Mostrar mensagens com a etiqueta relações. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta relações. Mostrar todas as mensagens

30.1.18

Não adianta retirar em debandada.

Sentámo-nos na relva bonita, sobre as pernas trocadas. Desafiando a agilidade, temendo desarticular as articulações. Mas tudo bem. Sentámo-nos sem preceito, mas de feição. Com o sol a ferver no rosto, a queimar a pele um tanto franzida, a melindrar os olhos e a afagar os corpos inertes. Mas tudo bem. Sentámo-nos sobre a relva húmida, quase molhada, com os nossos melhores jeans. E eu, imaturo, com os meus mais recentes ténis. Mas tudo bem. Fixámo-nos, ora nos nossos rostos, ora em pontos menos fortes. Às vezes certos, outras feridos pela luz certa e pela miopia dos nossos dias. Mas tudo bem. Falámos sobre as nossas vontades, os nossos projectos e as nossas trivialidades. Ainda dos nossos defeitos e das nossas trôpegas acções. Mas tudo bem. Rimo-nos de felicidade, de lágrimas livres e de estômago aflito. Do presente e do que se fez passado. Mesmo que tenha sido pesado. Mas tudo bem. Pegámos na máquina fotográfica analógica e inventámos os movimentos, as caras e os desenhos. Soubemos depois, ficámos saudavelmente ridículos, caricatos num bom par das fotografias. Mas tudo bem. Decidimos o que havia de ser o jantar, o lugar e o vagar. Desistimos por amor aos nossos, recém-chegados e ansiosos por largarem num frenético discurso, discorrendo sem paragens. E monopolizando o ecrã com os milhares de fotografias que vêm para recordação. Mas tudo bem. Se o nosso destino for, entre outros, também este, encontrámos a comparação do clima. E só pode estar tudo bem.

25.5.17

Afecto ardente numa 'Vespa'.

Vem uma Vespa disparada, de azul petróleo pintada. Nela segue o rapaz e a sua amada. Ele traz um capacete de couro escuro, com os olhos protegidos por uns RayBan clássicos. Ela traz um capacete menor, de couro claro, com os olhos resguardados por uns Dior. Nos pés, trazem calçados uns ténis capazes e com raça. Ela enverga um vestido com leveza, desenhado com flores e isso só lhe traz beleza. Ele veste uma camisola às riscas, num azulão e branco que convive em harmonia. Faz lembrar os marinheiros e a sua embarcação. Uns calções cuja cor pisca o olho ao tom escuro das riscas. A chegar, para a malta avisar, ele deixa fugir umas apitadelas. Levantam as mãos, ele e ela, com a maior sintonia, e acenam ao pessoal. Os convivas devolvem ainda com maior entusiasmo. Ouvem-se assobios, pequenos e médios gritos. Vozes finas e mais encorpadas. Mãos com vida, braços levados ao céu. Aplausos. Ela desce da Vespa azul petróleo, tira o capacete menor de couro claro, ajeita o vestido florido e comprido, compõe a mala que traz no colo. Mexe a cabeça, rodando o cabelo, como a melhor das divas faz no cinema. Desmancha-se numa gargalhada e fica quase envergonhada. Ele segue-lhe os passos. Deixa a lambreta, tira o capacete de couro escuro e passa a mão no cabelo para lhe restituir o jeito. Segura-o com firmeza, sacode os calções escuros como se estivessem tomados pelo pó. Cede o lugar dos óculos, agora coloca-os presos na gola redonda. Levanta a mão e cumprimenta todos. Lado a lado, ela e ele enlaçam as mãos. A direita dele casa com a esquerda dela. Regressam os assobios, os pequenos e médios gritos. As vozes finas e as mais encorpadas. O arrebatamento repete-se. Mãos com vida, braços levados às alturas. Aplausos. Abraços demorados. Beijos de cumplicidade. Imaginam-se dias longos de felicidade. Quisemos guardar numa imagem a comunhão e o amor. Saltem, se quiserem. Acabámos de experimentar o amor.

24.5.17

Moralmente salutar.

