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17.5.17

Concussão deste tempo.

Cheguei antes da hora, como faço por ser regra. Recebem-me com um sorriso simpático, um discurso bonito e uma simpatia que parece escassear. Encaminham-me para a sala de espera. Nesta unidade de saúde os horários parecem feitos para serem cumpridos. As marcações servem o propósito. Dou as boas tardes a quem já está sentado, à espera de ouvir o nome e o sobrenome. Devolvem-me a saudação e acho interessante. Já sentado, fiz-me esquecido do telemóvel e não lhe peguei uma só vez. O silêncio é cortado, a espaços, pelas pessoas que vêm chegando e que dão as boas tardes. Pasmo-me e não devia ser preciso. Ainda se cumprimentam as pessoas que estão e as que ficam. É tão bom. Volta, sempre a seguir, o silêncio profundo. Só se ouve o som do ar condicionado, tal a ausência de barulho; sequer um burburinho. Fisgo o relógio, ainda faltam uns rasos minutos para ser chamado. Olho à minha volta, tudo de cabeça baixa. A namorar com o telemóvel. Só se mexem as mãos, até os olhos parecem num mergulho sem regresso. Imitam bonecos autómatos, quase inconscientes, longe da reflexão das vontades. O pior é que sou um deles. Não sempre, mas algumas vezes. É fácil afundarmo-nos nesse despropositado e faminto dissipador de tempo. A ver tudo e coisa nenhuma. Ali, à disposição, segue o mundo fabricado. Por nós, pelos outros. As frases feitas, cuja minha tolerância às ditas é nula. O regresso do calor, o primeiro dia de praia do ano, o primeiro banho de mar, as bebidas coloridas, os corpos reflectidos num qualquer espelho de um qualquer ginásio. Os pequenos-almoços, o lanche da manhã, o almoço à hora certa e o fora de horas também. O lanche número um da tarde e o segundo. O jantar, as entradas e a ceia. O cão, os gatos e os pombos na cidade. A melhor amiga e o amigo que deixa saudades. Viagens dentro e fora de portas. O mundo cabe ali. E não lhe negamos atenção. Somos uma amostra de fabricadores de vidas cortadas. Vivemo-las mais ou menos daquele jeito, cortámo-las à medida de uma rede social, pregamos-lhe um filtro em cima, com as definições certas, redigimos uma legenda profundamente anedótica, inundamo-la de cardinais colados a palavras-chave e finalizamos clicando no ‘publicar’. Boas leituras e bonitas imagens, é o que desejo.

15.6.15

Uma mensagem nova no meu telemóvel.

Não têm um adjectivo, não lhe dão um nome. É uma acção e, inopinadamente, vai ganhando latitudes várias. É pois, tão fácil ignorá-la. Não lhe dão definição. Na outra margem, chamou-lhe moda. Não falamos de roupa, de cabides andantes e de sapatos nas montras. Dos saldos que não interessam a ninguém, tampouco do casaco de corte mau e das calças sem cintura. Não penso nos ténis, para não me tentar. A ideia de que um robô é o pináculo da excelência da existência que todos procuramos, está obsoleta. Mas nela vivemos embrenhados. Abre uma garrafa de água, verte grande parte para o copo transparente. Nas costas, um ecrã gigante que reúne informação. Dados e mais dados. Bebe um pouco e volta ao discurso. Entre as palavras que não perdem com o fôlego, o orador falou na moda de não pensar. Não fazemos, diz, propositadamente, mas fazemos a favor do jeito tão displicente como nos demitimos da responsabilidade. Perdoe-me, em sabendo, o uso das minhas palavras, que em me faltando a memória dos sentidos, me parecem mais apropriadas. A moda da intuição. Faz sentido, se pensarmos como um espelho. Funcionas ao contrário, com o intuito automatizado, num escuro que te limpa a atenção. Até que algo ou alguém te traga de volta. A filosofia já pensou sobre isto. A sociedade vive com isso. Um mundo inteiro não chega e enchemo-nos sem pensar. Resta-nos acalmar. Toca o telemóvel, chegou uma mensagem. Abro o e-mail. É curiosa a confusão. Porque o hábito ganha à acção. Chego, então, à mensagem e conta-me uma conhecida, que já não vejo há uma série de tempo, que disse a uma amiga dela para me seguir no Instagram. Estamos nisto. Vivemos ao contrário. Não estamos a ser jovens, não. Estamos só a ser parvos.

