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13.5.15

Este também é um mundo de mulheres.

As redes sociais são um atrevimento. Rasgam-se palavras amargas sobre o voyeurismo na televisão, mas há sempre quem nunca desista de bisbilhotar online o que foi feito desta ou daquele. Democratizou-se a o interesse pelo alheio. Tanto, que já quase ninguém se lembra do passado. A sério, risca essa merda toda e nunca mais voltes a fazê-lo. Terminou assim. A miúda que só precisava de umas botas amarelas, umas meias rasgadas,  mas sempre negras e um cabelo muito comprido e super liso. Andava sempre com uma mala XXL e nunca parecia contente. Nunca lhe vi um sorriso, nunca lhe ouvi a voz antes desta frase. Pintava os lábios grossos de encarnado e tinha os olhos sempre escuros. Nunca tinha companhia e arrastava-se pelos corredores. Só me lembro disto. Antes, claro, de ouvi-la pela primeira vez. Depois de vê-la indignada com aquela outra miúda, voltei a encontrá-la sempre da mesma forma, algures num ponto daquele corredor largo. Vim, mais tarde, a saber que era uma aluna de excelência. Parte dos professores tinha uma simpatia extrema por ela. Na minha opinião, com todo o mérito. Seria um ano mais velha do que eu. Por isso, desde que terminou os estudos, nunca mais a vi. Soube esta semana, através de uns amigos, que é uma jovem mulher igualmente misteriosa. Continua bonita, de lábios encarnados. Agora é profissional da área da justiça e não lhe faltam elogios. Sequer conversamos uma vez, mas fiquei contente por saber dela e do percurso profissional. A outra miúda, com quem ouvi-a gritar, parece que foi um amor de juventude. É uma fortuna ter o mundo em andamento e sangue a fluir a favor do caminho certo.

16.4.15

Afeição e simpatia recíprocas.

A minha mãe pede-me um beijo, com a sensibilidade desmedida, nada forçada. De quem acusa alguma saudade e não esquece os momentos idos, em que beijar o filho petiz, resumia-se, somente, a uma opção: fazê-lo sempre. Saudades de mãe. Contudo, fá-lo ao jeito de quem pretende mostrá-la sem assumir. Adivinho-lhe alguns pensamentos. Antecipo-lhe algumas palavras. Acontece, uma ou outra vez. Depois da demora, avança que já não lhe chego com o mesmo tempo e a mesma periodicidade. Uma espécie de filho em dívida permanente. Dei-lhe, por fim, o beijo. Os beijos. Não sei como é que funciona, mas as mães têm uma condição especial. Um caso tão particular de dedicação. Têm poderes sem fim, desconfio. As mães têm amigas muito diferentes. A minha, pelo menos, fez assim. Tem amizades díspares e antagónicas. Consegue sentar-se e tomar um chá em ameno e sintonizado silêncio. Também sabe estar numa sala cheia e gargalhar sem qualquer vergonha. Tem ainda a capacidade de conversar, tanto, sem fim. As amigas são um complemento do estado. Do espírito que tem tons de diva saturada. Em cada um de nós. Ontem, éramos para ir tomar café apenas os dois. Escrevo éramos propositadamente. Pois, numa visita surpresa, surge uma amiga da minha mãe. Acabou, claro, por nos acompanhar. Inevitavelmente, fiquei a ouvir-lhes as memórias. Voltamos às questões de gerações diferentes. No nosso tempo, foi o mote de grande parte da conversa. O tempo, afinal, acabou por voar. Esta amiga da minha mãe, de cabelo armado e super dedicada à neta, cujo objectivo é mantê-la nas aulas de música clássica, confessou, de mão a tapar a boca, denunciando alguma vergonha, que adora kizomba e amava ver a neta a tocar e cantar num baile de verão. A minha mãe soltou a gargalhada típica. Em havendo talento e vontade, há que investir. Sempre achei os coretos um palco tão digno. Nada nem ninguém é o que parece, até lhes tomarmos uma parte da verdade. O tempo faz milagres. E tem armadura de comédia.

9.4.15

Quebrar com força.