As desventuras dos outros, quando terrivelmente pesadas, não têm graça. Só as leves e com airosos acontecimentos associados. Pode parecer o fim do mundo, mas é momentâneo. Nos dias seguintes já ninguém recorda. Senão o protagonista. E esse, uns passos à frente, também já esqueceu. Ou guardou num lugar onde é fácil arrumar. Voltar lá e lembrar. Rir com alguém traz um prazer desmedido. Não importa o motivo. Principalmente com gente inteligente. Esses apuram os sentidos. Podes ser tu a personagem principal, pode ser o outro. Resume-se a minudências que não carecem de discussão. Como há dias, num jantar de amigos, em que alguém perguntava por uma antiga conviva. Só as memórias, de tão felizes, nos fizeram rir e guardar a certeza de que temos de nos juntar todos novamente. Hoje cruzamo-nos, eu e essa amiga, nas redes sociais. Vamos sabendo da evolução das vidas de cada um conforme partilhado. A distância física é tramada. Mas era uma amiga daquelas que faz a festa. Onde e com quem for. A diversão era garantida. Desde o primeiro minuto até ao último segundo. Como naquela noite, já lá vão uns anos largos, numa saída de amigos, em que o parque das nações foi pequeno para tamanha e efusiva excitação. O jantar bem regado. Na discoteca, o pé leve e dotado para a dança. Do que me lembro, pois sei que fiquei à conversa com uma jovem senhora que, embora no mesmo grupo, conheci naquela noite – Bastante interessante e cheia de prosa fluida e com garbo. Mais velha do que eu, profissional activa e apaixonada por viagens e, também por isso, dona de uma pinta sem classificação - Nessa noite, antes da discoteca passámos pelo Casino Lisboa e a minha amiga animada deixou-se prender na porta giratória. Feriu-se, mas felizmente sem gravidade. Mas não deixou de desfrutar. Na discoteca, nas escadas de acesso ao WC, fomos dar com ela feita em lágrimas, com um dos sapatos na mão. No fundo, estávamos todos à espera. Gozar a vida parece fácil mas, não poucas vezes, somos traídos. Apesar das advertências, ela insistiu em sair para jantar connosco. Foi o primeiro contacto com o ex-namorado, também nosso amigo, e com actual namorada da altura. Engolir em seco não é para todos. Mesmo para os festivaleiros de serviço. Depois disso já me ri com ela, sobre isto e outros assuntos. Hoje é uma mulher realizada. Casada, mãe e profissional. Agora dança a roda da vida com um tipo genuinamente bom, que a ama e cuida. É a prova de que o quotidiano se veste de fim do mundo vezes demais, mas que não é a garantia de nada. Ontem caímos, hoje somos mais felizes. De preferência, entre risos e gargalhadas pejados de ganas. Rir contigo é melhor do que rir sem ti. Pode ser sobre mim, pode ser sobre ti.

16.5.17

Trabalho preliminar para (a)testar o amor.

Conheço quem se debruce, não poucas vezes, sobre as questões do amor. Uma espécie de laboratório caseiro. Mas eficaz, garante-me. Um prédio, uma rua, uma empresa ou um espaço dançante, tornam-se, à sua mercê, numa bolha, cujo objectivo máximo é o estudo do amor. Parece irreal, mas é pura verdade. Conheço-a o suficiente para me fazer crente. As suas palavras são um irrepetível esboço de uma putativa tese. Refuto vezes sem conta, mas é na partilha que nos deixamos ficar. Entretemo-nos horas nesse desafio opinativo e assertivo. Gosto dela, da sua sinceridade, da coerência e, inevitavelmente, da forma despojada como aborda este e outros temas. Baseia-se, afirma, nas suas experiências. Depois, galga terreno com o que a sua vista alcança. Com a percepção que lhe chega. Com os relatos que ouve. A profissão, parece-me, ajuda. É uma mulher atenta, inteligente, astuta, cúmplice e uma excelente oradora. Recorreu a todas e a nenhuma no momento em que decidiu que havia de conhecer o vizinho do primeiro andar. Rapaz garboso, sem horários, com um bom carro e que aos fins-de-semana dava valentes festas. Acabou por confidenciar que a primeira vontade foi envolver-se numa tórrida e furtiva relação, mas que a segunda era bem mais imperativa: Acabar com as festas do primeiro andar. Tanto quanto me lembro, a primeira vingou com facilidade. A segunda fez-se demorada. Cá estamos nós os dois e mais uns quantos amigos, num sítio que gostamos de repetir, entre copos e conversas boas. Ela lembra que é uma incansável estudante das vicissitudes do amor. E que, por isso mesmo, é uma mulher incansavelmente insatisfeita. Quando isso mudar, chega ao fim o seu maior passatempo. Gozar a vida como se de um romance de fim de tarde se tratasse. Garanto que gostava de ver o amor com os moldes das novelas que a minha avó guarda lá em casa. Ou como os variadíssimos volumes de romances que a minha mãe foi acumulando. Gostava. Mas é mentira. Não me coube em sorte a crença de que o amor se reproduz em cada esquina. Ou num qualquer primeiro andar da vida.

24.4.17

Fenómenos da sintonia.