3.3.15

Desalentam-se os dias.

Os dias já não se esgotam da mesma forma e compasso. Alguma vez os príncipes haviam de ficar nos livros e os cavalos num bonito e verdejante pasto. Os puzzles já não se guardam em caixas perdidas, os carros ganham nomes de coisas, o inverno tem caprichos de petiz desavindo, os casacos de cabedal já vão ao jazz e o sushi é a linha da frente das opções gastronómicas do cosmopolita informado. Aquela cantora nacional que o mundo apelidava de pimba e, cujo tamanho do silicone, diziam ser inversamente proporcional ao talento das canções é, agora, a diva terrestre. E, felizmente, ficam as marionetas, que vivem felizes e contentes entre as linhas do domador e a alegria de quem as vê com vida. Gritaram por mim. Chamaram-me para a varanda do primeiro andar. Vem cá, anda ver. Sucumbi. Douta ignorância. Fotografei as nuvens. Ironia do sarcasmo, fotografei as nuvens no céu. Voltei a vergar. Postei no instante. Terminam, num remate sorridente – As coisas simples da vida são boas. – Ainda vão amolecer e deturpar as minhas teorias da origem.

27.10.14

Senta-te comigo e aprecia.

Gosto, se possível, de acompanhar as lides profissionais, depois das pessoais, dos meus amigos. Parte deles é arte em cada decisão. Sem necessidade de segurar verdades e métodos absolutos. As redes sociais amancebadas com o plural e a pluralidade do iPhone e do iPad desta vida. Da forma de viver tão actual, instantânea e, por razão da última, instável. Sem desdém, pois acabei de ver inspiração em estado físico. Através das redes sociais. Já devo ter falado sobre isto. Algures, se não ultrapassei o consumo das ideias e não perdi a última porção de energia e memória. Porque é relevante ver a intelectualidade desenhada em grandes telas. Essas, as telas grandes, podem, sem prejuízo alheio e patrimonial, ser um muro desgrenhado ou uma parede velha e gasta, onde não sobra nada senão restos de uma tinta de massas, um branco que já não é. Rei da tela, altruísta em sessões. E é quase perturbadora, essa dicotomia. Esta minha amiga, por quem ultrapasso o cordial experimentar sentir coisas boas, renovou uma parede. Nasceu, algures numa cidade que já ouvi apelidar de feminina - Lisboa, curvas e postura de mulher que canta a canção da melancolia. Sussurra a visão com pintas. É artista de rua, esta cidade – uma parede de gesto delicado. De verdes e imponentes imitadores de um tecido natural. A natureza de folhas vivas, onde nem o orvalho da neblina matinal fica esquecido. E, contrariando alguns momentos de opinião em caixa, simpatizo com a facilidade de estar ao lado de alguém. Mesmo que tenhas ido procurar outras luzes. Quando voltas, é como se sempre tivesses visto a evolução. Porque te sobram o motivo e a motivação.

5.6.14

Em diferido. #10

Um beijo e um segredo - Pode, no desenrolar, não fazer sentido, mas a ocasião é portentosa e valiosa, qual sorriso. No sossego, queremos saber do envolvimento que faz bem ao ânimo e que sugere a pausa obrigatória. O telemóvel toca, agora não sabemos se é uma chamada perdida, uma mensagem pendente, uma fotografia do cão na praia ou de sushi a chegar ao Instagram ou uma novidade, mascarada de likes, marcações em fotografias ou convites sem voz, numa qualquer outra rede social. Adiamos, por força da procrastinação. Porque, a dada altura, não interessa assim tanto. Mas, porque eles insistem, rendemo-nos à evidência da curiosidade, e vamos ver. Não sei bem que respostas havemos de devolver às solicitações cruelmente repetidas. Enfim, percebo que não. Há fotografias várias, convites sem sustento, likes a inventarem atenção, mas a mensagem é outra. Vem de lá, do número que nos leva para o remetente que procuramos sempre. E é tremendamente pontual, ao mesmo tempo que está carregada de sentimento. É, inequivocamente, um sinal de lembrança. É sedutor e pesado. Ela não sabe tudo, mas é melhor nas emoções, no seu tratamento e na forma como as fala. Por tudo, e por muito mais, é que não deixo de querer comer algodão doce com ela. E dizer-lho ao ouvido.

