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31.1.18

Prosa do acaso.

O compromisso entre o sotaque e o sorriso largo atribui-lhe qualidades que não são sem vigor. Chega de cabelos bem desenhados, num cinza e branco bem combinados, e acena com os olhos. São claros. O corpo é pequeno, magro, mas tem trejeitos de fazedora de assuntos pesados. Os óculos graduados pendem peito abaixo, fingindo-se seguros por um frio encarnado. No tom do que traz calçado. O casaco comprido, para lá dos joelhos, dá-lhe um ar polido. Anda, mas parece que balança. Dá saltos breves e divertidos. É singela no passo. Pergunta-me se pode tomar-me com um abraço. Devolvi-lhe com o acto. E foi simpático, sensato e sossegado. Apresento-me e diz-se conhecedora do que venho fazendo. Fiz, corrijo. E sorri. Conhece-me pela prosa de outros que lhe foi chegando. Embora, tenhamos tido vínculo com a mesma empresa, fez-se em tempos desfasados. Jamais houve oportunidade de nos cruzarmos. Já gosto de si, atirou. E eu dela, genuinamente. Encaminhou-me e levou-me para o que reconheço como um jardim de inverno. Uma estrutura cosida a vidro, ligada a ferro escuro. A luz entra sem remorsos. Faça chuva ou sol. Água miúda ou desgovernada. Calor trivial ou descomunal. À volta, flores várias, variadas e nada resignadas. Pelo contrário, feitas de vida. Por fim, sentamo-nos numas cadeiras grandes de braços, estofadas com um tecido que imita o verde da mostarda. Daí, seguimos o trajecto da conversa bem temperada. Algures, entre elogios sinceros e ambições um tanto certeiras, outro tanto lunáticas, reiterou que entende as mudanças. A minha inclusivamente. É o desassossego dos dias que promove e renova o que há-de vir. Nisto, passaram tantas horas. Sem que houvéssemos pestanejado. Tanto que me vi atrasado. Agradeci sem fim. Vamos ter tempo para criar. Devolve o primeiro abraço, agora envolvidos pelo casulo de inverno. Levou-me, nos seus saltinhos característicos, até ao carro. E acenou com os olhos. Vestindo o sorriso largo.

30.1.18

Não adianta retirar em debandada.

Sentámo-nos na relva bonita, sobre as pernas trocadas. Desafiando a agilidade, temendo desarticular as articulações. Mas tudo bem. Sentámo-nos sem preceito, mas de feição. Com o sol a ferver no rosto, a queimar a pele um tanto franzida, a melindrar os olhos e a afagar os corpos inertes. Mas tudo bem. Sentámo-nos sobre a relva húmida, quase molhada, com os nossos melhores jeans. E eu, imaturo, com os meus mais recentes ténis. Mas tudo bem. Fixámo-nos, ora nos nossos rostos, ora em pontos menos fortes. Às vezes certos, outras feridos pela luz certa e pela miopia dos nossos dias. Mas tudo bem. Falámos sobre as nossas vontades, os nossos projectos e as nossas trivialidades. Ainda dos nossos defeitos e das nossas trôpegas acções. Mas tudo bem. Rimo-nos de felicidade, de lágrimas livres e de estômago aflito. Do presente e do que se fez passado. Mesmo que tenha sido pesado. Mas tudo bem. Pegámos na máquina fotográfica analógica e inventámos os movimentos, as caras e os desenhos. Soubemos depois, ficámos saudavelmente ridículos, caricatos num bom par das fotografias. Mas tudo bem. Decidimos o que havia de ser o jantar, o lugar e o vagar. Desistimos por amor aos nossos, recém-chegados e ansiosos por largarem num frenético discurso, discorrendo sem paragens. E monopolizando o ecrã com os milhares de fotografias que vêm para recordação. Mas tudo bem. Se o nosso destino for, entre outros, também este, encontrámos a comparação do clima. E só pode estar tudo bem.

9.10.17

Conservar em tempos de mudança.

Logo petiz, apressava-me a escutar as conversas que sobrevoavam o meu ambiente. As que importavam aos meus. Com aqueles trajes aperaltados que a minha mãe preferia colocar-me. Os sapatos impecavelmente limpos, as meias subidas. A camisa com o quadriculado nos mesmos tons. A malha lisa e composta logo por cima. O cabelo excessivamente liso e penteado. Os olhos grados, os ouvidos atentos. Se não me falha a memória, um relógio no pulso. Já na altura, no pulso que hoje se impõe. Não servia para coisa alguma, bem se percebe. No fundo, já denunciava quão beto e polido havia de me conhecer. E sentava-me como manda a lei, por ordem da minha imaginação, numa cadeira privilegiada ou num sofá estratégico. Jamais furtivamente, que a impaciência fazia-me chegar de igual para igual. Como se fosse, alguma vez, possível. Mas devolviam-me, quando não me impunham outros afazeres, a decência de ter lugar. E deliciava-me com o baile de prosa que por ali acontecia. A política exaltava os discursos, o futebol animava os convivas, os vinhos e as suas texturas amenizavam os saberes, o trabalho e os seus reveses impunham-se em todo o tempo e o mundo inteiro guardava lugar ali. E eu inundado pelo fascínio. Absorto, não poucas vezes, pela desinformação e desconhecimento característicos da idade. Mas fazia sentido. E quando assim é, fica o calor de experimentar. O tempo passa, e confiando nele, nem guardamos as contas de o ver seguir. E, volvido, vejo-me na cadeira de outrora ou no sofá confortável. Crescido, ainda com os olhos grados e os ouvidos atentos. O relógio com as horas certas. Os sapatos limpos, que podem ser os ténis mais inusitados e os menos preferidos de quem vê. O cabelo com outro preceito. E a mesma convicção de que quero fazer parte. Agora eloquente e escutado. Espero que igualmente polido, menos beto. Mantenho o amor e o interesse. Pelos meus, pelas palavras dos meus. Com a hombridade de me fazer presente e assumir que vou mudar. E estar preparado para ver o espanto e o amor a condicionar os gestos, as palavras. Vou mudar. E não posso oferecer garantias de que para melhor. Mudei e não consigo explicar, senão porque me custava mais não arriscar. Que me restem sempre estas pessoas, os seus discursos longos, a sala com os melhores assentos. E a necessidade desmedida de os querer ver, escutar e sentir.