Vem bamboleante, descomprometida, livre e veraneante. Um vestido comprido, nele os dias felizes desenhados. Flores e flores miudinhas. Deve ter também ramos e raminhos. As cores fortes, atractivas. O rosto vestido com o sorriso rasgado de todos os tempos. O cabelo a tocar nos ombros, com a mesma vivacidade e postura. Uns brincos que fingem ser gigantes, tamanha a moldura. Uns óculos de sol totalmente retro, a lembrar uns que a minha mãe teve em tempos. Calça uns CONVERSE ALL STAR brancos. Traz uma alcofa por laços e tecidos bonitos adornada. Acena a este, diz bom dia àquela. Brotam do cesto vistoso, verdes e outros que tais. Espreitam quem passa. Pede meia dúzia de ovos caseiros, aconchega-os junto aos primeiros. Agora sim, vê-me e antes de apressar o passo na minha direcção, deixa fugir o sorriso habitual e o aceno de mão com vida. Devolvo-os sem esforço. Pousa o cesto requintado e abraçamo-nos como da última vez. Não vem de longe a minha demora nos exemplos físicos do afecto. Mas aconteceu com a convicção de que não é obrigação. E de que não me disponho para qualquer um. Não somos todos iguais, tampouco nos são todos iguais. Ainda presos no abraço, diz-me que cheiro bem. Avança que mudei de perfume. Que estou igual, mas mais refinado, que faço-a pensar no maior dos nossos encontros. Algures no metro, antes de sumirmos por dias. Onde, sem reflectir, parecia que não teria fim. E, em abono da verdade, não teve. Sintonizámos, por seu turno, outras estações, mas mantemo-nos ouvintes e apaixonados por aquela frequência em particular. Vivemo-la de outra perspectiva. Agora, olhos nos olhos, elogiei-lhe o traje e o bom ar. De quem está feliz, consciente disso e a fazer por isso. Trocámos ainda palavreado que não importa transcrever. Por mais tempo que gastemos ou voltas que o mundo trave, não me canso de elogiar as pessoas que vêm cruzando a minha vida. Neste ou noutros planos. Tão simplesmente reais e essenciais, que ficam para sempre – salvaguardando as excelsas excepções. Que merecem o meu afecto. E cujos encontros nunca são demais. Bons dias.

17.4.17

Nove horas e parcos minutos.

Devo trazer um ar agastado, o rosto por ele desenhado. A afirmação de uma noite que se fez longa, da companhia que não dá folga. De uma semana que lhe antecedeu e foi demorada e trabalhosa. Logo me assomei à rua, pergunta quem me espera se a noite, para além de longa, foi boa. Devo ter esboçado uma resposta breve. Trago os olhos vestidos pelos BOSS de todas as paragens. O corpo temperado sobre os ADIDAS que são novidade. O perfume que foi uma oferta acertada. O relógio, cuja bracelete entrança-se num cinza inocente, invariavelmente, no pulso direito. No carro, deixo que o jazz desenhe o ambiente. E não podia ser melhor. Soa como não há explicação. Em resposta ao som, dizem-me que sou requintado. Largo um sorriso vistoso. E insiste que sou bem desenhado. Que invisto sempre no outro lado. Não será totalmente verdade, mas deixo-me acreditar. Passa a mão esquerda na minha perna direita e o silêncio aconteceu. Falou sem cessar, sem da palavra precisar. Nisto, já o jazz cedeu o lugar. Agora temos reggae. E a atmosfera não esmoreceu. Inverteu e não deixou ficar mal. Sou a garantia de que a extensão dos gostos vive em harmonia com um só ser. Com um corpo e uma mente bem ligados. És como sempre foste, deixou fugir. Mesmo que o sempre tenha começado há um nada de dias. Mesmo que o sempre venha de longe. Isto, a propósito do mistifório que engendro na forma como estou e sou. Chegámos. Espero que termine a chamada. Estão à nossa espera. Num espaço recentemente inaugurado, simulando um duplex improvisado. Os metais são as teias que o seguram. Nunca a arquitectura serviu a metáfora de uma forma tão singela e, ao mesmo tempo, tão certeira. Um passo atrás, deixei-me ir. A acompanhar, a vê-la caminhar.

11.4.17

Combate corpo a corpo.

Chamar-lhe pelo nome próprio ou pelo último, muda tudo. Um amigo de longa data, desde os primórdios das descobertas de cada um, faz-se, ainda hoje, amigo próximo. Apura-se a amizade nas pausas do desassossego dos dias. Corre-nos algures uma massa que é similar. Toleramos o avesso do excedente. Partilhamos noites bem regadas, tardes bem passadas. Manhãs escassas, mas bem aproveitadas. Levamos neste trajecto as nossas vidas cruzadas. Ele, que o trato sempre pelo último nome é um tipo inteligente. Mas carece de menos emoção na hora de experimentar o sexo, de viver o sexo. Sequer chego à paixão, amor ou paixoneta. Tampouco às relações com duração superior a oito horas. É o tipo que, há alguns anos, decidiu inscrever-se num ginásio para, segundo o próprio, chegar-se à linha da frente do acontecimento físico-emocional. Numa frágil certeza de que o cupido andaria mais próximo por aqueles lados. Com ele, fui eu e outros tantos. Era a necessidade de expressar no corpo as entrelinhas do intelecto. Soa estranho, assumo, mas é risada desde lá. Escusado será dizer que dali não saíram senão corpos mais ajeitados e a psique mais aliviada. Hoje continua o mesmo. Visita frequente do ginásio. Bambo nas certezas das relações. Não investe porque julga o fim antes de tudo começar. Não oferece tempo porque teme o depois antes de viver o agora. Procura ficar nas noites rápidas, ao invés dos dias demorados. É um amigo de quem gosto bastante. A inteligência vive numa luta constante com os sentimentos. Embrulhados como num intolerante às águas revoltas. Já lho disse e ele ri-se. Conversamos sobre tanto que, às vezes, este parece um pormenor irrelevante. Mas não é. Assistir à dor que este modo de viver lhe infringe é a prova. Espero que a M.C., amor de perdição dos últimos tempos, consiga navegar neste turbilhão. Embora nessa viagem, meu bom amigo. Fico a assistir e à espera do brinde.