25.3.14

Um beijo e um segredo.

Pode, no desenrolar, não fazer sentido, mas a ocasião é portentosa e valiosa, qual sorriso. No sossego, queremos saber do envolvimento que faz bem ao ânimo e que sugere a pausa obrigatória. O telemóvel toca, agora não sabemos se é uma chamada perdida, uma mensagem pendente, uma fotografia do cão na praia ou de sushi a chegar ao Instagram ou uma novidade, mascarada de likes, marcações em fotografias ou convites sem voz, numa qualquer outra rede social. Adiamos, por força da procrastinação. Porque, a dada altura, não interessa assim tanto. Mas, porque eles insistem, rendemo-nos à evidência da curiosidade, e vamos ver. Não sei bem que respostas havemos de devolver às solicitações cruelmente repetidas. Enfim, percebo que não. Há fotografias várias, convites sem sustento, likes a inventarem atenção, mas a mensagem é outra. Vem de lá, do número que nos leva para o remetente que procuramos sempre. E é tremendamente pontual, ao mesmo tempo que está carregada de sentimento. É, inequivocamente, um sinal de lembrança. É sedutor e pesado. Ela não sabe tudo, mas é melhor nas emoções, no seu tratamento e na forma como as fala. Por tudo, e por muito mais, é que não deixo de querer comer algodão doce com ela. E dizer-lho ao ouvido.

4.12.13

Os auto-retratos têm concorrência de rápido consumo.

As redes sociais têm o dobro dos propósitos. São uma montra de egos aumentados, por razão da idolatrada acção munida de um infindável número de likes a chamar a atenção dos mais distraídos e revela, na mesma escala, as fotografias e os enrugados textos curtos, de pequeninos e diminuídos pela coçada auto-estima. Do outro lado, estão as ofertas irrepetíveis. As que nos merecem mais do que um like desinteressado, que marca apenas, tão miseravelmente, a nossa presença. Acontece, que se mostram, de privacidade honrada, os momentos que nos reportam para vivências reais e distintas. Frases que fogem aos chavões retirados de um qualquer site manhoso. Colocam-se fotografias de escolha penalizada e personalizada, ao invés de um shot lunático de imagens fabricadas. Temos o poder, usamo-lo conforme a consequência dos nossos olhos. Estava, há uns tempos, a rever uma fotografia no Facebook. A fotografia pertence a uma amiga. Viajada, de conhecimentos importados. A fotografia, despida de um sem números de filtros da moda, distancia-se da afamada e multiplamente ampliada na rede, selfie. Fosse a minha avó sabe-la existir e arranjava definição, para a dita da selfie, chamando-lhe de auto-retrato de saída rápida sem pausa para as habituais demoras da maquilhagem da fotografia. No flash certeiro dessa minha amiga, de costas, vê-se a silhueta definida, resguardada subtilmente por um conjunto de verão. Nos pés, umas sandálias cruzadas, simples. As calças fluidas, gritavam cores que combinavam com a tela que se encontrava à sua frente. Meia escondida pela sua própria sombra. Um quadro datado, de traços vincados. A legenda, diminuída, avançava os nomes da obra e do autor. Soberbo. Tal e qual o museu que as acolheu. À tela, para a exposição e à minha amiga para uns largos minutos de pura força cultural. Transforma-se a plataforma irreal numa realidade inteligente e sensata. E não precisamos de procurar um espelho rafeiro de uma casa de banho de um centro comercial. Era mudar. Eu julgo que era mudar.