Dei-lhe
os parabéns, um beijo e um sorriso. Talvez porque é agradável, simpática,
atrevida até na postura avessa e no discurso provocador. Também, na equação,
porque nos conhecemos desde os dez anos, se não me falha a memória. Fomos
amigos, partilhámos a mesma carteira nas horas dedicadas à matemática. Lançávamo-nos
para a bravura da disputa saudável no que aos números respeitava. Rimos do
professor um tanto calvo, outro tanto grisalho. Alto, naquela idade ainda mais
corpulento nos parecia, e dono do tiro certeiro. As balas, no caso, enviava-as
da boca, que não guardava sossego. Fico-me pelo apontamento, para não cair na
tentação de chegar ao demasiado gráfico. Fomos nos anos seguintes, embora na
mesma turma, na precisão da tenra idade, avançando noutros interesses. No fim
da adolescência, pela mão de amigos comuns, tornámos o contacto. Falámos, usurpámos
a esplanada que já era do nosso grupo bom e grande, rimos outra vez, bebemos
cerveja como se o mundo pensasse sucumbir. Não voltámos à estimulante luta de
números. Havia de perder eu, já reduzo a especulação. E, num desses harmoniosos
convívios contou-me que estava no curso de arquitectura. Isso e outros
pormenores, do curso e do pessoal que por lá andava. Entre um cigarro e outro e
mais outro, foi colocado prosa no ambiente. Usava decotes generosos, os lábios
coloridos, os olhos felinos e o cabelo perto do tom do fogo. Era, se quisermos,
uma excepção na imagem do grupo e o oposto da pequena com quem partilhei as
aulas da ciência do cálculo. E isso era para todos, sem falsas justificações,
indiferente. Guardámos, a dada altura, outra ausência. Voltámos a cruzar-nos,
já ela era uma arquitecta formada. Os mesmos decotes, os lábios igualmente
pintados, o olhar mais singelo e o cabelo mais sóbrio. Deu-me um beijo. Daí,
fomos sabendo um do outro pelas redes sociais. Eu mais, que ela aqui e ali ia
deixando cair uma selfie, e teve uma
relação fugaz com um amigo meu. No outro dia, em sentido inverso na mesma rua,
parámos. A propósito do aniversário, dei-lhe os parabéns. Agradeceu-me com um beijo
num lado do rosto e a mão no outro. Tivemos tempo para trocar alguns momentos,
olhou-me com calma e avançou que não perdi a magia. Mesmo noutra fase, mesmo
sem a outra rapariga. E que o intelecto aguçado ainda o trago no rosto
estampado. A verdade nela e a verdade dela sempre me interessaram. Por isso,
tantas horas dispensámos ao diálogo. Terminou dizendo que gostou de me ver, e o
meu nome foi o ponto final.
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20.6.16
6.6.16
Vai indo, como a chama quer.
A
vida roda, os pombos não perdoam. A cidade está num filme de publicidade. Mais
à frente, no jardim de nome bonito, passou um cão pela trela, soltava uns
latidos baixos e avançava nuns pequenos saltos. Era branco e castanho, a fita
encarnada e as orelhas pregadas ao alto, assumindo um modo de viver muito
próprio. Quem o levava, sorria e dizia bom dia. Debaixo do braço, o jornal
matinal. Aqui, na esplanada de primavera, enquanto o café espera, é dona da
mesa o jornal do dia e a leitura em continuada actualização é a única razão da
pausa e do intelecto a questionar a acção. O jornal tem cheiro e mancha as
mãos. Tem no negro a palavra escrita, noutro tom as chamadas de atenção, um ou
outro pormenor. A notícia contou-me alguém, não é morrer na teoria. O quê,
onde, quando. É, sempre que esteja alinhada a razão, a subjectividade porque
não és objecto. A trincada verdade de mãos entrelaçadas com as palavras exactas
e sem excessos. Enfim, o jornalismo é um crédito que, entre ameaças tentadoras
e reflectidas, vai sobrevivendo. O descrédito não assaltou ninguém por acaso,
de rompe sem quaisquer justificações. As pessoas, as entidades, as empresas.
Todas, num rol de dúvidas perpetradas pelo punho de uns tantos. A nação e a sua
soberania ameaçadas em plena claridade. As vozes que se atropelam e a descarga
de culpa que parece infringir a inteligência do povo. Esqueçamos, por ora, a
vergonha. E lembro-me do jornal diário, sempre em casa. E de como um fato
escuro, uma gravata no mesmo tom e uns sapatos limpos combinam com umas meias
pintalgadas, qual dislexia efervescente da cor e um discurso de esquerda.
Assumidamente defensor da ideologia e, sem despromoção para o que acredita,
veementemente simpatizante da vida como ela é. Não confundir ideologia com
religião. Não esquecer que a última pode tomar definições díspares, conforme a
cabeça que a entende. E, no fim, o que conta é a informação. Tenhamos as mãos
tingidas ou não.
2.6.16
Numa espécie de corrida a favor da psique.