30.3.17

Prosa servida com o som da perseverança.

Conheci o D. ainda petiz. Éramos dois putos, imberbes como a idade exigia, aflitos na vontade de aproveitar todo e cada momento. Às vezes menos. Mas, sucintamente, era assim. Não me lembro do instante exacto. Mas sei que foi na primeira classe – cuja distância potencia a minha sobejamente conhecida falta de memória. Os anos seguintes foram de amizade e proximidade. Concluímos juntos a primária e todos os restantes anos de escolaridade até que, à porta do ensino secundário, escolhemos destinos diferentes. Partilhámos muitas horas, fosse sentados na mesma carteira, fosse nos acontecimentos fora da escola. O D. era um puto pejado de sonhos. Tinha uma característica que ele olhava com cautela, tinha-a como sendo o seu tendão de Aquiles. Nunca lhe atribui importância, pela sua vã relevância. O D. vivia no limite. Ele respirava fora do tempo nos momentos em que a ansiedade tomava conta do corpo. E não foram raras as vezes em que sucumbia aos nervos a fervilhar. Atropelava-se no discurso quando o tema lhe importava. Desde sempre foi um sonhador. Preferia a imaginação à realidade. Não coincidíamos em muito. Mas fomos amigos por isso mesmo. Soube, em primeira mão, da primeira paixão. Não teríamos muita idade. Conheceu-a numa caixa de supermercado. Trocaram uns olhares e isso bastou-lhe. Pensou nela nos meses seguintes e voltou à mesma hora e ao mesmo local noutros dias para garantir uma nova troca. Sem sucesso. Anos mais tarde, conhecemos uma rapariga. Nova na escola. Foi a primeira namorada. Ela era tímida, ele também. Ela usava óculos e isso dava-lhe toda a graça. Ele era ansioso inveterado. Ela tinha calma para partilhar. Foram felizes até onde foi possível. Lembro-me do discurso nervoso mas cauteloso no momento em que me contou da primeira vez. Brilhavam-lhe os olhos e isso resumia o coração. Os anos avançaram, fomos ficando afastados, por força da distância. Fomo-nos cruzando, sempre com a simpatia de sempre. Fui conhecendo outras relações e uma que lhe roubou horas de sossego. As redes sociais aproximam a informação, mas é só. O D. sempre sonhou na medida certa, nunca foi alto demais. Porque isso não existe. O D. foi embora de Portugal. Está num país bem mais cinzento, mas mais livre no pensamento de rua. O D. quis um dia ser DJ. Foi em Portugal mas quis mais. Hoje trabalha num bar típico da região. E quando pode, dá asas à imaginação. Largar tudo não é para todos. É para alguns. Genuinamente capazes. E de convicção dotados.

22.3.17

Em diferido. #57

Bravo - Aquele gajo compôs uma autêntica diversidade de boas notas. Aquele gajo é descomprometido com tudo, desde sempre. Conheci-o há alguns anos, algures numa adolescência que ganha um certo tom de vedetismo. As calças daquela marca, os ténis da outra, ainda os pólos com fartura. E ele nada. Desmarcava-se disso com uma pinta sem igual. Talvez, porque nessa altura não me agradavam os pólos e as camisas aos quadrados, demo-nos bem. Embora, as tenha vestido algumas vezes e de feitio torcido, tão contrariado. E devo ter sido beto. Ou arraçado disso. Mas não importava. Como não importa. Valia a cabeça e a construção das conversas. A música que já era tão presente. Ouvíamos o som da altura, mas que já era passado. Apresentou-me um sem número de nomes que ainda hoje trago na minha lista de preferências. Volto sempre a ouvi-las, em todas as vezes que não me esqueço. Reencontro-me com as suas sugestões musicais bem mais amiúde do que com ele. Uma pena descomunal. Vive entre Cascais e Londres. Toca como só um gajo como ele consegue. Tem composições incríveis. Algumas não saem de casa. Este gajo ainda vai ser reconhecido, porque o melhor já é. Sem qualquer adorno dispensável. Continua a ser aquele gajo descomprometido. Fiel. Dispensa, ainda hoje, as camisas engomadas, as calças marcadas e os ténis. Há gajos do caraças.

20.3.17

Efeitos de um coração bom.