Podes fotografar esta ponte. Aquela ponte. Ou outra qualquer. Podes fotografá-las a todas. Podes, se tiveres interesse e perspectivas várias, fotografar a mesma ponte sempre e em cada dia. Podes fotografá-la sobre o tabuleiro. Podes, se assim entenderes, fotografá-la cá de baixo. Se gostas de estar sozinho ou com alguém, é pormenor. Tem maiores artimanhas na objectiva e na edição. Desprende-te disso e foca e desfoca, sem pensar ou remexer na actividade do editor. Podes também, se não te causar enfado, fotografar todas as pontes por onde passes. As grandes, as pequenas. As altas ou as de baixa estatura. As longas ou as de pouca extensão. Resume-se à tua área de expressões. Precisamente sobre uma ponte, enquanto sais para longe, toca-te o telemóvel. Do outro lado, o lamento de mais uma relação que chega ao fim. Sem forçar ou culpar a idade, a efemeridade tem patamares. Nas relações, por certo, não será diferente. Depois, coisas há que se repetem. Só lhes falta, desta vez, um lustre vistoso no centro da sala. Vai lá e concerta a ruptura. Se assim tiver de ser, não há ponte que não alcance.

31.3.15

Encher de letras o entusiasmo.

Parcimónia silvestre, num travo doce. Amarga surpresa, travessura agreste. Tem nome com cheiro, se quiser pensar. Tem o tom de voz equilibrado, se quiser ouvir. Tem o toque certo na pele, se quiser sentir. Tem aromas sem fim. Tem olhar atento. Joga com as metáforas, compara com a simplicidade da insanidade. Rima e, em tempo algum, havemos de ter outra certeza. Destrói o conceito, insiste na reacção. Fala com a boca, mas quem pensa é o coração. Tem fuga nas entrelinhas, mas escreve fortaleza com os olhos. Fala fluentemente, opina com densidade. Eloquente diária, o pensamento da idade. Não tem definição, não sei se é amor ou paixão. Tinha eu, num passado tão presente, a certeza de que rimar com frequência ou particularizar feitios era sinal de paixão de arromba ou de flagrante demência. Questiono-me sobre a intimidade da desfocada definição. Olho para ela e escrevo sem pensar. Ambiciono uma qualquer dança nesta troca. Em tempos, rir-me-ia da banalidade e franqueza das palavras. Havia de poupa-las, para não estragar. Não brinques com a entrega alheia. Homem bom recebe o dobro. Havia de segreda-las para não gastar. Olho para ela e escrevo sem as ideias ordenar. Escreve, jovem rapaz. Olha para ela e guarda a paz. Não é fácil amar ou apaixonar sem a razão sofrer e melindrar.

24.3.15

A completar.

Fecha os olhos, compreende enquanto escutas e sentes, aquilo que te chega e se propaga corpo acima, corpo abaixo. Enquanto leve, sem maneiras e funcionalismos do pensamento, ela leva as mãos ao cabelo arrumado. Contudo, cabelo da moda, mesmo arrumado, denuncia uma flagrante e nada inocente desarrumação. Enquanto ela veste o seu casaco com quadradinhos sem fim. Enquanto se perde num passeio ao ar livre, sobre as suas botas rasas. Enquanto permite que partilhes a cama com ela mais do que uma noite. Ainda que, todas as noites inteiras sejam tão pouco. Enquanto ela se preocupa em dar-te a conhecer o melhor que já lhe passou. Sabendo que uma relação inteira proporciona, por demais, pouco tempo para dispensar uma mostra da prosa e poesia que lemos, das peças sobre as tábuas de um teatro e da arte em geral que se multiplica pelo cinema, museus ou na rua de um país. Tudo o que adquirimos, aprendemos, vimos, vivemos e intuímos juntos. Tudo isto é o amor a propagar. Mesmo sem palpitarmos. Perdemos um tanto, se olharmos para o lado. Perdemos a faculdade do amor, se não sentirmos o verdadeiro. O entusiasmo de ontem.

11.3.15

Símbolo químico de ambos.

Longe de enaltecer o erudito, mas perto de dividir a sabedoria individual. Voltamos sempre à incoerente necessidade de falar do que move todos e cada um. Juntar pessoas com tempo para conversar, independentemente do pretexto, é ter oportunidade para aprimorar opiniões e ler nas entrelinhas das vivências. A riqueza existe, logo nos lembramos do mais comum e constitutivo da essência. Ele, aparentemente despojado da necessidade de afectos, defende que deve adormecer, assim como, amanhecer ao lado de quem lhe mexe com as emoções, com quem sinta vontade de jurar amor eterno. Ela, de postura rija, garante que não partilha a cama depois do sexo. Em momento algum, ouvimo-la falar de amor, tampouco, do impulso da paixão. Ele, garante, investe na partilha dos corpos, a verdadeira indução do acto. Ela, sem reservas, diz que aposta no toque, nas mãos que esculpem as formas e dão dimensão e corpo às carnes. Apresentam-nos uma química invertida e uma física que tem ameaças hipotéticas. Salve-se a humanidade. Há esperança. Quando escutas, deixando de ouvir, percebes que já não vivemos na média da diferença de género. Ainda que, daquelas bocas saia, somente, aquilo que eles querem que saia.