Faz
tempo, numa saída madrugadora, junto ao rio, numa tentativa desleal de fazer o
corpo mexer, fomos conversando. Na companhia de dois, fomos, literalmente, à
vontade do vento. Para lá, para lá onde quer que isso seja, até que chegássemos
ao ponto certo. Com o corpo fatigado e a mente em liberdade. Não se conheciam,
foram por mim apresentados naquele instante. Ele pensa no que já fez, no que
alcançou e no que vive. Maldiz da chefe, que o incomoda pelo menor. Antes
disso, ele sonhou que chegaria a qualquer estado, próximo do que vem
experimentando. É verdade e comprovado. Vai voltar a estudar, fazer uma
especialização. Não quer amor, senão uma ou outra relação. Das suas estórias
pseudo-amorosas, - a definição com as devidas aspas, - conheço de um todo. Das
juras de infidelidade à prova que o sexo por si, não aguenta uniões. Parece
desorganizado, mas fica pela aparência. Quem o conhece já lhe entende as linhas
e os espaços desnudos. Ela, um pouco mais velha do que nós, mostra maturidade
no discurso, até na postura. Mas, ao contrário dele, não se esgota no que
aparenta. Cai, aqui e ali, num discurso pesado, de quem vem ganhando pavor aos
acontecimentos. Independente, atrevida e recta atitude do corpo. Sonhou, pelo
menos desde que a conheço, com o príncipe encantado. E aprecio-lhe a
ingenuidade. É tão sincero, que não merece perder a oportunidade. Envolveu-se,
tanto quanto vem contando, com tipos mais velhos, em boas posições
profissionais, cujas relações não vingaram. Até chegar ao que se apresentou
como o tão esperado homem encantando. Juras de paixão intermináveis, trocas de
alianças, apresentações à família e amigos. Viveu, começo a acreditar, uma
excepção. Teve o que sempre pediu. Contudo, não foi eterno. Primeiro a
desavença que ninguém sabe, depois a morte que ninguém conheceu. Não invejo ter
razão e contra mim falo, mas os príncipes não saem da imaginação para a vida
real, materializando-se no que a outra pessoa procura. No máximo, ficam-se pelo
encantamento de aceitar partilhar o quotidiano, o corpo e a mente. Enquanto for
verdadeiro, mesmo que redefina o sentido de sempre. O até aqui pode, muito bem,
ser um autêntico e saboroso trecho da nossa história. Sem prejuízo para a
fantasia do para sempre.
23.5.16
Uma manhã qualquer.
O
sol olvidou-se. A ameaça é constante. As meninas da recepção, entre o dedilhar
no teclado com as unhas gigantes e o atendimento que as distrai, choram a
ausência do calor, dos dias grandes e da praia a perder de vista. Já ninguém
tolera a questão. Ameaçam-se os céus e os santos. Adiante, que o que lá vai não
é nosso. Ouvi, assim que passei o corredor iluminado pelas vidraças gigantes.
Um senhor e uma senhora, que imagino casados, trocavam a prosa sabedora.
Ficámos à espera. Um pequeno rapaz faz birra e garante que não quer estar ali,
o irmão ainda menor brinca com carrinhos no chão e guarda outros tantos na
mochila. A mãe ameaça abandonar o propósito que os mantém ali e seguir para a
escola. A televisão, silenciada, esboça uma apresentadora animada numa conversa
cujo tema revela toda a maestria do conversador matutino. No telemóvel as redes
estão ligadas e no Instagram já se
vêem biquínis coloridos, praias a enquadrar e sumos de cores berrantes,
aludindo, claro, aos últimos cartuchos da anterior época balnear. No Facebook somos todos qualquer coisa,
conforme o dia apeteça. As notícias frescas, os acontecimentos que fervem e não
deixam sossegar. Recebeu-nos com o sorriso rasgado e a amabilidade de sempre.
Não os sabia por aqui, façam favor, adiantou enquanto nos encaminhava. Havia,
por certo, tempo demais que não nos cruzávamos. Daí, a surpresa. Gabo-lhe, sem
cerimónia, os seus bonitos suspensórios. Louvo a aparente extravagância, que do
termo nada tem. É uma mistura do estilo com a vontade. E, contra a última, nada
há a fazer. Num xadrez preto e branco, imitando o tapete de um jogo. Sobre,
imagine-se, uma camisa na cor do vinho. Em simbiose exacta com a gargalhada
característica. Não se engane o povo, o risco é falecer. Tudo o resto, mais
cedo ou mais tarde, há-de chegar e, se não for moda, ficar. Um aperto de mão e
já garantimos a manhã.
16.5.16
O putativo lesado e a sua barba rija.
Vem
de longe a vontade de chegar depressa. Num tom de vermelho e branco, sem
preceito, tão a propósito. Vem de outras núpcias a gana de chegar além. Vem,
numa espécie de barba rija, a guerreia de chegar ao ponto. Falo, enquanto o meu
relógio de pulso humilha o tempo, na barba de alguém. Que rija, só a humildade.
A minha, finalmente aparada quase como manda a lei da avó de outros tempos ou
do avô que guarda o cheiro da colónia que assalta o rosto logo depois da
navalha. Há quem insista em passar-me a mão pelo rosto e persista nesta
revelação de emoção, de amor. Cedo-lhe sem pesar. Mesmo quando barafusta e pede
o rosto lisinho. Se pouco ou nada importa o que está atrás, não perde relevo o
que segue adiante. A primavera acordou. Assaltou-me sem aviso e deixou-me à
mercê das suas vontades, numa alergia irregular e acidentada. Ontem, entre
gritos e apitos, a festividade foi longe. Com a raça de quem corre por gosto.
Com a fé de quem ameaça romper com a barba de larguíssimos anos. Temeu-se, a
favor do campeão, perder-se a rija pilosidade facial de um homem cuja idade já
não tem senão contabilidade. Contava-me hoje, entre o sol da manhã e a pressa
do almoço, essa efeméride. Sem me conhecer, lembrou o sem fim de gente que
ontem brincou e saltou. Acenei em jeito de aprovação. Vem de outro tempo a
necessidade de guardar espaço para a vontade, para a gana e a guerra inócua.
