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10.12.14

É natal, senhoras e senhores.

É Dezembro a caminhar. Chega o primeiro do mês e logo de festa se veste. Se vestem. As casas, as ruas e as pessoas. O espírito toldado pela luz da ocasião. Desde sempre, desde que tenho memórias, ainda petiz de vontades travessas, que me lembro de ouvir que este é o mês das festas. Todo um período de trinta e um dias em amena e alusiva festividade. É natal em cada esquina, feliz a época que vive da alegria da criança traquina. Cá em casa, também dessa altura, ficou a tradição de decorar a árvore sempre no mesmo dia de Dezembro. Não foi excepção. Houve, algures, um emaranhado fio luminoso no meu soalho. Um pinheiro e pormenores. Tantos detalhes, quantos a época exige. É natal, senhores. Guardei, numa rede social deste tempo, para mais tarde recordar. Contrario-me em cada gesto, mas é o natal a solicitar. Temos, assim, uma árvore decorada a rigor, pensada ao pormenor. Alguém se ocupou das velas pintalgadas pela divisão, as mantas de decoração. Trocámos o emaranhado luminoso pelos presentes que recebemos e ofertamos com gosto. A mesma escolheu os temas de fundo, a banda sonora que reivindica para o quotidiano da vida. A sala é o ponto privilegiado. Como noutros tempos. Os vidros húmidos, as telas perfeitas. Desenhos da época, as ilusões eleitas. A consoada era o pretexto ideal para um número elevado de companhia. A mesa composta, fiel aos costumes e ao bom gosto. A cozinha num rodopio.  A lareira, lá ao fundo, queimando lenha, o fumo gastando-se lá fora. A família junta, fazendo muitos reunidos. Temos conversas sem fim, damos destaque às histórias contadas e sabidas de cor, tão repetidas se fizeram. É natal, senhores. Inevitavelmente marcam-nos a falta de membros importantes e sem substituição. Uns ausentam-se por agora, outros para sempre. É Dezembro, chega o fim do ano. Repetir-se-á, novamente, no próximo ano. As histórias também. Vozes e presenças falhadas. Que nos faltam. É natal e, aproveitando-o, partilhamos pessoas para sempre ausentes. É natal, estamos presentes.

20.11.14

Relhas recordações.

A lamechice mora aqui, por certo. Mas não deixa de ser um facto que acontece por acaso. Ou surge no descaso de fazer parte de uma outra fase. Minha, figurando em pontuais momentos. A pausa que decorre de uma espera longa, em minha defesa, é um espicaçar das lembranças. Das lamechas também, inevitavelmente. No carro, sob a chuva copiosa, à espera de alguém. Uma cidade que, ainda assim, não tem espaço para sossegar. O chapéu-de-chuva ainda é uma arma. Das mulheres e dos afoitos homens que não se melindram com a insensatez de lhes chamar, aos protectores da chuva, efeminados. E a vida continua. Eles são negros e cinzas, roxos de listas beges ou a imitar a marca afamada que usa e abusa do preto e branco. Encarnados também. Como se lhes escorresse amoras que já foram mordiscadas. Velhos e novos. Alguns minutos e temos tréguas. Agora, a céu aberto, para alguns, a arma serve outro propósito. Uma bengala de ocupação. E eu no carro. Largos e incontáveis minutos. Continuei a observar. Uma mercearia ao fim da rua. Renovada, de ar pensado, de imagem cuidada. Vintage, por estar na moda e por fazer sentido o comércio de proximidade. Pensei, por acreditar. Nisto, da montra escarnecida pelas pingas da chuva, sobressaiu uma imagem que me remeteu para outros tempos. Uma balança, tal e qual como na mercearia do meu lugar. O cinza que brilha com a luz. Os pratos que ladeiam. Enfim, um indutor de recordação. De pensar em rotinas, lugares e, melhor, pessoas. Não é óbvio, mas esta mercearia e, em particular, aquela balança, simpaticamente, fizeram-me pensar no casal C. e C. Casal que admiro, embora, ausentes. Longe da vista. Distantes na necessidade de chegar o fim. O tempo não perdoa. A vida tem lotaria, mas não perde o prémio. Hei-de falar, noutro dia, dos C. Ambos de nomes reinventados. Pela propriedade da minha tenra idade. Por fim, chegou a companhia que esperava. Voltou a  chover. Tão verdade. Seguimos caminho. Agora, a bravura é da chuva, que nos salpica sem molhar.