4.3.15

Bravo.

Aquele gajo compôs uma autêntica diversidade de boas notas. Aquele gajo é descomprometido com tudo, desde sempre. Conheci-o há alguns anos, algures numa adolescência que ganha um certo tom de vedetismo. As calças daquela marca, os ténis da outra, ainda os pólos com fartura. E ele nada. Desmarcava-se disso com uma pinta sem igual. Talvez, porque nessa altura não me agradavam os pólos e as camisas aos quadrados, demo-nos bem. Embora, as tenha vestido algumas vezes e de feitio torcido, tão contrariado. E devo ter sido beto. Ou arraçado disso. Mas não importava. Como não importa. Valia a cabeça e a construção das conversas. A música que já era tão presente. Ouvíamos o som da altura, mas que já era passado. Apresentou-me um sem número de nomes que ainda hoje trago na minha lista de preferências. Volto sempre a ouvi-las, em todas as vezes que não me esqueço. Reencontro-me com as suas sugestões musicais bem mais amiúde do que com ele. Uma pena descomunal. Vive entre Cascais e Londres. Toca como só um gajo como ele consegue. Tem composições incríveis. Algumas não saem de casa. Este gajo ainda vai ser reconhecido, porque o melhor já é. Sem qualquer adorno dispensável. Continua a ser aquele gajo descomprometido. Fiel. Dispensa, ainda hoje, as camisas engomadas, as calças marcadas e os ténis. Há gajos do caraças.

2.3.15

Sem favores à mistura, é um ponto de vista.

Estranho, nunca me lembro de como é que as coisas aconteceram. Nem é tão relevante quanto fazem parecer. Interessa aos envolvidos. Acho que faltou a luz e decidiram que era melhor colocar um ponto final – não gosto desta expressão, prefiro outras, como terminar a relação ou seguir caminho, mas apetece-me ser fora da caixa - do que investir no conserto do que andava manco. Com um lustre daquele tamanho no centro daquela sala avantajada, era a desculpa perfeita para o entretenimento e não mais se falar no assunto. Continuavam alheios e felizes da porta para fora. E da porta para dentro. Não discutiam e ocupavam-se da troca das muitas luzes que pendem daquele candelabro. Caro, mas uma oferta de casamento. Só trocavam sorrisos falsos e vontades disfarçadas. Viveram felizes num sempre que não foi além dos três anos. Como se o tempo, por si só, formasse as pessoas. Tinham luzinhas e fotografias por toda a casa. Só lhes faltava a piscina que ficou na casa dos pais. Trocaram e trouxeram o carro de alta cilindrada e o Mini para o dia-a-dia. Ou vivo enganado, ou isto não importa nada. Não tem relevância e não revela nada. Vozes de burro não chegam ao céu. Expressão que não combina com a leveza e luxúria de uma vida cheia de torneados bons. Como não interessa as razões, apenas as reacções. Por isso, incomodam-me os dedos em riste, prontos para usar da verdade absoluta e apontar os erros. Calma, bons rapazes! Cautela, meninas de bem! Ele foi para um país onde a língua tem aroma. Ela ficou por um Portugal que tem memória e grita a dor. Olhos que não vêem, coração que não sente. Guardem as bárbaras verdades. E vivam as vossas vidas, com ou sem novidades. Olhem para a vossa sala. Fechem as cortinas e deixem os outros passar. Estranho. Agora mesmo, enquanto pensava e escrevia, fiquei com a sensação – inócua, por certo – de que por me preocupar com factos reais, não sei contar a história como ela é. Mas tinham o lustre. E as fotografias, as luzinhas e os carros. O chão de madeira e as varandas largas. Tinham amor. Foram sinceros. Guardaram o mais importante e seguiram separados. O resto é ironia da minha parte. Amigos, não se apoquentem. Ter um lustre daquelas dimensões na vossa sala era tão sui generis. Como vocês. Fiéis à vossa razão.

