Volto
sempre lá. Ou voltava até ao dia em que se mudaram. Que a cidade é bela e tem
encantos sem fim, já todos sabemos. Tem luz de casa real e prédios de decoração
fina. Tem beicinho se não prometer voltar. Sem ser preciso supor, tenho uma
paixão sem fim. A cidade é fina e tem lugares vários. Na mesma cidade, volto às
visitas. Volto sempre. Agora, volto a outro lugar, a mesma cidade. Antes, aqueles
prédios enormes. Cá do asfalto, antes do padrão português e do jardim
trabalhado, olho para cima e parece que nunca mais se endireita. É um indutor,
tão sedutor, do pensamento. Lá em cima, numa varanda larga, o cigarro de
ocasião. A visão inversa, o mesmo sentimento, a mesma sedução. Entre a conversa
e a vertigem passageira, passa no asfalto uma velha mulher. Se não me engano,
vi-a todas as vezes que os visitei. Sempre a passar naquela rua. De negro se
tapava. Só lhe víamos o rosto. Tão cansado e abatido. Um lenço negro a
tapar-lhe os cabelos, uma saia negra pelo joelho. Um casaco negro ou uma camisa
no mesmo tom. Umas meias negras a esconder a pele. Curva, parecia que nunca
tirava os olhos do chão. Puxava, com as mãos que imagino vencidas pelo tempo,
um carrinho. Daqueles que servem para o auxílio das compras. Era, sem falsas
ideologias, a excepção daquele lugar. Chamou-me, particularmente, a atenção.
Todas as vezes. Nesse fim de tarde, a última vez em que estive naquela casa, enquanto
a velha senhora passava, perguntei-lhes sobre ela. Não tinham muito para
contar. Somente, que todos os dias arranjava um canto para estender os livros e
tentar vendê-los. Assim, o carrinho com duas rodas era o armazém. Quão valioso
o conteúdo, permiti-me pensar. Como na literatura, a vida quotidiana é um
ensejo permanente. Até à página final.
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26.5.15
19.5.15
Determinados privilégios.
Bom dia, gente de trabalho. Ouvir-se-á por esse país
afora. Como já ouvi nos lugares mais inusitados. Também, e principalmente, nos
mais humildes. Gente feliz e de palavra. A complexidade apaixonante de viver o
nascer do sol no seu perfeito esplendor. Poeta de madrugada encontra recheio e
encanto em cada pedaço e, com esforço, torna-los num verso primeiro, numa
estrofe depois. Por fim, um poema de conteúdo filosófico. Já se ouvem os
pássaros lá fora. Os New Balance nos
pés, a bateria fraca do telemóvel, uma noite mal dormida e um vento que nunca
sossega. Não há tréguas e saltei da cama. Os óculos de sol preferidos e o rádio
do carro que promete ser a companhia. Na rua, as pessoas pensam e agem em
consciência com as necessidades. Um tipo corre, uma mulher com frio passeia o
cão pequeno, aquele pai leva as crianças à escola e aquela mãe prepara mais um
dia, enquanto naquela varanda corrida, faz uma pausa para acenar para os miúdos.
Duas jovens saem do mesmo prédio e seguem caminhos diferentes depois de trocarem
um beijo. Chego ao destino, ligeiramente antes da hora marcada, e dou os bons
dias a duas ou três pessoas que estavam na entrada. Devolveram-me o silêncio
beliscado pelo vento a soprar. Gente capaz, esta. A minha avó não me deixa
mentir e sempre disse que não é de valor quem não valoriza o outro. No
corredor, e não estou a brincar, está um cartaz cuja figura central é um cão e
pode ler-se por baixo: O melhor amigo nunca falha. A minha avó sempre soube muito
e carregada de razão promoveu todas as vezes que lhe foi possível, a discussão
sobre qual era o papel do ser humano. A realidade molda o pensamento.
7.5.15
Ficar por aqui, olhar e voltar.