Tem as pernas cruzadas, sentado sobre a cadeira larga. De madeira e verga. Uns sapatos bonitos, castanhos, limpinhos, todos finos. As calças engomadas, beges, bem vincadas. A camisa de boa qualidade, num azul claro, num tom sincero. Uma malha escura, elegante, toda delicada. As meias espreitam por entre as calças e os sapatos. Lisas, sóbrias, nada coloridas, da nação dos sapatos. Como manda a lei. Lembra-lhe, a falta de vista ao perto, de trazer os óculos pendidos sobre o peito, ao nariz. Assim mesmo, à pontinha. Brinca com os olhos, na frente vê com a ajuda, para lá, olha com a vista despida. Pega no jornal que está sobre a mesa baixa, lê as gigantes da capa. Atesta o descrédito das palavras e dos actos. Demora-se na leitura habitual de fim-de-semana. Atento, deixa fugir aqui e acolá, algumas palavras, uma espécie de comentário do absurdo. A incompreensão a tomar-lhe as veias. Apoquentam-lhe as fragilidades deste terreno, da sociedade de todos. De cada um. Emergem as vivências de outras épocas. Enfim, termina a leitura. Fecha o jornal, dobra-o com vagar. Devolve-o à mesa. Tece um último comentário, garante que não compreende. Um balanço que entendo. Sugiro que procure outras leituras. Que não fique só pelas notícias. Com um sorriso típico de quem sabe que tem a resposta certa, responde-me que sim. Que não vivemos somente do semanário que ainda escreve assente na acção, tampouco do pasquim diário. Remata dizendo que voltou a Tolstói, e à sua “Ana Karenina”. Não fui capaz de suster o riso. Tem toda a razão. E leva vantagem. Que não leio como dantes, nem volto a Tolstói como me apetecia. Ficou definido que vai dar-mo, assim que termine a releitura. Ora, essa. Muito obrigado. Os grandes corações agem como se o espaço e o tempo fossem inexistentes. Queria ser uma ínfima parte. Garanti-lhe.

16.3.17

Distintos num dia de Março.

Surgem, logo depois do prédio antigo, de mãos dadas. Ela traz o sorriso bonito. Ele com o olhar sempre atento. Carregam, nas mãos enlaçadas e nos rostos harmoniosos, a comunhão entre a viagem feliz e a paixão. Deixei-me aventar. Denunciam ser turistas. O físico não desmente, as mochilas também não. Abordaram-me pedindo indicações. São escoceses e falam português. Com o sotaque do Brasil. A América do Sul foi poiso durante uma temporada. Tecem elogios largos à cidade, às pessoas disponíveis e à luz que não cessa. Prometem voltar, para matar as saudades do paladar. Garantem o regresso, por levarem na bagagem a sintonia do país. Agradeço-lhes as palavras bonitas e encaminho-os para o destino pretendido. Cruzar gente boa não tem qualificação. Ultrapassa qualquer cotação. Invisto no meu trajecto, pois já vou tarde. Cumprimento a senhora da ourivesaria, amiga de longa data da família. Pergunta-me pelos pais, pelas irmãs e, claro, pela avozinha. Vejo-a desgastada, com as mazelas que a idade causa. Lembra que a saúde é fraca, que o tempo passa e que me conhece deste tamanho – levou a mão o mais baixo que a coluna dorida lhe permitiu. É verdade, sim senhora. Diz-me que cresci bem e fiz-me um garboso rapaz. Sou fã assumido dos velhos, da sua posição e da palavra que entregam com outro gosto. Não esqueço o marido – já falecido - mas prefiro não trazer à memória. Pergunto pela filha, que a sei doente. Leva como Deus quer, respondeu. Foi aí que os olhos marejaram. Passei a mão pelo ombro, trocámos dois beijos e vim embora. Entravam duas clientes, que pelo bom dia percebi serem velhas conhecidas. Garantidamente, é nestas ocasiões que as minhas palavras são parcas. Não é que não as tenhas, é o respeito que todos os detentores de muita idade me merecem. Em suma, as pessoas boas deixam-me francamente sensibilizado.

15.3.17

Uma canção feita de razão.

Vinha de óculos escuros - uma oferta que vem de outros cenários, que me deixou feliz e que são, por estes dias, os meus preferidos - a rir-me para o miúdo que, passos à minha frente, exercitava a garganta, numa cantoria sem fim. Desconheço a autoria, mas deve ser um dos sucessos da actualidade infantil. Ao colo da que imagino ser a mãe, trauteava, ora com onomatopeias, ora com frases feitas. Os caracóis cheios de graça, num balanço certeiro com a passada da mãe. Segurava, firme e com confiança, um pequeno cavalo preso por um fio. Não guardemos dúvidas, os putos são o mais importante e interessante da sociedade. Logo, capazes de absorver o melhor que tenhamos para lhes dar. E o melhor, esperamos, é a sabedoria emocional que transformar-se-á nas ferramentas para que, um dia adulto, exercite os seus deveres e direitos com a harmonia necessária. Com o respeito que tanto falta. Pecamos sempre que ignoramos a responsabilidade que temos na educação e formação de um miúdo. Na atenção que lhe devemos. Não é preciso ter o nosso sangue, basta ser coabitante neste espaço que se quer socialmente saudável. Lastimo sempre que encontro pessoas que, num desgoverno de relação, avançam para a gravidez como o reduto da salvação. Ganhem juízo, apetece-me pedir-lhes. Uma amiga de longa data, hoje mais conhecida do que dona de outro estatuto, por força da distância física e do afastamento que a relação forçou de tudo e todos, está grávida. Esboça um sorriso e guarda o verbo animado na ponta da língua. Mas todos temem. A família agasta-se, os olhos estão pesados. Dir-se-ia que está num esforço suplementar para não deixar de tentar. É transversal. Dos elementos do topo à franja da base. E, restou-me, desejar-lhe o melhor e lembrar que estamos todos no lugar de sempre. Que seja a melhor das viagens.

6.3.17

Compleição com carácter de asserção.