12.6.17

Marchas (im)populares.

Tenho andado muito. E a pé. Sobre a calçada portuguesa, toda bonita, toda descalça. Sobre a madeira antiga, em linhas estendida, rezingona como só o tempo permite. Sob o sol mais picante, na sombra de um espaço bonito também. Não esqueço os meus óculos de sol de todo o tempo. A mochila com um ar descomprometido faz-se companhia. Tem a cor certa e o tecido combina – inventei agora, mas juro que não é mentira. Só este mês, num espaço curto, cancelei duas viagens. Uma dentro de portas, outra fora. Perdi alguns dias de partilha com os convivas habituais. No fim-de-semana que acabou, foram dias de veraneio num Alentejo que é saudade. E que não presenciei. Foram as muitas fotografias, vídeos e ligações do festival de música que aconteceu a norte, e que iam chegando num enxurro sem classificação. E que não visitei. Nesta azáfama, nestes passos que não conto, mas que os sei muitos, vislumbro muita gente. Eles e elas cuja cútis avermelha com os primeiros raios de sol, de máquina fotográfica a pender do pescoço. Com chapéus dignos do mais alucinado safari. Os homens com a tez escurecida e franzida pela força das maleitas do sol, a carregar cabos, colunas gigantes, escadotes e tábuas. Fazem de uma qualquer rua, um palco a céu aberto. É o tempo das festas, do vinho na caneca de barro, do cheiro que impregna tudo e todos. Das ruas feitas corredores de animação. O microfone parece já montado no lugar certo. Sem voz nem corpo. Os mesmos homens, gastos da trabalheira, deixam-se sossegar alguns minutos, sentados no poial de uma porta larga, no fresco de uma brisa que, de quando em vez, deixa-se sentir. Tocam-me, sem intento, no ombro e pedem-me desculpas num inglês de praia. Era uma habitante da terra equivocado. Devolvo um não faz mal, no meu português de sempre. Chego ao destino, quem me apresenta fá-lo dizendo o meu nome completo. Sorriem-me e, uma vez mais, perguntam-me se sou familiar do doutor com o mesmo nome. Repito-me e de sorriso no lugar certo, nego. Não sou. Mas tenho andado muito. A pé e de olhos atentos. Se quer saber.

9.5.17

Palanque matinal.

Ora um beijo, ora um aperto de mão. Agora outro beijo, mais dois ou três. Ainda um aperto de mão a consolidar a lista. Não são esquecidos os bons dias matinais e habituais, bem como, os acenos de mão e os sorrisos simpáticos. Assim corre a manhã. Que se fez longa. Tão madrugadora que se vingou na dor de cabeça que vem pesando. Não a censuro. Retaliação de gente mal dormida. Antes das oito da manhã já o seu carro datado, tão vistoso, procurava lugar. Vem de barba rija e cuidada. O cabelo a combinar. Vem a praguejar, de folhas na mão, cansado do arranque do dia. Rir é a resposta. Vamos embora. Não fazemos esperar. Há gente a correr no sentido inverso. Levam calções ou calças curtas. Casacos largos sobre o corpo ou presos à cintura. Ténis cheios de cor e outros que não servem as modas. Os ouvidos ligados ao telemóvel. Os olhos no infinito. O foco no limite. Uma senhora passeia o cão pequenino, lá à frente vem um rapaz com um quatro patas bem matulão. Numa varanda bem alta alguém gesticula como se o púlpito do mundo residisse ali. E tem graça. As flores estão arranjadas, com bom ar. Vem lá outro cão, desta vez, à sua sorte. Nós seguimos em passo combinado, trocando ideias e proseando sobre muito e acerca de coisa nenhuma, que somos rapazes para não poupar o léxico. Chegados, ele roça o ofegante e volta ao praguejo. Lembrei-lhe que já perdemos a conta aos dias que passaram desde a última actividade física que fosse além de uns passos. Entre gargalhadas, inventámos que vamos voltar esta semana. Assim se enganam os tolos. Tal como o saber, as desculpas mundanas não ocupam lugar. É tão certo como a barriguinha quase saliente que trazes contigo, meu bom amigo. Somos recebidos com extrema simpatia e, imagine-se, outro par de beijos.

2.5.17

Reduzir a vapor.