Aquela
rua é vertiginosa. Tem casas de um lado e outras tantas do lado oposto. Tem
carros parados num sentido. Muitos e variados, para todos os gostos e
carteiras. Não é larga, mas engana. Parece que tudo encaixa na perfeição. É uma
rua onde quase não se vêem pessoas. No cimo da mesma, em que as vertigens são
ameaçadas, a vista não tem explicação, sequer justificação. Sobrevivem as cores
garridas, o azul lá ao fundo. Antes de a conhecer, parecia-me impossível que
daquele lugar saíssem tantos tons e tão vivos. Estes são salpicados pelas
pingas brancas. Roupa a bailar, o sol a bater. Debaixo do braço uma revista
americana, emprestada por quem entende do assunto. Lá dentro, fotografias
bonitas, artigos de actualidade, sugestões do que chamam ser moda e o resto do
mundo que eu não entendo. Resume-se à básica questão, tão inocente, ou gosto ou
não gosto. Muito daquilo que vi, pareceu-me bem. Gosto da palavra singela. E a
moda também é isso. Numa estação afunilam-se as tendências e nesse caminho
estreito colocam-se as cores possíveis. Num dia é fogo, noutro é água. Quase no
final da rua, ainda a revista debaixo do braço, os mesmos carros ficaram para
trás, as roupas no estendal. Mais próximo do rio, contudo, perdeu-se a vista
maravilhosa. Toca o telemóvel e do outro lado dizem-me que já está, já
terminou. Suspiro. Vou ter de subir.
30.4.15
De Londres, com saudade.
Foi
assim que terminou a mensagem que me chegou ontem ao e-mail. Vem de lá uma
parte da saudade, que a vou tendo dispersa. Feita em pedaços, numa Europa
altiva, numa Europa romântica, num ou noutro continente. Nova Iorque tem
trejeitos e não guarda, hoje em dia, nenhuma fonte de saudade. Mas guardo-lhe
alguma curiosidade. De Londres, vem uma amizade antiga, num táxi bonito, de
saltos altos e maquilhagem irrepreensível. Enquanto, de maçã na mão, escreve
sobre a distância. Relata, sem sossegar, o que ganhou depois de se mudar.
Também perdeu e escreve sobre isso com a mesma dignidade. Misturada com a serenidade.
Embora, as palavras escritas possam enganar, porque perdem a identidade da voz
e do tom do interlocutor, vamo-nos lendo em sintonia. Há uns anos
emprestaram-me um livro. A capa era dura, tão forte e pisada pelo tempo. Não
consigo perceber se estava numa ou noutra fase. Mas não esqueci. Quem mo
emprestou fez bastante questão. Leva-o, toma-lhe as conversas quase
inexistentes e guarda o texto corrido e as descrições. As descrições, essas
sim. Moldavam, propositadamente, toda a história. Bem sei, adiei até não mais
conseguir, o dia em que trouxe o livro para casa. Leva-o, desta vez, leva-o.
Vais atentar a intelectualidade e questionar a espiritualidade. Lê com calma,
dedica-lhe tempo. Fiz como pedido. Lembro-me que no exacto momento em que
cheguei à última página, lhe devolvi uma mensagem. Citação breve, um pensamento
mais demorado. Que não é novidade, tenho tendência a ser longo na prosa. Quem
mo emprestou, a amiga brava que conversa de Londres, respondeu-me. Muitos
elogios e todos fundamentados pelo poder de argumentação. Conversamos imenso,
escrevemos ainda mais. Daqui, com saudade.
29.4.15
Imaginar qualquer coisa de novo.
Mostraram-me
um esboço de um trabalho criativo, para que eu opinasse. O que quer que eu
diga, vale o que vale. Não vou para além da minha sensibilidade e da forma como
reajo perante aquilo que me apresentam. Vejo e espero uma reacção. Ou gosto e
digo, ou não gosto e digo. Certamente, em sendo a segundo opção, procuro escolher
com outra maturidade a justificação. Se quisermos, é uma simplicidade inquinada,
mas mais polida. Sem qualquer desprimor para o autor. Que a subjectividade não
se ausenta. Sempre válida. Neste projecto em concreto, ainda mal o tinha visto
e logo me lembrei dos azulejos e da sua importância na génese nacional. Conheço
quem guarde azulejos em casa. Fá-lo por convicção. Não os apanha algures,
aproveita todos os que lhe chamam a atenção. Prende-se a eles, e guarda-os para
si. Não os traz da rua, escolhe-os ainda na parede. Uma casa antiga, tanto
quanto julgo saber, uma casa com muitos anos, de família. Daquelas grandes, que
um dia inteiro não chega para contar o que e quem por lá passou. Salões antigos,
janelas grandes, um jardim que tem condições para suportar uma casa daquelas.