Mesmo que o resumo sejam parcas linhas que explanam acerca de um duplo tom. No
fim, o melhor irrompe e deixa-se ficar. Permite a ocasião, sem desprimor para o
intelecto, abusar dos hashtags. Isso
e do português correcto.
14.4.16
Breviário sobre o espaço e o tempo.
Assomou-se
à porta e num poucochinho de voz lembrou-lhe que tinha esquecido o relógio. Não
abusou do postigo, pintado de branco imaculado. A porta encarnada e gasta, numa
madeira que grita ao sabor da medida interna dos instantes. Ele devolveu-lhe o
olhar, sorriu e num passo de corrida chegou-lhe perto. Toma lá, desnaturado,
avançou ela. Nestes lugares, meio pequenos, ainda se vê o que parece ido. O
tempo, sendo o mesmo, cavalga noutro ritmo. As portas ainda se encontram
entreabertas, a mercearia ainda tem lugar, as senhoras de idade não deixam os
lenços em casa e as batas a proteger a roupa. Ainda escolhem o fato domingueiro
e vão à missa, que o padre é bom homem e a religião ainda comanda os trejeitos
do lugar. Os velhos senhores não dispensam o boné e o chapéu e trocam cartadas
numa mesa improvisada. As varandas e janelas têm suportadas as roupas a secar.
Ladeira acima, com a calçada gigante, leva uma alma, um saco à cinta. Eu sou
visita de uma gente que tem receio, num primeiro contacto, de olhar na cara,
mas não perdoa os bons dias. Vou olhando com calma, especado no centro da
passagem. A matriz é imponente e guarda o centro da vila. Os mais pequenos
passam a fugir. Os carros são poucos, mas estão bem cuidados. Passa um tractor
com feno e um senhor cuja idade parece não o consumir. Imagino-lhe animais de
grande porte à espera. Num jardim, uma estátua. Lembra-me um tio. Irmão da
minha avó, homem eternamente solteiro. Dono de um corpo leve, mas
impecavelmente vestido. As calças vincadas, os sapatos brilhantes, as camisas
de bom tecido, os pulôveres sempre engomados. E, por fim, o chapéu. Sempre o
chapéu. E o relógio de bolso. Sempre a tirar as horas e a dar-lhe corda. Ainda
me lembro, no seu jeito aparentemente rude, sentado na sala, com o relógio na
mão e o chapéu pousado no joelho. Conversámos, era eu um miúdo, sobre
frivolidades. Tenho hoje um bonito relógio de bolso. Herdado, claro. De um tio.
Do meu tio. Sair do nosso lugar e tempo é conhecer e aprender. É aludir aos
nossos. Às nossas memórias. E sempre com a corda toda.
13.4.16
Um dia.
Desconfio
que me canso, a passos largos, de algumas conversas, até de posturas. Um tanto
inócuas e frívolas, outro tanto desonestas e até sádicas. Mesmo que carregues
um sumo que sustenta a ideia e a necessidade de limpar o corpo. Uma revista de
nome pomposo na outra mão, uma maçã na algibeira e outra num saco que tem as
iniciais estampadas. Assim se faz a corrida matinal do contratempo. Ou é acaso.
Que, com prejuízo, relegas para outras horas a limpeza do tronco humano. Se
acreditares, da alma também. Ainda agora demos o primeiro passo do dia, já vai
ameaçando cansar. Chegas e ouves vozes baixas, passos leves e cafés nas mãos.
Sorriem com a facilidade de um manequim dentário. Devolves, se o senso te
permitir. Na pausa maior, há almoço marcado. Levas a maçã que não te deixa
sossegar, os óculos de sol elegantes, o casaco bonito e o perfume preferido.
Somos uns quantos, alguns nunca vi. Avançamos numa conversa com passo, tema
livre. A paixão de uns, o desamor de outros. Levam-se, estes ritmos, à ficção
da exaltação. Que a vida cospe, mas não há como mudar certas vicissitudes.
Neste barco, adiante até ao despique da tagarelice. O sexo oposto chama a
atenção. O trabalho efectivo ou o desejado em cima da mesa. O olhar atento para
com os refugiados. Aqui, ganha espaço o indouto. Não replico se não for caso
disso. Se não se aprouver de importância o ser que vocifera alarvidades. Ao fim
do dia, com tudo em caminho da pausa. Ganho a certeza de que me venho cansando.
De determinadas conversas e de gente salobra. Dá-se a sorte de me rodear de
pessoas boas. Uma certeza destrói o putativo. Mesmo que irrompa inopinadamente
no nosso sentido.
11.4.16
Apresentar como qualidade habitual.
Ora,
vejam lá. A senhora lavadeira nas horas que deveriam ser vagas e cozinheira
naquele restaurante a tempo inteiro lê nas horas vazias. Ora, fechem as bocas
que o espanto ainda vem a galope. Que não lê as gordas do jornal genérico nem esmiúça
as fotografias da revista semanal cujo objectivo é saber da vida alheia. A
senhora, de cabelo aloirado, com as raízes a gritar, de avental aos quadrados.
Aqui azul, ali branco. Aqui azul, ali branco. À cinta, uma tira de tecido florido.