Sob a cacimba, o mar um tanto revolto lá em baixo. O passadiço enorme, transeuntes estrangeiros e esporádicos. Uns caminham para lá, outros vêm para cá. Trajados a rigor, alguns testam as temperaturas. Trazem as máquinas para memorizar, um cajado para apoiar. A terra esculpida sem obras do alheio, na ribanceira desenhado o trajecto. O verde tem viço, típico da natureza que ainda consegue fugir das maleitas. Fora, assim chegados, este o cenário que cruzámos. Demos, então, descanso ao carro. Algumas casas nas costas, poucas. Juntos, é a primeira vez que visitámos o lugar. Noutros tempos, fiz-me audaz e desci, o máximo possível, num caminho inventado. Fomos dois, ambos insanos, característica da idade desmedida. No topo, gritavam os nossos nomes e devolvíamos sorrisos largos. Fomos felizes, no fundo. Literalmente. Agora, regressado e com a melhor das companhias. Deixo-me encantar, só a observar. Não acredito em cenários perfeitos, tampouco em ocasiões obrigatórias. Dispenso o romancear das pausas. Dou preferência ao corpo a reagir. À mente a carburar. Rir, assim como, conversar e o silêncio respeitar, deve ser a maior das bênçãos. Partilhar a intimidade dessas necessidades, é ganhar conforto. Ao invés de certezas, que falecem sempre. Olhar nos olhos é ver para lá do horizonte. Encostados ao carro, depois do passeio, as primeiras pingas da manhã. A razão grita para que fujamos, o instinto pede que fiquemos. Já lá vai tempo suficiente para perder, mas a imagem mantém-se intacta. Ficámos até fugir. Só não largámos as risadas comuns, a prosa demorada e o silêncio estimado.

22.2.17

Em diferido. #55

Compensação das coisas - Já se fez noite. Está frio. O sobretudo e o cachecol quentes fazem as honras. O telemóvel não sossega. Ultimamos pormenores. Nos pés levo New Balance, numa tentativa de me lembrar que sou jovem. Estamos juntos, logo nos toma de assalto a ideia de que começamos a ficar velhos. Podemos estar numa mesa de restaurante. À nossa volta tudo arrumadinho, num jeito meio snobe. A decoração pensada, os empregados bem vestidos. A cordialidade exigida, o tom certo. Os copos altos, os pratos finos. A vista privilegiada. Tudo como, noutra altura, nos aborrecia. No instante somos apenas quatro. Amigos de longa data. Em tempos, fomos tantos. A vida leva-nos para longe. Junta-nos noutras alturas. Podemos estar numa mesa de aficionados do chocolate, numa conversa que não termina. Podemos, também, estar sentados no carro de um ou no carro de outro, a lembrar e a rir de nós. E dos outros. Ainda, num bar simpático ou numa discoteca da moda. Se possível, juntos entre fumos mais ou menos tóxicos. E bebidas com teor. Sempre, a inevitável certeza de que o tempo passa e já não somos iguais. Ficamos, a passos, mais velhos. Pesa, talvez. Como se não soubéssemos. Um amigo atira que uma semana de folia lhe deixa marcas. Outro já não aguenta fumar presentes como noutros tempos. O trabalho consome. Outro, esperto e atrevido como um petiz, atira-se, desnudo, à empregada do hotel e, de volta, recebe um valente grito. Já não é o tipo cujo diminutivo do nome lhe ajudava a cortejar. Irónico não sermos, senão uns jovens tipos a reclamar por juventude. Ou, a lembrar a força do que já experimentámos. O Tinder é motivo de conversa. Queremos saber das trocas. A noite já vai longa. Fica tudo por sublinhar. Amanhã é outro dia. À noite, temos, de novo, a mesma companhia. Até que um avião, um aeroporto, um trabalho ou uma relação nos chame de novo. Novos ou menos jovens, somos gente feliz. Mais ainda, porque temos amigos azougados, embora, donos de inteligência emocional e apostamos num bom par de ténis.

9.2.17

Pronome pessoal com divinas honras.

Encontrei, entre um tanto de coisas, uma fotografia. Devo tê-la deixado ficar por ali sem propósito. Devo tê-la tirado há uns valentes anos, não arrisco um número, por me ver frágil na contabilidade dos dias e na sinceridade das distâncias. A negro e branco, num estilo desalinhado entre o compromisso de reproduzir por meio de fotografia e a vontade de guardar amor. Facilita ver-me convidado a fotografar pelo impulso. Já naquela época era assim. Vê-la, resumida numa silhueta de tons cinza, pela força da luz de um fim de tarde. Ao lado, o gato no mesmo tom, de olhos claros, a inverter a posição. A janela gigante favoreceu o encanto. Os prédios altos, finos, compostos por janelinhas que jamais terminavam. De costas, com as pernas cruzadas debaixo do corpo, sobre a cadeira estilizada de madeira. O cabelo desarrumado e a beleza natural. Resumia o movimento com a mão repetida sobre o gato que inventava um sorriso de puro deleite. Deixei-me ficar, por temer prejudicar o ambiente. Deixei-me ficar ali, quase inerte, numa folga do pensamento, a apreciar. Peguei na máquina dela, por estar mais próxima e cliquei. Uma e outra vez. Ganhei uma imagem sem legenda. Recebi em mãos, meses mais tarde, num envelope grande, bonito e com escritos, a dita fotografia. Noutro lugar, noutra vibração, mas o beijo de sempre. Encontrei, entre outros valores, uma fotografia que não tem explicação clara ou sucinta. O mote para o desfiar de memórias e de afectos. Lembro-me, sem excepções, de cada segundo. E não minto, se deixar fugir que só guardo o que me acrescenta.