Alguns andares, alcatifas por todo o lado. Lareiras em materiais nobres. As
paredes cobertas e gastas. Quadros, mesas fortes, bancos de pele e candeeiros
requintados em cada divisão. Vão dar inicio às obras. Manteve, felizmente,
alguns painéis. Outros, inevitavelmente, teve de pedir para retirar. Vai nascer
dali, tenho a certeza, uma vida nova. Porque a pessoa que guarda os azulejos em
casa, é a mesma que os defende, conhece e lhes oferece alimentação e modo de
viver. Volto à criatividade num esboço. É forte e tem um lado simples, dignificando
a intuição. Guia-nos para uma certa verdade singela. Para mim, é não desistir.
Que, sinceramente, simpatizei com a evolução. Do meu lado é fácil. Gostei.
14.4.15
O que vem depois.
Começa
cedo o dia. Quarto escuro, brincadeira de outrora. Abres um olho, depois outro.
Quase a medo, em jeito de adivinha. Antecipas o toque da campainha. Dói-te a
cabeça como se o andar superior tivesse ousado cair-te em cima. Desusado o
camião, que soa lá ao fundo. Pontes com entrada e saída. Ramos em cruzamento. Segues
caminho, inventas a rotina. O céu pingado e cinzento. Apitam os carros, correm
as pessoas. Zebras no asfalto, luzes de pé. Peúgas às riscas. Casaco no lombo.
Óculos a trabalhar. Relógio com algumas histórias contadas, no pulso de sempre.
Aceleras sem tempo, esperas em cada hora marcada. Ouves música, Gorillaz falam
do outeiro melancólico. A anarquia dá sinais, parece ter dominado o processo.
Notas no e-mail. Falam-te de uma exposição valente e curiosa. Um dos melhores.
A vivência de mão dada com o produto final. É suposto não declinar o convite.
Ainda no carro, passas uma parede branca com uma frase. “O beijo persegue-me”. Impossível não pensar. O dia seguinte é
sempre o pior.
7.4.15
Super-homem da rua de baixo.
Ficar
eternamente à espera que a lua não saia do lugar é uma forma tão válida como
outra qualquer de fintar uma insónia malina ou uma série de pensamentos que
resvalam para a cama alheia. Imagino muitas cabeças com este dilema. Ainda não
nasceu o dia, já pinga na rua. Um aqui, outro além. Da rua de cima já soa. Os
carros já começam a passar. Na rua de baixo, antes da avenida, já a vida vai
sendo certeira. No café, as pessoas cruzam-se rotineiramente. Quem os recebe
sabe, sem mazelas, qual o pedido. Nunca muda. Cruzam-se, homens e mulheres. Cabelos
penteados, fatos arranjados, saias curtas, tacão alto. Brincos singelos, anéis
grandes. Gravatas com o nó perfeito, finos tecidos na lapela. Calças de ganga,
casacos largos. Nesta hora, gente que segue para o trabalho. Nesta rotina, vive
sem sossego, um conhecido meu. Mais velho. Mas pára para sossegar o âmago. Antes
de começar tudo outra vez. O mesmo conhecido que, diz ele, descobriu por estes
dias que é bonito. E não imaginamos como isso adulterou todas as suas
definições. De gente e de macho com posição e retorno. Voltou à gaveta das
surpresas. Não lhe perguntei pelo recheio. Tive receio de uma qualquer alusão à
fauna dos super-heróis de cuecas. Mas ele insistiu. De lá para cá, já saiu à
noite. Já usou parte dos preservativos em pausa. Na tal gaveta, imagino. Deixou
os fatos escuros e bem engomados. Ao balcão, admira silenciosamente, as ancas
que seguem para a rua. Por desmérito da minha curiosidade, não lhe perguntei de
onde veio o atestado de beleza. Fiquei antes pela certeza de que, quer
queiramos, quer não, os pormenores fazem a diferença. E mudam vidas. E o dia
estava só a começar.
2.4.15
Contribuição para um dueto de grande rapsódia.
No
escritório do terceiro piso daquele afamado prédio de negócios variados, está
uma secretária. Melhor, está uma mulher que se dá pelo ofício de secretariar.