Adelgaça a mesma e faz lembrar a primavera. Põe sobre os ombros, para compor a
vestimenta, um casaco de malha. Azul silvestre, avançou. Fala com pressa, a
língua não se atrapalha e, se for o caso, ainda trauteia umas canções de
Roberto Carlos ou da Dina. Prefere o cancioneiro português e brasileiro, ao
invés, das desculpas que Bieber vai gritando em cada esquina. Conhece o pequeno
do outro lado, porque a neta ouve a despropósito todo o santo dia. Um ramo de
salsa na mão, viçoso e airoso. A mão esquerda leva-a ao brinco que não quer
guardar o lugar. Sem que fora preciso perguntar, não guardou a palavra e deixou
passar que é dona do seu nariz, vive ali há tanto que já olvidou e com o seu
homem se casou. Teve dois filhos e um emprestado, comprou o vestido com o
dinheiro que ganhou numa casa de fado. Sonhou ser professora de meninos
pequenos, perdeu a sorte e ganhou o palato apurado. Com o casamento, veio o
restaurante, foi a menina do balcão, serviu às mesas até ao dia em que a
cozinha lhe recheou o coração. Hoje é mãe e avó, ri com gosto e fé, põe as mãos
na anca e afinca o pé. Quando a noite já vai perdida, encosta a cabeça no
travesseiro alto e lê a companhia de cabeceira. O marido já dorme, ela lê Mario
Vargas Llosa. Conheceu-o aquando da atribuição do prémio Nobel. Daqui a pouco é
manhã. O sono sumiu-se num nada, há gente para cuidar, roupa para lavar e
engomar e um restaurante para comandar. Ora, vejam só. A cozinheira de mão
cheia tem na arte a compreensão. Fá-lo tão bem, que gere o tempo de forma a ler
depois do serão.
4.4.16
Saúde e alegria sobre rodas.
Alguém
que chegue de bicicleta vai, por certo, atrair a minha atenção. Seja onde for.
No outro dia não foi excepção. Não é outra atracção senão o objecto.
Porventura, uma ou outra me vá passando à revelia. Não aquela, que há atrasado
passeou e parou num jardim da cidade. Perto dos malmequeres viçosos.
Entretenha, aqui e ali, de crianças que jogam à sorte. Procurando, num desfile
de pétalas pelo ar, chegar à adoração de bem-querer. Parou, com ligeireza, a
bicicleta branca. Bonita, de elegante porte, de pedais finos e rodas a
condizer. Trazia, antes do guiador, um cesto claro, abrindo caminho. A condutora,
uma jovem mulher, de cabelo loiro e lábios rosados. Os olhos expressivos, o
nariz bem desenhado. Uma franja que, em tudo, coadunava-se com o seu ar de
liberdade. Uma camisa de gola subida um tanto escondida pelo sobretudo. Não
saiu da bicicleta, saltou. Encostou-a e no banco ao lado sentou-se. Pegou num
caderno de notas e sossegou. Da mala, uma caixa, de lá tirou pedaços de cenoura
e à boca levou. Daqui em diante, deixei de acompanhar. Não sei quem é, não sei
como acabou. Quem partilhava comigo a pausa, avançou que é uma jovem
veterinária com jeitos e trejeitos que lembram outros tempos. Ilude-nos a visão
quando não temos na mão o guião. Pouco, mesmo nada, me importa se é verdade ou,
antes, uma perfeita ilusão. Atraiu-me a bicicleta com ar romântico, só depois a
mulher que a trazia e preferiu escrever à mão, num caderno bonito, petiscando
fracções de cenoura. Ao invés de chegar num carro da moda, com os saltos que
morrem na calçada e de tomar notas no iPad
que, sem fonte de energia, morre a qualquer instante. Gosto de bicicletas. Não
menos, até mais, vou acreditando, gosto de pessoas. E de vê-las passar.
31.3.16
Em diferido. #47
Um estilo muito próprio - Já é Primavera, num Portugal tomado pela
gentileza de ser. Não sei como lhe chamar. Se largo, praceta ou uma rua
enviesada. Mas cumpre a função, seja qual for o nome que lhe dão. Nesta cidade
de gente nova a passear as roupas despidas, a meia-idade não tem trejeitos à
vista. Guarda-os no sossego da sala de estar do apartamento que ainda paga ou
no baile de esperança e expectativa, cujo propósito é juntar os divorciados e
os viúvos da zona. E dos arredores. Ou, se permitirmos, é tudo mentira. Fatal
utopia, a de antecipar a vida alheia. Sinto-me visita quando volto. Por certo,
porque nunca fui senão visitante com curiosidade e paixão. Por ser impossível,
não esqueço um lugar como este. Onde as tradições nacionais e regionais ainda
existem, mas vão falecendo. Tão moribundas como as ruas numa hora vazia. Lá,
onde vestir bem e sair para a rua, parece ter um duplo sentido.
Desassossegam-se as almas exânimes, tomando fulgor de última temporada. Depois
de levar o corpo pela cidade, volto à praça pequena ou rua sem entrada. Fica
lá, qual majestade, a padaria. Das antigas, onde o nome do fundador é história
relevante. No cimo de uma das portas principais, lá está o nome cravado. Entrei
e falavam de idade e do peso de não conseguir contrariar os declínios. Estava,
daí a conversa, uma senhora de noventa e quatro anos ao balcão. Um charme.
Quando existe, não morre. Jamais. A minha mãe lembrou a minha avó. Viva e tão
apta. À saída, a mesma senhora. Ajudamo-la. – Obrigada, meus queridos. A figura
tão torpe que uma velha consegue fazer. Obrigada e perdoem-me a desfeita. –
Sorrimos. Antecipou um pensamento. Felizmente, em tempo algum, poder-nos-ia
invadir a lembrança. Tenha um bom dia. Até qualquer outro.