26.2.15

Ainda sem data para arrancar.

As borboletas no estômago já não fazem sentido. Ou outro bicho bamboleante qualquer. Ou noutra zona tão ou mais digna para receber a ansiedade. Estúpido é como me sinto enquanto escrevo estas palavras. Ouvi-las é bom, mas sinto o contrário. É o tempo da contradição. Quem espera, desespera e é tão certo. Semana de expectativas. De respostas que tardam. E, em sorte, respostas que mudam vidas. Ainda assim, tenho cautela quando me falam em vidas alterar. Não acredito logo. Nem a seguir. Volto à teoria das borboletas em desuso e em como aquelas palavras me encheram a cabeça. Quando as ouvi, há dias, da boca de uma pessoa que admiro e tem gana no trabalho que faz e na vida que escolheu. A ansiedade não consome sem medo. Antes, com medida e peso. Como na aldeia, de medidas certas, o feijão seco do vizinho e o grão da dona Ermelinda Sarapintada. Ouvi, também há uns dias, um senhor de mãos gastas a falar-me da Sarapintada. Vendedora de aldeia. Carregava sempre os pesos e as medidas. Valente de balança às costas. E volto à conversa anterior. Dizia-me, com segurança nas palavras e convicção nos sentimentos, que não se lembra da ansiedade no corpo. Talvez, nunca tenha conhecido as borboletas interiores. Mas tem receios. Sabe, contudo, amedrontá-los. Vive bem com isso. E, pensando bem, não escolheria as borboletas. Toldado pelas formas tão bem definidas, ficar-me-ia por uma volta na Vespa da cor do chocolate.

19.2.15

A sociedade é tramada.

Não nos vemos todos os dias, não falamos sempre. Vemo-nos às vezes, quando dá ou quando decidimos que já passou muito tempo. Mas voltamos sempre iguais. Em grande parte do que deixamos na última vez em que nos encontramos. E, novamente frente-a-frente, anunciamos as boas-novas. As chatices também. Ele, depois de algumas imperiais, falou sem parar - Se te perguntar, prometes responder e guardar? Se me decidir, ganhando coragem, a perguntar a tua opinião, vais fazê-lo sinceramente e guardar, apenas e só, para ti? - Talvez, não fossem exactamente estas as palavras que ele usou, mas foi esta a conversa e lembro-me dela assim. Ressalva garantida, sei que lhe respondi que sim. Que não é preciso pedir silêncio. Que vou ouvir, pensar e responder como sempre faço. De forma viva e verdadeira. Sapiente, se os ligamentos do bom amigo mo permitirem. Se não estiver saturado. Mas fá-lo-ei, sim. Manda vir. – Perder-me da razão e embeiçar-me por uma espécie de caça talentos, é fora do circuito? – Depende da postura de quem caça e do que caça, pensei. – É a mais atestada e testada que já conheci, continuou. – Não me ri, mas sorri. É, se calhar, a mais sincera que já conheceste. A nossa conversa avançou e não merece mais pormenores aqui. Garanti-lhe que só é um problema se nos enche o pensamento. Outra imperial. Deixa-te disso. Segue em frente que o circuito, as suas definições e o próprio conceito de sociedade já não são os mesmos. Perde a vergonha e esquece a pressão. A forma de viver é a liberdade do outro. Esquece a quilometragem. E sai pela primeira vez. No final, rimo-nos. Como sempre.

16.2.15

Casamento para tirar proveito.

Como em tudo na vida, a verdade existe sempre, mas não deixa de vestir-se de uma máscara, tantas vezes, bem mais ardilosa e rebuscada do que o mote, a verdade. E não é diferente num bar de Portugal que imita os pubs antigos. Os verdadeiros, os britânicos. Com o comércio de bebidas alcoólicas sem fim. Encontramo-nos lá. Fui com companhia. Estavam, entre outros tantos, duas pessoas no balcão, que nos esperavam, como haviam passado a indicação. Duas mulheres portuguesas, no espírito da comunidade estrangeira que dinamizava o espaço. Que barafunda pegada. Uma confusão desmedida. Menina liberal de escola interna, de faculdade livre e educação apertada. Solteira por convicção na rua. Solteira por falta de oferta real, no conforto da intimidade. Conta sem maldade. Com um copo na mão, depois outro. É amor num dia, é carnaval no outro. Era a vida dois dias, o carnaval três. Má sorte, lembrava ela enquanto se lamentava, pois estragaram-lhe o ano com a união das datas. É mais fácil investir na ilusão. Soltou um foda-se e seguiu – Logo hoje que a minha mãe me lembrou que uma mulher e jornalista nunca anda mal-amanhada e desprevenida. Caso-me com um secador de cabelo e uma máscara para as pontas. - Vai presa por bigamia.