Quem dela precise. Digo. Maldade a minha. Ela ginga a anca marcada pela saia subida,
desenhando-lhe o corpo elegante. Calça, em cada pé, uns saltos altos negros e
afiados, que ajudam a suportar as nádegas firmes. Coloca, quando lhe apetece,
uns óculos que, hoje em dia, facilmente apelidamos de vintage. Assim é o seu desenho. Ela passeia-se pelas secretárias e
divisões seguintes, enquanto ajeita o decote avantajado. Segura folhas numa
mão, uma caneta na outra. E, por ali anda. Gingando o corpo. Inevitavelmente,
chama as atenções para si. O cabelo é negro e revoltado pelos assanhados
caracóis. Tem batom nos lábios. Sorri facilmente. É uma mulher que se conhece e
sabe agir. É uma peça do puzzle, daquele puzzle que é um prédio ligado por
escritórios. No fim do expediente, desliga o que lhe compete, chama o elevador,
desce. Passa a porta e assume a postura que agora lhe é exigida. Não sei qual é
o seu pensamento, mas nota-se a diferença. Opõem-se as posturas.
Propositadamente, talvez. Não importa. Não conhecemos alguém, homem ou mulher,
pelo seu gingar. Parece-me tão redutor como dispensar um champanhe pela embalagem.
26.3.15
Exposição resumida de uma recordação.
A
efeméride acontece onde e quando menos esperamos. Somos seres de rotinas, mas
mentimos. Não raras vezes, gostamos de surpresas com a mesma vontade. A verdade
é outra coisa. Se pensam em ti como tu pensas em alguém, embora real, pode ser
fatal. Na rua, onde quer que estejamos, é onde tudo acontece. A rua não se fica
somente pelo tudo, vai também até ao melhor. Encontrei uma onde se vive sem
medida e, melhor, sem o peso de parecer. Depois de sair de lá, fiquei com a
sensação de que ali, mais do que fingir, as pessoas são pessoas. Não brincam às
vidinhas, não fingem na primeira oportunidade. São seres sociais, verdadeiros.
Seres com rotinas reinventadas. Pensam em si e nos outros. Nesta rua, num lado
uma mulher dança ao sabor do sonho. As ancas sem sossego em frente ao espelho.
O cabelo a tapar-lhe parte das costas. Tanto quanto consegui ver, maquilhava-se
em frente ao espelho maior. E não sossegava as ancas. Dançava ali, porventura, com
a convicção e mérito de quem exibe, numa pista de outra importância, uma
performance trabalhada. E fazia caras sem fim para o espelho. Em resposta,
ria-se para ela mesma. No outro lado, um velho homem de jornal na mão. Lê com
atenção. Demora a virar a página. Os óculos ameaçam descer pelo nariz abaixo.
Do que vi, só se permitia descruzar as pernas e voltar a cruzá-las. Em momento
algum tirou o olhar das letras. Por certo, vai além das gordas, lê de uma ponta
à outra. Se um dia voltar, espero tornar a cruzar-me com eles. O homem que tem
tempo para viver e mudar a página. A jovem mulher que sonha e dança uma e outra
vez. O sonho é de todos e de cada um. Se um dia voltar, perguntar-lhe-ei, em
ganhando coragem, quais as boas novidades. Seja no ambiente em que tive e tenho
o privilégio de viver, seja no oposto, temos sempre o essencial para não
deixarmos de ser.
23.3.15
Um estilo muito próprio.
Já
é Primavera, num Portugal tomado pela gentileza de ser. Não sei como lhe
chamar. Se largo, praceta ou uma rua enviesada. Mas cumpre a função, seja qual
for o nome que lhe dão. Nesta cidade de gente nova a passear as roupas
despidas, a meia-idade não tem trejeitos à vista. Guarda-os no sossego da sala
de estar do apartamento que ainda paga ou no baile de esperança e expectativa,
cujo propósito é juntar os divorciados e os viúvos da zona. E dos arredores.
Ou, se permitirmos, é tudo mentira. Fatal utopia, a de antecipar a vida alheia.
Sinto-me visita quando volto. Por certo, porque nunca fui senão visitante com
curiosidade e paixão. Por ser impossível, não esqueço um lugar como este. Onde
as tradições nacionais e regionais ainda existem, mas vão falecendo. Tão moribundas
como as ruas numa hora vazia. Lá, onde vestir bem e sair para a rua, parece ter
um duplo sentido. Desassossegam-se as almas exânimes, tomando fulgor de última
temporada. Depois de levar o corpo pela cidade, volto à praça pequena ou rua
sem entrada. Fica lá, qual majestade, a padaria. Das antigas, onde o nome do
fundador é história relevante. No cimo de uma das portas principais, lá está o
nome cravado. Entrei e falavam de idade e do peso de não conseguir contrariar
os declínios. Estava, daí a conversa, uma senhora de noventa e quatro anos ao
balcão. Um charme. Quando existe, não morre. Jamais. A minha mãe lembrou a
minha avó. Viva e tão apta. À saída, a mesma senhora. Ajudamo-la. – Obrigada,
meus queridos. A figura tão torpe que uma velha consegue fazer. Obrigada e
perdoem-me a desfeita. – Sorrimos. Antecipou um pensamento. Felizmente, em
tempo algum, poder-nos-ia invadir a lembrança. Tenha um bom dia. Até qualquer
outro.