Não me incomoda. Nem um pouco. Que as ruas se vistam do que os transeuntes lhes queiram adornar. A servir propósitos vários. Os que me fazem sentido e os outros. Cartazes largos e letras garrafais. Frases que ganham terreno no ouvido. Braços levados ao ar. Mãos feitas em punho ou pensadas como finas penas. Corredores de gente. Vozes sintonizadas. Uníssonos variados. Faixas largas e letras encarnadas. A cor da pele num convívio que havia de ser replicado. A convicção a juntar e a servir a comunhão. A pensar a sociedade e a levá-la à evolução. A firmeza nos passos. A certeza de que agir é, sem sombra de dúvidas, melhor do que fingir. Tudo isto, claro, encabeçado pela cidadania consciente. Usar as ruas, sem recorrer a artifícios, para marcar uma posição. Não me incomoda. Só me castigo por não me ver envolvido numa ou noutra cuja causa apoiei com firmeza. E volto a teimar com a mesma certeza. Hei-de fazer tombar o rosto de um ou outro familiar. Com esses desisti, algures, de fazer da prosa uma demora. Demarco-me da opinião e travo antes de o baralho desmoronar. Contudo, vezes há em que me esqueço e entro numa guerreia oral – com as devias cordialidades - que não tem montante nem jusante. Incorro num esboço da minha fácies, mais fechada e assumidamente zangada, quando a intolerância chega de tipos – homens e mulheres – com idade para saber distinguir. Pessoas com a minha idade ou menos, donos de um ruído interno que lhes consome o discernimento. E, consequentemente, que mutilam a realidade do outro. Lamento a política perdida. E as mentes cujos donos parecem acéfalos. Não me incomoda, senão a volatilidade de uns e a carência emocional de outros. À rua o que é do povo.

26.4.17

Efemérides e outras liberdades.

Parece que não lhe pesa a idade e isso, para além de especial, é um tremendo conforto e uma dádiva que não consigo imaginar. Não sou capaz de pensar no meu corpo envolvido por essa pele. É esta um tanto da imagem da minha avó materna, ainda hoje matriarca da minha família. O pêndulo que não dispensamos, a imagem que não desvalorizamos, a presença que não descuramos. A minha avó é forte no trato, bem como, na rigidez com que leva a postura. Desmonta-se noutros afectos. Na facilidade com que encara o outro e as suas diferenças. Admiro-a por tanto, um pouco mais por isso. Porque a idade nunca lhe roubou a sabedoria de entender. De conhecer e aprender. De encarar e aceitar. De sossegar, processar e, sem falsos panos, deixar ficar. Lembro-me das conversas rápidas, de outras demoradas. Ela sentada na cadeira principal, à cabeceira da mesa, onde era, vezes repetidas, mais ouvinte do que outra coisa. Palreávamos sem fim. À sua volta e com a sua permissão. À parte dessa rigidez, deixava fugir um sorriso. Hoje já se permite rir. Falamos de amores que morrem, de corações que amam o mesmo sexo, de filhos que escolhem outros caminhos profissionais, de pessoas cuja cor é um tom e nada mais, da importância do sexo, do prazer. Do mundo que segue às avessas. Das escolhas que, no fundo, queremos livres. Para mulheres e homens. A minha avó materna já viveu imenso. Do sofrimento à euforia. Comprou alguns momentos de luta, livrou-se de outros. Viveu o que eu sou incapaz de sonhar. E, curiosamente, é hoje uma mulher ainda afoita, sagaz, intuitiva, livre nos seus pensamentos. Um pouco mais moldada nas atitudes. Ouvir da boca da minha avó discursos cheios de sabedoria e noção de humanidade – capazes de deixar envergonhados quaisquer indivíduos com a minha idade ou menos – é um privilégio. Hei-de guardá-lo para sempre. O vinte e cinco de Abril de 1974 é um povo. É também, se me permitem, a minha avó. E não posso negar, soube trazer o propósito até aos dias de hoje. Avó, a linda dos meus dias. Tenho a sorte de comemorá-la todos os anos, todos os dias. Liberdade é ter tacto. Ouvir o outro e dar-lhe corda. Viver sem recorrer ao mimetismo social. Mesmo que não se repita, mesmo que nos soe impossível.

24.4.17

Fenómenos da sintonia.

Vem bamboleante, descomprometida, livre e veraneante. Um vestido comprido, nele os dias felizes desenhados. Flores e flores miudinhas. Deve ter também ramos e raminhos. As cores fortes, atractivas. O rosto vestido com o sorriso rasgado de todos os tempos. O cabelo a tocar nos ombros, com a mesma vivacidade e postura. Uns brincos que fingem ser gigantes, tamanha a moldura. Uns óculos de sol totalmente retro, a lembrar uns que a minha mãe teve em tempos. Calça uns CONVERSE ALL STAR brancos. Traz uma alcofa por laços e tecidos bonitos adornada. Acena a este, diz bom dia àquela. Brotam do cesto vistoso, verdes e outros que tais. Espreitam quem passa. Pede meia dúzia de ovos caseiros, aconchega-os junto aos primeiros. Agora sim, vê-me e antes de apressar o passo na minha direcção, deixa fugir o sorriso habitual e o aceno de mão com vida. Devolvo-os sem esforço. Pousa o cesto requintado e abraçamo-nos como da última vez. Não vem de longe a minha demora nos exemplos físicos do afecto. Mas aconteceu com a convicção de que não é obrigação. E de que não me disponho para qualquer um. Não somos todos iguais, tampouco nos são todos iguais. Ainda presos no abraço, diz-me que cheiro bem. Avança que mudei de perfume. Que estou igual, mas mais refinado, que faço-a pensar no maior dos nossos encontros. Algures no metro, antes de sumirmos por dias. Onde, sem reflectir, parecia que não teria fim. E, em abono da verdade, não teve. Sintonizámos, por seu turno, outras estações, mas mantemo-nos ouvintes e apaixonados por aquela frequência em particular. Vivemo-la de outra perspectiva. Agora, olhos nos olhos, elogiei-lhe o traje e o bom ar. De quem está feliz, consciente disso e a fazer por isso. Trocámos ainda palavreado que não importa transcrever. Por mais tempo que gastemos ou voltas que o mundo trave, não me canso de elogiar as pessoas que vêm cruzando a minha vida. Neste ou noutros planos. Tão simplesmente reais e essenciais, que ficam para sempre – salvaguardando as excelsas excepções. Que merecem o meu afecto. E cujos encontros nunca são demais. Bons dias.

