o lado. Um ponto corta tudo, sem dó nem alma, até ao ponto final. É uma linha imaginária, por certo, oblíqua. Uma veia melindrada pela invasão inesperada. É uma tentativa de normalizar, ao invés, de padronizar. Surge como uma democracia funcional. Convida o povo a acreditar que exerce a soberania. Mas é uma questão que ganha recheio noutras áreas, tão relevantes quanto uma questão que lateja por resposta, um governo que tem toques de aristocracia. Arraçado de pináculo da linguagem impopular. No entremeio, ficam-nos as questões bem mundanas. Putativamente menos transversais. Como os quadris naturais da mulher que vive fora da cidade serem bem mais tortuosos do que a transversalidade nacional.