20.1.15

Definitiva alegação.

Missiva pertinente e trafulha, esta de gostar sem reticências e missões infrutíferas. Cada feitio com o seu jeito. Sem drama digno das tábuas de um teatro. Sem divas de cartaz e cavalheiros de nome destacado. Mulheres reais, homens naturais. Fica sereno, pássaro de livre e fiel querer. Crê nas palavras e nos braços firmes. É ser alma inteira, comichão nas cordas vocais, paixão na pele e amor no coração. Chega, mansa e singela, a ligação que há em nós. Cria laços até deles não nos conseguirmos desenvencilhar. Como se não existisse eira nem beira. Como se fosse um conhecido adágio ecléctico. Como quando a verdade exige uma posição. Um caminho distante. Como quando festejar uma data qualquer não é uma vontade. Assim, nada importa. Vive o ano inteiro, guarda a surpresa no quotidiano. Chamar-lhe pelo nome, desvendar-lhe pelo olhar. É a vizinha presença, lado a lado na companhia. Avança cada passo, não deixa de recuar quando é o caso. Passam anos. Não se fazem contas. Não entende a ideia de concentrar. De num dia tudo partilhar. Corpo que não precisa de sossego. Entendes isso, génio mais lindo. Um dia feliz, é o que desejo. Seja um dia vazio, seja o dia da comemoração do primeiro dia da relação. Aplausos. E seguem caminho num harmonioso, contudo, distinto, acorde.

5.1.15

Prioridades biológicas de ano novo.

Diz a sabida canção e não deixa mentir, toca o telefone a toda a hora. Era uma procura que vem de fora. Na rua a direito, para a frente é o caminho. Fogem as chuvas sem parar. Fica o frio que não perdoa. Intervalo para a conversa de situação. Encontros do novo ano. Dizem as línguas afiadas de gosto pela palavra que não sossega, que a comunhão entre os corpos vive da atracção, por demais, efectiva e sincera. Há gostos, assim como, amores que vêm por bem. Bravos trajectos e arranjinhos que duram um cento. Contou-me um conhecido que vive de vazios afectos. Muitos e diversificados. Ora procura por satisfação do ego mole, ora não escolhe, aproveita a surpresa. Contou-me esse conhecido que não tem idade para se dedicar. Porventura, aconchegar com tempo ou casar. Não sabe contrariar, somente descobrir e aproveitar. Escolhe, avançou, o carro para a conquista. Chegou o ponto, vai trocar. De companhia que, por ora, azedou. De carro que, neste horário, é sala de estar e dele cansou. Tu sabes bem, disse-me ele, uma mulher escolhe, somente, conforme a oferta. Não sei, retorqui. Não sei mesmo. Desavindo devo andar com essa madeixa do género feminino. Feliz, a mente. Voltou a verdade da cantiga, toca o telefone a toda a hora. Toca, toca. Aproveitei, a conversa terminei. Segui caminho, na mesma rua a direito. Depois da chamada, decidi parar. Novo ano, velhos hábitos. Sentei-me e escrevi. A ver, da esplanada fria, gente a passar.

29.12.14

Desculpem a minha pantomima invertida.

Em tempo algum, tu sabes bem, existirão coisas sumárias, sem braços acesos. É um desassossego entre os dedos, que vais conhecendo sorrindo. As mãos cheiram a café. Tal e qual, assim mesmo. Como se, por desaire da sanidade, tivesse feito de uma taça um poço com fundo. Tu sabes bem. Um deslavado líquido enchendo. As mãos, sempre que as levava ao nariz, cheiravam a café. E repetia. Qual ironia. E voltava. A conversa, a descrição do cheiro e o levar das mãos ao nariz. Numa tentativa repetida de, jamais, se esquecer do cheiro. Como se aquela taça fosse o todo. Mergulhava as mãos. Sentia a temperatura morna e e brincava. E voltavam as palavras. O cheiro a café, em nada mudo. Lembro-me deste impensável e rebuscado momento depois de ouvir contar o amor. Como quando uma pessoa se divide e espera a outro. Sente, amiúde, a pulsação da outra. Tu sabes bem. Não tem, por certo, interesse. Para o outro, desligado comparsa. Nem para quem possa ver ou ler. Mas os sentidos importam. Valorizam e dão forma. Mesmo que a mensagem morra numa chávena de café, numas mãos que não sossegam ou num coração que ama sem desarmar. Tu sabes bem. Coragem. Era o que tu querias. Um dia.