10.3.16
Em diferido. #46
Sem a reflexão imprescindível - Lamentavelmente, os convites já não vêm em carta fechada, com o endereço certo e o nome do destinatário com todas as letras. Sem erros, nem ausentes letras. Por fim, entregues em mão. Hoje em dia, vêm por bem, mas na força proporcional ao quotidiano desta gente invertida. O rio pode ser a passadeira perfeita. As palmeiras que abanam ao sabor do vento, enquanto dão um toque de paraíso à esplanada, podem, perfeitamente, ser bailarinas de serviço. Mas de qualidade. Não têm beleza no nome. Os caixotes de lixo, tão disfarçados, podem ser pratos imaculados de uma bateria. Os sofás que vemos no interior, numa putativa referência vaga às elegantes zebras, podem ser um qualquer piano de cauda. O funcionário, que nos atendeu com a postura correcta, contudo caída em desuso, de braços no lugar, podia, sem mazelas, ser um actor de uma película branca e negra. O sol que nos apanha não tem comparação. Éramos quatro à mesa. Um deles, um puto com graça. Levantou uma questão, que não tem resposta e da qual falarei em breve. Outra, uma mulher que conhecemos no acaso. Simpática, católica praticante e defensora dos grupos e de uma sociedade em definição constante. Posso ter-me enganado, mas foi o que me passou. A terceira pessoa, olhando-me nos olhos, atiça-me com – Quem diria que havíamos de estar numa esplanada, a esta hora, numa segunda-feira, a tomar algo. – É verdade, ninguém. O tempo não acalmou. Gastamo-lo sem dar por isso. Agora é um novo dia e chove copiosamente. Bad girl, bad girl.
25.2.16
Em diferido. #45
Muita saúde e sorte é o que lhe desejo - Doravante foquemo-nos no
adágio que apregoa o horário bem matutino e aos seus benefícios. Oiço um bom
dia lá ao fundo. O sono vem acompanhando os meus passos desde manhã cedo.
Parece mal, assim ao jeito de quem procura o espaço e a cadeira certos para fazer
da cama um lugar melhor. Assumir o sono que não dormiu, confrange a sociedade e
a obrigação das maneiras bem pausadas e pautadas. Parece-se com a ideia tão
estapafúrdia de querer uma cadeira à cabeceira. Duas, diferentes e, se
possível, datadas. Compô-las com o tempo. Quão blasé me tornaria – em descasos,
ainda mais - se optasse por confundir e difundir ideias desordenadas, imitando
uma mímica repetida, ignorando o tédio ao redor. As pessoas passam em grande
número e falam alto, na televisão da moda passa um vídeo pop onde as ancas da jovem torneada se mexem com afinco e
açambarcam o ecrã, o miúdo vem de rosto lavado em lágrimas porque não comeu o
terceiro bolo, um casal vestiu-se para o casamento do ano mas age como se
vivesse entre a espada e a parede. Um outro casal, bem mais vivido, leva as
mãos enlaçadas, sorriem e apontam curiosos para um pequeno pássaro que está
pousado entre os verdes. Casal que, sinceramente, me apeteceu fotografar.
Homens apressados carregam caixas pesadas para lá, voltam para cá, e repetem a
acção. Os saltos altos soam na calçada e os chinelos ainda são a maioria. O
acordo ortográfico, que degrada um tanto do léxico e foi vilmente imposto, come
as páginas por onde passo os olhos. Esta compilação provém da desdita que
resulta da luta mental em favor do cidadão activo. Tudo isto e mais um par de
óculos de sol.
1.2.16
O ano segue.
É
como se o novo ano tivesse perdido intenção, força no contexto. Desliguei o
carro, apaguei, mentalmente, qualquer coisa e saí. O novo ano já arrancou.
Guardo ânsias. De ver renascer, na luta crescer. De pensar e conseguir ganhar
tempo para ler. Penso no velho do jornal. Tirei-lhe a vista de cima. Não
consigo encarrilhar e, por isso, não consigo adiantar a última vez que com ele
me cruzei. Factos na mente, dia no esquecimento. Lia as gordas, pensava as mais
miúdas. Falava sobre ambas, perguntava-me e esperava a minha opinião.
Escutava-o com primorosa atenção. Íamos até à saudável discussão. Bebíamos um
café. Ele temperava-o com a água amena. Devolvo o pensamento, volto ao carro.
Carrego a máquina fotográfica. Sem utilizar o raciocínio, avanço pela rua.
Passo pelo restaurante de boa fama, ar requintado, talheres elegantes, pratos
de qualidade e guardanapos de fino pano. Noutra altura, antes do novo ano, dos
outros dois também, rimos ali. Entre uma garfada e um vinho escolhido
aleatoriamente. Contudo, foi no desassossego doutro lugar, que demos
gargalhadas infinitas, tivemos certezas definidas. Enquanto avanço pela rua,
neste jogo, toca o telemóvel. A D., eterna amizade, lembra-me por escrito, a
ausência e a saudade. Fala-me das escadas do metro, do abraço apertado. Das
suas palavras, da nossa verdade. Da incansável vontade. Trocámos beijos quando
pediam distância, partilhámos um copo quando chamavam pela desunião.
Estivemos largas horas no bar do hotel, quando me inventavam outro destino.