10.4.17

Mariazinha, a dona da lhaneza.

As verduras frescas sobre a bancada. O verde reluzente. Os legumes bem cuidados, listados, as cores certas e os tamanhos irregulares. Os frutos em harmonia numa cama dividida, sadios e numa troca, quase lasciva, de olhar. Têm marcas visíveis, mas é a qualidade e a vontade de comer com certezas. Os orégãos dependurados, as folhas de louro na mesma carreira. Os limões vivos amancebados com as limas frescas. O alecrim apresenta-se em arranjos aperaltados. As malaguetas fervilham em ramos inventados. As batatas têm espaço e as alfaces são amigas das couves. As aromáticas fazem justiça ao nome. A bancada toda arranjada, sem prosápia nem falta de maneiras. De lá, ouve-se uma receita de arroz de safio e uma mezinha para a tosse, e de cá o pedido para que deixe ficar o saco carregado. Apresenta-se ao serviço, apresso-me a dar-lhe honras de dona da banca, uma senhora de alguma idade. Um pouco curva, de cabelos esbranquiçados, macérrima, de chapéu a cobrir a cabeça. Uma bata de xadrez, com apliques de renda branca, a defender a roupa de sair. Apetece-me dar-lhe os bons dias. E assim fiz. Devolveu-me um sabido e agradecido bom dia. Com o ar de quem o faz há tantos anos. Logo depois, quase sem cessar, serviu-me um sorriso gigante. Simpática e dinâmica pergunta o que quer o freguês. Penitencio-me no vazio dos pensamentos, pois, queria no imediato, prosa de visitante. Fotografar-lhe se não fosse ousadia. Ouvi-la conversar. Gabar-lhe os produtos frescos. Sugeriu-me o mel feito pelo senhor António. De resto, deixou-me à sorte das minhas necessidades. Perguntei-lhe o nome e contou-me que é Maria. Mariazinha para os antigos. E foi assim que, daí em diante, me pediu que a tratasse. Deixou-me fotografar o negócio montado, mas sem que ela se assomasse à objectiva. Respeitei. Trouxe uma fotografia vestida com a moldura da dona Mariazinha. A imagem na cabeça ao longo da manhã. E um frasco do mel do senhor António – imagino-o de bigode, não me sei entender. Logo eu, fraco fã de mel ao natural. Hei-de lá voltar. Nem que seja para lhe contar.

27.3.17

Receio palpável num encontro inusitado.

Estou sentado numa sala toda bonita, com vasos bem revestidos. Flores largas, coloridas, cheias de pormenores. Num andar que testa a minha capacidade de gestão de alturas, de um delíquio que tenta assomar-se. Nas minhas costas uma janela gigante, vestida de vidro, limitada por um material que espero que ofereça segurança. Numa furtiva troca de olhar com o exterior, percebo que sobre a placa de um dos prédios da frente, habita um simpático jardim. Lembrou-me uma cidade que guardou, em tempos, uma das minhas pessoas. Das que os laços não são de sangue, são de amor e verdade. De volta à sala, as cadeiras, simpaticamente trajadas com um azul forte. Confortáveis, como que a ensinar a demora. Senta-se ao meu lado uma mulher. Havíamo-nos cruzado na entrada, no piso zero, e partilhámos o elevador. Repete-me os bons dias, e devolvo com simpatia. Nesta área prefiro o repetido, ao invés do interdito. No silêncio seguinte, respondi ao seu sorriso com outro. Perguntou-me, no mesmo soluço – como que ganhando terreno sobre a possibilidade de um novo hiato de silêncio se sobrepor – se estava nervoso. Olhei-lhe – e devo ter arqueado a sobrancelha, no meu mais corriqueiro ar de surpresa – e devolvi prosa resumida. Disse-lhe que não. Não havia razão. O que me trouxe aqui é uma simples reunião. Agarrou a mala preta, sobre o colo, e garantiu que também não estava. Procurava ser ela, sem outras diligências. Percebi, no decorrer no discurso, que estava à espera para entrar para uma entrevista. Mexia no cabelo, olhava o ambiente à volta, segurava a mala com fé. Andou nisto até que a chamassem. Antes de entrar, junto à porta, dirigiu-me o olhar, agradeceu-me com um obrigada profundo e desejou-me o melhor dos dias. Tão sui generis quanto genuíno, pareceu-me. Levantei a mão direita, acenei e procurei ser o que esperava naquele momento. Boa sorte, faça da sua melhor maneira – avancei. Bateu a porta. Continuei na sala, de costas voltadas para a janela cuja altura é insana. Dei por mim a rir sozinho. Os medos são fazedores do receio. Contudo, valem tanto quanto o que lhes colocarmos nas mãos. Valem tudo até revolvermos a mecânica, avançarmos no vazio e garantirmos as faculdades do raciocínio. Paro por aqui, não sou orador da demagogia.