19.3.15
Homem de vida.
Homem
valente, de rotinas marcadas. O alimento daquele corpo e daquela alma. Acordar
bem cedo, um hábito de sempre. Avançar na rotina e parar para ler e ouvir as
primeiras notícias do dia. Sai depois para um café. Segue para o trabalho. Um
dia atrás do outro. O Benfica campeão, se o mérito permitir. O perfume em doses
relevantes. A preocupação em vestir bem. Os sapatos impecáveis. O relógio,
quando não se esquece, no pulso direito. Tomei-lhe esse hábito, sou incapaz de
usar no braço esquerdo. Um bom vinho numa merecedora taça de vidro. Discurso
coerente, opinião sempre disponível. Defensor de uma série de questões que vêm
sendo destruídas por desmérito e irresponsabilidade de alguns. A integridade
que não lhe permite esquecer. Onde está e de onde veio. A família que diz ter
escolhido. O amor de uma vida, a mulher que o segura, amparando na ausência de eventuais
defesas. O número de filhos exactamente igual ao desejo de outros tempos. A
vontade de ler sem fim, passou-ma ele. A cada livro. Semanas havia em que cada
dia era ocasião para receber um novo livro, uma história maior. A música, uma
paixão de longa data. O rock é rei, num senhor que tem gostos particulares.
Cuidados, também. Este homem é o meu pai. Ou, para ser sincero, esta é uma
parte tão reduzida deste homem, do todo que o compõe. Do meu pai. Volto um ano atrás
e não posso deixar de me repetir. Na era do ecléctico, o meu pai foge das
ranhuras e intermitências do termo. Hoje é um dia profundamente corriqueiro.
Banal nas definições. Particular nas entrelinhas. É dia do pai. É o dia do
homem que ouve música, vibra com os melhores acordes e timbres. E, no meio de
tudo isto, não é ecléctico. Fica o desejo de um dia soberbo, pai. Mas coberto
de incoerências. Mais um ano, volta a tomar um digestivo datado, desta feita,
sem uma única pedra de gelo. Não condenas o líquido todo, é certo, mas não deixa de ser
uma acção tão snobe. Snobe como tu não gostas. Até já.
17.3.15
Sem a reflexão imprescindível.
Lamentavelmente,
os convites já não vêm em carta fechada, com o endereço certo e o nome do
destinatário com todas as letras. Sem erros, nem ausentes letras. Por fim,
entregues em mão. Hoje em dia, vêm por bem, mas na força proporcional ao
quotidiano desta gente invertida. O rio pode ser a passadeira perfeita. As
palmeiras que abanam ao sabor do vento, enquanto dão um toque de paraíso à
esplanada, podem, perfeitamente, ser bailarinas de serviço. Mas de qualidade.
Não têm beleza no nome. Os caixotes de lixo, tão disfarçados, podem ser pratos
imaculados de uma bateria. Os sofás que vemos no interior, numa putativa referência
vaga às elegantes zebras, podem ser um qualquer piano de cauda. O funcionário,
que nos atendeu com a postura correcta, contudo caída em desuso, de braços no
lugar, podia, sem mazelas, ser um actor de uma película branca e negra. O sol
que nos apanha não tem comparação. Éramos quatro à mesa. Um deles, um puto com
graça. Levantou uma questão, que não tem resposta e da qual falarei em breve.
Outra, uma mulher que conhecemos no acaso. Simpática, católica praticante e
defensora dos grupos e de uma sociedade em definição constante. Posso ter-me
enganado, mas foi o que me passou. A terceira pessoa, olhando-me nos olhos,
atiça-me com – Quem diria que havíamos de estar numa esplanada, a esta hora,
numa segunda-feira, a tomar algo. – É verdade, ninguém. O tempo não acalmou.
Gastamo-lo sem dar por isso. Agora é um novo dia e chove copiosamente. Bad girl, bad girl.