Chega um novo ano e, na verdade, tudo acontece como dantes. Só o “casamento do
ano”, pelos protagonistas tão ansiado, já lá vai. Tanto alinhavámos, que lhes saiu
a sorte grande. Abri as atrevidas comas, consciente da rasa alusão. De lá, o
chapéu encarnado, imitando um fatigante pandã. As boas vindas a lembrar o
diabo, fingindo risinhos em desformes normas de passerelle. A rua, neste hiato, quase a terminar, o ano a ganhar
terreno. Apanho o ensejo certo, fotografei o amor perfeito. Ri-me com eles.
Como naquela mesa de restaurante caro, bem mais na mesa singela de lugar com
comida. Mais uns passos, chego ao destino. Com tempo, como faço por repetir. A
verdade, que dispensa convida a inteligência, velozmente se torna numa metáfora.
Lamento o tempo perdido, os livros por ler. Desconfio, no mesmo nível, das
caras eternamente paralisadas no modo felizes para sempre. Ou dos corpos que envergam
um trench-coat caro, uns sapatos de
pele limpa e um relógio vistoso que agem como suínos a céu aberto. A linguagem
torta assalta-me depois dos bons dias não serem devolvidos a uma farda que limpa
o soalho. O mesmo que os ditos sapatos pisam. O olhar altivo volta-se e sorri
para mim. Com o meu casaco de inverno, abstenho-me de qualquer resposta e sigo
caminho. Este que escreve, não olha unilateralmente. Rica senhora que de
esfregona e balde às costas, leva um prédio nas mãos. Soube, mais adiante, que
Maria Rogélia, de seu nome, tem cinquenta e dois anos e uma família feliz. Não
tem casacos com nomes inventados, tampouco, marcas exuberantes a cobrirem-lhe a
pele. Ganhou o prémio maior, tem uma família de valor. Agradeci-lhe a breve
troca de palavras e gabei-lhe a postura. Até qualquer dia, rematou a senhora.
Ainda agora começou e, não nos enganemos, nada mudou. O mundo gira, a
arrogância vive em apneia, o snobismo ainda ganha investimento e suplanta o
conhecimento. A Maria é da limpeza e o Salvador investe na bolsa. Voltei ao
carro. E, neste balanço, os quadros. Os meus quadros, com pesar, permanecem em
convivência. Sobre o soalho e junto à parede abraçada pelo rodapé. Novo ano,
nada mudou. E segue sem parar.
14.10.15
Em diferido. #41
Vai
guiando os ensaios por onde quiser - Volto sempre lá. Ou voltava até ao dia em
que se mudaram. Que a cidade é bela e tem encantos sem fim, já todos sabemos.
Tem luz de casa real e prédios de decoração fina. Tem beicinho se não prometer
voltar. Sem ser preciso supor, tenho uma paixão sem fim. A cidade é fina e tem
lugares vários. Na mesma cidade, volto às visitas. Volto sempre. Agora, volto a
outro lugar, a mesma cidade. Antes, aqueles prédios enormes. Cá do asfalto,
antes do padrão português e do jardim trabalhado, olho para cima e parece que
nunca mais se endireita. É um indutor, tão sedutor, do pensamento. Lá em cima, numa
varanda larga, o cigarro de ocasião. A visão inversa, o mesmo sentimento, a
mesma sedução. Entre a conversa e a vertigem passageira, passa no asfalto uma
velha mulher. Se não me engano, vi-a todas as vezes que os visitei. Sempre a
passar naquela rua. De negro se tapava. Só lhe víamos o rosto. Tão cansado e
abatido. Um lenço negro a tapar-lhe os cabelos, uma saia negra pelo joelho. Um casaco
negro ou uma camisa no mesmo tom. Umas meias negras a esconder a pele. Curva,
parecia que nunca tirava os olhos do chão. Puxava, com as mãos que imagino
vencidas pelo tempo, um carrinho. Daqueles que servem para o auxílio das
compras. Era, sem falsas ideologias, a excepção daquele lugar. Chamou-me,
particularmente, a atenção. Todas as vezes. Nesse fim de tarde, a última vez em
que estive naquela casa, enquanto a velha senhora passava, perguntei-lhes sobre
ela. Não tinham muito para contar. Somente, que todos os dias arranjava um
canto para estender os livros e tentar vendê-los. Assim, o carrinho com duas
rodas era o armazém. Quão valioso o conteúdo, permiti-me pensar. Como na
literatura, a vida quotidiana é um ensejo permanente. Até à página final.
8.10.15
Sumário.
Soa
“Ain’t no sunshine” numa versão
admirável e é coincidência. Sinto-lhe a pele fria, notoriamente afectada pela
brisa e pela temperatura a baixar. Um arrepio que se vê. Partilhámos a mesma
praia vezes sem conta. Nas manhãs quentes, nas tardes de verão sem fim e nas
noites longas. Dividimos o quotidiano num tempo contado. Nos dias frescos, nas
semanas ocupadas e rápidas. Nos meses largos, nas horas sentidas. Rimos muito e
em voz alta. Lembrou-me a palavra risada e nunca mais a perdi da ideia. Desvendou
alguns pormenores, li-lhe nos lábios algumas certezas. A atracção e a admiração
na mesma conta. Promessas vãs, maturidade inútil. O corpo tão bonito e a cara
perfeita. Os cabelos a bailar. Sob o luar, a luz certa no mar, falámos em voz
reduzida. Partilhámos o corpo. Contámos segredos e pensámos em poesia. Os olhos
claros tinham vergonha, as mãos desenhavam o pensamento. Prendeu-me a atenção.
E levou-me pela mão. Ensinou-me a beleza, ocupou-me a cabeça. Partilhámos
paixão e paixões. Olhei, desde então, para o elefante com outra perspectiva.