14.3.17

Fadário que levou sumiço.

Pareço atarefado, mas é só o compromisso de não ceder ao enfado. Procuro, com os olhos, a chave. De outra forma não poderia ser, descansa no lugar de todos os dias. Desligo, num gesto automático, a luz da divisão. Espreito pela janela e espero que não chova. Pouso o tablet e agarro no relógio. Acomodo o cabelo e visto o casaco. O telemóvel numa mão, a tocar sem sossego, o número que prefiro ignorar. Volto lá mais tarde. Com a gestão exímia dos tempos. Na outra mão, alguns subscritos. Nunca são suficientes, tantos os que sabem o seu destino. Foi o mote, uma carta aguarda que a levante numa estação de correios. Adio, por falta de convicção. Venho, entre escassos passos e exacerbados actos, perdendo a convicção. É outra versão. De mim e das minhas expectativas. Porventura, noutra época bem mais empoladas, inocentes, felizes e garantidas. Hoje, mais realistas, assentes na certeza, funcionais e nada ficcionadas. Não esqueço a professora de Ciências que me gabava o cálculo certeiro e o raciocínio apurado. Vaticinou-me o destino. Lamento, cara professora, saiu furado. Entrei no comboio ao lado. Arrisco sempre na combustão improvável. Demora a acontecer. Mas não é longe para a sorte grande. A outra já tenho e é com ganas que guardo.

13.3.17

Procurar entreter-se.

Na rua acontecem os mais inusitados acontecimentos. Uma guerreia canina, que afugenta transeuntes como se a maior hecatombe viesse no seu encalço. Com direito a latidos fortes, dentes afiados e desespero nos olhos, até ao sossego final. Uma mulher apresenta-se desgovernada, vociferando como se o mundo tivesse mudado. O seu, pelo menos. Carregada de sacos gastos, cheios de coisas. Chamam-lhe desabrigada, tonta e incapaz. A mim, inculto social, chamar-lhe-ia mulher sem norte, consequência de uma vida que terá perdido. Ambienta-se, por ora, aos novos moldes. À nova realidade. Anda com a passada larga, olha para o céu e para o chão, vezes que não somos capazes de contar. Até que a perdemos de vista. Paz é o que me apraz desejar. A calçada portuguesa atraiçoa alguns, elas imitam a certeza de que estão sobre uma corda tão bamba. As cores ímpares fazem o resto. Os tuk-tuk parecem flechas por entre as ruas exíguas. Uma jovem de vestido airoso dá voltinhas à frente do telemóvel, arrisco que vai sair mais uma publicação no Instagram. A correria habitual é ponto certeiro. Vêem-se bicicletas, poucas, mas é um sinal da evolução dos dias. Um carteiro grita à porta de uma loja de comércio local e assoma-se uma senhora de cabelo arrumado e elevado a instalação. Por cima, janelas velhas, quase trancadas. Imagino a solidão fechada a sete chaves. Na entrada de um prédio alto, espaço de uma série de negócios, estão homens com fatos engomados, mulheres de saltos altos. Trocam ideias na pausa para fumar. Nisto, estou quase a chegar. Sou um deles, desta sociedade cuja roda não cessa. As pessoas também ficam a ver-me passar. Atentas ou simplesmente esquecidas.

8.3.17

Em diferido. #56

Breviário sobre o espaço e o tempo - Assomou-se à porta e num poucochinho de voz lembrou-lhe que tinha esquecido o relógio. Não abusou do postigo, pintado de branco imaculado. A porta encarnada e gasta, numa madeira que grita ao sabor da medida interna dos instantes. Ele devolveu-lhe o olhar, sorriu e num passo de corrida chegou-lhe perto. Toma lá, desnaturado, avançou ela. Nestes lugares, meio pequenos, ainda se vê o que parece ido. O tempo, sendo o mesmo, cavalga noutro ritmo. As portas ainda se encontram entreabertas, a mercearia ainda tem lugar, as senhoras de idade não deixam os lenços em casa e as batas a proteger a roupa. Ainda escolhem o fato domingueiro e vão à missa, que o padre é bom homem e a religião ainda comanda os trejeitos do lugar. Os velhos senhores não dispensam o boné e o chapéu e trocam cartadas numa mesa improvisada. As varandas e janelas têm suportadas as roupas a secar. Ladeira acima, com a calçada gigante, leva uma alma, um saco à cinta. Eu sou visita de uma gente que tem receio, num primeiro contacto, de olhar na cara, mas não perdoa os bons dias. Vou olhando com calma, especado no centro da passagem. A matriz é imponente e guarda o centro da vila. Os mais pequenos passam a fugir. Os carros são poucos, mas estão bem cuidados. Passa um tractor com feno e um senhor cuja idade parece não o consumir. Imagino-lhe animais de grande porte à espera. Num jardim, uma estátua. Lembra-me um tio. Irmão da minha avó, homem eternamente solteiro. Dono de um corpo leve, mas impecavelmente vestido. As calças vincadas, os sapatos brilhantes, as camisas de bom tecido, os pulôveres sempre engomados. E, por fim, o chapéu. Sempre o chapéu. E o relógio de bolso. Sempre a tirar as horas e a dar-lhe corda. Ainda me lembro, no seu jeito aparentemente rude, sentado na sala, com o relógio na mão e o chapéu pousado no joelho. Conversámos, era eu um miúdo, sobre frivolidades. Tenho hoje um bonito relógio de bolso. Herdado, claro. De um tio. Do meu tio. Sair do nosso lugar e tempo é conhecer e aprender. É aludir aos nossos. Às nossas memórias. E sempre com a corda toda.