2.3.15
Sem favores à mistura, é um ponto de vista.
Estranho,
nunca me lembro de como é que as coisas aconteceram. Nem é tão relevante quanto
fazem parecer. Interessa aos envolvidos. Acho que faltou a luz e decidiram que
era melhor colocar um ponto final – não gosto desta expressão, prefiro outras,
como terminar a relação ou seguir caminho, mas apetece-me ser fora da caixa - do
que investir no conserto do que andava manco. Com um lustre daquele tamanho no
centro daquela sala avantajada, era a desculpa perfeita para o entretenimento e
não mais se falar no assunto. Continuavam alheios e felizes da porta para fora.
E da porta para dentro. Não discutiam e ocupavam-se da troca das muitas luzes
que pendem daquele candelabro. Caro, mas uma oferta de casamento. Só trocavam
sorrisos falsos e vontades disfarçadas. Viveram felizes num sempre que não foi
além dos três anos. Como se o tempo, por si só, formasse as pessoas. Tinham
luzinhas e fotografias por toda a casa. Só lhes faltava a piscina que ficou na
casa dos pais. Trocaram e trouxeram o carro de alta cilindrada e o Mini para o
dia-a-dia. Ou vivo enganado, ou isto não importa nada. Não tem relevância e não
revela nada. Vozes de burro não chegam ao céu. Expressão que não combina com a
leveza e luxúria de uma vida cheia de torneados bons. Como não interessa as
razões, apenas as reacções. Por isso, incomodam-me os dedos em riste, prontos
para usar da verdade absoluta e apontar os erros. Calma, bons rapazes! Cautela,
meninas de bem! Ele foi para um país onde a língua tem aroma. Ela ficou por um
Portugal que tem memória e grita a dor. Olhos que não vêem, coração que não
sente. Guardem as bárbaras verdades. E vivam as vossas vidas, com ou sem
novidades. Olhem para a vossa sala. Fechem as cortinas e deixem os outros
passar. Estranho. Agora mesmo, enquanto pensava e escrevia, fiquei com a sensação
– inócua, por certo – de que por me preocupar com factos reais, não sei contar
a história como ela é. Mas tinham o lustre. E as fotografias, as luzinhas e os
carros. O chão de madeira e as varandas largas. Tinham amor. Foram sinceros.
Guardaram o mais importante e seguiram separados. O resto é ironia da minha
parte. Amigos, não se apoquentem. Ter um lustre daquelas dimensões na vossa
sala era tão sui generis. Como vocês.
Fiéis à vossa razão.
10.2.15
Das nuvens altivas, cai com destino.
Que
lamento, ouve-se de voz em voz. Que desgraça, este pé de água tão forte. Que
incerteza de escolher a roupa e a rua para seguir o caminho. Anda meio mundo
mais triste, com a saudade de um sol que é feliz. Chove como manda a lei. E
como pedem os que dela precisam. Os mais antigos pedem as águas com a fartura
da necessidade. Que preciosa a pinga que chega no momento certo. Cresce fresca
e viçosa, verdura gaiata e marafada. A chuva dá-lhe ganas de vencer. Os mais
velhos gostam da arrelia da chuva a desorientar as gentes que praguejam.
Gostam, outro tanto, por certo o tanto vencedor, de vê-la cair com tento, lavar
as terras com esperança e fazer, com tempo, crescer com a alegria do sustento.
Por isso, pedem que Deus lhes perdoe, se algum dia ouvirem um desnaturado pedir
que cesse. Vale a televisão que mostra as vidas arranjadinhas, as praias
bonitas, as roupas de alta-costura, o sol do paraíso. Ou, por seu turno,
inverteram-se os lugares da pirâmide. Contra mim falo. Escrevo. Que lamentar a
chuva que não dá tréguas, enquanto tomo café, pode ser uma perfeita pausa da
leitura repetidamente desarranjada.
5.2.15
Lente para socorro da vista.
Sem
tempo, abrimos restrições. Quando ocupados, declinamos a regra geral. Não
aceitei uma chamada, recusei responder a uma mensagem, depois outra. Ainda outra.