Animal de eleição, simpatia para a vida. Encontrei, há instantes, a fotografia
perfeita. Havia de lha enviar, não fosse a sorte fugir-lhe. Esse tempo já lá
vai. Ficou a terna e infinita amizade. As mensagens na altura certa. Muitos
elefantes para logo, é o que desejo. Tão grandes e imponentes quanto a sorte
que sei que te está reservada. Precisamente hoje, que acontece o que já me
havias contado e sabias tão certo lá atrás.
31.8.15
Muita saúde e sorte é o que lhe desejo.
Doravante
foquemo-nos no adágio que apregoa o horário bem matutino e aos seus benefícios.
Oiço um bom dia lá ao fundo. O sono vem acompanhando os meus passos desde manhã
cedo. Parece mal, assim ao jeito de quem procura o espaço e a cadeira certos
para fazer da cama um lugar melhor. Assumir o sono que não dormiu, confrange a
sociedade e a obrigação das maneiras bem pausadas e pautadas. Parece-se com a
ideia tão estapafúrdia de querer uma cadeira à cabeceira. Duas, diferentes e,
se possível, datadas. Compô-las com o tempo. Quão blasé me tornaria – em
descasos, ainda mais - se optasse por confundir e difundir ideias desordenadas,
imitando uma mímica repetida, ignorando o tédio ao redor. As pessoas passam em
grande número e falam alto, na televisão da moda passa um vídeo pop onde as ancas da jovem torneada se
mexem com afinco e açambarcam o ecrã, o miúdo vem de rosto lavado em lágrimas porque
não comeu o terceiro bolo, um casal vestiu-se para o casamento do ano mas age
como se vivesse entre a espada e a parede. Um outro casal, bem mais vivido,
leva as mãos enlaçadas, sorriem e apontam curiosos para um pequeno pássaro que
está pousado entre os verdes. Casal que, sinceramente, me apeteceu fotografar.
Homens apressados carregam caixas pesadas para lá, voltam para cá, e repetem a
acção. Os saltos altos soam na calçada e os chinelos ainda são a maioria. O
acordo ortográfico, que degrada um tanto do léxico e foi vilmente imposto, come
as páginas por onde passo os olhos. Esta compilação provém da desdita que
resulta da luta mental em favor do cidadão activo. Tudo isto e mais um par de
óculos de sol.
14.7.15
Assim vai o ensejo.
Numa
pausa inócua, inopinadamente entretido com minudências. Estaria, algures entre
as minhas notas no caderno preto, as minhas garatujas no dito caderno – que tenho
tamanha vergonha na cara que apelido os desenhos que vou fazendo como me parece
definir melhor o desmérito, - na secretária de sempre, no computador de algumas
horas, no telemóvel e nos e-mails e nas fotografias que lá guardo. Na máquina
fotográfica que, sem preparação, faleceu. Paz. À sua alma. Ao momento em que
paro para ouvir as músicas de tanto tempo. Ainda, não sendo seguidor de uma
certa burguesia, que raras vezes aventam fazer parte da estrutura, estaria no Instagram ou a ler um qualquer texto de
um fazedor de opinião. Numa mensagem escrita, falava-me do evento. Havíamos de
ir, antes de descermos, continuava. Atraiçoa-nos a pressa dos dias. Sem soluços
maiores, num relâmpago mais precoce, eis o dia certo. O recinto alargado, a
terra algures sossegada, o palco principal lá ao fundo, em destaque. Ao lado,
outros, menores. Fica-lhes o talento buliçoso. Que não tem tempo para brincadeiras
alargadas. Nunca de somenos relevância. O espaço compõe-se à velocidade de um
vídeo apressado. Aglomeram-se junto ao palco maior, dando primazia aos cabeças-de-cartaz.
A curiosidade aguça. Vêem-se, também, pequenos grupos. Amigos e conhecidos em
amena convivência. Impera e reina a boa disposição. O corpo pede conforto, os
acessórios gritam por socorro. Numa nota mísera, os chapéus ainda estão na
moda. As marcas fazem o seu trabalho e, no recinto, estão ao nível das
tatuagens. Estão em todo o lado. Chegada a hora, o palco faz vibrar, braços ao
alto, mãos num movimento frenético. Entre luzes, som e adrenalina, gritam os
espectadores entusiasmados. Sobrevivem, naquela excitação, os telemóveis que
alumiam. A fotografia da despedida, o adeus resumido numa mão bamba. De cigarro
na boca, ao jeito de um retrato a preto e branco. Foi assim, em grande escala.
Numa outra pausa, rir-nos-emos do resto. É sempre assim.
25.6.15
O meu primeiro chapéu e uma estante com instintos.