1.2.17

Cálidos acontecimentos.

Deixei cair o meu telemóvel nas escadas de casa. Fez o percurso esperado, degrau a degrau, até ao soalho final. Deixou mazelas físicas, graves. Das irreparáveis e capazes de contusão feroz num qualquer coração dotado de sensibilidade. Não foi o caso, que sou avesso à partilha de sentimentos avulsos, a antítese de um basbaque a todo o tempo. Brinco, mas não desminto. Isto, dias antes de ser confrontado com o relato magoado de uma traição. Não a frio, que já me havia relatado a separação, bem como, a fragilidade e o olhar mais caído, que denunciaram. Estou longe de ser o que aponta o dedo, o que reclama pela verdade alheia. Cumpro-me nas minhas convicções, acções e reacções, fugindo à badalada e profundamente desleal necessidade de lembrar que não estiveste bem. Longe de defender ou promover a traição, seja em que termos e condições, afasto-me dessa tentação do facilitismo, da corrosão ainda mais vincada do outro. Prefiro opinar em última instância, apenas e só, se solicitado. Nessas alturas, recuso a mentira, mas escolho a prosa alinhavada com as palavras que aparentam ser as mais confortáveis. O olhar baixo, vindo de alguém tão próximo, a dor de magoar o outro, não me deixam indiferente. Também por conhecer o outro lado e, sem cerimónias, lhe atribuir uma genuína forma de estar, uma entrega e um sorriso que desmontam putativas dúvidas. Se me perguntares, agora e só agora, dir-te-ia que não me revejo na atitude e que, relembro, neste instante e só neste, não mimetizaria. Porque quero sempre encontrar a solução ideal. Mas não me iludo, essa não existe. Quiçá, no momento seguinte, me veja trôpego e ceda à minha verdade. Nessa alegoria às relações perfeitas, desmancham-se objectos e objectivos a cada passo. A metáfora não magoa, mas a palavra balança nessa recta que amedronta o desfecho. O subjectivo é desvalorizado e as marcas da queda são relevadas. Se te segue a culpa, não deixes que o espírito perca. Nessa definição das relações, a perfeição arde antes mesmo de existir. Um passo atrás para garantires dois adiante.

30.1.17

Verosímil simpatia.

Vem de longe a minha, mais do que simpatia, admiração pelo genuinamente bom. No mesmo sentido, noutra e maior escala, vem de um ponto que se despede de memória, o meu sentimento de reverência para com as pessoas boas. Não acontece ser um apontamento fugaz, uma voz que deixa aqui, entre a luz do sol e a penumbra da noite, a tentação de fazer parecer. Fá-lo sempre, seja sob o brilho que irradia, seja sob o escuro do destino fatalmente taciturno da noite. Dá-se a sorte no momento em que não fujo à verdade de, sem modéstia, lembrar que conheço gente boa. Mulheres e homens que vivem por e para se dedicar a causas tão terrenas quanto necessárias. Sem que belisquem a individualidade e deixem fugir a vida. Que são fiéis à psique evoluída, ao coração que bate certo e não se deixa indiferente, à carne que não sucumbe ao medo, e que se cumprem no caminho inverso da avalancha que a sociedade atesta. Afasto-me, com a devida vénia, dessa definição. Serei alguém que procura medir a razão e a convicção interna, bem como, no trato com o outro. Fico comedido perante a dimensão da bondade alheia. Também de longe, vem a minha amizade com um tipo que não tem escala. Antes mesmo do tempo em que me apelidava, num tom jocoso, de beto. Respondi-lhe sempre que sou um fruto do acaso. Rimo-nos tanto, que as esperanças eram seguir o trecho do que haviam desenhado para nós. Volvidos estes anos, somos os mesmos. Ele insiste na promoção do bem. Investe no corpo e na alma. Viaja sem destino para o lugar que lhe guarda o fado e a lucidez. No nosso último encontro, dois dias antes da viagem que se seguia, fomos para um lugar de encontros antigos, numa sala reservada para nós, a conversar e a lembrar sem equívocos. Éramos seis à volta de uma mesa improvisada. Que este é um tipo que não escolhe o design. De cerveja na mão, de calções e t-shirt, de sandálias no pé, falou, uma vez mais, com mérito. Hei-de de escrever sobre o meu amigo que é amigo da vida. Dias depois, havia de receber um e-mail dando conta da sua saída das redes sociais – na verdade, da única que utilizava e de forma bastante breve – no mesmo, continuava com um texto que se curva no desejo de voltar a ouvi-lo. Demos um abraço forte. O tipo bom, que tem prosa bonita e sandálias de couro e o tipo que agradece a amizade, calça sapatos bonitos e ténis da moda, dá o braço à perseguição de fazer melhor e que, sem prejuízo, continua a afirmar que é um beto do acaso.