18.9.14

Em diferido. #18

Serve para ligar um corpo à acção - Mais à frente, o alcatrão típico de uma estrada movimentada, de quem não espera nem sossega. Nem os semáforos, brincalhões das cores a condizer com a bandeira. O axadrezado da calçada desenhada e agastada de cada passada. Assim, debaixo dos seus pés. A rapariga foge com a cara de quem segue na sua frente. Baixa a cabeça e dança de cabelos colados à mesma cabeça irrequieta. Diz que é medo de esperar. Diz que é medo de esperar com a cara levantada. Medo de ver o que não quer. Canta baixinho, como que num aviso prévio. Canto, apenas e só, para mim - havia de pensar aquela cabeça. Virou-se, de costas para a estrada, e de mão a tocar no relógio, disse em voz alta e tremida – Eu não quero esperar. E não sou maluca! – Voltando, logo de seguida, à posição que conhecemos. Depois seguiu caminho, assim o semáforo deu ordem de passagem. Aconteceu mesmo. Não é ficção. Aquela cara diz-me qualquer coisa. Se não é, lembra-me uma miúda de outra altura. Também ela avessa a troca de olhares. A comunicar. Só cantava na igreja, quando todos se calassem. Sempre de costas para os fiéis. Entregue à observância daquela crença religiosa. Do mesmo modo, gritava cá fora, no pátio. E ria alto. E falava, quando a ouviam.

4.7.14

Serve para ligar um corpo à acção.

Mais à frente, o alcatrão típico de uma estrada movimentada, de quem não espera nem sossega. Nem os semáforos, brincalhões das cores a condizer com a bandeira. O axadrezado da calçada desenhada e agastada de cada passada. Assim, debaixo dos seus pés. A rapariga foge com a cara de quem segue na sua frente. Baixa a cabeça e dança de cabelos colados à mesma cabeça irrequieta. Diz que é medo de esperar. Diz que é medo de esperar com a cara levantada. Medo de ver o que não quer. Canta baixinho, como que num aviso prévio. Canto, apenas e só, para mim - havia de pensar aquela cabeça. Virou-se, de costas para a estrada, e de mão a tocar no relógio, disse em voz alta e tremida – Eu não quero esperar. E não sou maluca! – Voltando, logo de seguida, à posição que conhecemos. Depois seguiu caminho, assim o semáforo deu ordem de passagem. Aconteceu mesmo. Não é ficção. Aquela cara diz-me qualquer coisa. Se não é, lembra-me uma miúda de outra altura. Também ela avessa a troca de olhares. A comunicar. Só cantava na igreja, quando todos se calassem. Sempre de costas para os fiéis. Entregue à observância daquela crença religiosa. Do mesmo modo, gritava cá fora, no pátio. E ria alto. E falava, quando a ouviam.

26.6.14

Alheios à pressão.

Na norma acontecem, felizmente, excepções. Desconfio de coincidências. Algumas, para não ser tentador generalizar. Factos há que nos parecem tão palpáveis e irrevogáveis que, jamais, lhes colocamos no eixo das coincidências. Ironia, quando, precisamente, no seguimento do primeiro jogo de Portugal neste mundial de futebol, ou seja, frente à Alemanha, me chegaram fotografias de outros tempos. Coincidências à margem, chegaram-me, justamente, da Alemanha. Minutos depois do desditoso resultado. Em dia da derradeira oportunidade, lembro-me disto. Tenho, por esse mundo, amigos espalhados. No caso, amizade de infância, de corpos delgados e travessos nas mais ímpares e desalinhadas aventuras. As saborosas descobertas de então. Gaiatos de linguagens aprendidas no minuto. O português e o alemão misturados para forçar o discurso, comunicação. Funcionava para a argumentação que íamos experimentando entre divertimento. Entendíamo-nos na perfeição. A cada vinda a Portugal, estávamos juntos. Relação que já vinha de trás, dos nossos ascendentes que, de forma tão natural, mantivemos. Devemos ter, em momentos vários, tirado fotografias. Naquele dia, chegaram-me duas. Talvez, em jeito de palmada nas costas, da desdita compreendida. Digo, porque desconfio de coincidências. Gostei de recebê-las. Numa, de máscara a rigor, o tormento de me vestir de outrem. Na outra, todos juntos na piscina lá de casa. O critério tem desvios. Tenho alguma dificuldade em olhar as coincidências. Mesmo quando não uso da generalização, desconfio. O que acabo de escrever serve-se, em pontos concretos, da ironia. Gostei de recordar. Gosto de ter amigos com memória. E, já agora, de me saber amigo de gente com compaixão futebolística.

19.12.13

Interrupção momentânea.

Insisto em fazer café. Talvez não seja insistir. Acomodo-me, fazendo café. A secretária, ausente de profissão. No computador, as letras como pássaros. No iPod, a minha playlist, com força de predilecta. Os óculos graduados, aquietados, por esta altura, na secretária. A miopia, ocasião prevista, assente e duradoura. O telemóvel roubando espaço à mesa onde escrevo. O bloco, onde subtraio lugar às folhas um tanto amarelas, quase pálidas, com a minha letra desenhada. Ao fundo, as fotografias em circunstância de monumento comemorativo. Em mim, o desdém do fracasso de não me importar com o mal de me levar, cedendo à vontade de tropeçar, pela importância das restantes divisões. Na última parte, o café é o encanto da intermitência.