A
janela grande e escancarada deixa entrar, pelo meio das cortinas saracoteadas,
o sol da manhã, a varanda reflecte e temos várias cores a brincar nos móveis. Nas
costas uma estante digna. Lá fora, no jardim que está ao fundo, três velhas
senhoras. Conversam muito, riem também. Não esquecem as mãos e gesticulam como
quem ensina com o corpo. Vestem com cores garridas, têm óculos, seguram as
malas com fé e o calor lembrou-lhes o chapéu. Um de palha gasta e outro que foi
oferta de uma marca de refrigerantes. Conheço quem valorize pessoas e casas
pelas estantes e pelo conteúdo das mesmas. Assim chegados, procuram o espaço e,
desavisados, lêem as lombadas dos livros. Não entendo se é um passatempo ou uma
patologia sociocultural. Tenho os livros tão bem guardados. Uma verdade envolta
em ironia. Uns expostos, numa estante típica, alinhados e alinhavados conforme
autores e temas. Outros estão algures. Sei que andam entre cá e lá. Já
emprestei parte, já me emprestaram uns poucos. Prefiro comprar, prefiro que
sejam meus. Porque, para mim, um livro não se esgota na leitura, tampouco, numa
primeira leitura. Salva-se a lembrança e a vontade com o regresso ao acto de
ler. Repetido, mas com torneados vários. O voltar às capas, aos prefácios, ao
cheiro tão característico. Às notas que, porventura, me pareça pertinente
deixar. Procuro há vários dias, por uma obra antiga. Se não me falha a memória,
dádiva da minha irmã mais velha. Uma história arraçada de novela, um autor
nacional que deixou marca. Lembrei-me deste romance tão bem ficcionado,
precisamente, no instante em que me atrevi a comprar o meu primeiro chapéu. O
primeiro passo está dado. Falta-me agora, bem sei, a coragem e encontrar o
livro sumido. Orienta-se, assim, o meu instinto.
9.6.15
Um livro rabiscado e a jovem do fim de tarde.
Vem
de vestido florido, Converse All Star
nos pés. Tem a mala num braço, um livro na outra mão. Senta-se e cumprimenta
quem está à volta. O cabelo está sossegado, mas nunca impossível de mexer um ou
mais centímetros. Ameaça viajar sem sair dali. Sorri para o empregado, e fala
baixo. Esboça um sorriso enquanto pega no livro e abre na página assinalada.
Não usa separador, as páginas estão marcadas. Imagino-as cheias de letras, tais
os apontamentos que surgem das passagens relevantes. O livro sobre a mesa de
madeira, a mão direita comanda a passagem das páginas, a mão esquerda brinca
com o rosto. Chega a bebida e faz uma pausa. Agradece ao empregado. Toma um
pouco da bebida e volta à leitura. Eu continuo à espera, que teimo em ser
pontual. A vista é soberba, a esplanada que irrompe pela piscina que, por sua
vez, faz pensar que se nos deixarmos ir, vamos precipitar-nos pelo verde
adentro. Finalmente, chega quem eu aguardava. Tomamos algo e conversámos.
Disse-lhe, outra vez, para largar o tabaco. Que vício pernicioso, meu bom
amigo. Retorquiu, usando dos factos: Não sei ser outra coisa. Já sabes disso.
Só vivo para ter o prazer de viver todos os vícios. Aceito, disse-lhe. Contudo,
só até ao dia em que chegues ao desprazer. Adiamos, pois a filosofia, sem ter
hora marcada, tem exigências tamanhas. Na mesma mesa, logo depois da nossa,
continua a jovem. Agora acompanhada por uma senhora, que chegou de chapéu e daí
para a frente, conversaram e riram juntas. E tem nome, a jovem do livro
rabiscado, Maria Francisca.
2.6.15
Profissão: Postura e autor de obras literárias escritas à mão.
Aqueles
tipos com pinta. Gabo-lhes a postura, a forma aparentemente desinteressada mas
inteligente, como fazem do insuficiente o bastante. Não lhes importa a idade, o
lugar ou a trivial meteorologia. Por certo, vale-lhes e interessa-lhes a
companhia. Têm conversas interessantes e vestem bem. Falam português correcto e
escrevem a mesma língua sem chacinar a ortografia. Contam histórias e não se
cansam de partilhar. Lembro-me dele desde bem novo, eu pequeno, ele jovem e já
calçava as meias encarnadas. Vestia fato completo e umas gravatas elegantes. Os
sapatos sempre impecavelmente tratados. Não fumava por convicção, tomava uma ou
outra bebida ao jeito de quem procura inspiração. Tinha uma posição confortável
numa empresa. Só o fazia competente, nunca feliz. Escrevia e pintava no jardim,
naquela mesa ou naquele alpendre. Sentei-me durante tempo sem fim, vezes sem
conta, a ouvir-lhe as histórias. Ainda um miúdo sobejamente imberbe, já eu roubava
aos adultos da mesa as conversas. Por não fazer, ainda e com sentido, parte
daquelas tertúlias. Não sei se me inspiro em alguém. Mas simpatizo com tipos
com raiz e identidade. Mais ainda, se fugirem às barreiras do socialmente
correcto. A seguir, com outra idade, lembro-me dele, no lugar de sempre, com o
jardim à volta, amigos, comida e conversas sem fim. Amou muito e teve muitas
mulheres. Foi a salvação do desaire que prefere nunca esquecer. Ele mais velho,
contudo, igual ao de sempre. Encontrá-lo, não era fácil. Vivia naquele lugar,
mas podíamos encontrá-lo numa qualquer esplanada com árvores a envolvê-lo, os
carros a passar, o avião a seguir caminho lá no céu. Numa exposição contemporânea
ou numa biblioteca datada. Hoje, homem de idade respeitosa, cabelo mesclado de
branco, diz-me que é feliz. Naquela esquina, enquanto espera. Traz o fato
engomado, a camisa branca e a gravata. A pasta numa mão, dois livros na outra.
Os óculos de sol que são imagem de marca. -
Miúdo, sou feliz. Perdi competência, mas sou feliz. Escrevo o que quero, para
quem quero. Sempre à mão. Escrevo porque amei muito. Senão era uma folha em
branco. - Aqueles tipos com pinta são do caraças. Mesmo que o cabelo tenha
perdido a cor e o corpo o fulgor. Deu-me um toque nas costas, como cumprimento
e chamou um táxi.
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