11.12.14

Em diferido. #24

Derramar luz - A discrição é um facto que se recusa a deixar partir. É a velocidade de um feitio que ganha contornos de mãos que jogam com a vergonha de expor mais do que merece importância. A vergonha, palavra que desvenda sensações e incoerências que dão voltas num monociclo que pensa como gente e obriga a condução de acrobata gingão. Mas ultrapassa a vergonha. É um feitio que está inscrito algures. E atrai esse contexto em que não é defeito, senão feitio. O equilíbrio de um físico que se sustenta nuns saltos altos ou nuns rasos que nada roubam, na elegância de um corpo que não procura revelação, antes convicção. É igual ao que sente. As palavras nunca chegam ao fim, nem deseja fechar os olhos. Gosta de ter tempo e viver numa conversa que tem um sem fim de segundos. O afecto que partilha, sem obrigação, assenta-lhe na essência que impõe em cada relação. Efectiva ou se situação. A discrição, conheço-a de outros tempos. Agora, é infinita a vontade de que a partilha com a proprietária desta discrição e conversa que me prende a atenção, jamais chegue ao fim. Escrevi, acredita, sem receio de me esquecer. Escrevi, podes acreditar, para voltar sempre. E acrescentar. Mesmo que não seja hoje o lugar.

4.12.14

Individualidade consciente.

Prevalece a privacidade, a felicidade de ter um antes e um agora. Fumas um cigarro, mesmo que nunca tenhas adquirido o hábito. É voltar às festas de fim-de-semana que terminavam tarde. Tão tarde, roubávamos horas e mais horas. Sem que ninguém, senão os convidados se decidissem entrar daquele portão grande para dentro. A piscina, a casa no centro, o longo jardim que, sem grande esforço, perdíamos de vista. A sala de convívio lá no fundo. A música típica do tempo em que inventávamos que fumávamos. Um cigarro e um sem número de grades de cervejas, em igual número bebidas várias. Rapazes e raparigas que marcaram. Estórias de leves amores e de escondidas paixões. Num lugar distante. Tal como o tempo que é agora longínquo. Não tanto quanto isso, mas mais na medida em que nos sentamos e contamos os anos. Não foi há tanto tempo assim. Ela não estava lá. Hoje partilhamos factos aos pedaços. Eu não estava noutras ocasiões dela. É o tempo certo. Para começar, ao invés, de recomeçar. Tantas coisas novas para contar.

19.11.14

Critério conhecido.

Não deve ser mentira quando da infância, as palavras ganham um caminho e um trajecto particular, e logo se fazem verdades de tanto nos servirem. Inclusive, numa postura tremendamente traiçoeira e temida. Desde pequeno que os mais velhos e conservadores, por certo, uma ala mais altiva da minha família, faziam por lembrar. Numa luta desigual para com o esquecimento, que abrir a boca, vociferando tudo quanto nos apoquentasse no instante, depressa passava para os escombros da má educação. Rapidamente se deixa a carruagem da frontalidade e da verdade para desmontar o outro. Melindrar a postura e, em grave instância, a dignidade do outro. A outra pessoa. Porque a minha percepção pode estar e deve estar moldada pelas minhas vivências, assim, facilmente ocorre serem diferentes das outras pessoas. Não pouca gente me vem falando do mesmo ensinamento. Questiono-me. É uma verdade explicita ou um mentira que merece atenção. Alguém teve a sapiência de a escrever algures. Num livro. Num qualquer ensaio. Por deles nos servirmos quando queremos a conformidade da ideia com a verdade. Mesmo que nos acusem de ter um ar fino, havemos de nos preocupar, enquanto houver discernimento, com males maiores.

10.11.14

Lixam-nos os filmes e as bengalas.