7.3.17

Lida aturada.

Saí logo cedo, na rua um valente ensaio da primavera que não tarda. Sabe bem o tom e o som. Oiço um bom dia largo, logo depois o meu nome. Às vezes antecede-lhe um menino. Como que a cair na tentação de passar conforto nas palavras. Noutros tempos, o diminutivo era frequente na mistura do verbo. Respondo, meio absorto, mas com o sorriso de sempre. Hão-de de julgar que hoje é um dia importante. Porventura, não sei. Veste-se, no entanto, disso. Vou no carro, quase numa lamúria interna, ao ver as horas num trote. O trânsito ensaia uma fila inesgotável. Zango-me com a delonga. Não tolero atrasos, demoras sem razão. Larguei o sossego do lar bem cedo, para esta moda evitar. Mas não justifico o imprevisto. Encontrar lugar é uma odisseia para a qual não guardo espaço. Garanto em voz sumida que não me esqueci de nada. Enveredo pelo acesso mais breve, entro pelas portas largas e diáfanas. No centro, a menina da recepção, num rosa coquete, o senhor da segurança mostra-se simpático, de mãos postas. Pessoas num vai e volta. Por fim, quinze minutos antes da hora marcada, dirijo-me à recepção, pedem o nome. Estão à minha espera, mas vai demorar. Aquieto-me, trato das pendências, observo a movimentação à volta. Volvidos perto de vinte minutos após a hora marcada, a recepcionista divertida entrega-me a identificação para que possa seguir. A senhora aperaltada cumprimenta-me, pede que a siga. Subimos dois andares no elevador. Agora, por favor, aguarde – disse-me. Sentei-me. Desta feita, bem mais apoquentado do que aquietado. Enfim.

27.2.17

Rotundo festim na secretária.

No meu reflexo noto que preferia que os meus óculos graduados fossem mais arredondados. Penso nisso antes de os pousar sobre a secretária. O computador portátil expõe o cumprimento entre o negro das palavras juntas e o branco da página. Os meus óculos pouco importam, bem como, a sua forma ou feitio. Só perco para eles no momento em que a miopia acena e as lentes de contacto ficam esquecidas. E lastimo, só posso fazê-lo. O velho hábito de ouvir uma e só uma música vezes sem conta, em modo de repetição, até à exaustão, está presente. O perfume que invade o espaço é genuinamente simpático. A luz que irrompe pela sacada lembra que estamos na corrida. A primavera não demora. O telemóvel ao lado, entre uma moldura flausina e outra de madeira rica. O ecrã negro da televisão macérrima é honra na parede. Uns quadros aqui e acolá. Soam, num rompante, vários toques. SMS, redes sociais e grupos de conversação. Todos num alvoroço. Um género de excitação. Um frenético viver tão parecido à época. Carnaval sem fim. Estes, com o ano inteiro de duração. Alheio propositado que sou à rapsódia do carnaval, chegam, nada furtivas, tentativas de testar a minha complacência. Fotografias da folia vivida. Este tipo, garanto, jamais lhe poderíamos adivinhar nestas lides. Imagens que merecem destaque na galeria dos donos da pândega, seguramente. Rio-me e não é forçado. Este tipo é a coerência anual esventrada por estes dias. Amanhã há mais, legenda ele. Sugiro-lhe sorte grande e outros agaiatados desejos. Volto a colocar os meus óculos graduados. É impossível escamotear, preferia que fossem mais redondos.