Não dei o braço a torcer, não deixei de parte as convicções. Voltei a recusar
uma chamada. As mensagens, sempre as mesmas. No telemóvel, no e-mail, até nas
redes sociais. Cabeças quentes. Gente esta, de vontades oblíquas. Cabeças que
latejam. Gente esta, de lembranças raras. Não é hábito o contorcionismo da
ausência de resposta. Não faço. Não espero que façam. Excepção tão
extraordinária. Um consenso. Como tantos. Devo, neste trajecto, ter torcido o
braço, mordido a língua e batido com a cabeça numa parede. Tudo metafórico. A
sério, risquei uma das lentes dos meus fiéis amigos de design. Os óculos. Nisto, decido responder. Nada justifica a lesão.
Nada. Nem numa peça real, nem numa pessoa desleal.
28.1.15
Mulher que tem cabelo avermelhado e conteúdo com elegante recheio.
Acordar
cedo é conhecer mais e melhor. Tomas uma bebida quente, aqueces as mãos. Olhas
à volta e, afinal, o cedo foi antes. Há gente a viver as ruas com luz nacional.
Rapariga de tranças curtas. De madeixas iguais. Rapariga de cabelo da cor das
chamas. Da brasa bamboleante. Não é essa, é outra. À antiga já lhe conhecemos
os jeitos, os trejeitos e o feitio desavindo. Agora, há outra ruiva. De cabelo
entrançado. Quase parece um fogo real, no meio da rua. No centro sob o sol de
inverno. Frio e agasalho, camisa de outro design.
Rapariga bonita, de vestimenta pomposa. Havia de gostar da loja de que me
falaram há uns tempos. Em Londres, nas feiras de rua, nos armazéns da cidade.
Achados bons, escolhas felizes. A ruiva rapariga tem uns óculos de sol vintage e, pasmo-me, lembram-me uns da
minha mãe. Desenho actual, lembrança de outro tempo, um qualquer em que as lentes
grandes e as armações empinadas fizeram moda. Qual diva celeste, de ruivos
fios. O casaco grosso pelos ombros, a denuncia de um sol que aconchega. Passam
pessoas à volta. Não chamam a atenção. Ela vem de passo firme, de corpo que
sabe mexer. Absorta, vai olhando à volta. Mergulhada, decerto, nos pensamentos
que fluem. Chegou, aproximou-se. Cumprimentamo-nos. Bom dia, ruiva rapariga.
Bom dia, apetecível rapaz, respondeu-me.
27.1.15
Numa rua pequenina há pessoas grandes e vidas roubadas.
Dia
ainda menino, a lua bem colocada. Apresentou-se mais cedo ao serviço. Lá no
alto que tem vista privilegiada. Rainha, senhora. Postura repetida, de quando em
vez. Como se quer na pose de desprovida de relevância. A cada momento exacto,
muda a pele que há, porventura, nela. Posa de forma diferente para a objectiva
global. Dia ainda rapazote, a tarde a começar. Há frio por todos os cantos, há
sol em cada cruzamento descoberto. A casa pequena de cordas na varanda, de
roupa num balanço. A casa grande de espelhos bamboleantes no jardim, ficção de
piscina a céu aberto. A todos se apresenta igual. Com humor claro, sem classes
ou hierarquias. Nisto, cá em baixo, numa esquina, três velhos homens à
conversa. Percebi que dois deles foram camaradas de tropa. O terceiro havia ido
mais cedo, e lamentava a ausência dos compinchas. Este foi o tema que lhes
ocupou os largos minutos. Todos três à esquina, de mãos nos bolsos. A lua a
contar. No fim, um deles roubou a mão ao bolso e levantando-a disse: Foram os piores anos da minha vida,
roubou-me dez anos de vida.
12.1.15
No meio de tudo o que tem.
Horas
a passar. A noite a decrescer. As pessoas no sossego. Outras, traseuntes vãs.
Lá fora, o frio duro e distante. Ouve-se, de repente, o som escolhido. É um
jazz mexido. Contradições matinais. Uma intervenção da neblina que esconde o
sol que está para chegar. De manhã cedo, pega no telefone de geração. Liga a
televisão e escolhe a mesma posição. Falam da taxa que está abaixo. Dos euros
que faltam na banca. Nos valores que desviam a atenção, a alegre e simpática
relação. Previsões da zona que grita que está unida. Fala o pivot que liga
acontecimentos. Nas redes sociais, no mesmo telemóvel, repetem-se as notícias
como se fizessem justiça, como se fossem novidade. Logo, sem demoras de
santidade, chegam os comentários em avalanche. Dizes tu, diz o outro. É o
costume, uma certa urticária online. Pede-lhe a password, a página do e-mail.