Deram, algures na história, um papel malfadado ao amor. Por força, avanço eu, do desamor que lhe segue. Ainda que nunca se lhe conheça a definição. Do amor que foge ao ritmo da dormência e do desamor que rebola no sentido de um frenético quintal de urtigas. Ou as múltiplas acções. Tão trôpegas e disfuncionais. Se pararmos para pensar, o amor pesa. Felizes, os que amam sem razão. Vivem a emoção e o humor da relação. Não é uma escolha, é a coerência da necessidade de gostar e viver. Falar do amor é custoso. Tira a alma e deixa nódoas. O desamor lembra-nos que a outra pessoa, sem dar por isso, faz falta. Como me contava um amigo meu, que tem a mania de andar pela manhã. Na melancolia da madrugada. Partilha esse prazer com outro. Ouvir música ao vivo. Foi esse o defeito. Terminou uma relação de longos meses há menos de um. Qual palmadinha nas costas, vingou-lhe o discurso da infinita boa disposição e a métrica de quem não se melindrou. Mas, e contra mim falo, macho ferido define estratégias, mas nunca se guarda preparado para a queda da bengala. Ele terminou, em desabafo, assumindo que lhe doía a ausência dela. Também nas noites em que, juntos e dinâmicos, sentiam a música. E ainda partilhavam mais do que o corpo. Respeito, é o que se pede. Homem que não grita, não é, inevitavelmente, o mau da fita.

6.11.14

Secou a humanidade.

Julgo ter visto o Pai Natal. O tempo não tem pausa. E, permitam-me a infantil necessidade de me lembrar e, por força, fazer referência ao excelso trava-línguas – O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem - Ano de velhos relhos. Relhos ligados de emoções, desligadas as famílias, que se distanciam. A facilidade de depositar algures, na promessa de regressar em breve. Na boca a conversa de que não se ajeitam as condições de os receber. Esta manhã tive oportunidade de estar algum tempo num hospital. É público, mas podia tratar-se de um outro regime. E perde-se o juízo na soma do homem com o abandono. Ludibriam-se vidas e ocupações para justificar ausências e severas acções. Quem persiste, resiste. Quem ama, cuida e rega sob e sobre tudo e todos. Aflição é pensar no que foste, em quem és. Para onde vais. Sufocam-se as vozes daqueles velhos de cama em cama. Voltam sempre mas nem ao telefone lhes ouvem as vozes. Não resisto pensar, dá Deus nozes a quem não tem dentes. Desabafo de um relho homem. Imitava um passeio num corredor de pouca luz. Na cadeira de rodas seguia de sorriso agitado. As barbas compridas e brancas. O porte típico de quem tem carnes. É o Pai Natal. Foi, no exacto instante em que vi, o que me assaltou a ideia. Suportei as minhas desconfianças depois de o ouvir contar vidas. Julgo ter visto o Pai Natal. Num corredor de hospital, com uma bata clara e um frasco de soro ao lado. Quando nem o Pai Natal tem quem o sufoque de mimos e companhia, mal vai o mundo. Um mundo que é uma caixa onde se esconde o pior no fundo.

22.10.14

Aflição infinita.

Surge uma lágrima antes do discurso. Cai, de seguida, outra. Depois outra. Até que os olhos se desligam e perdem o controlo. Nunca mais interessa, assim se inicie a libertação que não tem fim. É um confronto interno, imagino, antes das palavras lhe saírem boca fora. Lá dentro, onde só ela conhece os meandros onde as guarda, batem-lhe, enquanto as escolhe, no fundo. O coração é o órgão de múltiplas situações. Mas é nele que se sentem as emoções. Como se a amargura de nada combater, lhe ferisse de morte. Como se a dor fosse tão física. Que é, quando se sente é porque é verídico. O coração está ali, mas quer, no desespero da incapacidade de manter a calma, sair-lhe do peito. A voz levanta-se quando mostram outro caminho. Errático, por sinal. Repele o confronto. A ironia de persistir por medo. O descrédito de quem havia de a proteger. Desliga a coerência. Persiste num jogo que não entende e que, neste instante, não tem fim à vista. É uma obrigação que come o corpo até ao fim da carne. É uma infelicidade que não fecha pela guerra de manter a felicidade de outro corpo. É, por fim, perguntar o que é que quem a ouve acha que deve fazer. É, depois disso, um silêncio. A ausência de palavras por não existirem. É, sem sombra de dúvida, estar numa luta que é altamente acerba.