8.2.17

Em diferido. #54

O ano segue - É como se o novo ano tivesse perdido intenção, força no contexto. Desliguei o carro, apaguei, mentalmente, qualquer coisa e saí. O novo ano já arrancou. Guardo ânsias. De ver renascer, na luta crescer. De pensar e conseguir ganhar tempo para ler. Penso no velho do jornal. Tirei-lhe a vista de cima. Não consigo encarrilhar e, por isso, não consigo adiantar a última vez que com ele me cruzei. Factos na mente, dia no esquecimento. Lia as gordas, pensava as mais miúdas. Falava sobre ambas, perguntava-me e esperava a minha opinião. Escutava-o com primorosa atenção. Íamos até à saudável discussão. Bebíamos um café. Ele temperava-o com a água amena. Devolvo o pensamento, volto ao carro. Carrego a máquina fotográfica. Sem utilizar o raciocínio, avanço pela rua. Passo pelo restaurante de boa fama, ar requintado, talheres elegantes, pratos de qualidade e guardanapos de fino pano. Noutra altura, antes do novo ano, dos outros dois também, rimos ali. Entre uma garfada e um vinho escolhido aleatoriamente. Contudo, foi no desassossego doutro lugar, que demos gargalhadas infinitas, tivemos certezas definidas. Enquanto avanço pela rua, neste jogo, toca o telemóvel. A D., eterna amizade, lembra-me por escrito, a ausência e a saudade. Fala-me das escadas do metro, do abraço apertado. Das suas palavras, da nossa verdade. Da incansável vontade. Trocámos beijos quando pediam distância, partilhámos um copo quando chamavam pela desunião. Estivemos largas horas no bar do hotel, quando me inventavam outro destino. Chega um novo ano e, na verdade, tudo acontece como dantes. Só o “casamento do ano”, pelos protagonistas tão ansiado, já lá vai. Tanto alinhavámos, que lhes saiu a sorte grande. Abri as atrevidas comas, consciente da rasa alusão. De lá, o chapéu encarnado, imitando um fatigante pandã. As boas vindas a lembrar o diabo, fingindo risinhos em desformes normas de passerelle. A rua, neste hiato, quase a terminar, o ano a ganhar terreno. Apanho o ensejo certo, fotografei o amor perfeito. Ri-me com eles. Como naquela mesa de restaurante caro, bem mais na mesa singela de lugar com comida. Mais uns passos, chego ao destino. Com tempo, como faço por repetir. A verdade, que dispensa convida a inteligência, velozmente se torna numa metáfora. Lamento o tempo perdido, os livros por ler. Desconfio, no mesmo nível, das caras eternamente paralisadas no modo felizes para sempre. Ou dos corpos que envergam um trench-coat caro, uns sapatos de pele limpa e um relógio vistoso que agem como suínos a céu aberto. A linguagem torta assalta-me depois dos bons dias não serem devolvidos a uma farda que limpa o soalho. O mesmo que os ditos sapatos pisam. O olhar altivo volta-se e sorri para mim. Com o meu casaco de inverno, abstenho-me de qualquer resposta e sigo caminho. Este que escreve, não olha unilateralmente. Rica senhora que de esfregona e balde às costas, leva um prédio nas mãos. Soube, mais adiante, que Maria Rogélia, de seu nome, tem cinquenta e dois anos e uma família feliz. Não tem casacos com nomes inventados, tampouco, marcas exuberantes a cobrirem-lhe a pele. Ganhou o prémio maior, tem uma família de valor. Agradeci-lhe a breve troca de palavras e gabei-lhe a postura. Até qualquer dia, rematou a senhora. Ainda agora começou e, não nos enganemos, nada mudou. O mundo gira, a arrogância vive em apneia, o snobismo ainda ganha investimento e suplanta o conhecimento. A Maria é da limpeza e o Salvador investe na bolsa. Voltei ao carro. E, neste balanço, os quadros. Os meus quadros, com pesar, permanecem em convivência. Sobre o soalho e junto à parede abraçada pelo rodapé. Novo ano, nada mudou. E segue sem parar.

7.2.17

Escassa produção de razões sobre “eruditos” compostos.

O soalho de madeira antiga não deixa margem para putativas verdades, vem gente. Denunciada a chegada e depois do bom dia habitual, reparo que traz uma revista debaixo do braço. Uma conhecida, cuja temática interessa, maioritariamente, aos homens. Já não compro revistas como dantes. Algum desinteresse, uma ou outra falha nos conteúdos, a coerência deixou-se corromper e os artigos falham na ordem. Salvo raras excepções. Restou-me uma desabituação que perde razão e não convida a fundamentação. Já não sei o nome da revista que li há uns meses. Dissertavam, alguns conhecedores, sobre a moda. A democratização e a exaltação. Confundem-se e divergem, como se não soubéssemos. A moda de rua ainda tem trejeitos que interessam e, sem desprimor, atestam e desafiam a moda de passarela. As cores são pontos de honra a cada estação a começar. Os tecidos e os cortes, as medidas e os corpos não perdem importância. Escrevo sem conhecimento de causa, pois a moda na minha existência não ultrapassa o que visto. O que me parece bem fica, o que não me atrai vai. Simples quanto isso. Arrepio caminho, escassas vezes, numa ou noutra peça que diriam os puritanos, é extravagante. Um assunto que não esmorece, porque como já ouvimos um sem número de vezes, a moda é cíclica. Não me acanho, mas não sou corajoso no instante em que me perguntam a opinião. Ou reconheço harmonia ou não vejo qualidades no que respeita à conjugação. Contudo, aceito de bom grado – e prefiro - uma companhia que opta pela verdade do que lhe assenta. Longe de ser um tipo cuja indumentária é um exemplo, prefiro assim. Embora, não poucas vezes, se me dirijam elogios que agradeço. Nisto como noutra temática, não importa a carapaça. Um dia sentas-te e ressaltam umas meias divertidas. Nunca se sabe. Que ganhe o melhor. De ti e para ti.  

2.2.17

A totalidade do que passa ali.