Corre-lhe nas veias a ansiedade de todos e de cada um. Contradições de quem lê
quase desacordado. Tantas e novas mensagens. Onde é que está a que interessa.
Ligue já a atenção. Encontre lá a prosa que interessa. Há no centro que reúne
arte, uma nova peça. E reserva a intimidade do lar. Homem digno que resiste.
Que persiste e renega a oportunidade. Uma simples regra, sem apreciar a
jovialidade. Mais um encontro. Uma fase perdida. Lá fora, a cidade fria. Volta
o jazz, não é, senão, mexido. Nem a todos chegará o agrado. Definitivamente,
como diz o adágio conhecido, deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer.
5.1.15
Prioridades biológicas de ano novo.
Diz
a sabida canção e não deixa mentir, toca o telefone a toda a hora. Era uma
procura que vem de fora. Na rua a direito, para a frente é o caminho. Fogem as
chuvas sem parar. Fica o frio que não perdoa. Intervalo para a conversa de
situação. Encontros do novo ano. Dizem as línguas afiadas de gosto pela palavra
que não sossega, que a comunhão entre os corpos vive da atracção, por demais,
efectiva e sincera. Há gostos, assim como, amores que vêm por bem. Bravos
trajectos e arranjinhos que duram um cento. Contou-me um conhecido que vive de
vazios afectos. Muitos e diversificados. Ora procura por satisfação do ego mole,
ora não escolhe, aproveita a surpresa. Contou-me esse conhecido que não tem
idade para se dedicar. Porventura, aconchegar com tempo ou casar. Não sabe
contrariar, somente descobrir e aproveitar. Escolhe, avançou, o carro para a
conquista. Chegou o ponto, vai trocar. De companhia que, por ora, azedou. De
carro que, neste horário, é sala de estar e dele cansou. Tu sabes bem, disse-me
ele, uma mulher escolhe, somente, conforme a oferta. Não sei, retorqui. Não sei
mesmo. Desavindo devo andar com essa madeixa do género feminino. Feliz, a
mente. Voltou a verdade da cantiga, toca o telefone a toda a hora. Toca, toca.
Aproveitei, a conversa terminei. Segui caminho, na mesma rua a direito. Depois
da chamada, decidi parar. Novo ano, velhos hábitos. Sentei-me e escrevi. A ver,
da esplanada fria, gente a passar.
30.12.14
Rapsódia do ano velho.
Perguntaram-me
se sonho alto. Se tenho um patamar. Imitei um pensamento esquecido. Fiz uma
rapsódia de ideias. Não esgotei o tempo. De impulso, respondi que depende da
acústica da sala. Depende dos decibéis que se soltam. Cabal hipotético, o
estojo dos sonhos. Depende, sempre, do ambiente. Se castra por inteiro, se
excita o âmago. Se tens posição, se não repetes a batida. Sonhar, assim, sem
pontuação, porque a dispensa. Sem posto de honra para a guilhotina. Sem ponto
final. Não julga a elasticidade. Sonha. Cuida a insistência. Devaneia. Até à
salvação. No retrato do novo ano, está alguém a ler o jornal do dia, as
notícias baralham os nomes, mas não mudam para melhor. As crónicas azougadas,
mas a desculpa perfeita para encarar o que não dizem. Falar por falar, não
esconde o olhar. Das lembranças, confirma que com o dia nasce o sol. As massas
correm aos saldos. Aconchegando o pescoço, estão os cachecóis. No calçado,
assalta a questão de sempre, a dúvida fica pelos sapatos luzidios, os ténis de
marca ou os botins de pele. Numa roda-viva, a ambição e as perspectivas. Além Tejo,
um pedido de casamento. Ao lado, pousa o cigarro que se gasta, fumegando. Ao
ouvido, os amigos à conversa, enquanto a mão esconde a maçã. A ponte procura
ligar pessoas. A música que agrada está desinteressada da segurança da lista de
lugares. Os transportes públicos entram, desavisados, pela cidade. As pingas da
chuva escorrem vidros abaixo. Os pequenos e grandes furtos são amigos da
miséria. Os aviões perdem-se de vista. O futuro procura uma saída. As verdades,
que são meias, servem desculpas. É, por isso, uma metamorfose invertida. Se as
há. Mundo, num ciclo. O tempo voa. Vem aí um novo ano e com ele, espero, outros
caminhos. Porque saquear o que fica, sem oportunidade de voar, é cobardia. Ano
novo, assim seja. Um ano feliz e com aconchego, é o desejo.
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