5.9.16

Em tempo de calor.

A noite foi longa, quente como o verão de memória latente. Ouvi música contente, disposta e digna do ambiente. Encostei-me na cadeira da época, profunda obra de design, ouvi estórias e lembrei-me das ausências. Rodeado por alguns dos meus, uns recém-chegados à verdade da amizade. Tomei bebidas frescas, recusei a cigarrilha oferecida e não perdi a bonita vista. O calor acontece e favorece. A noite fez-se extensa, talhada como só o verão é capaz. Não fugi, antes pelo contrário, dos relatos entusiasmados. Nessa frenética prosa, eles foram os medalhados. Conhecem a distância como o sustento diário da relação. Ela é divertida, de sorriso rasgado e gesticula com bastante facilidade. Ele embarca na animação, tem jeito de intelectual, é sóbrio e fala com a razão. Lado a lado resultam num simpático quadro. Este ainda é um período de relações, como já havia pensado. Início, fim e recomeço. Paulatinamente, a convivência surge. Ameaçam ficar nesta moldura para sempre. Entre viagens felizes e quilómetros incontáveis. Não canto uma canção italiana, não porque não soe melhor, mas para não desdenhar o amor. Mas remeto-me ao silêncio quando o tema é o tempo e o sentimento. Logo este, à tua espera na primeira esquina ou na manhã seguinte.

5.7.16

A um passo dos ditosos.

Estive há instantes com um amigo, quase que o apelido de conhecido. Em tempos, um amigo muito próximo, com direito às partilhas mais inusitadas. Do sexo a experimentar às relações furtivas, da música boa e meio marginal ao jogo dividido por uma rede, da burguesia que nos assentava à rivalidade campal. Mas o espelho não engana, vamos avançando e perdendo pormenores. Porventura, acumulando outros, tão dignos, ligeiramente diferentes. Foi o caso, perdemo-nos, por força do trajecto individual e pela distância no geral. Continua um tipo porreiro, pareceu-me. É no direito que se vem cumprindo. E no braço uma tatuagem enorme. Atrevida, mas calma e de gosto feliz. Invejo, se me perdoam o termo, as tatuagens bonitas que vou vendo por aí. Os tipos que não perdem a pinta, pelo contrário, agarram-na com outra fé. As raparigas que não desmaiam na hora de escolher e guardam no corpo o desenho certo. Invejo, ainda mais, a bravura e a decisão. A minha, adiada sem hora, por um receio meio tosco do arrependimento, quase injusto. No Instagram uma amiga vai lançado a deixa, passeando o corpo definido, a roupa interior que lhe eleva a confiança, as pernas torneadas, as mamas no sítio e a tatuagem que caminha por grande parte da pele. Do ventre à anca, não perdendo as coxas de vista. Ali, à minha frente, um amigo distante com a sorte de fazer o que bem entende. Exibe-a nas horas vagas, guarda-a para si no momento do expediente. É uma opção válida e sensata, que cumpre a razão e não belisca a moral. Vou pensar, atrever-me a cogitar. Enquanto oiço uma cover que merece toda a atenção. Quão fascinante é quando a obra foge-nos das mãos e vira arte na acção de alguém.

27.6.16

Em diferido. #50

Início  de citação - Ouve-se o som típico da rolha a saltar. O vinho há-de descansar. Arregaçam-se mangas de camisa. Deixam-se de fora os botões de punho. Não faltam as t-shirts simples, a ganga sempre amiga. Gosto do amor descomprometido, lixado às vezes, conforme as vontades e disforme conforme as necessidades. Gosto daquele amor que pisa as entranhas, do mesmo que repele as palavras bonitas. Gosto do amor que faz sentir, vibrar em cada toque. Mesmo que do outro lado esteja um argumento de direita ferrenha. Gosto do amor que tem sexo e do sexo que só pode ter amor. Gosto do amor que tem fim, porque gosto ainda mais do amor que tem principio e meio. Não foram, taxativamente, estas as suas palavras, mas ele permitir-me-á brincar com o vocábulo que expressa sentimento, dar-lhe volume e corpo. Este é o tipo que já calçou VANS, como se o mundo fosse aquilo. Ainda os calça, que insistimos nos ténis. Aprecio, sem desmérito, ouvi-lo dissertar sobre o amor. Partilhamos, nesta matéria como noutras, alguns pontos conexos, outros nem tanto. Somos amigos, em suma. Anda, há largos meses, a catrapiscar uma jovem senhora. Bonita, de torneados atraentes. Uma defensora acérrima da sua posição política. Para ele, uma dor de cabeça das antigas. Até ao momento em que percebeu grande parte do que falámos nessa noite e que, inopinadamente, aqui publico. Só gosta do amor porque, primeiro acontece, depois porque exige partilha. O argumento de direita que está do outro lado é, por agora, o motor disto tudo. Nunca, em tempo algum, sequer se imaginou que uma coligação tão inusitada quanto esta resultasse tão bem. O amor acontece, pelo menos, até ao fim da citação.