O casario guarda os tons quentes, mesmo desmaiados pela corrosão característica dos tempos. A rua ladeada de uns poucos automóveis, as senhoras cobertas contra o frio, a idade pesa-lhes nos ossos e na carne, tremem se as raízes desmoronam. Vêem passar e não perdoam a habitual troca de palavras. Tão simples, quanto quotidianamente necessárias. Gesticulam com um braço, o outro desagua na bengala que fingem segurar. Vão, pé ante pé, até aos bancos ripados do pequeno jardim. Uma espécie de centro de dia a céu aberto. Onde se esquecem do mundo e se esquecem delas. Imagino-as tagarelas, outras vezes tufadas. Compete-lhes descontar horas de um dia que ameaça não ter fim. Outro destino vem lá, longe de entender, capaz de desencontrar gritos. Traz os cabelos encarnados, ora ao vento, ora tapados. Chama a atenção o fogo que nasce da imaginação. Aí, assoma-se uma incansável capacidade de recordarmos histórias de encantar. Não deixamos passar o cinema francês, as suas questões do amor sorrateiro e as silhuetas atrevidas. Julgo-a num desfile diário, leve e segura para lá, nos mesmos moldes para cá. Traz os cabelos encarnados, num tom vivo e viçoso, enrola ao pescoço um lenço de fina seda e no rosto mostra um jeito seráfico. Não conheço a sina, os queixumes e as vitórias. Não sei nada. Mais destemido vem um cão de pequeno porte, a ladrar ao mesmo tempo que imita um cavalgar desencontrado. Só sossega quando chega juntinho às velhas senhoras. Parece-me pertença do grupo. O dia está coberto e adivinham chuva e tempo agreste. Capricho ou não, deixam-se ficar. Acredito, dos velhos corpos e das mentes saturadas, há-de sempre nascer sabedoria. Reinventar-se em cada troca de impressões e olhar-lhes nos olhos. Até qualquer dia.

31.1.17

Entre a chuva que maça e o bom dia ditoso.

Não me canso de ver passar, observo sabendo que o melhor do outro está sempre a atravessar, enquanto o melhor de mim arquitecta a mais imponente e, não raras vezes, incoerente instalação. Respiro no compasso. Chove e chove com fé. A mesma que escorrega, fina e desesperada, pela folga dos dedos. Mas essa é matéria para outro eventual aranzel. Vem lá a rapariga que foge dos salpicos, hirta sobre os saltos altos, a mala bamboleante, o chapéu na cabeça a esconder-lhe os olhos bonitos. É a simpática de todos os dias. Desde que larga o seu Mini bege até que chega ao escritório. Ela pega nas pessoas e leva-as no colo de um sorriso bem sincero. Chove e chove com vontade. As senhoras da recepção dedicam as horas ao lastimo da água que cai lá fora, intercaladas com o chamamento do sol e com o trauteio das letras da Kizomba que não dá descanso. Exibem as unhas de gel feitas pela filha da Odete, a Carina que, desde meados do ano transacto, trabalha no cabeleireiro da Dina. Logo se vê, o negócio capilar e afins, ainda recruta conforme o nome de baptismo. “Dina Cabeleireiros” ainda tem saída. Praguejam como se o mundo tivesse perdido a lucidez. Não é mentira, não. Enviesados vão os tempos. Disformes, as acções que ficam escondidas na oratória desleal. Nisto, acomodado neste frenético evento matutino, soa o meu primeiro nome seguido do apelido. À minha espera, o sorriso de sempre. Vejo tudo isto e não me deixo fatigar. Bom dia, deixei-lhes ao sair. Desejo vida longa às unhas de gel e à executante, um verão tão longo quanto capaz de saciar, e umas valentes horas com a rádio nacional como companhia. Desce sempre em mim uma nada escusa vontade de acreditar no modo inócuo de a vida levar.

22.6.16

Lugarejo com raça e no coração o ensejo.

Os lugares pequenos guardam um género capaz e característico, um jeito meio mimoso de estar, de pensar, de receber, até de olhar. É encantador, quase literário. Voltar é ver o tempo a acontecer. É ter sossego no poial da porta de entrada, é pousar os braços no mármore da janela adornada pela cortina costurada pelas mãos. É ter no postigo um compromisso, no vizinho um lance de prosa e no petiz a esperança. Ouvem-se os pássaros a passar por nós, a irromper pelas árvores, soando as folhas a bailar. A mercearia não tem outro nome, senão este. É a única venda do lugar e à semelhança da tasca de azulejos sem fim, o ponto de encontro. Entre o pacote de arroz carolino, o garrafão de vinho e o detergente em pó, as novidades ganham caminho, de boca em boca. O senhor do chapéu axadrezado já leva a vida dos outros na ponta da língua, conta à senhora da bengala e da saia digna de fato domingueiro. A dona Gertrudes, de bata a cobrir as vestes, leva um cesto de fruta e canta, sem preciso pedir, uma modinha das antigas. No poste, logo à esquina, fica o cão da netinha, fugindo da calma, vivendo a sombra. Passa fazendo-se notar, a motinha do outro senhor. Larga fumo e barulho para os que ficam. O capacete mínimo mas no tom da máquina de duas rodas que o carrega. Logo adiante, um fogareiro mesmo à porta, sardinhas e carapaus a assar, o lume a passar, a mão a abanar o leque e a desesperar. Os carros, mesmo poucos, alinham-se pela rua, tão certinhos. Se acontece reconhecerem o rosto da visita, perguntam pela vida, pelo amor e pela carreira, tudo de forma genuína. Não se esquecem de pedir a idade para, num soluço, apresentarem o espanto. As pequenas povoações carecem, e não é displicente lembrar, de suportes. A desertificação oferece novos tempos a uns e esquecimento a outros, aos que ficam. Nestes lugares, mais isolados, pequenos e pouco povoados, vive gente. A mesma gente que, assim como, os lugares, tem traços pejados de raça, de conversas cheias, que nem a rasa ou nenhuma literacia lhes rouba. São gente humilde, de rotinas repetidamente felizes. Tão encantador, mesmo literário. Acenam no momento da partida, pedem-te que voltes, como num bonito fado. Deixam saudade, mesmo que não lhes conheças o presente, tampouco o passado.